Eu ainda estava com o gosto da luz na pele quando voltei pro corredor.
O palco não te solta quando você desce. Ele fica colado. Ele deixa um tipo de eco no corpo, como se os olhos de todo mundo continuassem passando a mão em você mesmo depois da cortina fechar.
Eu caminhei até o camarim tentando manter o rosto neutro, tentando parecer "normal", como se eu não tivesse visto uma sombra atrás do vidro do camarote. Como se eu não tivesse sentido o ar mudar com uma presença que eu nem tinha certeza se era real.
Mas eu sabia.
Meu corpo sabia.
E isso me deixava furiosa.
Quando eu empurrei a porta do camarim coletivo, a primeira coisa que me atingiu foi o som. Risadas altas demais, música de celular, vozes se atropelando, o mesmo teatro de sempre. E no meio do teatro... eu.
Várias cabeças viraram na mesma hora. Não por curiosidade inocente. Por cálculo.
Eu fui até meu espelho sem dizer nada. Peguei um lenço, limpei o suor do pescoço, tirei o salto com cuidado. O tornozelo reclamou, latejou, mas eu ignorei como quem ignora comentário m*****o: doía, mas não me derrubava.
Atrás de mim, veio o sussurro que não era sussurro.
— Ela tá voltando toda confiante... — uma delas disse, rindo.
Outra completou, com veneno na língua:
— Confiante nada. Deve estar esperando o prêmio.
Eu olhei meu reflexo. A maquiagem intacta. Os olhos mais duros do que eu queria. O arranhão no braço ainda vermelho, como uma linha de guerra.
Eu respirei fundo. Devagar.
Não respondi.
E foi exatamente isso que pareceu irritar mais.
Porque quando você não reage, você tira a diversão de quem vive de te cutucar.
— Vai ficar muda agora? — a voz veio mais perto, e eu vi pelo espelho a mesma menina da tarde, a do tapa, o rosto ainda com um leve inchaço disfarçado em pó.
Eu me levantei lentamente.
Virei.
Encostei a bolsa no banco sem pressa.
— Eu tô cansada — eu disse, e minha voz saiu baixa, mas firme. — Cansada de vocês. Cansada dessa boate. Cansada de respirar o mesmo ar que gente pequena.
Algumas riram, nervosas, como se esperassem que eu voltasse a ser a garota assustada que elas podiam esmagar.
A menina deu um passo.
— Gente pequena? — ela repetiu, estreitando os olhos. — Você esqueceu de onde veio, querida.
Eu sorri. Não por humor. Por raiva.
— Eu não esqueci — eu falei. — Eu só não vou ficar lá pra sempre.
Ela riu, e o riso dela era ácido.
— Ah, vai sim. Só que agora você vai ficar com fama. De amante. De brinquedo. De...
Eu senti o sangue subir como fogo.
— Cala a boca.
O camarim ficou mais quieto por um segundo.
Ela inclinou a cabeça, provocando.
— Ou o quê? Vai me bater de novo?
Eu dei um passo à frente, e ouvi o salto de alguém bater no chão, um recuo involuntário. O corpo delas lembrava. O medo, quando entra, não sai fácil.
— Eu não vou bater em você — eu disse, e a calma na minha voz era perigosa. — Eu vou fazer pior.
Ela arregalou os olhos, e eu vi a dúvida.
— Pior como?
Eu me aproximei até ficar perto o suficiente pra ela sentir minha respiração.
— Eu vou te ignorar — eu respondi. — Porque você não merece nem minha raiva.
O rosto dela endureceu. E aí veio o impulso infantil de humilhar.
— Você acha que ele te quer? — ela disse alto, pra todo mundo ouvir. — Você acha que o Dante Valentini vai perder tempo com uma garota quebrada?
Meu estômago torceu.
O nome dele, dito assim, no meio de maquiagem e rancor, soou errado. Como se alguém tivesse passado a mão numa coisa que não era dela.
Eu senti minhas mãos fecharem.
E foi exatamente nesse instante que a porta do camarim abriu.
Não foi uma entrada comum. Não foi uma "chegada".
Foi uma invasão.
O ar pareceu sugar o som do ambiente. As risadas morreram no mesmo segundo. Alguém engoliu em seco. Outra soltou um "ah" baixo, assustado.
Dante Valentini entrou como se o lugar fosse dele.
E era.
Terno escuro, camisa aberta no primeiro botão, o rosto fechado de quem ainda carrega a noite anterior na pele. Ele não olhou pros lados. Não cumprimentou. Não explicou.
Ele varreu o camarim inteiro com um olhar só, e foi como se todos tivessem sido colocados no mesmo lugar: abaixo.
Meu coração disparou.
Eu odiei que ele causasse isso em mim.
Dante deu mais dois passos e parou no centro do camarim, a presença dele esmagando o espaço.
— Todo mundo fora — ele disse.
Ninguém se moveu no primeiro segundo, como se as meninas estivessem esperando Ivy aparecer pra traduzir. Mas Dante não era Ivy.
Dante era o tipo de homem que faz o mundo obedecer por instinto. Uma delas tentou rir, fraco, como se fosse brincadeira.
— Mas a gente tá se trocando...
Dante virou o rosto devagar na direção dela.
O sorriso dela morreu.
— Fora — ele repetiu, mais baixo.
E dessa vez foi pior. A voz dele parecia ter uma lâmina escondida.
As meninas começaram a se mexer. Rápido. Uma pegou a bolsa e quase derrubou o espelho. Outra puxou o robe como se fosse escudo. Teve quem saísse sem nem terminar de prender o cabelo.
Eu fiquei parada, congelada.
Porque ele não tinha me mandado sair.
Ele tinha mandado as outras.
O camarim esvaziou em segundos, como se o lugar tivesse sido varrido por um vento violento. A última a sair foi a menina do tapa. Ela me olhou de lado, um olhar que prometia ódio.
Dante nem se deu ao trabalho de olhar pra ela.
A porta fechou.
Silêncio.
Eu senti o coração batendo na garganta, e a quietude pareceu aumentar o tamanho dele ali. O cheiro dele invadiu o espaço, amadeirado, limpo, perigoso. O mesmo cheiro que tinha ficado na minha pele, na minha cabeça, nos meus lençóis imaginários.
Eu engoli em seco.
— O que você tá fazendo aqui? — eu perguntei, e minha voz saiu menos firme do que eu queria.
Dante não respondeu de imediato.
Ele me olhou.
Me olhou como se eu fosse a única coisa real num mundo de mentira.