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1523 Words
Vitório Narrando O avião particular tocou o solo do Galeão com a mesma suavidade com que eu havia deixado a Europa sem turbulências, sem alertas, sem testemunhas. Ao meu lado, Beatriz tirava os fones de ouvido e ajeitava os cabelos, ainda encantada com a viagem, como se tudo não tivesse passado de um passeio romântico. E foi, para ela. Para mim, foi apenas a pausa necessária antes do próximo movimento. — Chegamos, amor — ela sorriu, empolgada. — Já tô morrendo de saudade da Nina. A babá mandou vídeo dela ontem, viu? — Vi sim — respondi com um meio sorriso, sem olhar. Peguei o telefone assim que os pneus tocaram o chão. Conexão retomada. Três ligações perdidas de Olga. Mensagens curtas. “Missão cumprida.” “Chegamos.” “Tudo nos conformes.” Tudo nos conformes. É o mínimo que eu exijo. — Vai direto pra casa com o motorista, Bia. Eu tenho umas pendências pra resolver antes. Ela franziu a testa. — Amor… mais reunião? — Assuntos da empresa — disse, como sempre. — Nada demais. Ela assentiu, mesmo sabendo que eu nunca compartilharia nada além do necessário. Beatriz sabia o lugar dela: o lar, o sorriso, a fachada. Era inteligente o bastante pra não perguntar o que não devia. Eu desci antes dela. Do lado de fora, meu carro já me esperava. Vidros escuros, ar-condicionado no máximo. Entrei, dei um toque no motorista. — Diretamente pra Barra. Quero ver o que Olga me entregou. Ele não respondeu. Apenas ligou o motor e acelerou. Eu precisava ver com meus próprios olhos. Porque, apesar de confiar na precisão da Olga, havia algo nesse carregamento que me interessava mais do que o habitual. A menina russa. Aquela que, segundo ela, “valia milhões”. Não era sobre beleza. Não era apenas isso. Era sobre pureza, sobre escassez. Era sobre a raridade que Olga sempre soube caçar. Mas havia algo naquela descrição uma chama, uma revolta, um brilho nos olhos que nem fotos conseguiam esconder. E era por isso que eu precisava ver com os meus próprios olhos. O Rio estava nublado quando o carro entrou na Zona Oeste. Uma brisa estranha soprava do mar, carregada. Como se o próprio destino soubesse que algo estava prestes a mudar. E estava. Porque hoje, eu conheceria a nova peça do meu império. A mais rara, a mais cara, a mais difícil de dobrar. E talvez a mais perigosa. A porta do carro se fechou atrás de mim com um estalo seco. O vento da noite carioca tocava minha pele com o peso úmido de promessa. A fachada da boate se iluminava em tons de ouro velho e preto — discreta, imponente, cara. Tudo exatamente como eu gosto. Dois seguranças à porta endireitaram a postura quando me viram. Não falei nada. Um aceno de queixo bastava. Eles sabiam quem eu era. Todos ali sabiam. E quem esquece não respira por muito tempo. Entrei. O ambiente abafado, o perfume forte no ar, as luzes calculadas aquele cheiro de grana misturado com pecado. Mulheres, uísque, negócios. Mas eu não vim por isso. Caminhei em linha reta. Quem precisava ser notado se afastava. Quem tinha algo a dizer, se calava. Subi os degraus, empurrei a porta do escritório. Ela já estava lá, Olga sentada de pernas cruzadas no sofá de couro, vestido preto justo demais pra quem dizia que “trabalhava”, taça de vinho tinto equilibrada na mão, olhar calculado. — Chegou rápido — ela disse, um sorriso lento escapando. — Achei que ia aproveitar mais a esposa. — A Beatriz já está em casa — falei, direto. — Assunto encerrado. Ela riu com o canto da boca, mas se levantou. Se conhecemos há mais de vinte anos, ela sabe que meu humor muda de acordo com o que me interessa. E naquele momento… o que me interessava era a russa. — Eu quero ver a nova — falei, indo direto à mesa. Ela arqueou uma sobrancelha. — A Caterine? — É. A tal “joia rara” que você falou. — Vitório… — ela se aproximou, contornando a mesa, os saltos fazendo barulho no piso de mármore. — Por que todo esse interesse? Ela é só mais uma. Bonita, sim. Frágil, sim. Mas não é a primeira que chora, não é a primeira que resiste. — E não vai ser a última — completei, frio. — Mas você disse que ela é diferente. Eu quero ver com os meus olhos. Ela encostou a mão no meu peito, um toque antigo, íntimo, possessivo. — Está estranhamente ansioso, meu amor. Desde quando você se importa antes de ver a performance? Afasto a mão dela com calma. Elegância é meu segundo nome — mas paciência nunca foi o primeiro. — Desde que você me mandou áudios de uma mulher gritando em russo dentro de um quarto e chamou isso de “conquista”. Você nunca me vendeu uma mercadoria com grito na trilha sonora. Ela bufou, afastando-se um passo. — Eu cuidei de tudo. Ela está isolada. Vai quebrar, como todas quebram. — Mas ainda não quebrou — completei, olhando nos olhos dela. E ali, por um segundo, vi o incômodo. O incômodo de saber que, talvez, essa não fosse só mais uma. Olga virou o rosto. — Dou-lhe mais dois dias. No máximo. Ela vai implorar pra entrar na vitrine. Cruzei os braços, encostei na mesa, observando cada movimento dela. A forma como ela apertava a taça, como mordia o canto do lábio. Ela estava irritada. E com ciúmes. — Quero vê-la agora — ordenei, num tom que não admitia questionamento. Olga respirou fundo. — Como quiser, senhor Montenegro. Olga saiu do escritório na frente, os saltos marcando o chão como um metrônomo. Cada passo dela era ensaiado, seguro, sedutor — e caro. Roupa desenhada no corpo, cabelo ruivo tratado com o que há de melhor em salão europeu, curvas esculpidas sob bisturis que eu mesmo banquei. Até o sangue que corre nela tem minha assinatura. Eu a criei. Do lixo ao luxo. Da lama ao salto quinze. Ela me pertence — até mesmo quando se esquece disso. Caminhei atrás, ajustando os punhos da camisa, ouvindo o eco abafado da boate. — Preciso te dizer uma coisa — ela soltou de repente, sem virar o rosto. — O Natan me ligou. Revirei os olhos. — Eu não quero saber do Natan. — Ele está se mexendo… você sabe como ele fica quando desconfia de alguma coisa. — Natan só pensa naquele morro de merda — cortei, seco. — Naquela favela, naquela ilusão de poder. Quando eu achar que ele está pronto, ele vai descobrir a verdade sobre tudo isso aqui. Até lá… ele cala a boca e obedece. Ela não respondeu. Apenas continuou andando com aquele ar de quem sabe mais do que diz mas não ousa desafiar quem manda. Chegamos à ala restrita. Duas portas trancadas, corredores de mármore fosco, iluminação fria. Um dos seguranças se afastou ao ver quem se aproximava. — Está aqui dentro — Olga disse, parando em frente à última porta. — Isolada. Como você pediu. — Eu não pedi isolamento — respondi. — Pedi silêncio. Ela se calou. Pegou a chave. Mas antes de girar, me olhou por cima do ombro. — Por que tanta curiosidade, Vitto? — perguntou, a voz num tom que misturava ciúme e veneno. — Ela é só mais uma. — Ninguém faz você tremer com “só mais uma”, Olga — respondi, tranquilo. Ela girou a chave e abriu a porta. A escuridão do quarto me envolveu como uma onda morna. O ar estava abafado, denso. E no canto, encolhida, ela. Caterine. Pele pálida demais, olhos grandes demais, cabelo bagunçado sobre os ombros, corpo curvado numa pose de defesa. Como um animal acuado. Um anjo quebrado. Mesmo destruída, ela era linda. Linda de um jeito que não se vende. De um jeito que desafia. Ela me olhou. Olhos azuis fixos nos meus. Chorava, mas não desmoronava. Havia raiva ali. Medo, sim — mas também um tipo raro de coragem. — Спаси меня… пожалуйста… (Me salva… por favor…) — sussurrou em russo, quase inaudível. Olga bufou. — E ela ainda insiste nessa palhaçada — disse, revirando os olhos. Mas eu sorri. Porque eu entendi. — Она сказала, чтобы я её спас. (Ela pediu pra eu salvá-la) — respondi, também em russo, sem tirar os olhos dela. Ela arregalou os olhos. Respirava rápido. A boca entreaberta. As mãos trêmulas no colo. Mas não recuou. E isso, por algum motivo que eu ainda não entendia, me agradou. — Вы понимаете меня? (Você me entende?) — perguntei, suave. Ela assentiu com a cabeça, os olhos agora marejados de novo. — Você não vai morrer aqui — falei, em português mesmo. — Mas isso… vai depender de você. A voz dela falhou. — Por favor… — Shhh — eu fiz um gesto leve. — Você está no meu império agora. E pela primeira vez… eu senti que esse império inteiro podia se abalar por causa dela. // pessoal, deixem comentários pra ajudar a autora no engajamento do livro 🥰
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