Catherine Narrando
Separaram a gente rápido demais. Não houve explicação, nem despedida direito. Um dos seguranças puxou as outras meninas pelo braço, falando baixo, apontando para um corredor oposto. Elas choravam, perguntavam para onde estavam indo, mas ninguém respondeu. Os passos delas foram ficando distantes até virarem só eco, depois nada. Fiquei sozinha? Como já era o esperado.
— Ela fica aqui — Olga disse, sem me olhar.
Dois homens me conduziram pelo braço até outra porta. Eu não resisti dessa vez. O corpo estava pesado demais, a cabeça girando, como se tudo tivesse acontecido rápido demais para eu conseguir reagir de novo. A porta se abriu e fui empurrada para dentro.
O quarto era grande. Grande demais para uma pessoa só. Cama enorme, lençóis claros, iluminação indireta, paredes limpas, frias. Um espelho grande em uma das paredes. Um banheiro fechado logo ao lado. Não parecia um quarto de hotel. Parecia um quarto de espera. Um lugar preparado para alguém chegar. Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Olga entrou atrás de mim.
— Fica aqui — disse, seca. — Depois a gente conversa.
— Olga… — tentei, a voz quebrando. — Por favor…
Ela me encarou por alguns segundos. Não havia raiva no rosto dela. Nem prazer. Só cálculo.
— Chorar não muda nada — respondeu. — Descansa.
Saiu, a porta se fechou. Ouvi o som da chave girando do lado de fora, o clique ecoou no quarto como um tiro silencioso. Foi ali que eu desabei.
Caí sentada no chão, as costas escorregando pela parede até eu ficar encolhida, os joelhos puxados contra o peito. O choro veio forte, descontrolado, doído. Chorei como nunca tinha chorado antes, sem me importar com som, com dignidade, com nada. Chorei pela minha mãe. Por mim. Pelo erro. Pelo medo.
Eu não sabia o que estava acontecendo. Não sabia se alguém estava vindo. Não sabia se aquilo era uma punição, um preparo, um aviso. Só sabia que estava sozinha e trancada.
Levantei depois de um tempo não sei quanto. O tempo ali parecia não existir. Caminhei devagar pelo quarto, como se ele pudesse me atacar a qualquer momento. Passei a mão pelo lençol da cama, macio demais, caro demais. Aquela cama não era para dormir. Aquilo eu sabia, mesmo sem querer saber.
O espelho me devolveu uma imagem que eu quase não reconheci. Maquiagem borrada, olhos vermelhos, rosto inchado de chorar. Aquela não era a garota que tinha brindado na sacada horas antes. Aquela era alguém quebrada.
Sentei na beira da cama, depois me encolhi no canto, longe da porta, longe do espelho, tentando desaparecer dentro de mim mesma. Cada som do lado de fora fazia meu corpo inteiro travar. Passos no corredor. Vozes distantes. Uma porta batendo. Risadas abafadas.
Eu pensava: devem estar esperando alguém chegar. Ou: alguma coisa está sendo preparada. Ou ainda: talvez isso seja só para me assustar.
Mas nenhuma dessas ideias trazia alívio. O silêncio voltou. E foi pior do que o barulho. Fiquei quieta. Não por coragem, mas por instinto. Como um animal que entende que se mexer demais só chama mais atenção. Abracei minhas próprias pernas e fiquei ali, pequena, tentando respirar devagar, tentando não enlouquecer.
Eu não sabia quando aquela porta ia se abrir. Não sabia quem ia entrar. Só sabia que, naquele quarto bonito demais, limpo demais, silencioso demais algo estava prestes a acontecer. E eu não tinha mais para onde correr.
Eu não sei em que momento o choro virou silêncio.
Só sei que o corpo cansou antes da dor passar. Os músculos começaram a doer, a cabeça pesou, e em algum ponto entre o medo e o esgotamento eu adormeci ali mesmo, encolhida no canto do quarto, abraçando as próprias pernas como se pudesse me proteger de alguma coisa. Não houve sonho. Não houve descanso. Foi apenas um apagar forçado, como quando o corpo desliga porque não aguenta mais.
Quando acordei, tudo continuava escuro.
Não havia janela grande, não havia luz natural. Apenas a mesma escuridão abafada, o mesmo cheiro limpo demais, o mesmo silêncio pesado. Eu não fazia ideia de quanto tempo tinha passado. Horas? Um dia inteiro? Não tinha como saber. A única coisa que eu sabia era que tinha dormido… e acordado ali.
Meu coração começou a bater mais rápido quando ouvi vozes. Vinham do corredor. Uma voz masculina, grossa, firme, falando rápido demais para eu entender. Não era russo. Não era inglês. O som era duro, arrastado, com aquele ritmo que eu já tinha ouvido antes, quando Olga falava ao telefone. Brasileiro. Eu tinha certeza.
As palavras batiam na porta fechada como golpes invisíveis.
Meu corpo inteiro começou a tremer. O ar ficou curto. O peito apertou. O medo não veio devagar ele explodiu dentro de mim. Eu sabia. Eu sabia o que aquele lugar era. Eu sabia o que ia acontecer comigo ali. E, naquele momento, tive medo real de morrer.
As lágrimas começaram a cair antes mesmo que eu percebesse.
— Нет… нет… пожалуйста… — sussurrei primeiro, quase sem voz.
(Não… não… por favor…)
A voz no corredor se aproximou. O som dos passos ficou mais próximo. Mais pesado. Meu corpo entrou em pânico.
Levantei num salto e corri até a porta. Comecei a bater com as duas mãos, descontrolada, o coração quase saindo pela boca.
— ПОМОГИТЕ! ПОЖАЛУЙСТА! — gritei, a voz embolada pelo choro.
(AJUDA! POR FAVOR!)
Eu falava em russo, rápido, errado, desesperado demais até para minha própria língua.
— Я НЕ ХОЧУ! Я БОЮСЬ! ПОМОГИТЕ МНЕ! —
(EU NÃO QUERO! EU TENHO MEDO! ME AJUDA!)
As palavras saíam todas misturadas. Eu tremia tanto que m*l conseguia ficar em pé. Batia na porta como se aquilo pudesse rasgar a madeira, como se alguém do outro lado fosse entender, fosse se importar.
Ouvi a voz do homem mudar. Ficou mais alta. Mais irritada. Não entendi o que ele disse, mas entendi o tom. Raiva. Impaciência.
Meu choro virou grito.
— ПОМОГИТЕ! Я ПРОШУ ВАС! —
(AJUDA! EU IMPLORO!)
Bati mais forte. Gritei mais alto. O medo já tinha tomado tudo. Eu não pensava mais em dignidade, em vergonha, em nada. Só queria sair viva dali.
De repente, a porta se abriu com força.
Antes que eu pudesse reagir, senti o impacto seco no rosto.
O tapa veio forte, estalado, me jogando para o lado. A dor explodiu na minha face e o gosto de sangue subiu na boca. Cambaleei, quase caí.
— CALA A BOCA! — a voz veio conhecida demais.
Olga.
Ela entrou e fechou a porta atrás de si. Em dois passos estava em cima de mim. Segurou meu queixo com força, os dedos afundando na minha pele, e tampou minha boca com a outra mão, abafando qualquer som que eu tentasse fazer.
— Você quer morrer? — ela sussurrou, os olhos frios, próximos demais do meu rosto. — Quer piorar tudo?
Minhas lágrimas escorriam sem controle. O corpo inteiro tremia debaixo das mãos dela.
— Não grita — continuou, baixa e ameaçadora. — Aqui ninguém vem salvar você.
Tentei balançar a cabeça, tentando respirar por entre os dedos dela.
— Escuta bem — disse, apertando meu queixo ainda mais. — Se você fizer isso de novo, eu juro que você vai desejar não ter acordado hoje.
Ela me soltou com um empurrão.
Caí sentada no chão, ofegante, com o rosto queimando, o coração disparado, o medo grudado na pele como suor frio.
Olga me olhou de cima a baixo, ajeitou a roupa como se nada tivesse acontecido e falou, fria, antes de sair:
— Aprende a ficar quieta. Vai facilitar muito a sua vida aqui.
A porta se fechou de novo. O silêncio voltou. E eu fiquei ali, sentada no chão, com a mão no rosto ardendo, o corpo em choque e a certeza esmagadora de que aquele lugar não era só uma prisão.
Era um aviso. E eu tinha acabado de aprender, do jeito mais c***l possível, que gritar não adiantava nada.