Beatriz narrando
Eu sempre acho engraçado como o avião pousa e, em quinze minutos, eu saio da Suíça e volto pro Brasil mas, na verdade, eu não volto pra lugar nenhum. Eu vivo num mundo suspenso há anos: nem mais do morro, nem totalmente do asfalto.
Quando o motorista para em frente ao nosso prédio na Barra, a portaria já está aberta, o porteiro quase se curva, o elevador social já me espera destrancado. Vidro, mármore, cheiro de flor importada espalhada por uma arrumadeira que eu nem lembro o nome. Tudo muito bonito, muito perfeito, muito “dona Beatriz Montenegro”.
Mas por dentro, eu ainda sei exatamente como é o cheiro do barro molhado da Rocinha depois da chuva. Isso ninguém tira.
Entro em casa e antes mesmo de ver gente, eu ouço o barulhinho das patinhas.
— Minha Nina… — o sorriso vem fácil.
A babá da Nina vem logo atrás, segurando a coleira rosa da shih tzu mais mimada desse país. A cachorrinha praticamente se joga em cima de mim, abanando o r**o como se eu tivesse ido pra guerra e voltado vitoriosa.
— Dona Beatriz, ela sentiu tanta a sua falta… — a babá diz, rindo. — Não parou de rondar a porta.
— Aposto que sentiu mais falta da cama king do que de mim — respondo, rindo também, pegando a bolinha do chão. — Não foi, Nina? Sua interesseira…
A cachorra late baixinho, como se respondesse. Eu largo a bolsa no aparador de mármore, tiro o salto, alongo os dedos dos pés. O piso gelado é a coisa mais real que eu piso hoje.
Eu balanço a cabeça, fazendo carinho na Nina, que agora deita de barriga pra cima pedindo dengo.
— Pode ir descansar, Ana. Obrigada por ficar com ela esses dias. Se quiser levar aquele mimo que eu deixei separado, tá em cima da bancada da cozinha.
— Ah, obrigada, dona Beatriz! — ela sorri largo. — A senhora é um anjo.
Ela some pelo corredor e eu finalmente fico sozinha na sala. Sozinha com o silêncio e com a verdade que todo mundo acha que eu não enxergo.
Eu rio sozinha.
Porque o problema do Vittorio e da Olga não é eles terem um caso. É eles acharem que eu não sei.
Eu ando devagar pela sala enorme, olho a vista da varanda — mar, prédios, piscina lá embaixo — e lembro de um outro alto, de outra vista. A laje do meu pai, lá na Rocinha. Falcão Velho. Dono do morro, dono da boca, dono do medo de muita gente. Ele que ensinou metade desse Estado o que é poder informal.
Eu encosto a mão no vidro.
— Eles esquecem de onde eu vim, né, Nina? — falo baixinho.
A cachorra inclina a cabeça.
Meu pai morreu, virou lenda, virou história de polícia e de bandido. A Rocinha ficou órfã. Eu podia ter assumido as rédeas, se quisesse. Eu conhecia cada código, cada regra, cada nome importante. Mas eu escolhi sair. Escolhi outra vida. Casei com um “empresário do entretenimento” que tinha o brilho que o morro nunca ia me dar.
Só que o sangue não some. Ele só troca de roupa.
Vittorio acha que eu sou só a esposa calma, delicada, de voz mansa, joias discretas e vestidos de seda. A filha de bandido que foi lapidada pra virar dama. A mãe do herdeiro, a que organiza jantar de gala, a que faz caridade, a que posta foto com legenda bonita falando de “projeto social”.
E a Olga… A Olga acha que é sombra, mistério e poder. m*l sabe ela que eu sei de tudo.
“Há mais de vinte anos”, ele pensa que esconde. Coisa mais ridícula. A mulher sempre sabe quando outra mulher está comendo o marido dela. Ainda mais uma que foi colocada na nossa vida por ele mesmo. Eu vi aquela ruiva nascer de peruca barata e salto torto até virar “europeia fatal”. Quem pagou o silicone? Quem bancou o cabelo? Quem mandou fazer os dentes? Quem paga o hotel cinco estrelas dela quando eles viajam “a trabalho”?
O dinheiro é dele, mas o sobrenome é meu. Eles acham que eu não conto. Eu conto. Eu só não falo.
Eu caminho até o aparador, pego a foto do Natan ainda criança, com o joelho ralado, sorrindo sem dente, segurando um pipa na mão. Do lado dele, meu pai, sério, mas com o olho iluminado. O mesmo olho que o meu filho herdou.
— Se seu avô visse no que isso virou… — murmuro.
Natan ficou com a parte que eu recusei. O morro. A coroa suja. A adrenalina. Eu não quis aquilo pra mim. Não quis ser rainha de favela, quis ser “esposa de empresário”. Só que, no final, é tudo o mesmo jogo com cenário diferente. O meu filho se tornou exatamente o que meu pai era. Só que com terno italiano e herança europeia.
Vittorio acha que me engana quando fala de “contatos internacionais”, “importações”, “parcerias exclusivas”. Ele esqueceu que eu cresci ouvindo negociação de droga sussurrada na cozinha, que eu vi arma desmontada em cima de mesa de café, que eu aprendi a ver mentira no olho antes de aprender a escrever meu próprio nome.
Eu sei da Olga. Sei das viagens. Sei da “recrutadora”. Sei que tipo de “mulher de luxo” ela entrega. E sei também que, enquanto ele está lá embaixo brincando de deus com corpo de menina, sou eu quem segura a casa, os sobrenomes, a imagem, o filho, a família.
A Olga não me incomoda. Muito pelo contrário. Ela ocupa o lugar dela, faz o papel dela. Tira o peso de cima de mim. Deixa ele gasto em outro colo. Eu prefiro assim. Quem acha que está ganhando é ela. Quem sabe onde realmente está sentada sou eu.
— Né, Nina? — falo, pegando a cachorra no colo. — Eu me faço de boba, e eles acreditam.
Minha mãe sempre dizia: “Filha de bandido sobrevive não é gritando mais alto, é sabendo a hora de ficar quieta e ouvir”. Eu aprendi direitinho.
Eu deixo o Vittorio achar que me esconde a Olga.
Deixo a Olga achar que é insubstituível.
Deixo o Natan achar que manda sozinho lá em cima no morro.
No final, eu só observo. Junto peças. Ligo pontas.
E quando tudo isso aqui começar a cobrar seu preço porque vai cobrar, sempre cobra eu vou saber exatamente onde pisar pra não cair junto.
Eu beijo a cabeça da Nina, sento no sofá enorme da sala, pego o celular e abro a última mensagem do meu filho, não respondida. Uma foto dele na laje, sem camisa, com o olhar duro do avô.
Eu suspiro.
— Você acha que engana quem, Vitório? — sussurro pro nada. — Eu fui criada por um homem que mandava no morro antes de você sonhar em mandar numa boate.
Eu não sou cega. Eu não sou burra. Eu só aprendi a sobreviver sorrindo. E isso é uma arma que nem o Vittorio, nem a Olga, nem o mundo inteiro sabem usar melhor do que eu.