Ivy andou pelo camarim como uma tempestade contida.
— Mais uma vez — ela disse, devagar, escolhendo cada palavra — e eu mando vocês pra rua. Sem referência. Sem chance de voltar. E se alguém achar que pode resolver isso fora daqui...
Ela inclinou a cabeça, os olhos brilhando de ameaça real.
— Eu aviso o chefe.
O camarim inteiro gelou.
A palavra "chefe" calou até a respiração de algumas.
Eu senti meu estômago apertar.
A última coisa que eu queria era Dante sabendo disso. A última coisa que eu queria era ele usando isso como desculpa pra... qualquer coisa.
Ivy se aproximou de mim e pegou meu pulso, olhando meu braço arranhado.
— Você tá sangrando — ela constatou.
— Não foi nada — eu respondi, a voz ainda tremendo de adrenalina.
Ivy me encarou por um segundo, e eu vi uma centelha de algo parecido com orgulho.
— Foi sim — ela disse. — Mas você aguentou.
Ela soltou meu pulso e apontou pro banheiro.
— Vai lavar isso. Agora.
Eu assenti e fui, sem olhar pra trás. Mas quando eu fechei a porta do banheiro, o silêncio me bateu de novo.
Eu encostei as mãos na pia, tremendo.
O reflexo no espelho era de uma menina com cabelo bagunçado, olhos fortes demais pra alguém que ainda estava com medo, e uma marca vermelha no braço como lembrança.
Eu respirei fundo.
Eu não tinha chorado.
Ainda.
E, por um segundo, eu não sabia se isso era vitória... ou só o começo de outra coisa pior.
(…)
A noite não chegava. Ela invadia.
Primeiro foi a boate mudando de pele, como um animal acordando sob luzes falsas. O corredor que de manhã era frio e impessoal ganhou perfume caro, suor antecipado e aquela promessa suja de dinheiro fácil. As lâmpadas acenderam em sequência, douradas demais pra serem verdade, e o grave do som testado fez o ar vibrar dentro do meu peito, como se meu coração tivesse virado parte da música.
Eu estava no camarim quando o primeiro grupo de clientes entrou. Eu não vi, mas ouvi. A boate tem um jeito de anunciar homens antes de eles aparecerem: risos altos, passos seguros demais, vozes que já chegam se achando donas do lugar. O tipo de barulho que faz a pele querer se esconder.
Minhas mãos ainda tinham um tremor residual da tarde. Não de medo só. De adrenalina. De raiva. De ter finalmente respondido ao mundo com o punho e não com o silêncio.
E eu estava... estranhamente inteira.
As meninas estavam lá, espalhadas, brilhando em lantejoulas e maquiagem, se montando como se fossem guerra e festa ao mesmo tempo. Algumas falavam alto como se quisessem provar que nada as abalava. Outras me olhavam pelo espelho, rápido, cortante, e desviavam como se eu fosse contagiosa.
Eu vi o arranhão no meu braço quando puxei a manga pra cima. A linha vermelha ardia. Eu passei o dedo de leve e senti a pele queimar, um lembrete físico de que eu não tinha quebrado.
Eu tinha reagido.
Atrás de mim, uma risada baixa.
— Tá se achando, né? — veio a voz, doce de propósito. — aquilo não acabou, Elena
Eu continuei passando rímel, sem virar o rosto.
— Não — eu disse. — Só tô ocupada demais pra brincar com vocês.
O silêncio que veio foi pesado, ofendido.
Eu sabia que eu devia ter parado ali.
Mas eu estava cansada. Cansada de pisar em ovos. Cansada de ser tratada como boneca. A mesma menina soprou, como veneno.
— Ocupada com o quê? Com a agenda do chefe?
Eu senti a provocação bater, tentando achar um lugar vulnerável dentro de mim. E achou, porque o meu estômago revirou, não de vergonha, mas de lembrança. A mansão. A cama. A voz dele dizendo meu nome como se eu tivesse pertencido ao som.
Eu fechei o rímel com calma.
— Se você quer audiência, pede pra Ivy — eu respondi, ainda sem olhar. — Eu não sou palco de ninguém.
Algumas riram. Outras ficaram quietas. Eu senti o ódio crescendo do outro lado do espelho, mas não me importei. Pela primeira vez desde que eu pisei ali, eu não me importei de verdade.
Porque eu já tinha medo suficiente pra uma vida inteira.
E ainda assim eu estava aqui.
Eu virei de lado, encarei o espelho e vi meu próprio olhar.
Não era mais o mesmo.
O meu rosto estava impecável, mas por baixo da maquiagem havia uma coisa nova: firmeza. Não coragem heroica. Não confiança. Firmeza de quem apanhou muito da vida e cansou de pedir desculpas por existir.
Foi quando Ivy entrou.
Ela não precisava bater. Ela não precisava gritar. Ela entrava e o ar se reorganizava em volta dela.
— Atenção — ela disse, e o camarim inteiro obedeceu sem pensar.
O som do público lá fora crescia como mar.
Ivy passou os olhos por todas, e quando chegou em mim, ficou um segundo a mais. Não foi ternura. Foi leitura.
— Hoje a casa vai lotar — ela falou. — E hoje tem gente que não vem só pra beber e olhar.
Eu senti o gelo da frase. Gente importante. Gente perigosa. Gente que mede poder com o olhar e cobra com sangue.
— Quem subir, faz o trabalho e desce — Ivy continuou. — Sem graça, sem showzinho fora do palco. Quem criar confusão vai sair daqui sem referência e sem volta.
Ela deixou a ameaça pousar no silêncio.
Então olhou pra mim de novo.
— Elena.
Eu levantei.
— Você entra no segundo bloco — Ivy disse.
Um murmúrio atravessou o camarim como eletricidade.
Eu senti o mundo estreitar. Era um sinal. Um lembrete de que eu era observada mesmo quando ninguém aparecia. De que eu tinha dono, mesmo quando eu repetia pra mim mesma que não.
— Entendi — eu respondi, porque era isso que se fazia aqui: entender.
O corredor até parecia mais estreito à noite, como se as paredes chegassem mais perto. O grave do som vinha de longe, mas ali era frio. Um frio que não tinha a ver com temperatura. Era o frio de privacidade controlada.