CAPÍTULO CINCO — O Silêncio Entre Dois Beijos
A noite havia se deitado sobre a cidade com um cobertor de estrelas tímidas. A livraria estava fechada, mas as luzes ainda acesas. Helena ajeitava algumas pilhas de livros, distraída, quando a campainha soou. Ela franziu o cenho — ninguém aparecia tão tarde.
Ao abrir a porta, encontrou André. Cabelos um pouco bagunçados, expressão hesitante. O frio fazia vapor sair de sua respiração, e ele segurava o caderno contra o peito como um escudo.
— Desculpa vir assim, tão tarde...
— Aconteceu algo? — ela perguntou, abrindo mais a porta para que ele entrasse.
— Sim. Aconteceu que... eu estava em casa, tentando dormir, tentando escrever. Mas só pensava em você.
Helena fechou a porta devagar, como se selasse o mundo lá fora. O silêncio se instalou, mas era diferente desta vez. Era tenso. Cheio.
— André...
— Espera — disse ele, com a voz baixa. — Eu sei que você não gosta de pressa. Eu respeito isso. Mas preciso que saiba que cada minuto que passo com você me parece o capítulo mais bonito que já vivi. E... se eu não disser isso agora, vou passar a noite toda me perguntando se devia.
Ela ficou parada, os olhos buscando os dele. Havia medo, sim. Mas também havia algo que não podia mais negar: ele a via. Não como mulher ferida, nem como figura forte e solitária. Ele a via inteira.
— Eu também tenho pensado em você — disse ela, com a voz quase sussurrada. — Só que meu coração... tem cicatrizes. E às vezes elas doem no escuro.
André deu um passo à frente.
— Eu não quero curar suas feridas com promessas. Quero apenas estar aqui, enquanto elas cicatrizam. Se você me permitir.
O ar parecia suspenso. O relógio antigo da parede fez um tic-tac longo, e então, ela o puxou suavemente pela gola do casaco.
Foi um beijo sem roteiro. Sem planos. Um beijo que dizia mais que qualquer capítulo. Demorou segundos e uma eternidade. E quando se afastaram, os olhos de ambos brilhavam com algo novo.
— Então, isso é um começo? — ele perguntou, com um meio sorriso.
— Talvez — respondeu Helena. — Mas é um começo bonito.
Lá fora, a cidade dormia. Lá dentro, dois corações despertavam.
CAPÍTULO SEIS — Vozes da Cidade
A cidade pequena sempre teve olhos grandes. E bocas ainda maiores. Depois do beijo, Helena e André tentaram manter a leveza do cotidiano, mas os olhares começaram a pesar.
Na padaria, cochichos. Na banca de jornal, perguntas enviesadas. Na livraria, clientes curiosos demais.
— Estão dizendo por aí que o jornalista famoso anda dormindo na casa da livreira... — comentou Dona Zuleica, entre uma compra e outra.
Helena manteve a calma. Sorriu. Mas por dentro, sentia-se cercada. E André percebia.
— Podemos sumir por uns dias, se quiser — sugeriu ele, enquanto preparava o café.
— E dar razão aos boatos? Não. Prefiro enfrentá-los de cabeça erguida.
Mas nem tudo vinha de fora.
Naquela mesma tarde, uma carta anônima foi deixada na porta da livraria. Um recorte antigo do jornal onde André denunciava políticos locais... seguido de uma ameaça.
“Não pense que estamos longe. Corações distraídos sangram mais fácil.”
Ele leu a carta, cerrou os punhos.
— Ainda me querem calado...
Helena, assustada, segurou sua mão.
— Você não está mais sozinho, André.
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CAPÍTULO SETE — Entre as Sombras
André decidiu procurar uma delegacia. Helena foi junto. A ameaça era real. E não era só sobre ele. Ela também estava em risco.
— O passado sempre cobra caro — ele disse, sentado ao lado dela na recepção da delegacia.
— Mas desta vez, você tem alguém que paga com você — respondeu Helena, firme.
Naquela noite, ele dormiu na livraria. Não por medo, mas por decisão.
Aconchegado entre os livros, viu Helena trazer cobertores, chá e um sorriso.
— Está tudo dando errado — disse ele.
— Não. Está apenas ficando real. O amor também é isso: não apenas flores, mas espinhos que decidimos encarar juntos.
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CAPÍTULO OITO — Um Novo Capítulo
Aos poucos, os boatos cessaram. A ameaça parecia ter se esvaído. Mas o que mais surpreendeu Helena foi quando André apareceu na livraria com uma proposta:
— Quero escrever meu próximo livro aqui. Contar essa história... a nossa. Mas como ficção. Você me ajuda?
Ela segurou o manuscrito com mãos trêmulas.
— Eu não sou escritora.
— É sim. Só não escreveu ainda. Mas você já narra com o olhar, com o jeito de viver.
Começaram a escrever juntos, noites regadas a chá e confidências.
E no meio das palavras... mais beijos. Mais promessas sem pressa.
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CAPÍTULO NOVE — A Escolha
O livro tomou forma. E a editora de André ficou eufórica.
— Precisamos lançar em São Paulo. Jantar com jornalistas. Televisão, Helena!
Mas ela hesitou.
— Isso é seu. Não sou feita de luzes e câmeras.
André, com ternura, respondeu:
— Isso é nosso. Mas se você quiser, posso ir e voltar. Ou posso ficar. Escolho você. Sempre.
Helena respirou fundo.
— Vai. E brilha. Eu estarei aqui, com a próxima xícara de chá te esperando. E talvez... com outro capítulo começado.
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CAPÍTULO DEZ — Cartas em Voz Alta
O lançamento foi um sucesso. Mas mais bonito que qualquer evento foi a carta que André enviou a Helena naquela semana:
“Helena, amor é aquilo que sobrevive aos ruídos do mundo. É o que cresce mesmo em silêncio. O nosso começou com um olhar, floresceu em páginas e hoje mora em mim — com todas as palavras que você me ensinou a sentir. Estou voltando. Mas mesmo longe, nunca saí de casa. Porque meu lar... é você.”
Helena fechou a carta com lágrimas nos olhos e um sorriso de quem, enfim, acreditava no amor de novo.
Epílogo — Entre Linhas e Promessas
Dois anos depois.
A livraria “Entre Linhas” agora tinha uma nova ala: aconchegante, repleta de flores, poltronas macias e uma estante inteira dedicada ao livro "Quando Helena Aconteceu", escrito a quatro mãos por André Figueiredo e Helena Duarte.
Na mesa central, uma pequena plaquinha dizia:
“Aqui começou uma história de verdade. De silêncio, de coragem e de amor.”
Helena lia uma nova remessa de manuscritos, enquanto uma garotinha de cabelos castanhos e olhos atentos desenhava ao seu lado.
— Mamãe, o papai vai chegar pra leitura hoje? — perguntou a menina.
— Vai sim, meu amor. Ele nunca perde um final.
E como sempre, André chegou. Com flores nas mãos e sorrisos nos olhos.
— Prontas para mais uma tarde de histórias? — ele perguntou, olhando para as duas com ternura.
A livraria estava cheia. Alunos, turistas, leitores fiéis. Mas quando os olhos de André encontravam os de Helena, era como se o tempo voltasse a parar. Como naquela primeira vez, diante da prateleira de poesia.
Dessa vez, não havia mais dúvidas. Nem ruídos. Apenas amor — em voz alta, em papel impresso, e em cada gesto cotidiano.
Porque quando o amor é verdadeiro, ele resiste às páginas difíceis e floresce nos capítulos mais inesperados.
E assim, com novas linhas e corações tranquilos, eles seguiram escrevendo. Juntos. Para a vida inteira.