22. Dante

1150 Words
Eu acordei antes do sol. Não porque eu estivesse descansado. Eu não descanso. Eu só desligo partes de mim por alguns minutos, até a próxima obrigação me puxar de volta. Mas naquela manhã eu nem consegui desligar. A cama ainda tinha o calor dela. O cheiro dela misturado ao meu, e isso era o problema. Eu fiquei deitado de costas, olhando o teto como se fosse um inimigo. O lençol estava amassado, a casa inteira silenciosa, e mesmo assim eu ouvia. A respiração dela. O menor movimento. O atrito do tecido quando ela tentava se encolher no próprio corpo. Eu podia fingir que foi só desejo. Podia fingir que foi só instinto. Podia jogar a culpa no medo, na adrenalina da noite, no sangue derramado, no nome Valentini exigindo que eu fosse fera. Mas eu sabia a verdade. Eu tinha cruzado um limite que eu mesmo tinha colocado e o que me assustava não era o que eu era capaz de fazer. Era o quanto eu queria repetir. Virei o rosto devagar. Elena estava de lado, virada pra longe de mim, os ombros pequenos, o cabelo espalhado no travesseiro. Parecia menos uma prisioneira e mais alguém que tinha sido arrastada por uma maré grande demais. Uma parte de mim quis tocar. Encostar de leve, só pra sentir que ela estava ali. Só pra confirmar que eu não tinha quebrado alguma coisa que eu ainda precisava inteira. Eu me sentei na cama como se o colchão queimasse. Não. Isso era fraqueza. E fraqueza... se espalha. Eu me levantei, peguei a calça do chão e vesti sem fazer barulho. A arma estava onde eu deixei, no lugar exato, porque eu preciso de ordem quando tudo dentro de mim vira caos. Coloquei o coldre, fechei a fivela do cinto, e respirei fundo até o impulso de voltar pra cama morrer. Não foi rápido. Eu fui até a janela. Lá fora, a manhã nascia limpa e indiferente. Uma luz pálida no jardim impecável, como se a noite anterior tivesse sido um sonho r**m que não deixava vestígios. Só que deixava. Eu olhei pra minhas mãos. Mãos que puxam gatilho sem tremer. Mãos que constroem e destroem. Mãos que tocaram Elena e... p***a. Eu fechei os olhos por um segundo, esmagando o pensamento. Quando me virei, Elena estava sentada na cama, abraçando os joelhos, o rosto pálido. Os olhos dela vieram direto pra mim. Não com coragem. Com medo. Com aquela mistura que me deixava doente, porque eu reconhecia. Ela tinha medo de mim... e ainda assim me procurava. Isso me dava poder. E me dava raiva. — Levanta — eu disse, a voz baixa, firme. Comando. Segurança. Frieza. Ela piscou, como se demorasse a entender. — Pra quê? — Você vai voltar pra boate — respondi. O olhar dela mudou. Uma coisa acendeu ali, entre dor e incredulidade. — Você... vai me mandar de volta? — Sim. — Por quê? — a voz dela falhou no final, mas ela segurou o resto. Teimosa. Brava. Doce demais pra sobreviver. Eu fui até o armário e puxei uma roupa simples. Nada caro. Nada que gritasse "meu". Joguei sobre a cama. — Porque lá é onde você sabe as regras — eu disse, sem olhar pra ela. — Aqui você não sabe. Era metade verdade, metade mentira. A verdade era mais feia. Aqui, eu não sabia as regras. Elena apertou o tecido entre os dedos, como se aquilo fosse uma ofensa. — Você tá... arrependido? A palavra entrou como faca. Eu parei por um segundo. Só um segundo. O suficiente pra sentir o que eu não devia sentir: culpa. Eu engoli. — Eu não me arrependo de proteger o que é meu. Os olhos dela arregalaram, e eu vi o impacto. Eu vi o medo crescendo. — Eu não sou sua — ela sussurrou. Eu me aproximei até ficar perto demais e vi a forma como o ar dela sumiu. Eu poderia ter usado isso. Poderia ter encostado, poderia ter prendido, poderia ter feito ela calar com a minha boca. Eu me obriguei a ficar parado e Elena soltou uma risada curta, amarga. — Você tem medo. Eu senti meu maxilar travar. — Não fala do que você não entende. Ela levantou o queixo, mais corajosa do que devia. — Eu entendo que você me trouxe pra cá... e agora quer fingir que eu não existe. Eu cheguei ainda mais perto, e a minha voz saiu baixa, perigosa. — Você existe demais. O silêncio que veio depois pesou no quarto. Elena desviou o olhar primeiro, como se aquela frase machucasse mais do que grito. Eu apontei com a cabeça para o banheiro. — Troca. Eu te levo. Ela hesitou, depois se levantou com cuidado por causa do tornozelo. Passou por mim sem encostar. Um gesto pequeno, mas cheio de significado. Quando a porta do banheiro fechou, eu apoiei as mãos na cômoda e abaixei a cabeça. Eu precisava distância. Porque eu não sabia o que eu faria se ela me pedisse pra ficar. E eu odiava isso. No caminho de volta, Elena ficou muda. As mãos no colo, o corpo rígido, olhando pela janela como se cada rua fosse uma lembrança que ela queria esquecer. Eu não falei também. Eu não tinha nada que não fosse veneno. Quando chegamos à boate, ainda estava cedo. A fachada parecia limpa demais, elegante demais. Como se tudo ali fosse um conto pra turista. Eu parei o carro na entrada lateral e desci primeiro. Elena saiu devagar, e eu vi o jeito como ela mancava quase imperceptível. Raiva subiu em mim. Raiva dela? Não. Raiva do mundo. Raiva de mim. Ivy apareceu rápido, olhos atentos, como sempre. — O que aconteceu? — ela perguntou, olhando primeiro pra Elena e depois pra mim, como se já soubesse que a resposta era feia. Eu não respondi. Só falei o que importava. — Ela fica sob sua responsabilidade — eu disse. Ivy estreitou os olhos. — Ela já tava. — Agora é diferente — eu respondi. Elena olhou pra mim como se quisesse dizer alguma coisa. As palavras não vieram. Ou ela não quis dar esse gosto. Ivy tocou o braço dela com cuidado. — Vem comigo, querida. Elena deu um passo, depois parou e virou o rosto pra mim uma última vez. Os olhos dela não estavam só assustados. Estavam feridos. — Você não pode me jogar pra longe toda vez que sentir alguma coisa — ela disse, baixa. Meu peito apertou de um jeito que eu quis arrancar com as unhas. — Eu posso — eu menti. Elena piscou devagar, como se aquela mentira fosse a confirmação de tudo que ela temia. Então ela foi, seguindo Ivy, sem olhar pra trás. Eu fiquei parado por um segundo a mais do que devia, encarando a porta por onde ela sumiu. Depois eu virei as costas. Porque era isso que homens como eu fazem.
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