O camarim cheirava a laquê, perfume doce demais e rancor velho.
Assim que eu entrei, eu senti. Não foi alguém dizendo nada, não foi um grito, não foi um empurrão. Foi o ar. A forma como as conversas diminuíram um grau. Como os olhos me acompanharam pelo espelho, como se eu fosse uma mancha que não saía.
Eu não estava mais só na mira porque eu era "nova".
Eu estava na mira porque eu tinha saído com ele.
E voltado.
Com a camiseta dele no corpo e um pedaço de noite nos olhos.
Eu fui direto pro meu espaço, peguei minha bolsa e comecei a guardar minhas coisas devagar, como se nada me atingisse. Como se eu não tivesse tremido de medo na cama dele. Como se eu não tivesse visto um homem cair no chão por causa de um olhar.
As risadinhas começaram atrás.
— Olha ela... — uma voz disse, fingindo sussurro, mas alta o suficiente pra todo mundo ouvir. — A protegida.
Eu continuei guardando minhas coisas.
Outra voz:
— Protegida nada. Isso aí é brinquedo. Passa rápido.
Eu senti a raiva subir, mas eu prendi. Prendi porque eu estava cansada demais pra chorar. Porque eu já tinha chorado. Porque eu já tinha tremido. Porque eu já tinha tido medo demais.
E porque, por algum motivo, naquele momento, eu não queria ser fraca. Eu fechei o zíper da bolsa e virei só o rosto, sem me virar inteira.
— Vocês terminaram? — perguntei, calma.
Silêncio de meio segundo.
Então veio o veneno.
— Ai, ela fala — a mesma voz disse, e eu vi no espelho: era uma das meninas mais antigas, com cílios enormes e sorriso afiado. — Tá se achando.
Eu respirei fundo, e voltei pro espelho, ajeitando o cabelo com uma mão, como se aquilo fosse só barulho.
— Eu não tô me achando — eu disse. — Eu só tô tentando trabalhar.
Risos.
— Trabalhar? — outra menina repetiu. — Você chama de trabalho? Eu chamo de atalho.
Eu senti o sangue esquentar.
Eu me virei dessa vez, de frente.
— Vocês querem falar de atalho? — minha voz saiu mais firme do que eu esperava. — Vocês tão aqui há anos, e mesmo assim continuam no mesmo lugar.
O "oh" coletivo foi imediato, teatral, como se eu tivesse jogado um fósforo num tanque de gasolina.
A primeira menina deu um passo na minha direção.
— Repete.
Eu fiquei parada.
— Eu disse que vocês continuam no mesmo lugar.
O rosto dela mudou. De deboche pra ódio.
— Você acha que ele vai te manter?
Eu senti um aperto no peito. A palavra "manter" me deu nojo. Me lembrou de tudo que eu não queria aceitar.
— Eu não tô pedindo nada pra ele — eu respondi. — Só tô sobrevivendo.
Ela riu, perto demais.
— Sobrevivendo? Você acha que a gente não sobreviveu aqui antes de você chegar?
Eu senti o calor da respiração dela no meu rosto. Meu corpo inteiro ficou tenso.
— Sai da minha frente — eu disse.
— Ou quê? — ela provocou.
Meu coração bateu forte.
Eu devia ter recuado.
Eu devia ter ficado quieta.
Mas eu lembrei do som do tiro. Lembrei da frase dele: "Eu corto a mão antes."
E eu odiei a sensação de ser tratada como se eu não tivesse escolha.
Eu levantei o queixo.
— Ou eu te tiro da minha frente.
Ela empurrou meu ombro.
Não foi forte. Foi pra humilhar.
O camarim inteiro ficou mais silencioso. Eu olhei pra mão dela no meu corpo. E alguma coisa dentro de mim quebrou.
Eu empurrei de volta. Ela deu um passo pra trás, surpresa, e o sorriso dela morreu.
— Tá louca? — ela cuspiu.
— Não encosta em mim — eu respondi.
Ela avançou de novo, e dessa vez me puxou pelo braço, com força. A dor foi rápida, e o impulso veio mais rápido ainda.
Eu dei um tapa.
O som estalou no camarim como um disparo pequeno. A mão dela foi pro rosto na mesma hora, olhos arregalados.
E então ela veio pra cima.
Unhas. Cabelo. Raiva.
Eu senti meus cabelos serem puxados e o couro cabeludo arder, e o mundo virou um borrão de espelho e luz e perfume. Eu agarrei o pulso dela, tentei soltar, mas outra mão me empurrou.
Duas.
Mais uma.
De repente eram várias vozes, vários braços, e eu só sentia o corpo reagindo.
Eu acertei um soco no ombro de alguém. Senti a pele sob meus dedos. Eu empurrei com força e uma menina bateu numa bancada, derrubando maquiagem e pincéis.
— Para! — alguém gritou, mas ninguém parou.
Eu sentia minha respiração curta, meu coração disparado, e uma raiva que eu nunca tinha deixado sair antes.
Porque eu passei a vida inteira engolindo.
Engolindo humilhação.
Engolindo medo.
Engolindo homens decidindo por mim.
E agora eu estava cansada de engolir.
A menina do tapa tentou me agarrar de novo, e eu puxei o cabelo dela com força. Ela gritou alto.
— Sua... — ela tentou xingar, mas eu empurrei o rosto dela pro lado com o antebraço.
Alguém me arranhou no braço. Eu senti a ardência e vi a pele abrir numa linha vermelha.
— Isso é culpa sua! — uma voz berrou perto do meu ouvido. — Você trouxe a desgraça!
Eu virei com raiva.
— A desgraça já estava aqui! — eu gritei de volta.
E eu acertei.
Dessa vez foi um soco de verdade, no rosto de alguém que tentou me segurar. Eu senti os nós dos meus dedos doerem na hora.
O camarim explodiu em gritos.
E então, por cima de tudo, uma voz cortou o caos como uma lâmina.
— CHEGA!
Ivy entrou como se fosse dona do ar. Alta, postura firme, olhos gelados. Dois seguranças vieram atrás dela.
Ela agarrou uma das meninas pelo braço e puxou pra trás com força suficiente pra fazer o salto dela escorregar.
— Vocês perderam a p***a do juízo? — Ivy rosnou.
Eu estava ofegante, cabelo bagunçado, o braço ardendo, a mão doendo, e mesmo assim eu senti uma coisa estranha.
Satisfação.
Ivy me olhou. Rápido. Avaliando. Como se medisse se eu estava ferida de verdade.
— Você — ela disse pra mim, apontando. — Respira. Fica aqui.
Depois ela se virou pras outras, e a voz dela ficou ainda mais fria.
— Ninguém encosta nela. Ninguém. — Ivy deu um passo à frente, fazendo todas recuarem. — Eu não quero saber se vocês odeiam, se têm inveja, se acham injusto. Guardem isso pra terapia. Aqui vocês trabalham.
A menina do tapa, com o rosto vermelho, tentou falar.
— Ela começou...
Ivy cortou na hora.
— Você quer mesmo que eu pergunte pras câmeras quem começou?
Silêncio.