37. Elena

1305 Words
Eu subi pro quarto com o corpo pesado de cansaço e a cabeça leve de uma calma estranha que eu não confiava. A casa estava mais silenciosa agora, como se também tivesse decidido dormir. O corredor parecia comprido demais, as luzes baixas demais, e cada passo meu no tapete macio parecia errado, como se eu estivesse pisando num lugar que não era feito pra mim. Dante foi na frente sem dizer nada. Eu ia atrás, com o coração batendo num ritmo que não combinava com sono. Quando entramos no quarto, ele apontou com a cabeça para a cama. — Deita. Eu parei no meio do caminho, encarando o colchão enorme como se fosse uma sentença. — Eu... vou dormir aqui mesmo? Dante me olhou como quem olha pra alguém perguntando se o céu é alto. — Vai. Eu engoli em seco. — E você? — Também. A palavra "também" me deu um choque pequeno. Um detalhe. Mas detalhes mudam tudo. Ele abriu uma gaveta e pegou alguma coisa, então se virou para o banheiro. — Eu vou tomar banho. E sumiu lá dentro, fechando a porta com um clique baixo. O som do chuveiro começou alguns segundos depois. A água batendo era constante, quase hipnótica. Eu fiquei parada no meio do quarto, sem saber o que fazer com as mãos. Eu podia ir pra cama. Podia ficar em pé até amanhecer. Podia tentar fugir, e rir da minha própria ideia, porque fugir pra onde? Pra rua? Pra boate? Pra dentro de alguém que me comprou e agora fingia que aquilo era "proteção"? Eu sentei na beira da cama devagar. O lençol estava frio, esticado, impecável demais. Eu puxei a barra do pijama novo e senti o tecido macio na pele. Aquilo era conforto. E conforto ali era perigoso, porque me fazia esquecer por alguns segundos do que eu devia lembrar. O chuveiro continuava. Eu olhei em volta e meus olhos bateram nas sacolas e caixas do closet. Roupas que eu não pedi. Uma vida que eu não escolhi. Um espaço que ele tinha aberto na casa dele como se pudesse abrir espaço dentro de mim também. Eu passei a mão no braço arranhado, distraída, e a ardência me lembrou: eu ainda estava aqui. Eu ainda era eu. A água desligou. O silêncio que veio depois pareceu prender minha respiração. A porta do banheiro abriu alguns minutos depois, e Dante saiu como se tivesse trazido a noite com ele. O cabelo estava úmido, bagunçado do jeito que não combinava com o homem que ele era lá fora. O cheiro veio antes do corpo: sabonete limpo, algo amadeirado, e um frescor quente que parecia grudar no ar. Era injusto ele cheirar assim, como se fosse só um homem que acabou de tomar banho, e não alguém que podia destruir uma cidade com uma ordem. Ele estava de calça de moletom escura e camiseta simples. Sem terno. Sem armadura. E mesmo assim ele parecia mais perigoso. Porque agora eu conseguia enxergar o homem por baixo do cargo. E isso era a pior coisa que podia acontecer comigo. Eu desviei o olhar rápido demais, tentando parecer indiferente. Dante percebeu. Claro que percebeu. Ele caminhou até a cômoda, pegou algo e veio na minha direção. Eu endureci. — Não precisa. — Precisa — ele respondeu, como sempre. Ele se agachou na minha frente, e aquela imagem me desorientou de novo. Dante Valentini de joelhos diante de mim não parecia real. Mas o olhar dele, fixo, duro, era real demais. Ele pegou meu pé com cuidado e colocou no colo dele como se aquilo fosse natural. Como se eu tivesse sido dele desde sempre. Meu estômago revirou. — Você faz isso como se eu não tivesse opinião — eu murmurei. Dante abriu a pomada e colocou um pouco nos dedos. — Você tem opinião — ele disse. — Eu só não obedeço. O tom era quase casual. Quase. Ele começou a passar a pomada, e a pressão foi firme. Doeu um pouco. Eu prendi o ar. — Respira — ele mandou, sem olhar. Eu respirei. O silêncio ficou cheio do som da nossa respiração e do toque dele no meu tornozelo. Eu odiei como meu corpo reagia ao cuidado dele com a mesma intensidade com que reagia à ameaça. O meu corpo era péssimo em distinguir. — Você tá quieta demais — Dante disse, sem levantar a cabeça. — Você prefere eu gritando? — eu retruquei. Um canto da boca dele se mexeu, quase um sorriso que não nasceu. — Eu prefiro você viva. Ele terminou e soltou meu pé devagar, como se não quisesse quebrar alguma coisa frágil. Depois se levantou, limpou os dedos com uma toalha e ficou parado, me olhando. Eu senti o peso da atenção dele como uma mão no meu pescoço. — Vai dormir — ele disse. Eu engoli em seco. — E você vai... ficar na cama? Dante caminhou até o interruptor e apagou uma das luzes, deixando só um abajur aceso, fraco, dourado. — Vou. A forma simples como ele disse foi quase pior do que qualquer ameaça. Eu me arrastei para o centro da cama e deitei de lado, virada pro canto, como se isso criasse distância suficiente pra eu respirar. O lençol roçou meu rosto e eu fechei os olhos por um segundo, tentando desligar. A cama afundou do outro lado quando ele deitou. O colchão se ajustou ao peso dele e meu corpo reagiu na mesma hora, tenso. Eu senti a proximidade como calor, mesmo sem toque. O cheiro dele ficou mais forte, limpo e masculino e irritantemente bom. Era como se ele tivesse lavado o corpo e deixado o perigo. Eu fiquei imóvel, esperando alguma coisa acontecer. Nada aconteceu. Por alguns segundos, só houve o silêncio. Então a voz dele veio baixa, atrás de mim. — Você tá com medo? Eu não abri os olhos. — Sim. Um segundo. — De mim? Eu senti a pergunta atravessar a pele. — De você... e de mim — eu respondi, porque a verdade era essa. Eu estava com medo do que eu sentia quando ele chegava perto. Dante não falou nada de imediato. Eu ouvi o som da respiração dele mudando, como se ele tivesse pensado em dizer alguma coisa e decidido não. A cama mexeu levemente. Ele virou de lado, e eu senti que agora ele estava mais perto. Ainda sem tocar. Mas o ar entre nós ficou menor. — Elena — ele chamou. Meu nome na boca dele parecia sempre uma corda puxando. — O quê? — Eu não vou tocar em você — ele disse, e a frase veio com uma firmeza estranha, quase como promessa. — Eu preciso dormir. Eu soltei o ar que eu nem tinha percebido que estava segurando. — Você... precisa? Dante soltou um som baixo, quase um riso cansado. — Sim. Eu preciso. E eu preciso que você pare de ficar alerta como se eu fosse atacar. Eu engoli em seco. — Você entende por que eu fico. Dante ficou em silêncio por um instante. — Entendo — ele disse. — E é por isso que eu tô aqui. Eu virei um pouco o rosto no travesseiro, só o suficiente pra vê-lo pela lateral. Ele estava deitado de lado, o braço sob a cabeça, os olhos no teto. Parecia... exausto. Não um homem cansado de trabalhar. Um homem cansado de segurar a própria natureza. — Você não vai pra sua "poltrona de controle" hoje? — eu provoquei, tentando recuperar algum poder. Dante virou o rosto devagar e me encarou no escuro. — Quer que eu vá? Eu abri a boca e fechei de novo. O meu orgulho queria dizer sim. O meu medo queria dizer sim. Mas havia outra coisa, pequena, vergonhosa, que queria dizer não. Eu não respondi. Dante pareceu entender mesmo assim.
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