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2121 Words
Poucas semanas depois da chegada, o tédio de Chrissie já estava se transmutando em ressentimento. Era tudo culpa de Dorian por arrastá-la para lá. Estava castigando-a por causa do romance extraconjugal, mantendo-a, com a filha, naquela prisão de ouro, enquanto ele partia para curtir a antiga vida deles em Los Angeles, que, a 12 mil quilômetros de distância, não parecia tão r**m. Ela, Chrissie, sacrificara sua carreira pelo marido, e o que recebia em troca? Desprezo. Abandono. Usando a única arma que ainda tinha, deu uma guinada de 180 graus em relação a ter um segundo filho, recusando-se terminantemente a pensar em outra gravidez até que Dorian “vendesse aquele lixo” e eles voltassem para casa para gastar o dinheiro. Por mais que Dorian explicasse que isso era prática e legalmente impossível, que o castelo era deles para usufruírem mas não para venderem, ela jamais conseguia entender. Além disso, embora Chrissie não soubesse, a situação financeira deles nos Estados Unidos estava indo de m*l a pior. O último filme de Dorian, Dezesseis noites, um longa-metragem de guerra filmado com requinte, mas que superou muito o orçamento, havia sido um enorme sucesso de crítica. Mas eram as receitas de bilheteria que pagavam a hipoteca da mansão de Dorian e Chrissie em Holmby Hills e as reformas no castelo, além de financiarem o gosto de Chrissie por alta-costura; e a receita daquele filme tinha sido medíocre. Dois estúdios se ofereceram para financiar o filme, mas, incapaz de suportar a ideia de não deter o controle criativo, Dorian rejeitou as ofertas, enterrando na produção milhões de dólares do próprio bolso. Acabou ficando no vermelho. Para piorar as coisas, desde a notícia da herança de Dorian, Chrissie aumentara seus gastos exponencialmente. Nada conseguia convencê-la de que não eram bilionários — eles tinham quadros de Renoir da sala de estar, c****e! —, e ela ria abertamente quando Dorian reclamava que a manutenção do castelo os estava deixando falidos. — Você não entende? — dizia ele, exasperado. — Foi por isso que o governo da Romênia ficou tão feliz com a nossa vinda! Eles não tinham condições de manter o lugar e acharam que éramos ricos o suficiente para fazer isso por eles. Chrissie dava de ombros, indiferente. — Bem, nós somos. Não, não somos! Dorian queria gritar. Mas tinha muito medo de que Chrissie fosse deixá-lo e, por isso, não queria forçar outro confronto, ou admitir a extensão de suas dívidas. Ele já a vira flertando com alguns rapazes mais jovens e atraentes que trabalhavam para eles, e vivia constantemente com medo de que ela tivesse outro caso. E Chrissie estava certa. Havia sido ele quem a levara para lá, levara a família toda. Cabia a ele fazer tudo dar certo, tirá-los do buraco financeiro onde os colocara e fazê-la feliz. Ou isso ou abrir mão do castelo, o que para Dorian seria a mesma coisa que sapatear em cima do túmulo do pai. — Mais champanhe, senhor? Ou algo para comer? A voz da comissária de bordo trouxe Dorian de volta ao presente. Estavam em altitude de cruzeiro, e os outros passageiros já estavam reclinando suas poltronas e ligando seus sistemas de entretenimento, escolhendo filmes em uma lista. Dorian já tinha lido o guia de bordo antes da decolagem. Três filmes de Harry Greene. Nenhum dele. Dorian tentava não se importar com o fato de que Fraternidade, a horrorosa franquia de Harry Greene, continuava indo de vento em popa. Mas era difícil ser magnânimo quando parecia que a missão da vida de Greene era destruir a reputação de Dorian, falando m*l dele não apenas em público, com a imprensa, mas também em particular, em conversas com os grandes agentes de Hollywood. Harry Greene era um homem muito poderoso em Hollywood. Também era recluso, tinha ataques de paranoia, principalmente quando se tratava de mulheres. Duas vezes, levou garotas ao tribunal: depois de dormir com elas, acusou-as de roubo simplesmente porque não se lembrava onde havia deixado um casaco ou um par de abotoaduras. Uma vez até tentou fazer com que sua empregada fosse presa por tentativa de envenenamento. Um ensopado de carneiro aparentemente lhe fizera m*l e Harry se convencera de que a inocente avó mexicana tinha colocado arsênico no prato. Sua rixa com Dorian começara por causa de um script. Harry se desentendera com um roteirista, e a briga ficou feia. Quando o roteirista teve a ideia de um filme novo, alguns meses depois, procurou Dorian em vez de Harry. A ironia era que Dorian nem cogitara fazer o tal filme. Era um romance comercial, doce demais para o gosto dele. Apesar disso, na cabeça de Harry Greene, Dorian e esse roteirista estavam “mancomunados” contra ele. Depois de um tempo, graças a uma mudança na mente perturbada de Harry, o roteirista saiu de cena, deixando Dorian como o único alvo de sua bizarra teoria da conspiração. Não demorou muito para esse ressentimento profissional se tornar pessoal. Apesar de toda sua influência internacional, lá no fundo, Hollywood continuava a ter o espírito de uma cidade pequena, e decerto os caminhos de dois importantes produtores e diretores como Dorian Rasmirez e Harry Greene iriam se cruzar em um evento social ou outro. Após o incidente do roteiro, Dorian fizera o possível para evitar Harry. Mas há alguns anos, por razões que Dorian até hoje desconhecia, Harry colocou na cabeça que o outro falara m*l dele para sua esposa, Angelica. E que fora a intervenção maliciosa de Dorian que acabara com seu casamento. Na verdade, Dorian m*l conhecia Angelica Greene e jamais comentou nada com ela sobre as conquistas amorosas do marido, que eram um livro aberto em Hollywood. A única pessoa culpada pelo fim do casamento de Harry Greene era o próprio Harry Greene. Mesmo assim, na época do divórcio, Harry deu várias entrevistas em que culpava Dorian, e fez o que pôde para que ele fosse banido da elite de Hollywood. Quanto mais forte ficava a franquia Fraternidade e a influência de Harry Greene, mais difícil se tornava a vida de Dorian. Ele voltou sua atenção para a aeromoça, que ainda estava parada com o carrinho de bebidas. — Não, obrigado — disse ele educadamente. — Estou bem. — Ok. Bem, se mudar de ideia, sabe onde me encontrar. Só gostaria de dizer que gostei muito de Dezesseis noites. Adoro seu trabalho. — A comissária ficou corada. — Obrigado — agradeceu Dorian. — Você é muito gentil. Dorian percebeu que havia uma moça muito bonita por trás daquela maquiagem pesada tão comum em sua profissão. Era possível ver a cor natural da pele clara, e o decote mostrava a parte de cima dos s***s fartos e convidativos por baixo da camisa branca do uniforme. Sensual. Mas não chega nem aos pés da minha Christina. — Espero que vá assistir ao meu próximo filme quando for lançado. — Ah, é claro que vou — exclamou ela. — Com certeza. Qual vai ser? — Na verdade, é uma regravação — explicou Dorian. — O Morro dos Ventos Uivantes. A comissária de bordo ficou encantada. — Ai, meu Deus. Amo esse livro. É uma história tão romântica. Dorian sorriu. — Você conhece? — Claro. — Ela riu. — Todo mundo conhece, não? Heathcliff e Cathy. São como Romeu e Julieta na chuva. Pela primeira vez naquele dia, Dorian sentiu uma fração da tensão se esvair de seu corpo. Uma de suas preocupações em relação ao novo projeto era que a história poderia ser considerada muito erudita, clássica demais para despertar o interesse dos espectadores de filmes mais comerciais. Dorian lera o livro pela primeira vez quando estava no ensino médio e ficara fascinado pela trama na mesma hora. Heathcliff, um misterioso órfão, é adotado pelo bondoso Sr. Earnshaw e vai viver no Morro dos Ventos Uivantes, uma casa grandiosa e solitária nas charnecas de Y orkshire. A tragédia começa quando Heathcliff se apaixona pela filha de Earnshaw, Catherine, que também o ama, mas decide se casar com um vizinho, para ter um casamento mais bem-aceito pela sociedade. As ramificações de Cathy ter rejeitado Heathcliff — o arrependimento dela, a loucura dele e uma saga contínua de morte e vingança, de crianças inocentes sendo forçadas a pagar pelos pecados de seus pais — tornam o drama cativante de maneira singular, além de uma das histórias de amor mais duradouras da literatura inglesa. Cinematograficamente, porém, O Morro dos Ventos Uivantes era um desafio. Quem quer que interpretasse Heathcliff teria que envelhecer de forma verossímil e, ao mesmo tempo, permanecer atraente o suficiente para convencer como protagonista romântico. A Cathy original e a jovem Cathy, sua filha, deveriam ser interpretadas pela mesma atriz ou por duas atrizes diferentes? Como tratar Nelly, a governanta que narra o livro? E, claro, havia a questão da locação. Em uma trama na qual a casa era um personagem tão importante quanto os protagonistas, encontrar a locação certa era uma questão-chave. Dois grandes estúdios tentaram aconselhar Dorian a cair fora, assim como seu agente e amigo, Don Richards. — Você não vai conseguir se equiparar a Olivier e Merle Oberon, cara. Aquele filme de 1939 é um dos melhores de todos os tempos. — Eles só filmaram metade do livro — disse Dorian. — Metade da história. — Porque é impossível filmar a história inteira. Seria uma minissérie. — Don franziu a testa. — Você assistiu à versão dos anos 1970? Péssima. — Eu sei. — Dorian sorriu. — Por isso vou fazer esse remake. — Se fizer, vai precisar de dois nomes de peso como protagonistas — avisou Don. — E estou falando de estrelas mesmo, nada dessas besteiras suas de “respeitado ator de caráter”. Ah, e Cathy vai ter que aparecer nua. Muitas vezes. — Entendo — disse Dorian ironicamente. — A Jovem Cathy ou a Velha Cathy? — Todas as Cathys têm de ser jovens — falou Don com firmeza. — E gostosas. — Certo. Então só preciso conseguir uma grande estrela de cinema que esteja disposta a trabalhar em troca de migalhas e a tirar a calcinha gratuitamente. — Não seria gratuito. — Don pareceu ofendido. — Teria um bom motivo para fazer isso. — Sei. E qual seria? — Venda de ingressos — respondeu Don. Dorian teve a bondade de rir. — Ok. Se pensar em alguém, não se esqueça de me avisar. — Na verdade, já pensei em alguém. Que tal Sabrina Leon? No início, Dorian presumiu que seu agente estivesse brincando. Quando percebeu que não, acenou com a mão, rejeitando a ideia. Sabrina era nociva naquele momento, uma intocável de Hollywood. Além disso, era conhecida por ser uma péssima influência no set de filmagens. Era cheia de exigências, se achava uma diva, imprevisível. Sequer associar o nome de Sabrina a um projeto poderia ser suficiente para matá-lo antes mesmo de se gravar uma única cena. — Tudo isso é verdade — concordou Don. — Mas ela ainda é uma estrela. Dorian manteve-se firme. — De jeito nenhum. — Além disso, todo mundo está de olho para ver qual será o próximo passo dela. — Eu não. — Além disso, ela adora ficar pelada, no set e fora dele. A garota é alérgica a roupas. — Eu sei, Don, mas preciso de uma atriz séria. — Ela trabalharia de graça. E foi isso. Jerry McGuire tinha conquistado Dorothy Boyd com um “oi”. Don Richards conquistou Dorian Rasmirez com um “de graça”. Esticando suas longas pernas para a frente, Dorian finalmente começou a relaxar. Se as comissárias de bordo da American Airlines eram fãs da história, certamente não devia ser tão erudita. Vai dar certo, disse ele para si mesmo. Sabrina Leon já assinara o contrato. Claro, dar a ela o papel de Cathy — das duas Cathys — era um risco, uma espada de dois gumes. Dorian teria de mantê-la em rédea curta. Mas Don Richards tinha lhe convencido de que ela era um risco que valia a pena correr. Ele só teria de ser bem persuasivo com os distribuidores, convencendo-os de que, quando o filme fosse lançado, todo o furor sobre os comentários de Sabrina a respeito de Tarik Tyler já teria esfriado. — E mesmo se não tiver esfriado, ainda assim as pessoas vão assistir ao filme — disse Don. — Você aposta nisso? — Claro. As pessoas gostam de vê-la. É como diminuir a velocidade em uma autoestrada para ver um acidente de carro. Dorian esperava que ele estivesse certo. Porque, se não estivesse, o tal acidente de carro seriam a carreira, a vida e o casamento de Dorian. Quase com certeza um acidente fatal. Para Dorian Rasmirez, tudo dependia do sucesso do filme. Tudo.
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