Eu parei perto da porta, apertando o paletó no peito, e ele me encarou por um segundo como se estivesse decidindo o que fazer comigo.
— Banho — Dante disse.
— Eu não sou criança — eu respondi, automática.
Dante inclinou a cabeça, impaciente.
— Então para de agir como se fosse.
A frase doeu porque tinha verdade. Ele apontou com a cabeça pro banheiro.
— Vai.
Eu abri a boca pra discutir... e fechei de novo. Porque discutir com Dante era dar energia pra um incêndio. E eu já tinha fogo demais dentro de mim.
Eu fui até o banheiro e parei na porta, olhando pra ele uma última vez.
— Você vai ficar aqui?
Dante não desviou o olhar.
— Eu vou ir com você.
Meu estômago apertou.
— Pra quê?
Ele caminhou até uma porta que eu não tinha notado direito antes - um closet lateral - e abriu.
Dentro, havia caixas. Sacolas. Cabides com plástico protetor. Uma fileira inteira, como se alguém tivesse despejado uma loja ali dentro.
Eu congelei.
— O que é isso? — minha voz saiu menor do que eu queria.
Dante não sorriu. Ele nunca "celebra". Ele só faz.
— Roupa — ele respondeu. — Pra você.
Eu senti uma indignação quente subir.
— Eu não pedi.
— Eu sei.
— Então por que...?
Dante se aproximou e tirou o paletó dos meus ombros com um gesto firme, sem me pedir permissão. Meu corpo reagiu com arrepio, como se a pele sentisse falta do escudo na mesma hora.
Ele jogou o paletó sobre a poltrona.
— Porque eu não vou te mandar pra boate de novo e não vou te deixar aqui, sem você ter o mínimo — ele disse.
Eu engoli em seco, dividida entre raiva e uma humilhação estranha. Era cuidado, mas era cuidado do tipo que não pergunta. Que decide.
— Isso é... exagero — eu murmurei.
Dante abriu uma das caixas e puxou uma peça com calma, como se estivesse mostrando uma evidência.
— Não é exagero. É prevenção.
Ele colocou a peça na cama.
Um pijama. Macio. Preto. Com uma camisa leve e um short confortável. Não era lingerie cara, não era provocação. Era... descanso. E isso me pegou de um jeito pior do que renda.
Porque era íntimo.
Porque era como se ele estivesse dizendo: você vai dormir aqui. Você vai ficar.
Ele abriu outra sacola e pendurou duas blusas no cabide, depois uma calça, depois um vestido simples, elegante, mas sem brilho de palco. Roupas que pareciam "vida real".
— Você mandou comprar isso hoje? — eu perguntei.
Dante respondeu sem olhar pra mim.
— Hoje de manhã.
Meu peito apertou.
Hoje de manhã... depois de me mandar embora. Depois de tentar manter distância. Ele já estava planejando me vestir. Me encaixar. Me manter por perto.
— Você planejou tudo — eu sussurrei, e havia acusação na minha voz.
Dante finalmente me olhou.
— Eu planejo porque eu preciso controlar — ele disse. — E eu preciso controlar porque se eu não controlar... eu destruo.
As palavras dele ficaram no ar, pesadas, como se ele tivesse acabado de admitir um crime.
Eu engoli em seco.
— Você tá me comprando? — eu perguntei, porque era a frase mais fácil. A mais segura. A mais distante.
Dante deu um passo na minha direção. Perto o suficiente pra eu sentir o calor dele.
— Eu já te "comprei" do jeito que você odeia — ele respondeu. — Isso aqui é eu tentando não ser só isso.
Meu coração bateu forte. A honestidade dele me irritava porque me desarmava.
— Por que você tá tentando? — eu perguntei, a voz tremendo. — Você não parece o tipo de homem que tenta ser melhor.
Dante ficou em silêncio por um segundo.
— Eu não tento ser melhor — ele disse, baixo. — Eu tento ser funcional.
A frieza da palavra me arrepiou. Ele apontou pro banheiro outra vez.
— Banho, Elena.
Eu respirei fundo, e as minhas mãos foram pro zíper do vestido rasgado. Eu parei no meio do movimento, consciente demais dele ali.
— Obrigada, Dante… mas você pode... sair? — eu pedi, e a palavra "pedir" me queimou.
Dante me encarou com um olhar que tinha algo de impaciência e algo de... controle quebrando.
— Não — ele disse. — Mas eu viro.
Eu fiquei dura.
Dante virou de costas imediatamente, indo até a janela, como se aquilo fosse o máximo de concessão que ele sabia oferecer. Ele não saiu. Ele não se afastou. Só virou.
Como se me dar privacidade fosse um favor que ele ainda estava aprendendo a conceder.
Eu tirei o vestido com movimentos rápidos, tentando não tremer. A pele encontrou o ar frio do quarto e eu me senti exposta, vulnerável de um jeito que me dava raiva. Eu entrei no banheiro e fechei a porta.
Só então eu respirei de verdade.
A água do chuveiro caiu quente e eu apoiei as mãos na parede de mármore, deixando o calor bater nas costas como se pudesse apagar tudo. Mas não apagava.
Eu fechava os olhos e via o palco. O camarim. A mão dele no meu pulso. A voz dele dizendo que eu não ia embora.
Eu me ensaboei devagar, tentando recuperar meu corpo pra mim. Meu tornozelo doeu quando eu levantei o pé, e eu xinguei baixo.
Quando eu saí do banho, enrolada numa toalha enorme, eu abri a porta do banheiro e vi que Dante ainda estava ali.
De costas.
Mas eu senti o corpo dele reagir ao som da porta. Um ajuste mínimo nos ombros. Um aviso silencioso de que ele estava atento o tempo todo.
— Pronto? — ele perguntou, sem se virar.
— Sim — eu respondi.
Ele se virou.
E o olhar dele me varreu como se ele odiasse precisar olhar. Como se aquilo fosse um castigo que ele escolhia aceitar.
Eu apertei a toalha mais firme no peito.
Dante apontou pro pijama na cama.
— Veste isso.
Eu hesitei.
— Eu tenho minhas coisas na boate.
— Você vai pegar depois — ele respondeu, curto.
Eu queria discutir. Queria dizer "não". Queria dizer que eu não era um objeto sendo mudado de lugar como uma mala.
Mas eu estava cansada. E, por mais revoltante que fosse admitir, eu queria... eu queria alguns minutos sem gente, sem olhares, sem aquelas meninas, sem o palco.
Eu vesti o pijama rápido, sentindo o tecido macio colar na pele ainda quente do banho. Quando eu saí do banheiro, Dante tinha tirado o cinto e arregaçado as mangas, como se o mundo dele também tivesse um modo "casa". Mas a arma ainda estava ali. Sempre.
Ele me olhou, e por um segundo o quarto ficou pequeno demais.
— Melhor — ele disse, e a palavra saiu quase como aprovação.
Eu senti um arrepio de raiva.
— Eu não sou um projeto seu, sabia? — eu falei apoiando as mãos na cintura
Dante caminhou até a porta.
— Você é um problema que eu vou resolver — ele respondeu.
Eu segui, ainda com o coração batendo forte, e ele abriu a porta do quarto como se aquilo fosse o próximo passo de um plano inevitável.
— Jantar — ele disse.
Eu desci com ele, o cheiro de comida vindo do andar de baixo, mas o meu estômago ainda cheio de perguntas.
Porque naquela casa, até "jantar" parecia uma ordem.
E eu sabia que, a qualquer momento, eu ia explodir de novo.
Só era questão de tempo.