25. Dante

1062 Words
— Eu tô pedindo pra você parar de dar munição pro inimigo. Eu fiquei parado, encarando-o. — E os Cavalli? — Eu cuido — Lorenzo respondeu. — Eu vou falar com os contatos. Vou oferecer uma compensação "política", um acordo temporário, e enquanto eles acham que estão ganhando, eu corto as pernas deles por baixo da mesa. Ele falou aquilo com uma naturalidade que sempre me lembrava por que ele era o Don. Lorenzo não precisava de arma na mão. Ele matava com papel. Eu engoli em seco. — E se eles tentarem pegar ela? A pergunta escapou. Rápida demais. Instintiva demais. Lorenzo levantou uma sobrancelha, e a calma dele ficou ainda mais perigosa. — Então você confirmou — ele disse. Meu peito apertou. — Eu perguntei por estratégia. — Claro — Lorenzo respondeu, com o mesmo tom de Bianca. — Por estratégia. Eu fechei os olhos por um segundo, irritado. Quando abri, Lorenzo estava me observando com uma seriedade que raramente mostrava. — Escuta bem — ele disse. — Se você quer manter essa garota viva, você vai fazer do jeito certo. Isso significa que ela vira ativo protegido. Mas você não transforma ela em bandeira emocional. Meu maxilar travou. — Eu não... — Você já transformou — Lorenzo cortou. — O tiro foi a sua assinatura. Eu fiquei quieto. Lorenzo apoiou os cotovelos na mesa. — Você vai me ajudar a limpar o resto hoje. Vai manter a boate funcionando como se nada tivesse acontecido. E vai parar de agir como se Elena fosse só sua. Eu senti o sangue ferver. — Ela é minha responsabilidade. — E minha responsabilidade é a família inteira — Lorenzo disse, frio. — E quando você se expõe, você expõe todos nós. Antes que eu respondesse, a porta do escritório abriu de repente com força demais. E Luca entrou. Ele entrou falando antes de cruzar a porta inteira, como sempre, como se o ar precisasse se adaptar à presença dele. — Vocês estão com cara de velório! — ele anunciou, alto, dramático. — Eu juro, vocês Valentini sabem como deixar uma casa triste. Lorenzo nem piscou. — Bate na porta — ele disse, seco. Luca ignorou. Vinha com um terno meio aberto, o cabelo bagunçado como se tivesse passado a noite correndo, e os olhos acesos com aquela mistura de pânico e excitação que só ele tinha. — Eu bati! — Luca mentiu. — Bati com a energia, com a alma, com o meu desespero! Eu soltei um suspiro irritado. — Que p***a você quer, Luca? Luca abriu os braços. — Eu quero saber por que você estragou o meu evento, Dante! Você simplesmente estragou tudo e tava no inicio. Lorenzo manteve a voz baixa, mortal. — Abaixa o tom, Luca! Luca levantou as mãos. — Tô calmo, Lorenzo — ele disse, mas não estava. — Tô calmo! Só tô... — ele balançou a cabeça, andando de um lado pro outro — tô tentando entender como vocês transformaram meu evento, o meu evento, numa cena de filme! Eu avancei um passo. — Foi necessário. Luca parou e me encarou, a expressão mudando de teatral pra séria. — Necessário? — ele repetiu. — Você matou um homem, Dante. Na frente de todo mundo. E sabe o pior? Eu estreitei os olhos. — Fala. Luca respirou fundo. — O pior é que... parte de mim achou lindo — ele disse de repente, e apontou pra mim. — Porque eles ficaram com medo. Eles lembraram quem a gente é. Mas a outra parte... a parte que não é psicopata... tá pensando na menina. O nome não foi dito, mas eu senti. Elena. Luca continuou, mais baixo agora, e isso era raro. — Você gosta dela, né? Eu não respondi. Não precisava. Luca soltou o ar. — Irei pagar todas as promessas que eu prometi caso você encontrasse alguém. E é claro que eu também vou orar pra menina. Ou você acha que é fácil aguentar você? Lorenzo cortou antes que Luca fosse mais longe. — Chega — Lorenzo disse. — Você veio pra quê? Luca piscou, voltando ao caos. — Ah! Sim! — ele estalou os dedos. — Eu vim avisar que tem um cara do setor de mídia do nosso instituto ligando sem parar. O instituto, Lorenzo! O instituto de caridade que você usa pra lavar imagem! Eles tão surtando porque um convidado importante "sumiu" depois do evento. Lorenzo fechou os olhos por um segundo. — Nome. — Cavalli — Luca respondeu. O silêncio que veio foi pesado. Eu senti a vontade de sair dali e resolver do meu jeito, do jeito de sempre. Mas eu sabia que isso só pioraria. Lorenzo abriu os olhos. — Eu cuido — ele disse. Luca apontou pra mim de novo, dramático. — E você — ele falou — podia pelo menos ter esperado eu terminar o discurso antes de meter bala. Eu ensaiei aquela merda por dois dias! Eu dei um olhar que deveria ter matado. — Luca. Ele levantou as mãos outra vez, rindo nervoso. — Tá, tá, tá. Eu sei. Desculpa. Só... — ele parou, e dessa vez o sorriso dele falhou de verdade. — Só não faz isso de novo, assim perco minha credibilidade. A frase ficou no ar. Eu não respondi. Não porque eu não tinha resposta. Porque eu tinha. E eu odiava. Lorenzo se levantou finalmente, impondo presença sem gritar. — Luca, você pode voltar pro seu setor e manter a fachada funcionando. Se alguém perguntar, foi um incidente de segurança. Se alguém insistir, você manda pra mim. Luca assentiu, mas ainda me olhava. — E Dante? — ele perguntou. Lorenzo me encarou. — Dante vai fazer o que eu mandar — ele disse. Eu respirei fundo, controlando a raiva. — E o que você manda? Lorenzo não hesitou. — Você vai garantir que Elena esteja segura hoje. Sem aparecer. Sem fazer cena. Sem transformar isso em teatro. Meu estômago apertou, porque a ordem parecia simples demais pra ser. Luca passou por mim e murmurou baixo, só pra eu ouvir: — Você tá ferrado, irmão. Eu fechei os olhos por um segundo. Quando abri, Lorenzo já estava pegando o telefone, pronto pra "limpar" mais uma parte da minha bagunça. E eu, pela primeira vez em muito tempo, não sabia qual era o pior inimigo. Os Cavalli lá fora... Ou a Elena dentro de mim.
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