— Eu odeio você! ODEIO VOCÊ, seu filho da p**a egoísta, odeio esta casa, odeio este país e quero o DIVÓOOOOORCIO!
Dorian Rasmirez desviou de outra porcelana bizantina de valor incalculável, que passou a milímetros de sua orelha esquerda antes de se espatifar espetacularmente na parede do quarto.
— Meu Deus, Christina! — gritou ele. — Calma.
— Calma? — Nua em pelo, seus pequenos s***s rijos como maçãs apontando para o marido feito duas armas e suas feições delicadas contorcidas em uma máscara de raiva, Chrissie Rasmirez não tinha a menor intenção de se acalmar. — Vá se f***r, Dorian, seu veado egoísta! Acha que tem o direito de me dizer o que fazer? — Procurando pelo quarto seu próximo míssil, seus olhos se iluminaram ao pousarem sobre a pintura a óleo na moldura ornamentada acima da cama.
— Não, Chrissie! — implorou Dorian. — O Velázquez não!
Feito uma pantera, Chrissie virou-se e atacou, voando na direção do quadro com os braços estendidos e perfeitamente torneados pelo pilates. Agindo instintivamente — não tinha tempo para pensar —, Dorian saltou em cima dela, derrubando-a sobre a cama como em um jogo de rúgbi. Dorian Rasmirez era um homem grande, passava de 1,80m mesmo calçando apenas meias, e tinha a estrutura física sólida e compacta de um trabalhador. Seus 90 quilos eram quase o dobro do peso de sua pequena esposa, que era uma rata de academia. Ainda assim, ele teve dificuldades em conter Chrissie enquanto ela se contorcia, mordia e chutava furiosamente embaixo dele, virando-se para encará-lo de forma a poder arranhar os braços e as costas dele com suas longas unhas recémfeitas.
O que eu vou fazer com esta mulher?, pensou Dorian, desesperado. Qualquer pessoa que assistisse à luta dos dois — ou melhor, à luta de Chrissie enquanto Dorian tentava em vão se defender — presumiria que havia sido ele quem fora pego traindo, e não que Dorian pegara Chrissie em um quase flagrante com um dos carpinteiros da propriedade. Dorian ia partir naquele dia para Los Angeles e saíra mais cedo de seu pequeno escritório local em Bihor para ir para casa e se despedir da esposa e da filha e terminar de fazer as malas. Ao entrar no quarto principal, encontrara a esposa já nua na cama deles e o jovem Alexandru, um trabalhador local de 19 anos, irremediavelmente entusiasmado enquanto tentava libertar sua ereção dura como pedra de dentro da calça jeans
Abercrombie. Pelo menos o rapaz tivera o bom senso de sair logo, deixando a camisa e as botas pra trás, na ânsia de fugir dali. Era provável que já estivesse agora do outro lado dos Cárpatos. Mas, como sempre quando estava errada e acuada, Chrissie Rasmirez atacava, cuspindo acusações para cima do marido como se fosse ele quem tivesse sido pego com as calças arriadas.
Era alguma surpresa o fato de ela precisar ter amantes, considerando que Dorian nunca estava em casa?
O que ele esperava, mantendo-a presa naquele castelo no quinto dos infernos como uma maldita Cinderela, enquanto ele ia embora e vivia a boa vida de Los Angeles?
Ela odiava aquele lugar. Sentia-se entediada, presa em uma armadilha, sufocada. Era praticamente mãe solteira da filha deles, Saskia, uma adorável lourinha de 3 anos. E assim a vida prosseguia. Antes que se desse conta, Dorian estava na defensiva, se desculpando, tranquilizando-a, explicando. Passaria a ajudá-la mais com Saskia. Prometia que viria mais vezes para casa. A ideia de sua querida Chrissie sendo tocada por aquele rapaz, aquele menino, o deixava com vontade de cortar a garganta dele. Mas, no fim das contas, ele punha a culpa em si mesmo. Sou o arquiteto da minha própria destruição, pensou ele, infeliz. Estou afastando de mim a coisa que mais amo neste mundo.
Exausta demais para continuar lutando, Chrissie acabou desistindo. Cheia de ódio e muito frustrada sexualmente — já vinha querendo levar Alexandru para a cama havia semanas —, debulhou-se em lágrimas.
— Sinto muito... — Soluçou na camisa manchada de sangue de Dorian. — É só que... você não me olha mais como antes. Você nem me nota mais.
Dorian ficou perplexo.
— Não noto você? Não é verdade! Como pode dizer isso? Eu adoro você.
— É verdade sim — choramingou Chrissie. — Você me deixa aqui totalmente sozinha, dia após dia, sem vida, sem carreira, sem escapatória. Como se eu só servisse para cuidar da Saskia.
Dorian não comentou que, com três babás trabalhando em horário integral, era questionável se Chrissie realmente cuidava de Saskia.
— Quando Alexandru olha para mim, ele vê uma mulher, não apenas uma mãe. Ele faz com que eu me sinta viva, Dorian.
Dorian recuou.
— Pare. — Ele pressionou um dedo sobre os lábios dela. — Nunca mais fale o nome daquele garoto. Entendeu? Nunca. — Os olhos dele faiscavam de ciúme; o macho alfa protegendo seu território.
Chrissie respondeu na mesma hora, suas pupilas dilatando, seus lábios e suas coxas nuas abrindo-se com um desejo desvelado. Se não podia ter seu amante adolescente, seu marido teria de servir.
— Mostre que me ama — murmurou ela.
Aos 44 anos, Dorian Rasmirez podia não ter o corpo de Adônis de seu rival de 19, mas, diferente de Alexandru, ele sabia tirar a calça rapidamente. Livrando-se dos jeans enquanto Chrissie arrancava sua camisa, em poucos segundos estava nu, penetrando-a com a mesma paixão, o mesmo desespero, o mesmo desejo que o consumia por dentro desde o dia que a conheceu.
— Você é a minha mulher — sussurrou ele, correndo as mãos possessivamente por cada centímetro do corpo firme e musculoso dela. — Eu amo você, Chrissie. Eu adoro você.
— Então me mostre — suspirou Chrissie. Já estava quase atingindo o clímax, revirando os olhos, perdida em alguma fantasia selvagem só dela. Passara a manhã inteira desejando o jovem carpinteiro romeno. O fato de não poder possuí-lo, seguido do pânico de ser pega e do calor da briga com o marido (brigar com Dorian sempre a excitava) havia levado sua já exagerada libido à estratosfera. Dorian sempre soltava todas as amarras sexuais quando estava com medo. Quando queria, transava como um campeão olímpico, tocando seu corpo como Nigel Kennedy toca um Stradivarius. Neste momento, enquanto ele a acariciava e a provocava, mais de uma vez levando-a ao limite e depois começando tudo novamente, Chrissie sabia que o desejava mais do que jamais desejara Alexandru ou qualquer outro de seus amantes.
Quando ele finalmente gozou, depois de fazê-la ter dois orgasmos, Dorian puxou-a para seus braços fortes como os de um urso e a abraçou tão forte que ela m*l conseguia respirar.
— Faço qualquer coisa para ficar com você, Chrissie — sussurrou. — Qualquer coisa. Você sabe disso.
— Que bom — ronronou ela, fazendo carinho nas costas dele. — Bem, você pode começar deixando seu cartão Centurion comigo. Resolvi fazer uma viagenzinha para Paris enquanto você estiver fora, me distrair com um pouco de cultura. Lilly pode tomar conta de Saskia por alguns dias.
O coração de Dorian pareceu afundar. Controlou-se para não lembrar a Chrissie que eles viviam rodeados de cultura, e que ela nunca demonstrara o menor interesse em nada daquilo. Só naquele quarto, além do Velázquez acima da cama e do lindo vaso bizantino que ela acabara de destruir em um ataque de nervos, havia prateleiras de livros repletas de primeiras edições de clássicos em inglês, italiano e francês, uma penteadeira holandesa pintada à mão que pertencera a Maria Antonieta da França, e dois fólios emoldurados do Messias de Händel, assinadas pelo próprio compositor. Todo o castelo, aquela “prisão” para onde Dorian “arrastara” Chrissie, mantendo-a afastada de sua amada Los Angeles, era uma verdadeira caverna de tesouros do Aladim, com uma coleção de arte e manuscritos capaz de competir com a de algumas das maiores galerias e bibliotecas da Europa. E era tudo deles. Não deles para vender — os tesouros não podiam sair legalmente da Romênia —, mas deles para cuidar, apreciar, deixar de herança para a geração seguinte. Para Saskia, e talvez um dia — se Dorian conseguisse convencer Chrissie a tentar de novo — para um filho, um menino para levar o nome da família adiante.
A realidade era que a única coisa na qual Chrissie Rasmirez estava interessada em Paris eram as lojas de roupas caríssimas da Champs-Élysées. Da última vez que entrara na loja Louis Vuitton de lá, ela gastara mais de 100 mil dólares em uma única manhã. Se ela tentasse fazer isso de novo desta vez, a AmEx pediria os cartões de Dorian de volta. Mas ele não tinha coragem de negar aquilo a ela, principalmente depois da briga daquele dia.
— Claro, querida — suspirou ele, derrotado. — Deixarei o cartão. Vá e se divirta.
Chrissie abriu um sorriso triunfante.
— Não se preocupe, querido. É o que pretendo fazer.
Três horas depois, enquanto o Airbus A360 abria seu caminho turbulento entre as nuvens, Dorian fechou os olhos e tentou se lembrar das técnicas de relaxamento que seu terapeuta lhe ensinara. Imagine-se em uma linda praia deserta. As ondas batem suavemente na areia. Escute o ritmo da maré. Deixe que ela o acalme. Sinta a água morna acariciar seus pés...
Abriu os olhos. Aquilo não estava funcionando. Pegando a bagagem de mão, procurou seu Xanax e o colocou na boca, engolindo-o com o que restara do seu champanhe de antes da decolagem. O comprimido ia demorar um pouco para fazer efeito, mas o álcool o tranquilizou na hora, assim como saber que estava se afastando de Chrissie e de seus problemas por cinco dias. Não que aquela viagem a Los Angeles fosse como férias. Pelo contrário, as verdadeiras batalhas só começariam quando ele aterrissasse. Mas durante as próximas dez horas, pelo menos, ele teria a chance de relaxar. Se conseguisse lembrar como se fazia isso.
Aos 40 e tantos anos, troncudo, cabelo escuro começando a ficar grisalho nas têmporas e com um rosto agradável e simpático — não era exatamente bonito, mas atraente de um jeito um pouco bruto —, Dorian Rasmirez era um dos diretores de cinema mais aclamados do mundo. Com inteligentes olhos castanhos que se estreitavam em uma linha quando ele ria ou se irritava, maxilar forte e nariz torto (quebrara-o em um jogo de futebol no colégio e nunca o consertara), Dorian decerto não era a imagem de um ídolo adolescente. Mas havia algo inerentemente masculino nele que as mulheres consideravam encantador — e já achavam isso muito antes de ele se tornar famoso.
Dorian nasceu e foi criado em White Plains, Nova Y ork, único e adorado filho de um casal de imigrantes romenos. Tanto o pai, Radu Rasmirez, quanto a mãe, Anamarie, haviam sofrido horrores inimagináveis sob a ditadura comunista linha-dura de Ceausescu e chegaram aos Estados Unidos com pouco mais do que o dinheiro que tinham nos bolsos. Membros de duas das mais proeminentes famílias aristocratas romenas, os Rasmirez e os Florescus, Radu e Anamarie viram membros de suas famílias serem presos e assassinados. Eles experimentaram na pele o que significava perder tudo: não apenas riqueza e privilégios, mas sua casa, sua liberdade, seu direito de viver sem intimidação, prisão e tortura. Foram para os Estados Unidos para fugir dos horrores do passado e para construir uma nova vida, e foi exatamente isso o que fizeram.
Radu tornou-se farmacêutico e acabou abrindo uma bem-sucedida rede de pequenas lojas em todo o Condado de Westchester. Sua esposa deu à luz o tão sonhado filho e dedicou sua vida ao tradicional papel de dona de casa, mergulhando na rotina suburbana americana com um inesperado entusiasmo. Graças à forma como Anamarie assimilara a cultura nova-iorquina e a seu amor por todas as coisas americanas, Dorian tornou-se quem era: estudioso, trabalhador e abençoado com uma confiança natural e tranquila que era o perfeito complemento para suas impressionantes habilidades acadêmicas. Para qualquer observador desavisado, Dorian Rasmirez era o epítome da juventude americana desde a ponta de seus mocassins até o colarinho das camisas Brooks Brothers. Foi excelente aluno na escola, conquistando uma vaga na Universidade de Boston, por onde se formou em artes dramáticas. Na época da graduação, já sabia que queria dirigir e, com seu foco e sua determinação de costume, conseguiu uma vaga na prestigiada Escola de Teatro, Filme e Televisão da UCLA. Contudo, por baixo do maravilhoso currículo tipicamente americano, Dorian era tão filho de seu pai quanto de sua mãe. Radu Rasmirez fizera questão de ensinar ao filho a história de sua família, pintando um quadro romântico de suas raízes na Transilvânia, e o castelo de conto de fadas que por direito devia ser de Dorian, se os comunistas não o tivessem roubado.
— Um dia — prometeu Radu —, a justiça triunfará em nossa terra natal e o que é nosso voltará a ser nosso. Quando esse dia chegar, Dorian, você saberá o que é viver como um rei. A honra e a responsabilidade, a alegria e a dor. Nós, os Rasmirez, sempre teremos uma dívida de gratidão com este país. Mas a Romênia continuará em nossos corações pela eternidade.
Claro, para Dorian, “Romênia” era apenas uma palavra, um reino místico que seu pai conjurava para ele, de um passado que o menino não conhecia e não compreendia. Mas o que ele podia compreender era o quanto a herança da família significava para Radu. Nos últimos anos, a sensação de deslocamento, a saudade de casa e a nostalgia que via em seu pai vinham influenciando muito seus filmes.
Havia outras influências também. Principalmente de Chrissie, a atriz enigmática e diabólica que Dorian conhecera e por quem se apaixonara em seu último ano na UCLA, e cuja beleza hipnotizadora (aos olhos de Dorian, pelo menos) o enfeitiçara desde então. Para os padrões de Hollywood, o casamento dos Rasmirez era considerado um feito excepcional. Dorian e Chrissie estavam juntos desde antes de ele se tornar famoso — cinco anos antes do lançamento de Amor e arrependimentos, o drama sentimental que catapultaria Dorian para o sucesso mundial como diretor. No começo, Chrissie era a estrela do casal, como a protagonista Ali, uma chef amalucada, na popular série de televisão Rumores. Uma atriz nata com um timing perfeito para comédia, aos 23 anos Chrissie Sanderson era reconhecida em qualquer canto dos Estados Unidos, com uma base de fãs formada principalmente por adolescentes leais, às vezes até fanáticos. Em pouco tempo estava ganhando muito dinheiro, mais de 50 mil por episódio: uma fortuna naquela época. Foi o suficiente para comprar para eles uma casa confortável em Beverly Hills e para financiar alguns dos primeiros projetos dos filmes de Dorian. Chrissie adorava ser o centro das atenções, mas, incentivada por ele, buscava mais sucesso com a crítica. No mesmo ano em que o lançamento de Amor e arrependimentos mudou a vida de Dorian para sempre, Chrissie estreou na Broadway num dos papéis principais da montagem de Jerry Zaks de Chicago. Foi um grande erro. Nervosa e pouco ensaiada, ela cometeu escorregões feios na noite de estreia. Se ela esperava que o status de queridinha da América fosse protegê-la, surpreendeu-se ao acordar no dia seguinte com as críticas dos jornais, que não foram apenas duras, mas avassaladoras.
“Digna de riso”, disse o New York Times.
“Não sabia para onde olhar”, escreveu The Post.
“Constrangedoramente inexpressiva.”
“Tanto s*x appeal quanto um prato de sopa.” Dorian aconselhou-a a esquecer.
— O que eles entendem da coisa? E daí que você cometeu alguns errinhos, confundiu algumas falas? Nada de mais. Eles têm inveja porque você é uma grande estrela de TV. Você sabe como esses críticos gostam de colocar as pessoas para baixo.
Mas Chrissie não conseguiu esquecer. Mortificada por tal humilhação pública, perdeu a cabeça completamente, abandonando o show da Broadway assim que o contrato permitiu e logo depois saindo do elenco de sua série da NBC. Durante meses, ficou trancada em casa em Los Angeles, recusando-se a participar de qualquer teste ou de dar qualquer entrevista sobre sua intempestiva saída de Rumores. Enquanto isso, claro, a carreira de Dorian decolava de forma espetacular, um sucesso pelo qual Chrissie jamais conseguiu perdoá-lo.
Quinze anos depois, Dorian ainda falava nas entrevistas de sua “esposa incrivelmente talentosa” e era famoso por ser imune às várias tentações de Hollywood. A fidelidade dele era considerada ainda mais admirável nos círculos da indústria já que, aparentemente, Chrissie se recusara durante anos a ter filhos com ele. A maioria das pessoas via isso como o cúmulo do egoísmo da parte dela. Na verdade, sua relutância em ter filhos partia do mesmo princípio de sua recusa a ir a testes, ou a aceitar qualquer uma das protagonistas que Dorian lhe oferecera embrulhadas para presente em todos os filmes dele. Chrissie tinha medo. Presa nas ciladas de suas próprias inseguranças na vida luxuosa que Dorian lhe oferecia, ela reclamava o tempo todo de Los Angeles, de como a cidade era superficial e de como ser esposa de um diretor famoso fazia com que se sentisse vazia e invisível.
Então, quatro anos atrás, três coisas aconteceram. A primeira foi que Dorian descobriu que a esposa estava tendo um caso com o protagonista de um de seus filmes. O romance, na verdade, era o último de uma série de várias aventuras extraconjugais que Chrissie tivera ao longo dos anos para elevar sua frágil autoestima. Mas foi o primeiro que Dorian descobriu, e ele ficou completamente arrasado. A segunda coisa foi que, finalmente, Chrissie concordou em engravidar e concebeu Saskia, o bebê Band-Aid que ambos esperavam que fosse consertar o casamento deles. E a terceira coisa foi que o governo da Romênia entrou em contato com Dorian, sem que ele esperasse, para informar que tinham começado o processo de devolução das propriedades pré-revolucionárias para seus donos de direito. Eles perguntaram se Dorian voltaria a sua “terra” para reclamar sua herança, o castelo histórico dos Rasmirez na Transilvânia, completo com todos os seus inestimáveis tesouros.
Na época, a Romênia parecia um divisor de águas, o recomeço que ele e Chrissie tanto precisavam. Ela o traíra porque estava infeliz em Los Angeles e se sentia uma fracassada lá. Dorian acreditava no casamento. Seus pais ficaram casados por cinquenta anos e foram felizes na maior parte do tempo, mesmo sob circunstâncias muito mais difíceis. Devia a Chrissie e a ele mesmo uma tentativa de consertar o estrago. Tinha nas mãos a chance de levar a esposa e a filha recém-nascida deles para bem longe da loucura de Hollywood. Dorian resgataria Chrissie em seu cavalo branco e a instalaria como rainha em seu castelo de contos de fadas. A pequena Saskia cresceria como uma princesa. E os três viveriam felizes para sempre.
Se fosse totalmente honesto consigo (o que nem sempre era o forte de Dorian), tornar-se pai não havia sido o acontecimento sísmico, emocionalmente transformador que ele esperava. A bebê era um amorzinho, mas, após esperar tanto tempo pela paternidade, Dorian começou a perceber que a ideia de ter filhos era muito mais encantadora que a exaustiva e maçante realidade. E também percebeu, um pouco envergonhado, que uma parte dele ficara decepcionada por Saskia não ser um menino.
Quanto a Chrissie, ela também costumava se deleitar com a ideia da maternidade ou, mais especificamente, com a ideia de si mesma como a mãe perfeita: dedicada, abnegada, instintivamente maternal. Era uma autoimagem à qual Chrissie se agarrava enquanto Saskia crescia, apesar das fortes evidências que indicavam o contrário, e a qual exigia que o marido validasse, elogiando suas habilidades como mãe sempre que possível. Mas a verdade era que, assim como Dorian, Chrissie Rasmirez achava crianças pequenas entediantes, e a própria filha não era exceção. Já sendo àquela altura uma mártir semiprofissional em seu casamento (Chrissie havia se convencido, muito tempo antes, de que sacrificara sua carreira por Dorian, e não no altar de seus próprios medos), seu novo papel como mãe incansável de uma criança exigente acrescentava uma nova flecha de ressentimento ao seu sempre crescente arsenal.
A paternidade recente não era o único problema dos Rasmirez. Apesar do desejo por um recomeço, Dorian tinha seus temores em relação à volta para sua terra natal. A Romênia era o sonho de seu pai, não o dele. E, diferente de Chrissie, ao mesmo tempo que nutria um senso de obrigação (e curiosidade) sobre a terra de seus ancestrais, Dorian gostava da vida em Los Angeles, e a ideia de ir embora não o agradava. Se quisesse continuar trabalhando, teria de se acostumar às terríveis viagens transatlânticas. Só de pensar em passar muito tempo longe da esposa, sentia um aperto no peito de ansiedade. Mas se salvasse seu casamento, valeria a pena. Devia isso a seu pai e a Chrissie.
Embora preferisse morrer a admitir isso agora, Chrissie ficou muito animada com a ideia no começo. Transilvânia! Até a palavra era romântica. Pelo que Dorian contara para ela, a casa — castelo! — estava cheia de riquezas que iam além de sua imaginação: centenas de milhões de dólares em antiguidades. Aparentemente, o governo romeno tinha algumas regras ridículas sobre todos os tesouros terem de permanecer no país, mas um bom advogado americano encontraria um jeito de driblar essa besteira do Velho Mundo. Se não podia mais curtir a própria fama, Chrissie poderia, pelo menos, experimentar a emoção de ser da realeza europeia e fazer parte dos círculos dos super-ricos. Além disso, trabalho doméstico seria baratíssimo lá, então poderia ter um monte de babás e empregadas. Seria a rainha do castelo, dando ordens a uma frota de serviçais, e iria para a cama à noite coberta de esmeraldas que um dia pertenceram a Catarina, a Grande. Nada mau para uma menina do vale. Talvez ela estivesse até pensando em dar a Dorian um segundo filho, o menino que ele obviamente ainda queria, quem sabe?
Desnecessário dizer que as coisas não foram bem assim. Praticamente desde o primeiro dia, Chrissie odiou a Romênia. O castelo era tão pomposo quanto ela poderia sonhar, os empregados tão obsequiosos quanto escravos, as esmeraldas tão grandes e pesadas quanto bolas de golfe. Mas não havia nada para se fazer. Ninguém para ver. Claro, a paisagem era de tirar o fôlego, tão exuberante, verde e espetacular que até parecia saída de um dos filmes do Shrek. A pequena Saskia ficou enfeitiçada pela paisagem da Transilvânia, com seus grandes rios de forte correnteza, florestas de pinheiros altos e montanhas românticas com picos cobertos de neve que cercavam o castelo como gigantes protetores. Toda vez que iam para a cidade, ela exclamava, toda animada: “Expresso Polar!”, apontando para a neve sobre os Cárpatos com uma animação que m*l conseguia esconder. Mas sua mãe não compartilhava do mesmo entusiasmo. De que valia ter o próprio reino da fantasia se, nas sextas à noite, não podia ir ao Cecconi e se gabar disso para as amigas?