36. Elena

1417 Words
A sala de jantar parecia um cenário montado pra impressionar alguém que nunca se impressiona. Mesa grande demais pra duas pessoas. Pratos impecáveis. Talheres alinhados como se tivessem sido medidos com régua. A luz vinha de um lustre discreto, quente o suficiente pra suavizar o mármore e a madeira escura, mas não quente o bastante pra transformar aquilo em lar. Nada ali era "lar". Era domínio bem decorado. Eu sentei na cadeira que ele puxou com um gesto seco, e me obriguei a não agradecer. Eu não queria ser educada com a prisão. Eu não queria dar a ele a satisfação de me ver domesticada. A mulher de antes entrou com um carrinho e começou a servir. Movimento eficiente, silencioso. Ela colocou o prato na minha frente com a mesma neutralidade com que colocaria na frente de um rei. — Obrigada — a palavra escapou antes de eu conseguir segurar. Eu me odiei por isso. A mulher apenas assentiu e saiu, fechando a porta com cuidado. Ficou só nós dois. O som do talher de Dante tocando o prato foi o primeiro barulho real no cômodo. Eu olhei a comida: massa fresca, molho escuro, cheiro de alho e ervas. Simples e perfeito, como se alguém tivesse entendido que luxo de verdade não precisa gritar. Dante começou a comer como se fosse uma noite normal. Como se ele não tivesse invadido um camarim horas antes. Como se eu não estivesse ali, num pijama novo, com o corpo ainda cheio de tensão. A calma dele era irritante. — Você... come assim sempre? — eu perguntei, porque o silêncio me dava nervoso. Dante ergueu os olhos, e eu vi uma sombra de humor, mínima, perigosa. — Com talher? — ele respondeu. Eu fechei a boca por um segundo, mas depois sorrir. — Não — eu retruquei. — Como se nada te afetasse. Dante mastigou devagar e engoliu, sem pressa. — Me afetar não significa que eu vou demonstrar — ele disse. Eu soltei um riso curto. — Engraçado. Na boate você demonstrou bastante. Os olhos dele escureceram por um segundo, mas ele não perdeu a postura. Só apoiou o cotovelo na mesa e me olhou como se eu fosse um problema interessante. Eu mexi a comida no prato, sem coragem de comer. Dante percebeu. — Come — ele disse. Eu levantei o olhar. — Não tô com fome. — Você tá exausta — ele corrigiu. — E exaustão faz você ficar burra. Meu rosto esquentou. — Eu não sou burra. Dante deu de ombros. — Não. Só tá fraca. E eu não gosto de você fraca. A frase era absurda, possessiva, irritante... e, ao mesmo tempo, tinha uma verdade torta ali: ele preferia eu inteira. Porque uma Elena inteira era mais difícil de quebrar. Mais difícil de usar contra ele. Mais difícil de perder. Eu peguei o garfo, com raiva, e comi a primeira garfada só pra contrariar. O sabor foi bom demais. Quente, reconfortante, quase humano. Eu comi de novo. E de novo. A cada garfada eu sentia a tensão diminuir um grau, como se meu corpo lembrasse que existe vida além de sobreviver. Dante bebeu um gole de água, relaxado de um jeito raro. As mangas arregaçadas, o colarinho aberto, o rosto menos "chefe" e mais... homem. Um homem perigoso, sim. Mas homem. Eu odiei perceber isso também. — Por que você tá tão tranquilo? — eu perguntei, porque eu precisava cutucar. Precisava achar a rachadura. Dante cortou um pedaço de carne com calma. — Porque você tá aqui — ele respondeu. Meu estômago apertou. — Isso devia me tranquilizar? Dante ergueu uma sobrancelha. — Devia te irritar menos. Eu soltei um riso sem humor. — Você é impossível. — Eu sei. Eu encarei ele por um segundo, e aquela troca simples, sem ameaça, sem grito, parecia... surreal. Eu estava jantando com um homem que mata sem hesitar e, mesmo assim, ali ele parecia quase... confortável. E isso era perigoso. Porque conforto faz a gente baixar guarda. Eu terminei metade do prato antes de perceber. Quando notei, era tarde. Eu já tinha relaxado um pouco os ombros. Já tinha parado de apertar os dedos no colo. Já tinha deixado a respiração encontrar um ritmo. Dante viu. Ele sempre via. — Melhor? — ele perguntou, e a voz dele veio mais baixa. Eu hesitei, mas assenti. — Um pouco. Ele inclinou a cabeça, satisfeito de um jeito discreto. — Ótimo. Eu engoli seco. — Você fala como se estivesse treinando um animal. Dante soltou um som que quase foi riso. — Não. Animal é fácil. Animal reage por instinto. Você... você reage por orgulho. Isso é pior. Eu senti a raiva voltar num fogo pequeno. — Eu reajo porque eu não quero ser esmagada. Dante me encarou por um segundo longo, e a expressão dele ficou séria. — Então não seja — ele disse, simples. — Mas aprende a escolher onde você luta. Eu fiquei quieta. A frase entrou como uma verdade que eu não queria admitir. O silêncio que veio depois não foi desconfortável. Foi... estranho. Um silêncio onde eu conseguia ouvir só os talheres, a respiração, e o mundo lá fora ficando distante. Dante apoiou o garfo no prato e recostou na cadeira, como se tivesse finalmente permitido a si mesmo um intervalo. — Amanhã eu vou resolver algumas coisas — ele disse. — "Resolver" significa matar alguém? — eu perguntei, sem pensar. Dante me olhou como se eu fosse inconveniente. — Não necessariamente. Eu cruzei os braços. — Ótimo. Evolução. Ele ignorou a ironia. — E você vai ficar aqui. Meu peito apertou. — Eu não tenho escolha mesmo, né? Dante inclinou o rosto. — Você tem escolhas pequenas — ele disse, repetindo aquela frase antiga. — Hoje, por exemplo, você escolheu comer. Eu engoli, irritada com a forma como ele transformava tudo em controle. — Que generoso. Dante não respondeu. Só me observou como se eu fosse um quebra-cabeça que ele gostava de montar. E então, do nada, ele soltou: — Minha cunhada tá louca pra te conhecer. Eu congelei com o garfo no ar. — Sua... o quê? Dante levou a água à boca com calma, como se tivesse acabado de comentar o tempo. — Bianca. O nome caiu como uma pedrada. Eu tinha ouvido esse nome. Na boate, em sussurros. "A esposa do Salvatore." A que não tinha medo. A que, diziam, era protegida como se fosse sagrada. — Por que ela quer me conhecer? — eu perguntei, e eu já senti o pânico querendo subir. Dante me olhou, e havia algo perigosamente parecido com... diversão. — Porque ela já sabe de você. — Claro que sabe — eu respondi, seca. — Todo mundo sabe de mim nessa merda. — Não do jeito que ela sabe — Dante disse, e os olhos dele brilharam um milímetro. — Ela sabe que eu matei um homem por sua causa. Meu sangue gelou. — Dante... — Relaxa — ele respondeu, calmo demais. — Ela não vai te morder. Eu ri sem humor. — Vocês todos falam isso como se morder fosse o pior que pode acontecer. Dante inclinou a cabeça, observando minha reação como se fosse a coisa mais interessante do jantar. — Bianca é diferente — ele disse. — Ela vai olhar pra você e vai ver o que eu vi. Meu estômago apertou. — E o que você viu? Dante não respondeu na hora. Pegou o guardanapo, limpou a boca com um gesto lento e, por um segundo, o "homem relaxado" sumiu e voltou o chefe. — Problema — ele disse. Eu arregalei os olhos. Dante se levantou e puxou minha cadeira um pouco pra trás, como se aquilo fosse um gesto automático de posse. — Termina — ele mandou, apontando pro prato. — Depois você vai dormir. Eu encarei ele. — Você foge quando a conversa fica real, né? Dante parou atrás de mim, inclinou o rosto até minha orelha, e a voz dele veio baixa o suficiente pra virar arrepios. — Eu não fujo, Elena. Ele respirou, e o calor dele bateu na minha pele. — Eu só escolho o momento de te dizer verdades. Eu senti a garganta secar. E eu soube, com uma clareza desconfortável, que conhecer Bianca não era "apresentação". Era mais um passo dentro do império deles. Mais um laço. Mais um jeito de eu perceber que, gostando ou não, eu já tinha entrado na família Valentini... e que sair disso não ia ser só abrir uma porta.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD