A cafeteria era discreta, afastada, perfeita para uma conversa que ninguém mais deveria ouvir. Henrique chegou antes. Sentou-se na mesa do canto, de costas para a vitrine, as mãos fechadas como se tentasse segurar a raiva.
Isabela entrou poucos minutos depois. Vestia-se como sempre: com elegância contida, sem esforço. Mas seus olhos… estavam cansados. Carregavam sombras que ele reconhecia — porque também moravam nos dele.
Sentou-se sem dizer uma palavra.
Silêncio.
Por alguns segundos, tudo o que se ouviu foi o som do café sendo servido, da colher tocando a porcelana.
— Ele é meu filho, não é? — Henrique perguntou, sem rodeios.
Isabela fechou os olhos. Assentiu.
— Sim.
Ele riu, amargo.
— E você ia me contar quando? No vestibular dele? Ou no dia do casamento?
— Não seja injusto.
— Injusto? Eu perdi cinco anos da vida do meu filho!
— E eu perdi você por culpa de uma mentira!
A voz dela subiu. O garçom lançou um olhar breve e depois voltou ao balcão. Henrique encarou-a com olhos duros.
— Que mentira?
Isabela respirou fundo, mantendo o controle.
— Eu te liguei. Liguei várias vezes. Mandei mensagem. Queria te contar… estava assustada, mas pronta. E então… recebi uma resposta sua. Fria. Dura. “Faz o que quiser com esse problema. Eu não tenho tempo pra isso.”
Henrique franziu o cenho, chocado.
— Eu nunca disse isso. Nunca recebi ligação nenhuma. Recebi uma mensagem sua, isso sim. Dizia que eu não fazia parte da sua vida, que era melhor seguir em frente, que você ia cuidar “sozinha” porque era isso que queria.
Os dois se encararam. Um silêncio frio caiu sobre a mesa.
Era como ver um espelho rachando no meio. Duas metades da mesma mentira.
— Alguém apagou nossas mensagens. — Isabela murmurou, atônita. — Alguém…
— ...alguém quis nos separar.
E então, ao mesmo tempo, os nomes vieram à tona.
— Meu pai. — disse Isabela, o rosto empalidecendo.
— Minha mãe. — respondeu Henrique, com a voz falha.
A revelação foi como um soco no estômago. Ambos sabiam que suas famílias tinham opiniões fortes. Mas isso?
— Eles se conheceram na época. Se aproximaram... disseram que estavam preocupados com a nossa “diferença de mundos”. — disse Isabela. — Agora tudo faz sentido.
— Minha mãe nunca confiou em você. Achava que você estava atrás do dinheiro. — disse Henrique, com nojo na voz. — Disse que “livrou-me de uma armadilha”. E eu acreditei.
— E o Maurício... — Isabela disse o nome com veneno. — Ele sempre se intrometia. Sempre aparecia. Foi ele quem me disse que você estava viajando e “não queria mais saber de mim”.
Henrique soltou uma risada seca.
— Ele me mostrou uma foto sua com outro homem… disse que você estava “muito bem acompanhada” enquanto eu sofria. Meu sócio. Meu melhor amigo.
— Ele tentou me beijar quando Gabriel tinha poucos meses. Disse que “nós dois merecíamos ser felizes”, já que você nos abandonou.
O silêncio agora era outro.
Denso.
Cheio de nojo, dor e a desoladora sensação de ter perdido tudo… por nada.
— Eles nos roubaram. — sussurrou Isabela. — Roubaram nossa história, nossa família.
Henrique passou as mãos pelo rosto. Os olhos estavam marejados, mas ele não chorava.
— E agora?
— Agora… você conhece seu filho. — ela disse, firme. — E ele vai conhecer o pai dele. Mesmo que demore, mesmo que leve tempo… Gabriel merece isso.
Henrique assentiu, lentamente.
— E nós?
Isabela o olhou com dor e ternura.
— Nós fomos feridos demais. Mas... talvez ainda dê pra reconstruir alguma coisa. Nem que seja dos escombros.
Mas antes que pudessem dizer mais alguma coisa, um som de notificação interrompeu a tensão. Henrique olhou para o celular.
Mensagem de Maurício:
“Então você descobriu. Finalmente. Mas cuidado, amigo... nem todo segredo é bom de ser desenterrado.”
Henrique encarou a tela por um longo tempo.
E soube.
A luta estava só começando.
Capítulo 9 – Pais de Sangue, Traidores de Coração.
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Capítulo 9 – Pais de Sangue, Traidores de Coração
ISABELA
A casa dos pais ainda era a mesma. O jardim bem cuidado, a fachada clara, o cheiro familiar da infância pairando no ar.
Mas Isabela não era mais a menina que cresceu ali.
Ela entrou sem bater. Seu pai, o ex professor reformado, sempre sorrindente e bem disposto, estava sentado na varanda, lendo o jornal. Levantou os olhos, surpreso.
— Filha… que bom ver você assim, de surpresa. Cadê o meu neto?
Ela não respondeu. Sentou-se à frente dele, a bolsa pousada no colo como escudo.
— Eu sei o que você fez.
O jornal escorregou pelas mãos dele.
— Do que está falando?
— Do Henrique. Do meu filho. De tudo o que você roubou de mim.
O silêncio caiu como uma pedra.
— Você e a mãe dele manipularam tudo. As mensagens. As chamadas. Vocês decidiram que minha vida ia ser melhor sem ele. Quem te deu esse direito?
— Eu estava protegendo você. — ele disse, com a calma calculada que sempre usava. — Ele era um risco. Um homem daquele mundo…
— Ele era o homem que eu amava. E é o pai do meu filho!
A voz dela subiu. Os olhos brilharam de raiva.
— Você sabia que eu estava grávida. Disse que me apoiava. Disse que me amava. E por trás disso tudo… você me separava dele.
— Você era jovem. Ingênua. Precisava de direção.
— E você roubou minha liberdade!
Ela levantou-se.
— Gabriel vai crescer sabendo da sua existência. Mas não ache que terá espaço na vida dele tão cedo. Você não é o avô que ele precisa. Porque um avô de verdade não mente, não manipula, não destrói famílias.
Ele tentou falar, mas Isabela já estava saindo.
E, pela primeira vez, não olhou para trás.
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HENRIQUE
A mansão dos Monteiro era fria, elegante, e sem alma — como sua mãe.
Ela o esperava na sala de estar, com um vinho caro e um sorriso falso.
— Henrique, querido… tão raro vir me visitar.
— Eu vim porque sei da verdade.
O sorriso apagou-se.
— A verdade?
— Que você e o pai de Isabela nos separaram. Que interceptaram mensagens. Apagaram ligações. Plantaram mentiras.
Ela não disse nada. Apenas o observava, como se o analisasse.
— Você destruiu a minha vida. E o que é pior… me afastou do meu filho.
— Eu fiz o que era melhor para você. Aquela garota não pertencia ao nosso mundo.
— E você não pertence mais ao meu. — ele disse, seco. — Não quero desculpas. Não quero explicações. E, acima de tudo, não quero você perto de Gabriel.
— Henrique, não seja t**o. Um neto...
— Não ouse chamá-lo assim. Você nunca será avó dele. Você roubou isso de si mesma.
Ela perdeu a postura, os olhos arregalados pela primeira vez em anos.
— Você é minha mãe. Mas agora, é só um nome na árvore genealógica. Nada mais.
Ele virou as costas e saiu.
E ao sair da mansão, o ar lhe pareceu mais leve. Pela primeira vez em anos, respirou sem peso no peito.
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Mais tarde, naquela noite, Henrique mandou uma mensagem para Isabela:
"Está feito. Agora somos só nós três. Sem mais mentiras."
E pela primeira vez, ela sorriu de verdade.
Capítulo 10 – Entre o Amor e a Mágoa
GABRIEL. HENRIQUE. ISABELA.
O sol da tarde entrava pela janela da sala ampla de Henrique, banhando o ambiente em tons dourados. Gabriel estava sentado no tapete, mexendo nos bonequinhos de futebol que Henrique havia comprado para ele — todos canhotos, como eles dois.
Isabela observava de pé, encostada na parede, os braços cruzados. Havia emoção nos olhos, mas também um certo temor. Estava feliz por ver os dois juntos, conectando-se com uma naturalidade impressionante. Mas o que viria depois?
Henrique olhava o filho como se estivesse vendo um milagre.
— Então… seu chute preferido é com o pé esquerdo?
Gabriel sorriu, orgulhoso.
— Igual ao seu, né? A mamãe sempre falou que era do papai que eu tinha puxado isso.
Henrique olhou para Isabela, e um sorriso de gratidão surgiu entre eles.
— E você gosta de suco de laranja?
— Argh! Nem um pouco! — Gabriel fez careta. — Me dá até arrepio. E sempre espirro muito na primavera.
Henrique riu, se inclinando para frente.
— Somos dois. Acho que somos mesmo parecidos demais, hein?
Gabriel ficou quieto por um momento, brincando com um boneco. Depois levantou os olhos para Isabela.
— Mãe… por que você não contou?
Silêncio.
Isabela engoliu seco.
— Eu queria proteger você, meu amor. Achei que era o certo. Eu tentei contar ao seu pai, mas… aconteceu muita coisa. Pessoas nos enganaram. Eu nunca quis esconder você.
Gabriel se levantou, devagar.
— Mas você escondeu.
Aquelas três palavras atravessaram Isabela como uma lâmina.
Ele se virou para Henrique.
— Posso ficar aqui hoje?
Henrique hesitou. Olhou para Isabela. Ela assentiu com dificuldade, tentando sorrir.
— Claro que pode, filho. O que você quiser.
Gabriel correu até o quarto, empolgado com a ideia de dormir ali.
E Isabela, com os olhos marejados, saiu em silêncio.
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ISABELA
Na sua casa, o silêncio era insuportável. Cada canto parecia ecoar com as risadas do filho. Cada brinquedo esquecido, uma punhalada.
Ela não o culpava. Mas doía. Doía tanto.
Sentada no sofá, abraçada a uma almofada, foi surpreendida pelo som da campainha.
Ao abrir a porta… sua mãe.
— Mãe?
A mulher, mais elegante do que lembrava, trazia um rosto sério. Culpado.
— Posso entrar?
Isabela abriu caminho. Não tinha forças para negar.
— Você sabia, não sabia? — perguntou, antes mesmo que a mãe se sentasse.
— Sim. — ela respondeu, sem rodeios. — Eu soube de tudo. O plano. As mensagens. Seu pai me contou depois de tudo feito. E eu… eu deixei acontecer.
— Por quê?
— Porque eu tive medo. Medo de você perder tudo o que conquistou. Medo de ver você sofrer. Eu achei que Henrique não ficaria. E que você ficaria sozinha.
Isabela levantou-se, a raiva explodindo junto com as lágrimas.
— E no fim… eu fiquei sozinha mesmo! Mas porque VOCÊS tiraram ele de mim! Do meu filho!
— Eu errei. E não há desculpa pra isso. Mas eu precisava que você soubesse. Porque agora… talvez seja tarde demais pra mim. Mas ainda pode não ser pra vocês.
Isabela olhou para ela, o coração partido de novo.
Ela nunca esperava que a última traição viria justamente de quem ela mais precisava naquele momento.
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NO DIA SEGUINTE
Henrique preparava panquecas com Gabriel, ambos cobertos de farinha. O riso era leve, cheio de cumplicidade.
— Pai, a mamãe tá triste?
Henrique parou, encarando o menino.
— Acho que sim. Ela ama muito você, sabe disso, né?
— Mas ela mentiu pra mim.
— Sim. Mas às vezes, mesmo as pessoas que amam, erram feio tentando acertar.
Gabriel ficou pensativo.
— Você acha que ela merece um pedido de desculpas… meu?
Henrique sorriu.
— Acho que ela só precisa de um abraço seu. E vai entender tudo.