Eu tentei sustentar o olhar, mas senti o corpo inteiro entrar em alerta, como se ele estivesse chegando perto sem mexer.
— Você brigou — ele disse, e não foi pergunta.
Eu senti um calor de raiva subir.
— Eu me defendi.
Dante se aproximou um passo.
— Eu sei.
Outro passo.
— Então por que você tá com essa cara? — eu perguntei, a raiva me fazendo mais corajosa. — Vai me castigar agora? Vai me mandar de volta pra mansão? Ou vai me mandar "pro meu lugar" de novo?
A mandíbula dele apertou. Um músculo se moveu.
— Eu mandei você pra boate porque eu precisava de distância — ele disse, e a honestidade foi um soco.
Meu peito apertou.
— Distância de mim?
Dante parou a um metro. E, mesmo assim, parecia perto demais.
— De mim — ele corrigiu. — Do que eu faço quando você tá perto.
Eu senti a garganta secar.
O silêncio ficou pesado, carregado. Eu conseguia ouvir meu próprio sangue nos ouvidos.
— Você tem medo? — eu provoquei, porque era a única forma de não parecer pequena.
Os olhos dele escureceram.
— Eu tenho raiva — ele respondeu. — E raiva, comigo, sempre vira coisa pior.
Eu me arrepiei inteira.
— Você veio aqui pra quê, então?
Dante olhou meu braço. O arranhão. Depois olhou meu rosto. E eu vi ali uma coisa que me deixou sem ar: controle quebrando.
— Porque eu soube que elas encostaram em você — ele disse. — E eu...
Ele parou. Como se fosse perigoso demais completar a frase.
— E você o quê? — eu sussurrei.
Dante avançou de uma vez, fechando a distância como uma porta batendo.
Eu prendi a respiração.
Ele segurou meu rosto com as duas mãos, firme, e eu senti o calor dele nos meus dedos, a pressão que não era gentil, mas também não era machucado. Era posse desesperada.
— Não faz isso de novo — ele disse, baixo, perto demais.
Eu tremi.
— Me manda, então — eu desafiei, e minha voz falhou no meio, traindo o quanto aquilo me afetava. — Me manda de volta. Me manda ficar quieta. Me manda virar boneca.
Os olhos dele fixaram nos meus como se ele quisesse me engolir sem tocar.
— Eu não quero você quieta — Dante murmurou. — Eu quero você viva.
Meu peito apertou. A raiva se misturou com uma coisa quente demais.
— Então por que me afasta? — eu perguntei, quase sem voz.
Dante não respondeu com palavras.
Ele respondeu com o corpo.
A boca dele veio na minha como se fosse inevitável. Não foi um beijo pedido com delicadeza. Foi um beijo tomado com urgência, mas... ele parou um segundo antes de aprofundar, só um segundo, esperando.
Esperando eu dizer não.
Esperando eu empurrar.
Esperando eu usar o "poder" que ele fingia me dar.
Eu senti o mundo inteiro caber naquele espaço mínimo.
E eu não empurrei.
Minha mão subiu pro peito dele, não pra afastar. Pra segurar.
E aí ele me beijou de verdade.
O beijo foi quente, duro, faminto, como se ele estivesse reprimindo isso desde ontem e tivesse decidido perder uma batalha só pra não perder a guerra inteira dentro dele. Eu senti o gosto dele, senti o peso da presença, senti o meu corpo reagir com uma traição vergonhosa e deliciosa.
Eu me odiei por um segundo.
Depois eu parei de pensar.
Porque a boca dele apagava o mundo.
Dante me puxou mais perto, a mão dele descendo pra minha nuca, prendendo. Ele não machucou. Mas deixou claro: eu não ia fugir. E a verdade absurda era que eu não queria.
Eu ofeguei quando ele se afastou só um pouco, a testa quase encostando na minha, a respiração dele quente no meu rosto.
— Você... — eu comecei, mas não tinha frase.
Dante passou o polegar pelo meu lábio, devagar, como se marcasse.
— Você não me testa, Elena — ele disse, e a voz dele estava rouca. — Você me desmonta.
Meu coração bateu tão forte que doeu.
— Isso foi... — eu tentei achar palavra. "Errado." "Perigoso." "Injusto." Nenhuma servia.
— Eu sei — ele respondeu.
Ele me beijou de novo, mais curto, mais controlado, como se estivesse tentando provar pra si mesmo que ainda tinha rédea.
Quando se afastou, os olhos dele estavam escuros, queimando.