— Eu tô pedindo pra você parar de dar munição pro inimigo.
Eu fiquei parado, encarando-o.
— E os Cavalli?
— Eu cuido — Lorenzo respondeu. — Eu vou falar com os contatos. Vou oferecer uma compensação "política", um acordo temporário, e enquanto eles acham que estão ganhando, eu corto as pernas deles por baixo da mesa.
Ele falou aquilo com uma naturalidade que sempre me lembrava por que ele era o Don. Lorenzo não precisava de arma na mão. Ele matava com papel.
Eu engoli em seco.
— E se eles tentarem pegar ela?
A pergunta escapou. Rápida demais. Instintiva demais.
Lorenzo levantou uma sobrancelha, e a calma dele ficou ainda mais perigosa.
— Então você confirmou — ele disse.
Meu peito apertou.
— Eu perguntei por estratégia.
— Claro — Lorenzo respondeu, com o mesmo tom de Bianca. — Por estratégia.
Eu fechei os olhos por um segundo, irritado. Quando abri, Lorenzo estava me observando com uma seriedade que raramente mostrava.
— Escuta bem — ele disse. — Se você quer manter essa garota viva, você vai fazer do jeito certo. Isso significa que ela vira ativo protegido. Mas você não transforma ela em bandeira emocional.
Meu maxilar travou.
— Eu não...
— Você já transformou — Lorenzo cortou. — O tiro foi a sua assinatura.
Eu fiquei quieto.
Lorenzo apoiou os cotovelos na mesa.
— Você vai me ajudar a limpar o resto hoje. Vai manter a boate funcionando como se nada tivesse acontecido. E vai parar de agir como se Elena fosse só sua.
Eu senti o sangue ferver.
— Ela é minha responsabilidade.
— E minha responsabilidade é a família inteira — Lorenzo disse, frio. — E quando você se expõe, você expõe todos nós.
Antes que eu respondesse, a porta do escritório abriu de repente com força demais.
E Luca entrou.
Ele entrou falando antes de cruzar a porta inteira, como sempre, como se o ar precisasse se adaptar à presença dele.
— Vocês estão com cara de velório! — ele anunciou, alto, dramático. — Eu juro, vocês Valentini sabem como deixar uma casa triste.
Lorenzo nem piscou.
— Bate na porta — ele disse, seco.
Luca ignorou. Vinha com um terno meio aberto, o cabelo bagunçado como se tivesse passado a noite correndo, e os olhos acesos com aquela mistura de pânico e excitação que só ele tinha.
— Eu bati! — Luca mentiu. — Bati com a energia, com a alma, com o meu desespero!
Eu soltei um suspiro irritado.
— Que p***a você quer, Luca?
Luca abriu os braços.
— Eu quero saber por que você estragou o meu evento, Dante! Você simplesmente estragou tudo e tava no inicio.
Lorenzo manteve a voz baixa, mortal.
— Abaixa o tom, Luca!
Luca levantou as mãos.
— Tô calmo, Lorenzo — ele disse, mas não estava. — Tô calmo! Só tô... — ele balançou a cabeça, andando de um lado pro outro — tô tentando entender como vocês transformaram meu evento, o meu evento, numa cena de filme!
Eu avancei um passo.
— Foi necessário.
Luca parou e me encarou, a expressão mudando de teatral pra séria.
— Necessário? — ele repetiu. — Você matou um homem, Dante. Na frente de todo mundo. E sabe o pior?
Eu estreitei os olhos.
— Fala.
Luca respirou fundo.
— O pior é que... parte de mim achou lindo — ele disse de repente, e apontou pra mim. — Porque eles ficaram com medo. Eles lembraram quem a gente é. Mas a outra parte... a parte que não é psicopata... tá pensando na menina.
O nome não foi dito, mas eu senti.
Elena.
Luca continuou, mais baixo agora, e isso era raro.
— Você gosta dela, né?
Eu não respondi. Não precisava.
Luca soltou o ar.
— Irei pagar todas as promessas que eu prometi caso você encontrasse alguém. E é claro que eu também vou orar pra menina. Ou você acha que é fácil aguentar você?
Lorenzo cortou antes que Luca fosse mais longe.
— Chega — Lorenzo disse. — Você veio pra quê?
Luca piscou, voltando ao caos.
— Ah! Sim! — ele estalou os dedos. — Eu vim avisar que tem um cara do setor de mídia do nosso instituto ligando sem parar. O instituto, Lorenzo! O instituto de caridade que você usa pra lavar imagem! Eles tão surtando porque um convidado importante "sumiu" depois do evento.
Lorenzo fechou os olhos por um segundo.
— Nome.
— Cavalli — Luca respondeu.
O silêncio que veio foi pesado.
Eu senti a vontade de sair dali e resolver do meu jeito, do jeito de sempre. Mas eu sabia que isso só pioraria.
Lorenzo abriu os olhos.
— Eu cuido — ele disse.
Luca apontou pra mim de novo, dramático.
— E você — ele falou — podia pelo menos ter esperado eu terminar o discurso antes de meter bala. Eu ensaiei aquela merda por dois dias!
Eu dei um olhar que deveria ter matado.
— Luca.
Ele levantou as mãos outra vez, rindo nervoso.
— Tá, tá, tá. Eu sei. Desculpa. Só... — ele parou, e dessa vez o sorriso dele falhou de verdade. — Só não faz isso de novo, assim perco minha credibilidade.
A frase ficou no ar.
Eu não respondi. Não porque eu não tinha resposta.
Porque eu tinha.
E eu odiava.
Lorenzo se levantou finalmente, impondo presença sem gritar.
— Luca, você pode voltar pro seu setor e manter a fachada funcionando. Se alguém perguntar, foi um incidente de segurança. Se alguém insistir, você manda pra mim.
Luca assentiu, mas ainda me olhava.
— E Dante? — ele perguntou.
Lorenzo me encarou.
— Dante vai fazer o que eu mandar — ele disse.
Eu respirei fundo, controlando a raiva.
— E o que você manda?
Lorenzo não hesitou.
— Você vai garantir que Elena esteja segura hoje. Sem aparecer. Sem fazer cena. Sem transformar isso em teatro.
Meu estômago apertou, porque a ordem parecia simples demais pra ser. Luca passou por mim e murmurou baixo, só pra eu ouvir:
— Você tá ferrado, irmão.
Eu fechei os olhos por um segundo.
Quando abri, Lorenzo já estava pegando o telefone, pronto pra "limpar" mais uma parte da minha bagunça.
E eu, pela primeira vez em muito tempo, não sabia qual era o pior inimigo.
Os Cavalli lá fora...
Ou a Elena dentro de mim.