18. Elena

1096 Words
O silêncio que veio depois da frase dele foi pior do que qualquer grito. "Então não fica." Eu senti meu peito apertar, como se eu tivesse pedido um abraço e recebido uma coleira. Eu não sabia o que aquela resposta significava. Se ele estava me oferecendo a presença dele como proteção... ou se estava me dizendo que eu não tinha permissão pra ter medo sozinha. Eu não consegui falar. Minha garganta fechou. Eu só olhei pra ele, tentando ler algum traço de humanidade naquele rosto duro. Dante se aproximou sem pressa. A luz baixa deixava sombras no maxilar dele, e eu odiei perceber como meu corpo reagia a isso. Como se, mesmo apavorada, alguma parte de mim estivesse alerta de um jeito que não era só sobrevivência. — Você tá tremendo — ele disse. — Eu vi você matar alguém — eu respondi, a voz fraca, como se eu precisasse repetir pra acreditar. Dante ficou parado a um passo de distância, os olhos fixos nos meus. — E você tá segura agora — ele disse. Eu soltei um riso curto, sem humor. — Isso não é segurança. Isso é... prisão. Um músculo no rosto dele se moveu. Quase um sorriso. Quase irritação. — Você acha que prisão tem lençol limpo e gelo no tornozelo? — ele perguntou. — Eu podia ter te deixado na boate com as cobras. A palavra cobras me fez lembrar dos olhares, do camarim, da inveja. Eu engoli em seco. — Eu não sei o que eu sou pra você. Dante demorou um pouco mais do que devia pra responder. — Ainda? — ele disse. A resposta me arrepiou inteira. Ele passou por mim, indo em direção ao corredor, e eu fiquei com a sensação de que, se eu não o seguisse, eu seria engolida pela casa. Pela grandiosidade. Pela certeza de que eu estava sozinha num lugar que não tinha nenhuma saída que eu pudesse usar. Eu fui atrás. Os passos dele eram firmes. Os meus, cuidadosos por causa do tornozelo e do medo. Nós subimos uma escada larga, silenciosa, e o andar de cima parecia ainda mais frio, como se fosse reservado só pra coisas que não deveriam ser vistas. Ele parou diante de uma porta dupla. — Entra — Dante disse. Eu entrei. O quarto era enorme. Minimalista. Uma cama grande demais, lençóis escuros, uma janela alta mostrando o jardim como um quadro noturno. Havia um sofá ao lado, uma poltrona, e tudo parecia pensado pra não ter excesso. Controle. Ordem. Domínio. Eu fiquei perto da porta, sem saber onde colocar meu corpo. — Esse é... o seu quarto? — perguntei. Dante tirou o relógio do pulso, colocou em cima de uma cômoda e me olhou como se a pergunta fosse óbvia. — É. Meu estômago revirou. — Eu vou dormir aqui? — Você disse que não quer ficar sozinha — ele respondeu. — Eu não disse que queria ficar com você. Dante se aproximou devagar, o olhar dele preso no meu rosto. Eu senti meu coração acelerar de novo, aquele pânico misturado com uma coisa pior: antecipação. — E mesmo assim você vai ficar — ele disse, baixo. Eu apertei os dedos na barra do vestido. — Você vai... me obrigar? O ar mudou. Dante ficou imóvel por um segundo. Os olhos dele ficaram mais escuros. Não com desejo. Com alguma coisa mais perigosa: decisão. — Eu não preciso te obrigar — ele respondeu, a voz muito controlada. — Eu só preciso te lembrar do que acontece quando você não está sob a minha proteção. Eu senti a garganta queimar. — Isso é ameaça. Dante inclinou a cabeça, como se estivesse considerando. — Isso é verdade. Eu respirei rápido demais, tentando não chorar. Ele me observou, como se medisse até onde eu aguentava. E então, inesperadamente, ele se afastou. Dante foi até uma gaveta, tirou uma camiseta preta e um short simples e colocou em cima da cama. — Troca — ele disse. — Você vai rasgar esse vestido se tentar dormir com ele. — Eu não tenho... — eu comecei. — Você não tem escolha — ele completou, sem olhar pra mim, e apontou com a cabeça pra uma porta lateral. — Banheiro. Eu engoli em seco e fui. O banheiro era do tamanho do meu antigo quarto. Mármore, espelho grande, luz perfeita. Eu fechei a porta e encostei as mãos na pia, tentando respirar. Eu tirei o vestido com cuidado, como se cada movimento fosse barulho demais. Olhei meu corpo no espelho e vi marcas pequenas do pole, a pele pálida, e os olhos… meus olhos pareciam mais velhos. Eu vesti a roupa que ele deixou. O tecido era macio, quente, e isso me fez sentir uma coisa ridícula: conforto. Eu odiei isso. Odiei que o conforto viesse dele. Quando eu saí, Dante estava de costas, tirando a arma da cintura e colocando numa gaveta alta. O gesto foi deliberado, como se ele quisesse que eu visse. Eu congelei. Ele fechou a gaveta e virou o rosto. — Não vou dormir armado do seu lado — ele disse. — Pra você não achar que eu sou um animal. Eu não consegui responder, porque parte de mim achou que era tarde demais. Dante caminhou até mim e olhou pra baixo. — Senta na cama. Eu sentei, devagar. Ele se agachou de novo e tocou meu tornozelo com as pontas dos dedos, avaliando. Eu estremeci. — Não encosta — eu falei, antes de pensar. Dante ergueu os olhos, devagar. — Eu tô encostando — ele respondeu. — Pra cuidar. — Eu não pedi. — Você precisa — ele disse, simples. Ele pegou um frasco de pomada que eu nem tinha visto, colocou um pouco nos dedos e, antes de passar, parou. — Você vai deixar? — ele perguntou. A pergunta me pegou desprevenida. Dante Valentini perguntando. Eu engoli em seco, sentindo o nó apertar. — Vai doer? — Um pouco — ele respondeu. — Mas alivia. Eu hesitei, e ele ficou parado, esperando. Isso me irritou e me confundiu. — Tá — eu disse, quase num sussurro. Dante passou a pomada com movimentos firmes, sem carinho, mas com cuidado real. A pressão doeu e eu mordi o lábio pra não gemer de incômodo. Ele notou. — Não segura — ele disse. — Respira. Eu respirei. E naquele instante eu senti o absurdo inteiro: eu estava numa cama que não era minha, vestindo roupas dele, com o homem que matou alguém horas antes tocando meu tornozelo como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo. Meu estômago embrulhou.
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