29. Elena

1059 Words
Eu ainda estava com o gosto da luz na pele quando voltei pro corredor. O palco não te solta quando você desce. Ele fica colado. Ele deixa um tipo de eco no corpo, como se os olhos de todo mundo continuassem passando a mão em você mesmo depois da cortina fechar. Eu caminhei até o camarim tentando manter o rosto neutro, tentando parecer "normal", como se eu não tivesse visto uma sombra atrás do vidro do camarote. Como se eu não tivesse sentido o ar mudar com uma presença que eu nem tinha certeza se era real. Mas eu sabia. Meu corpo sabia. E isso me deixava furiosa. Quando eu empurrei a porta do camarim coletivo, a primeira coisa que me atingiu foi o som. Risadas altas demais, música de celular, vozes se atropelando, o mesmo teatro de sempre. E no meio do teatro... eu. Várias cabeças viraram na mesma hora. Não por curiosidade inocente. Por cálculo. Eu fui até meu espelho sem dizer nada. Peguei um lenço, limpei o suor do pescoço, tirei o salto com cuidado. O tornozelo reclamou, latejou, mas eu ignorei como quem ignora comentário m*****o: doía, mas não me derrubava. Atrás de mim, veio o sussurro que não era sussurro. — Ela tá voltando toda confiante... — uma delas disse, rindo. Outra completou, com veneno na língua: — Confiante nada. Deve estar esperando o prêmio. Eu olhei meu reflexo. A maquiagem intacta. Os olhos mais duros do que eu queria. O arranhão no braço ainda vermelho, como uma linha de guerra. Eu respirei fundo. Devagar. Não respondi. E foi exatamente isso que pareceu irritar mais. Porque quando você não reage, você tira a diversão de quem vive de te cutucar. — Vai ficar muda agora? — a voz veio mais perto, e eu vi pelo espelho a mesma menina da tarde, a do tapa, o rosto ainda com um leve inchaço disfarçado em pó. Eu me levantei lentamente. Virei. Encostei a bolsa no banco sem pressa. — Eu tô cansada — eu disse, e minha voz saiu baixa, mas firme. — Cansada de vocês. Cansada dessa boate. Cansada de respirar o mesmo ar que gente pequena. Algumas riram, nervosas, como se esperassem que eu voltasse a ser a garota assustada que elas podiam esmagar. A menina deu um passo. — Gente pequena? — ela repetiu, estreitando os olhos. — Você esqueceu de onde veio, querida. Eu sorri. Não por humor. Por raiva. — Eu não esqueci — eu falei. — Eu só não vou ficar lá pra sempre. Ela riu, e o riso dela era ácido. — Ah, vai sim. Só que agora você vai ficar com fama. De amante. De brinquedo. De... Eu senti o sangue subir como fogo. — Cala a boca. O camarim ficou mais quieto por um segundo. Ela inclinou a cabeça, provocando. — Ou o quê? Vai me bater de novo? Eu dei um passo à frente, e ouvi o salto de alguém bater no chão, um recuo involuntário. O corpo delas lembrava. O medo, quando entra, não sai fácil. — Eu não vou bater em você — eu disse, e a calma na minha voz era perigosa. — Eu vou fazer pior. Ela arregalou os olhos, e eu vi a dúvida. — Pior como? Eu me aproximei até ficar perto o suficiente pra ela sentir minha respiração. — Eu vou te ignorar — eu respondi. — Porque você não merece nem minha raiva. O rosto dela endureceu. E aí veio o impulso infantil de humilhar. — Você acha que ele te quer? — ela disse alto, pra todo mundo ouvir. — Você acha que o Dante Valentini vai perder tempo com uma garota quebrada? Meu estômago torceu. O nome dele, dito assim, no meio de maquiagem e rancor, soou errado. Como se alguém tivesse passado a mão numa coisa que não era dela. Eu senti minhas mãos fecharem. E foi exatamente nesse instante que a porta do camarim abriu. Não foi uma entrada comum. Não foi uma "chegada". Foi uma invasão. O ar pareceu sugar o som do ambiente. As risadas morreram no mesmo segundo. Alguém engoliu em seco. Outra soltou um "ah" baixo, assustado. Dante Valentini entrou como se o lugar fosse dele. E era. Terno escuro, camisa aberta no primeiro botão, o rosto fechado de quem ainda carrega a noite anterior na pele. Ele não olhou pros lados. Não cumprimentou. Não explicou. Ele varreu o camarim inteiro com um olhar só, e foi como se todos tivessem sido colocados no mesmo lugar: abaixo. Meu coração disparou. Eu odiei que ele causasse isso em mim. Dante deu mais dois passos e parou no centro do camarim, a presença dele esmagando o espaço. — Todo mundo fora — ele disse. Ninguém se moveu no primeiro segundo, como se as meninas estivessem esperando Ivy aparecer pra traduzir. Mas Dante não era Ivy. Dante era o tipo de homem que faz o mundo obedecer por instinto. Uma delas tentou rir, fraco, como se fosse brincadeira. — Mas a gente tá se trocando... Dante virou o rosto devagar na direção dela. O sorriso dela morreu. — Fora — ele repetiu, mais baixo. E dessa vez foi pior. A voz dele parecia ter uma lâmina escondida. As meninas começaram a se mexer. Rápido. Uma pegou a bolsa e quase derrubou o espelho. Outra puxou o robe como se fosse escudo. Teve quem saísse sem nem terminar de prender o cabelo. Eu fiquei parada, congelada. Porque ele não tinha me mandado sair. Ele tinha mandado as outras. O camarim esvaziou em segundos, como se o lugar tivesse sido varrido por um vento violento. A última a sair foi a menina do tapa. Ela me olhou de lado, um olhar que prometia ódio. Dante nem se deu ao trabalho de olhar pra ela. A porta fechou. Silêncio. Eu senti o coração batendo na garganta, e a quietude pareceu aumentar o tamanho dele ali. O cheiro dele invadiu o espaço, amadeirado, limpo, perigoso. O mesmo cheiro que tinha ficado na minha pele, na minha cabeça, nos meus lençóis imaginários. Eu engoli em seco. — O que você tá fazendo aqui? — eu perguntei, e minha voz saiu menos firme do que eu queria. Dante não respondeu de imediato. Ele me olhou. Me olhou como se eu fosse a única coisa real num mundo de mentira.
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