Eu não voltei pra minha casa. Eu fui direto pra mansão principal.
O portão abriu no momento em que meu carro chegou, como sempre. Homens me reconheceram e desviaram o olhar. Respeito. Medo. Regra.
Eu entrei.
A casa principal tinha um peso diferente. Ali as paredes guardavam segredos. Os corredores já tinham ouvido gritos, ordens, ameaças. Aquele lugar era o coração do monstro.
Eu encontrei Salvatore na biblioteca.
Claro que ele estava na biblioteca. Ele sempre escolhe um lugar que parece calmo pra falar de guerra.
Ele estava em pé perto da janela, com uma xícara na mão, olhando o jardim como se estivesse calculando o mundo. Não parecia alguém que já foi Don. Parecia alguém que ainda é, só que escolhe não ser.
Ele não se virou quando eu entrei.
— Lorenzo já me contou — ele disse.
Eu parei na porta, irritado.
— Ele conta tudo pra você?
Salvatore deu um sorriso de canto.
— Eu sei o que eu preciso saber.
Eu entrei e fechei a porta atrás de mim. O som ecoou suave no cômodo. Eu fiquei em silêncio por alguns segundos, porque eu não sabia como dizer o que eu vim dizer.
Eu nunca peço ajuda.
Eu mando. Eu executo. Eu resolvo.
Mas eu não conseguia resolver aquilo.
Salvatore finalmente se virou. Os olhos dele me leram em um segundo.
— Você tá com cara de quem perdeu o controle — ele disse, sem julgamento. Só constatando.
Eu senti meu maxilar travar de novo.
— Eu matei um homem ontem na frente de meio mundo — eu respondi. — Controle eu tenho.
Salvatore caminhou até a mesa e colocou a xícara. O gesto foi lento. Provocação.
— Não é sobre o homem — ele disse. — É sobre ela.
Meu estômago revirou.
— Não fala dela.
— Então por que você veio aqui? — Salvatore perguntou, calmo demais, firme demais.
Eu dei um passo, impaciente. Eu queria bater em alguma coisa. Quebrar alguma coisa. Mas naquele cômodo, com ele, eu sabia que isso só me faria parecer ainda mais fraco.
— Eu mandei ela de volta pra boate — eu disse.
Salvatore ergueu as sobrancelhas.
— Porque?
Eu engoli. O gosto era amargo.
— Porque ela me deixa... — a palavra não vinha. Eu a odiei.
Salvatore esperou. Ele sempre espera. Ele tem essa merda de paciência que faz as pessoas se entregarem sozinhas.
Eu soltei o ar pelo nariz, irritado.
— Porque eu não devia sentir nada — eu disse, de uma vez, como se cuspisse. — Ela é uma dívida paga. Uma garota no meu território. Isso devia ser simples.
Salvatore inclinou a cabeça.
— E não é.
Eu ri sem humor.
— Não.
Ele me encarou, e o olhar dele ficou mais sério.
— Você tá com medo de quê, Dante?
Eu devia ter mentido. Devia ter feito piada. Devia ter dito que era só estresse, só sangue, só a noite.
Mas eu já tinha vindo até ali. Já tinha quebrado a minha própria regra só por entrar naquela biblioteca.
— De fraqueza — eu respondi.
Salvatore ficou em silêncio por um instante, e quando falou, foi mais baixo.
— Fraqueza é quando alguém usa você e você não percebe.
Eu apertei os punhos.
— Ela vai ser usada.
— Todo mundo vai tentar — ele concordou. — Porque você mostrou pro mundo que ela te afeta.
Eu senti a raiva subir de novo.
— Eu não mostrei nada.
Salvatore deu um olhar que me atravessou.
— Você matou um homem porque ele olhou pra ela.
O silêncio caiu. Eu engoli em seco, porque a frase dele era uma sentença.
Salvatore se aproximou dois passos.
— Você quer ajuda de verdade? — ele perguntou.
Eu encarei ele, duro.
— Eu quero que isso pare.
Salvatore respirou fundo, como se escolhesse as palavras.
— Então você tem duas opções — ele disse. — Ou você corta isso pela raiz... e machuca ela de um jeito que vai te perseguir. Ou você aceita que sentir não te torna fraco. Te torna humano. E aprende a proteger sem destruir.
Eu senti o peito apertar como se ele tivesse colocado um peso em cima.
— Humano não sobrevive no nosso mundo.
Salvatore deu um sorriso curto.
— Sobrevive sim. Só sobrevive com cicatriz.
Eu passei a mão no rosto, impaciente, cansado, furioso comigo mesmo.
— Eu não sei fazer isso.
Salvatore olhou direto nos meus olhos.
— Por isso você tá aqui.
Eu fiquei parado, sem saber se eu queria agradecer ou quebrar a casa inteira.
— O que eu faço? — eu perguntei, e a pergunta saiu como se fosse uma derrota.
Salvatore não respondeu na hora. Ele apenas pegou a xícara de novo, tomou um gole, e então disse:
— Primeiro, você para de afastar ela como punição por você sentir. Porque isso só vai fazer ela te temer mais... e te odiar com razão.
Eu engoli em seco.
— Segundo?
Salvatore se aproximou mais um passo.
— Segundo, você fala com Lorenzo. Ele precisa blindar o império depois do que você fez ontem. E você... você precisa entender que agora ela virou alvo também.
Meu estômago afundou.
— Eu sei.
Salvatore assentiu devagar.
— E terceiro — ele completou, a voz firme — você decide o que ela é pra você. Porque, do jeito que tá, você vai destruir essa garota tentando não se apegar.
Eu fechei os olhos por um segundo.
Elena. Na porta. Olhando pra mim, ferida.
"Você não pode me jogar pra longe toda vez que sentir alguma coisa."
Eu abri os olhos.
— Eu não sei decidir isso — eu admiti.
Salvatore se aproximou e colocou a mão no meu ombro. Um toque rápido. Forte. Irmão.
— Então começa com o simples, Dante — ele disse. — Vai até ela hoje. Não pra exigir nada. Só pra garantir que ela entendeu uma coisa: que você não tá fugindo dela porque ela é errada.
Meu peito apertou.
— E se eu estiver fugindo porque ela... é certa demais?
Salvatore me encarou por um segundo longo, e o olhar dele ficou estranhamente compassivo.
— Aí você tá fodido — ele disse, seco. — Como todo mundo que ama no nosso mundo.
Eu soltei um riso curto, sem alegria nenhuma. E mesmo assim... desde a noite anterior, eu consegui respirar um pouco.
Porque eu não estava sozinho naquele inferno.
E porque, por mais que eu odiasse admitir, eu precisava de alguém pra me lembrar que controlar o mundo é fácil.
Difícil é controlar o que a gente sente.