Catherine Narrando
Tudo aconteceu rápido demais depois disso. Em menos de uma semana, minha vida inteira cabia em duas malas novas que Olga escolheu para mim. Ela resolveu absolutamente tudo. Documentos, passaporte, passagem. Eu m*l entendi como, só sabia que acontecia. Enquanto eu assinava papéis que não compreendia direito, ela falava com pessoas ao telefone em idiomas que eu não reconhecia, sempre calma, sempre no controle.
No dia em que fui me despedir da minha mãe, a casa estava diferente. A despensa cheia, sacolas de mercado espalhadas pelo chão, comida suficiente para meses. Remédios organizados em caixas novas, médicos agendados, dinheiro guardado em um envelope grosso que Olga colocou dentro da gaveta da cômoda.
— Isso aqui é pra tudo que ela precisar — ela me disse, na frente da minha mãe. — Qualquer coisa, você me liga.
Minha mãe chorou. Me abraçou forte, com aquela força fraca de quem já não tem muito corpo, mas ainda tem amor demais.
— Vai, minha filha — ela disse. — Vai viver. Não se preocupa comigo.
Eu prometi que voltaria. Prometi que era só trabalho. Prometi tudo o que precisava prometer para conseguir sair pela porta sem desmoronar.
No aeroporto, eu não sabia para onde olhar. Nunca tinha visto tanta luz, tanta gente bem vestida, tanta pressa organizada. O avião parecia um prédio. Um milagre. Quando sentei na poltrona perto da janela, minhas mãos tremiam. Olga estava tranquila ao meu lado, conversando baixo com outras duas meninas que viajariam conosco. Elas pareciam tão perdidas quanto eu — bonitas, nervosas, cheias de expectativa.
Quando o avião decolou, senti o estômago subir e meus olhos se encheram de lágrimas. Não de medo. De emoção. Eu estava saindo da Rússia. Pela primeira vez na vida, não era para fugir era para crescer.
Durante o voo, Olga nos tratou como se já fôssemos parte de algo importante. Falou de trabalho, de postura, de imagem. Disse que o Brasil era quente, bonito, cheio de oportunidades. Que lá tudo era maior, mais intenso, mais vivo.
— Vocês vão gostar — ela garantiu. — E vão ganhar dinheiro como nunca ganharam.
Quando pousamos, eu senti o choque do calor atravessar a pele. O ar era diferente. O cheiro era diferente. Tudo era diferente. O aeroporto parecia um shopping gigante, e eu me senti pequena e ao mesmo tempo poderosa por estar ali.
Olga nos levou direto para comprar roupas, nunca vou esquecer aquele dia. Vestidos, sapatos, bolsas, lingeries caras, maquiagem, perfumes. Tudo pago sem que ela sequer piscasse. As vendedoras nos olhavam como se fôssemos importantes. Como se fôssemos alguém. Pela primeira vez, ninguém me tratava como invisível.
— Isso tudo é investimento — Olga disse, sorrindo. — Aparência também é ferramenta de trabalho.
Eu acreditei. Acreditei quando ela nos levou para um apartamento bonito, limpo, silencioso. Acreditei quando disse que precisaríamos descansar antes de começar. Acreditei quando falou que, nos primeiros dias, observaríamos, aprenderíamos, nos adaptaríamos.
À noite, deitada na cama macia, com o ar-condicionado ligado e a mala aberta cheia de roupas novas, eu pensei na minha mãe. Pensei no dinheiro deixado com ela. Pensei em como tudo tinha mudado rápido.
Eu não sabia exatamente que tipo de trabalho faria. Mas eu tinha certeza de uma coisa: eu nunca mais voltaria a contar moedas sobre um balcão.
O problema é que, enquanto eu dormia acreditando que tinha sido escolhida alguém, em algum lugar, já tinha decidido quanto eu valia e essa conta não era minha.
O quarto parecia flutuar sobre o Rio de Janeiro.
As portas de vidro da sacada estavam abertas, e o vento morno entrava trazendo cheiro de sal, de cidade viva, de alguma coisa boa que eu nunca tinha respirado antes. As luzes lá embaixo não piscavam como em Vladivostok — elas brilhavam constantes, seguras, como se aquela cidade não tivesse medo de nada.
— Meu Deus… — uma das meninas murmurou, apoiando o celular no vidro. — Isso aqui é real mesmo?
— Parece mentira — a outra respondeu, rindo. — Se eu acordar amanhã e isso for sonho, eu vou surtar.
Eu encostei no parapeito, sentindo o coração acelerar. Tirei várias fotos seguidas, tentando capturar tudo ao mesmo tempo: a vista, o reflexo das luzes no vidro, o meu próprio sorriso que eu quase não reconhecia. Eu estava feliz. Feliz de verdade. Uma felicidade leve, solta, que não cobrava nada em troca.
Sobre a mesa, uma garrafa de champanhe já estava aberta. Olga tinha deixado ali antes de sair, como se aquilo fosse um detalhe simples, comum. Servimos as taças rindo, derramando um pouco no chão, brindando a coisas que nem sabíamos nomear direito.
— Ao Brasil — alguém disse.
— Ao dinheiro — outra completou.
— À gente — falei, erguendo a taça.
Bebemos. Rimos alto. Comentamos das roupas novas espalhadas pelas camas, dos sapatos alinhados no chão, das malas que ainda cheiravam a loja. Uma falava que nunca tinha usado salto daquele tamanho, a outra dizia que não sabia nem pra onde olhar quando entrava numa loja chique.
— Você viu a cara da vendedora quando a Olga falou “pode separar tudo”? — uma delas disse, gargalhando.
— Parecia que a gente era famosa — a outra respondeu.
— Talvez a gente seja — falei, meio brincando, meio acreditando.
Voltei pra sacada, deixando o vento bagunçar meu cabelo. Pensei na minha mãe. Pensei no dinheiro que Olga tinha deixado com ela, nas sacolas de comida, nos remédios organizados. Pela primeira vez, a culpa não vinha junto com a felicidade. Pela primeira vez, eu sentia que estava fazendo a coisa certa.
Foi quando a porta do quarto se abriu. Olga entrou acompanhada de dois homens grandes demais para aquele espaço. Altos, largos, vestidos de preto, com a postura de quem não pede licença. O clima mudou no mesmo instante. O riso morreu no ar como se alguém tivesse desligado o som.
— Vamos, meninas — Olga disse, no mesmo tom calmo de sempre. — Vou levar vocês pra conhecer o trabalho de vocês.
Nos entreolhamos, surpresas, mas animadas.
— Agora? — uma delas perguntou. — Achei que fosse amanhã.
— Melhor já ir se ambientando — Olga respondeu, sorrindo de leve. — Troquem de roupa. Rápido.
A palavra rápido soou diferente. Mesmo assim, obedecemos. O quarto virou um corre-corre confuso. Vestidos sendo escolhidos às pressas, sapatos calçados com dificuldade, maquiagem ajustada no espelho. Puxamos as malas instintivamente, como se aquilo fosse parte do combinado, mesmo sem ninguém ter pedido.
— Será que é tipo um evento? — uma das meninas cochichou.
— Deve ser — respondi, tentando manter o sorriso. — Pra conhecer o lugar.
Descemos todas juntas, Olga à frente, os homens logo atrás. Entramos direto numa van escura estacionada na porta do prédio. O interior cheirava a couro e produto de limpeza forte. O motorista não olhou para trás.
Assim que todas entraram, Olga se virou para nós.
— Meninas, me entreguem os celulares, por favor.
Fiquei confusa.
— Pra quê? — alguém perguntou.
— Onde vocês vão agora é proibido tirar fotos — Olga explicou, tranquila. — Regras do local.
Hesitamos por um segundo, mas ninguém quis parecer desconfiada demais. Uma a uma, fomos entregando os celulares. Quando chegou a minha vez, segurei o aparelho com força por um instante antes de passar para a mão dela.
Assim que o último celular foi recolhido, a porta da van se fechou com um som seco.
O motor ligou e enquanto o veículo começava a se mover pelas ruas do Rio de Janeiro, algo apertou no meu peito — não forte o bastante para gritar, mas suficiente para avisar que alguma coisa tinha acabado de mudar.
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