Enquanto o Dr. Michel Henri tirava a criança do berço, Letitia Crewe observava o bíceps dele, lindamente definido, contrair-se por baixo da camiseta cinza. Preciso me conter. Estou aqui para brincar com as crianças, não para babar no Michel como uma pirralha apaixonada. Mas era difícil. Quem mandava um pediatra ser tão atraente? Devia existir uma lei contra isso.
Tish Crewe fora para a Romênia em seu ano sabático para passar seis meses trabalhando com órfãos na cidade de Oradea. Cinco anos depois ela ainda estava ali, visitando hospitais como aquele, arranjando lares para tantas crianças abandonadas quanto possível. Era um trabalho duro, e às vezes estressante, mas era também recompensador, e viciava. O Dr. Michel Henri possuía a mesma opinião. Fora o que os aproximara: compartilhavam a mesma solidariedade e o exato propósito. Isso e o fato de que queriam arrancar as roupas um do outro desde o momento em que se viram pela primeira vez. Tish ainda tinha a mesma vontade, mas Michel havia mudado de ideia.
Observando-o enquanto ele ia decidido de cama em cama, estabelecendo contato visual com cada criança e conversando com elas com sua voz intensa e gentil antes de examiná-las, Tish percebeu que já estava apaixonada por ele havia um ano.
Uau. Um ano da minha vida.
Pareciam vinte.
Michel era tão sábio. Tão bom. Tão capaz. Tish Crewe também era capaz, proativa, determinada, e admirava essas características em outras pessoas. É claro que também não fazia m*l o fato de Michel ser uma versão mais jovem de George Clooney em tudo, desde a barba por fazer até os olhos cor de café. Tampouco fazia m*l o fato de ele ser tão bom de cama. No breve relacionamento de seis semanas que tiveram, Tish achara melhor restringir as transas ao apartamento dele, temendo fazer muito barulho na casa dela e acabar acordando Abel, seu filho adotivo de 5 anos.
Não foi culpa de Michel. Ele fora honesto com ela desde o início.
— Não quero compromisso — dissera ele sem meias palavras na noite em que se beijaram pela primeira vez, na ponte sobre o rio Crişul Repede, no centro antigo de Oradea. — Meu trabalho é a minha paixão. Se você quer alguma coisa séria, não sou o cara certo pra você.
Tish garantiu a ele que não estava a fim de nada sério. Após quatro anos de celibato quase total, morando em uma cidade que se mantinha tão austera, cinzenta e sem vida quanto havia sido durante o regime comunista, a ideia de diversão, e o tipo de diversão que o Dr. Michel oferecia, soava totalmente perfeita. Desde que fundara o próprio abrigo para crianças, três anos antes, e principalmente desde que adotara seu querido Abel, Tish m*l tinha tempo para comer e tomar banho, muito menos para ter uma vida s****l. Mereço um pouco de diversão, dizia para si mesma. Por que não?
Mas é claro que tinha de estragar tudo se apaixonando por ele. Sua tola, dizia para si mesma, mas como não se apaixonar? Quando Michel começou a sair com uma cirurgiã ortopédica do Médicos Sem Fronteiras algumas semanas depois, o coração de Tish foi estraçalhado. Ela precisou de cada pedacinho de seu autocontrole para esconder sua angústia de Michel. Mas para todas as outras pessoas que trabalhavam com ela, era dolorosamente óbvio.
— Ele não vale esse sofrimento, sabe. — Pete Klein, chefe de uma das ONGs americanas, havia reparado no olhar perdido de Tish enquanto Michel saía pelo estacionamento do hospital, algumas semanas atrás.
Pra mim ele vale, pensou Tish, mas forçou um sorriso profissional.
— Olá, Pete. Como está?
— Melhor agora, querida.
Pete Klein era um gentil cristão renascido de 60 e poucos anos e tomara para si, como missão pessoal, encontrar o marido ideal para a adorável Srta. Crewe. Afinal, ela era uma moça linda. Não daquele jeito óbvio das modelos; não, a beleza de Tish era de um tipo totalmente diferente. Leve e naturalmente loura, nariz longo, estrutura óssea forte e aristocrática, e uma boca larga e gloriosa com lábios rosa-claro que Pete já vira expressar todo tipo de emoção: de compaixão a coragem, passando por prazer. Tish tinha um charme natural, livre de maquiagem, pelo qual alguns homens dariam qualquer coisa para encontrar em casa todas as noites. Como uma amiga de escola de Tish definira certa vez de forma precisa, mas com pouco tato:
— Você é a Jennifer Aniston, Tish. Caras como Michel sempre acabam indo atrás da Angelina. Você é legal demais.
Pete Klein não acreditava que uma pessoa pudesse ser “legal demais”. E não conseguia ver o que jovens maravilhosas como Tish Crewe viam de atraente em vigaristas como o Dr. Henri, aquele francês nojento. Médicos Sem Fronteiras, coisa nenhuma. Michel Henri era um Médico Sem Escrúpulos, e havia magoado demais a pobre Srta. Crewe.
— Você devia sair para jantar com meu amigo Gustav — disse Pete para Tish.
— Ah, não sei, Pete...
— Devia sim, mesmo — insistiu Pete. — Um rapaz adorável, de uma família muito boa em Munique. Começou a trabalhar para nós há pouco tempo. Ele é brilhante na área de informática — acrescentou Pete, piscando de uma forma que fez Tish se perguntar se havia duplo sentido na frase. Exceto que nunca existia duplo sentido no que Pete Klein falava. Ele era sempre cuidadoso, paternal e gentil.
Então, como era “legal demais” para dizer não, Tish acabou saindo para jantar com o adorável Gustav, que era realmente brilhante em informática, embora não fosse tão brilhante assim em conversas nem em romance, a julgar por sua atrapalhada investida no banco de trás do táxi depois do jantar, fedendo a salsicha de alho e loção pós-barba barata.
— O que você está fazendo? — disse Tish, esquivando-se dele.
Gustav pareceu ressentido.
— Achei que você fosse solteira? — acusou ele.
— E sou — gaguejou Tish.
— Bem, então qual é o problema? — questionou Gustav. — Todo mundo sabe que os solteiros só vêm a essas missões voluntárias por causa do sexo. Qual é? Não estamos na Romênia por causa da paisagem, estamos?
Isso, pelo menos, era verdade. Tish não estava na Romênia por causa da paisagem. Mas por que ainda estava ali, afinal? Tish era a pessoa mais inglesa que ela conhecia e sentia muitas saudades de casa. Não se passava um dia sem que ela fitasse pela janela do carro a paisagem sombria da Romênia, sonhando acordada com as cercas vivas e Marmite1 e Eastenders2. As coisas não ficavam mais fáceis. Ela dizia para si mesma que estava ali por causa das crianças — tanto as 16 que ela conseguira resgatar de instituições e trazer para o alegre lar familiar que construíra perto de Oradea, como as centenas de outras que foi forçada a deixar para trás, mas a quem ela e sua equipe visitavam regularmente nos hospitais. Mas agora, ao olhar para as mãos fortes e carinhosas de Michel enquanto ele trocava os curativos de um menininho, lembrando-se do toque dele em sua pele, uma parte dela sabia que também continuava lá por causa dele.
Tish estava fazendo o que todos os livros diziam para nunca fazer. Estava esperando. Torcendo, rezando para que, em algum momento, Michel visse a luz e percebesse que os dois tinham sido feitos um para o outro. Ele seria um ótimo pai para Abel. Tão nobre. Tão dedicado...
— Tish! — Carl, um colega de trabalho, estava batendo no ombro dela. — Você está me ouvindo?
— Hmmmm? — Ela corou. — Desculpe, eu estava... uh... distraída.
— Há um problema no Curcubeu — repetiu Carl pacientemente. Curcubeu era o nome do lar para crianças de Tish. Significava “arco-íris” em romeno. — O serviço social acabou de aparecer por lá. Estão dizendo que a papelada do Sile não está toda assinada.
— Mas isso é ridículo. Claro que está tudo assinado. Eu mesma peguei os papéis.
— Não importa, eles insistem que falta mais alguma coisa. Tentaram pegá-lo na mesma hora.
— O quê? — Tish colocou o bebê adormecido de volta no berço. Com 2 anos e cabelos cacheados, Sile era um menino adorável, a mais recente adição à sua feliz prole em Curcubeu. Estava com eles havia apenas uma semana e o serviço social já estava de palhaçada, sem dúvida alguém querendo mais propina. — Como eles ousam?! — exclamou ela. — Eles não têm autoridade.
— Bem, enfim, não se preocupe — disse Carl. — Lucio não os deixou entrar. Mas eles vão voltar com um mandado pela manhã. Precisamos resolver isso ainda hoje.
Droga, pensou Tish. Ela queria muito falar com Michel naquele mesmo dia, pedir o conselho dele. Na véspera, tinha recebido uma carta bem perturbadora de casa, dizendo que ela provavelmente precisaria deixar a Romênia, pelo menos por um tempo; a ideia lhe causava uma mistura de sentimentos tão conflitantes que não conseguia formar uma frase completa desde que a lera.
Michel saberá o que fazer, pensou ela. Ele é sempre tão equilibrado. Mas agora não teria tempo de consultá-lo. Quando conseguisse resolver toda a burocracia sobre Sile e o serviço social, voltaria correndo para casa a tempo de colocar Abel para dormir, e Michel já teria partido para Paris. Ele ia passar o fim de semana em casa para ir ao casamento da irmã. Talvez quando ele a vir com o vestido branco, fazendo os votos de compromisso, e vir como ela está linda e feliz...
— Tish?
— Oi. Desculpe. Estou indo. — Com relutância, Tish deixou sua fantasia. — Desça e vá ligando o carro. Vou explicar o que aconteceu às enfermeiras e encontro você lá embaixo em cinco minutos.
O resto do dia passou como um borrão de atividade frenética e estresse, com Tish e Carl ultrapassando todos os limites de velocidade no velho Fiat Punto dela, indo de uma agência governamental para outra no intuito de provar que tinham a guarda legal do pequeno Sile. Duas propinas, um telefonema para o Consulado Britânico e inúmeras discussões acaloradas depois — o Serviço Social da Romênia não considerava Letitia Crewe “legal demais”; na opinião deles, ela era uma bruxa briguenta e metida a revolucionária, um calo no sapato deles desde o dia em que colocara os pés no país —, o problema foi finalmente resolvido. “Por enquanto”, avisou o agente de Proteção da Infância.
Como se nós fôssemos alguma ameaça para ele, pensou Tish, furiosa, enquanto finalmente dirigia de volta para seu apartamento na cidade. Como se alguém neste mundo tivesse dado alguma importância ao menino até que nós o recolhemos. Às vezes, na maior parte do tempo, seu trabalho era tão frustrante que sentia vontade de gritar. O governo romeno parecia ser formado por dinossauros com pavor de mudanças, ressentidos com qualquer um que viesse de fora e tentasse ajudar. Como se alguma das ONGs internacionais quisesse estar lá. Vocês não acham que nós adoraríamos se vocês mesmos cuidassem de seu maldito país e de suas crianças, para que nós pudéssemos voltar para casa?
Casa.
A palavra vinha martelando em sua cabeça o dia todo. Logo teria de tomar uma decisão, provavelmente no dia seguinte, e começar a fazer planos concretos. Queria os conselhos de Michel hoje, mas bem no fundo já sabia o que ele teria lhe dito. Vá. Vá para casa e faça o que precisa fazer. Não havia outro jeito.
Casa, para Tish, era Loxley Hall, uma idílica construção elisabetana no coração do glorioso Hope Valley, em Derbyshire. Muito menor que a vizinha Chatsworth, porém considerada muito mais bonita, Loxley era o lar da família Crewe há oito gerações. Como fora criada lá, Tish nunca notou sua grandiosidade quando era criança, principalmente porque, por trás da fachada toda esculpida, das janelas em mosaico e das torres de contos de fadas, a família vivia de fato em um “apartamento” bastante dilapidado, com sete cômodos simples, e não nos salões de baile e de jantar imaculadamente preservados que o público via. Mas Tish tinha consciência da magia de Loxley. A beleza do terreno, com suas ancestrais cercas vivas bem-podadas, seus gramados infinitos e um parque natural repleto de cervos nos fundos, pontuado por enormes carvalhos de 400 anos. Na frente da casa, sob uma ponte de pedra medieval caindo aos pedaços, o rio Derwent corria preguiçosamente, pouco mais que um riacho, na parte mais estreita do vale. Quando pequena, Tish passava horas sentada na ponte, as pernas penduradas, jogando gravetos sozinha, ou torcendo para uma lontra aparecer. Seu irmão mais velho, Jago, nunca compartilhou a mesma fascinação pelo rio, nem de sua romântica crença de que Loxley Hall era uma espécie de reino mágico. Tish costumava se lembrar do irmão como alguém distante e indiferente (“sensível” era como a mãe o descrevia), sempre dentro de casa jogando no computador, ou com seus amigos sofisticados de Thaxton House, a escola preparatória para os meninos locais. Os amigos de infância de Tish eram seu cãozinho da raça Jack Russel, Harrison; a governanta da família, Sra. Drummond; e, às vezes, seu amado e velho pai, Henry.
Henry Crewe morreu havia dois anos e Tish ainda sentia muitas saudades dele. A morte de seu pai tinha dado origem à cadeia de eventos que levara à crise atual. Em meio a muitas reclamações e crises da família, Henry Crewe quebrara a tradição quadricentenária de Loxley e deixara a casa, com tudo que havia dentro, para sua esposa Vivianna, mãe de Tish e Jago. Por um lado, foi um gesto romântico. Apesar de Vivi ter abandonado Henry e os filhos duas décadas antes para começar uma nova vida na Itália. Ela visitava a Inglaterra apenas raramente e nunca se divorciou de fato de Henry. Para perplexidade de todos os amigos dele, sem mencionar de sua filha, que sentira intensamente o abandono de Vivianna, Henry mantivera-se nostalgicamente ligado à esposa, e esse sentimento só parecera aumentar com os anos. Os Crewe continuaram sendo amigos, e Henry nunca perdeu a esperança de que Vivianna visse a luz, se cansasse dos amantes mais jovens e voltasse para sua família.
Não é preciso dizer que isso jamais aconteceu. Mas a mudança no testamento não tinha a ver apenas com Vivi. Também fora uma tentativa de mitigar a influência de Jago sobre o futuro de Loxley. O irmão indiferente e distante de quem Tish se lembrava tornara-se um rapaz indeciso, egoísta e totalmente irresponsável. Abençoado com beleza e uma reserva financeira boa o suficiente para nunca ter de trabalhar para viver, Jago Crewe curtiu a vida entre os 18 e os 22 anos sob uma bruma narcótica, até acabar seriamente doente e deprimido em um hospital no norte de Londres. Quando emergiu de seu pretenso colapso, Jago decidiu que estava na hora de mudar de vida. Entretanto, não demonstrou o menor interesse por arregaçar as mangas em Loxley Hall. Declarando-se abstêmio, budista e vegano, ele então desapareceu em uma viagem espiritual que o levou do Havaí ao Taiti e de lá à Tailândia (de primeira classe, claro), gastando o dinheiro da família como água enquanto experimentava uma seita artificial e egocêntrica atrás da outra.
Enquanto isso, a saúde de Henry se deteriorava. Estava claro que algo precisava ser feito. E foi então que Henry mudou o testamento de forma a deixar a casa para Vivianna, com a intenção de que ela cuidasse da propriedade pelo resto de sua vida e, quando morresse, deixasse-a para o filho ou neto que lhe parecesse a aposta mais segura.
Mas as coisas não aconteceram dessa forma. Não tendo voltado para casa para o velório do pai, ou sequer mandado flores, Jago apareceu em Loxley dois meses depois, anunciando que sua opinião sobre seu dever filial mudara profundamente e que tinha voltado para reclamar sua herança. Vivianna entregou a casa para ele na mesma hora (ela não sabia dizer não para seu queridinho) e voltou para sua villa nos arredores de Roma, considerando que suas obrigações com o ex-marido tinham sido totalmente satisfeitas e que tudo estava bem quando acabava bem.
Enquanto isso, presa na Romênia, Tish estava preocupada com a situação, mas sendo mãe solteira e tendo um lar de crianças para administrar, já tinha problemas o suficiente. Além disso, conforme os meses foram passando e nenhum desastre aconteceu em Loxley, ela começou a relaxar. Talvez agora Jago tivesse realmente deixado de ser aquele garoto imaturo e egoísta e fosse se dedicar à propriedade. Afinal, ele só tinha 28 anos. Havia muito tempo pela frente para virar a página e recomeçar do zero.
Foi quando ela recebeu a carta.
A carta era da Sra. Drummond, a governanta da família Crewe pelos últimos trinta e tantos anos e mãe postiça de Tish e Jago. Segundo a Sra. D, Jago tinha saído de casa havia três semanas, dizendo que não voltaria, pois pretendia passar os restos dos seus dias como um ermitão contemplativo nas montanhas do Tibete. A Sra. D, que já escutara aquela história inúmeras vezes, não tinha acreditado muito naquela última mudança de planos, mas fora obrigada a encarar os fatos com um pouco mais de seriedade quando os amigos hippies e vagabundos de Jago, muitos dos quais viciados em drogas, se recusaram a deixar Loxley após a partida dele. Pior ainda, eles começaram a dilapidar a casa.
Ela escreveu: “Liguei para a polícia, mas eles disseram que como Jago os convidou para ficar e como ele havia ido embora apenas poucas semanas antes, eles não tinham poder para expulsá-los, a não ser que Jago desse as ordens pessoalmente. Eles não me escutam. Mas Letitia, eles estão roubando. Pelo menos dois quadros do seu pai sumiram e tenho certeza de que alguns objetos de prata também sumiram. Tentei argumentar com eles, mas eles sabem intimidar.”
Foi essa parte que convenceu Tish. Pensar naqueles marginais drogados assustando a Sra. Drummond, a senhora mais doce e indefesa do mundo, despertou o instinto protetor que havia dentro dela. Precisava voltar e arrumar a bagunça que seu irmão tinha deixado. Como ele pôde ir embora e deixar a Sra. D para resolver tudo sozinha? Quando ele se permitisse voltar para casa depois de seu último exercício autoindulgente em busca de sua alma, Tish ia estrangulá-lo com as próprias mãos.
Após estacionar o Fiat velho em frente ao bloco cinza-grafite que ela chamava de casa, Tish subiu as escadas de dois em dois degraus. Seu apartamento ficava no sexto andar, mas o elevador estava quebrado havia muito tempo, então ela e Abel estavam acostumados a se exercitar carregando as compras e a mochila do colégio pela escada. Tish ainda procurava as chaves dentro da bolsa, tentando recuperar o fôlego, quando a porta da frente se abriu. Lydia, a babá romena de Abel, fitou-a de forma desaprovadora.
— Você estar atrasada.
Com seus braços gordos de açougueiro, o avental listrado e velho e o cabelo grisalho com uma franja imperdoável, Lydia tinha o corpo de uma atleta de arremesso de peso e o rosto de uma carcereira da Gestapo. Ela nunca foi com a cara de sua patroa inglesa, a quem considerava leviana e espantosamente laissez-faire como mãe. Entretanto, ela adorava o pequeno Abel, que por sua vez também gostava dela, e por isso Tish nunca a demitiu. Isso e o fato de que Lydia estava disposta a trabalhar longas horas, volta e meia em horários irregulares, por um salário ridículo.
— Eu sei, me desculpe. Houve uma pequena crise no Curcubeu. — Tish passou pela babá gigante e entrou no apartamento, largando a bolsa no chão. — Abel! Cadê você, meu amor? Mamãe chegou!
— Ele estar dormindo — disse Lydia friamente. — Esperou muito. Tomou banho muito tristinho, mas agora estar bem. Dormindo.
Tish se sentiu culpada. Não estava nem aí para a opinião da velha romena a seu respeito, mas detestava desapontar Abel. Será que ele realmente estava tristinho na hora do banho, ou Lydia estava apenas cutucando uma ferida?
A velha mulher vestiu seu casaco imundo e grosso de pele de carneiro e as luvas de tricô em cores vivas.
— Ele precisar dormir — disse ela para Tish num tom severo. — Não acordar ele. — E com essa ordem ela saiu do apartamento, balançando a cabeça e resmungando baixinho em romeno enquanto a porta se fechava atrás dela.
Vaca i****a, pensou Tish, indo na mesma hora para o quarto do filho. Lá dentro, a luz fraca do abajur na cabeceira de Abel serviu de guia até a cama dele. Puxando uma cadeira, Tish pousou a mão sobre o edredom quente e pesado do Thomas e seus Amigos e sentiu todas as pressões do dia evaporarem. Minha vida está embaixo deste edredom, pensou ela. Como eu o amo. Loxley e a Sra. Drummond, o lar de crianças, mesmo seu terrível amor não correspondido por Michel: todos se recolhiam à sua insignificância quando Tish fitava o filho adormecido. Puxando a coberta com cuidado, acariciou os cachos negros e inclinou-se para beijar a bochecha macia e redonda. Era difícil acreditar que este era o mesmo bebê malnutrido e coberto de feridas que ela encontrara em uma maternidade nos arredores de Bucareste, quatro anos antes. Hoje, Abel era tão saudável, gorducho e bagunceiro quanto qualquer outro garoto da idade dele. Porém muito mais bonito, claro, pensou Tish com orgulho. Fora uma longa e árdua luta para conseguir adotá-lo formalmente, embora Abel morasse com ela desde os 13 meses e Tish fosse a única mãe que ele conheceu. O único pesar de Tish era que seu amado pai, Henry, não tivesse conhecido o neto. A papelada de Abi demorara anos para ficar pronta, e Henry estava frágil e doente demais para viajar. O passaporte de Abel só foi finalmente concedido um mês depois do funeral de Henry, uma triste ironia para a pobre Tish.
Agora, porém, teria uma chance de levar Abel para casa. Para mostrar a ele a Inglaterra, Loxley e a Sra. Drummond, e apresentá-lo a sua cultura e família adotivas. Antes tarde do que nunca.
Será que ele vai amá-las tanto quanto eu amava?, perguntou-se ela. Se amá-las, será que vai ser difícil para ele voltar?