Antes de conseguirmos olhar para trás meu pai agarrou em minha orelha e começou a gritar comigo e Eduardo. Eu senti como se fosse morrer, de medo, de vergonha, de raiva...
- Vocês não deveriam sair da minha beira. O que vocês pensam que estão fazendo? – Meu pai gritava.
- Pai só comprei a bala e estávamos indo pra pracinha como o senhor pediu. – Tentei falar.
- Nada disso. Quem mandou vocês passarem por aqui. Procurei vocês por todo o lado. Fiquei como um doido e sua mãe ficou la no carro chorando preocupada com você.
- Mas não fizemos nada de errado senhor João. – Eduardo tentou se explicar.
- Nada disso. Você vem comigo sua desgraçada. E você não precisa vir atras seu vagabundo porque você não coloca sua b***a no meu carro nunca mais. – Meu pai gritava.
Papai me dava chutes e ponta pé em minha b***a sem se importar com quem via. Eu definitivamente queria morrer. Quem via deveria pensar que eu fosse uma p*****a e que meu pai deveria ter me pego fazendo algo indecente. Ele me jogou dentro do carro e gritava falando que a filha que ele tinha morreu. Que eu seria como uma empregada dentro daquela casa e deveria andar pianinho com ele. Eu apenas chorava. No meu interior eu sabia o que deveria falar pra me defender mais eu não conseguia. Papai quis voltar para dar um soco em Eduardo e mamãe conseguiu impedi-lo de fazer isso.
Eu só queria morrer. Queria gritar e falar com ele como eu poderia namorar sem dar um beijo na boca do rapaz ou sem ser abraçada, mas eu não conseguia falar. Eu queria falar com ele se gostaria de ver Eduardo me dando um beijo na boca ao lado de papai, mas eu não conseguia falar pra me defender. Chegamos em casa e papai me tirou do carro com violência, me jogando para dentro de casa a ponta pé e gritando, acordando os vizinhos e me humilhando cada vez mais.
- Você vai levantar cedo amanha e vai cuidar de dar faxina nessa casa toda. Sua mãe não vai colocar a mão pra fazer nada. – Ele gritava.
“Como se ela ajudasse em alguma coisa antes.” Eu pensava comigo, mas não conseguia me defender dos insultos. Eu sempre tive a impressão que minha mãe não gostava de mim. Ela me dava surra à toa. Se eu não lavasse as vasilhas como ela queria ela me batia. Se eu fosse estudar pra prova, ela me batia, se eu passasse pano no chão e o piso ficasse manchado pelo sol ela me batia. Eu apanhava por qualquer coisa. Minha mãe deveria me defender, mas acho que eu não via ela fazendo isso. Ela poderia ter tentado me defender diante de papai.
Fui dormir chorando e pensando em como tirar minha vida. A alegria que eu sentia tinha sido arrancada de mim da pior forma possível. Eu estava sendo jogada fora, humilhada, fracassada. Acordei com a cara inchada de tanto chorar. Papai me fez levantar da cama as 5 horas da manhã para trabalhar. Fiz tudo que tinha e não tinha pra fazer. Depois do almoço eu estava em casa sozinha. Meus pais haviam saído para dar uma volta de moto. Meu irmão mais novo chegou e eu contei tudo pra ele e disse que não queria mais viver.
Ele saiu um pouco pois meu outro irmão estava chamando-o para ajudar lavar o carro. Então, eu lembrei dos remédios tarja preta que meu neurologista havia receitado. Eu vinha tomando-os desde meu acidente de bicicleta. Eles eram para depressão e algo mais que acusou no eletroencefalografia que fiz dias antes do acidente de bicicleta (estava marcado para eu repeti-lo na próxima semana). Peguei uns 6 comprimidos e tomei eles tudo de uma vez com suco de maracujá forte que eu tinha feito para o almoço. Meu irmão mais novo chegou novamente e eu disse:
- Eu quero morrer! Se aconteceu alguma coisa comigo é porque eu tomei alguns comprimidos meus e não fala nada para papai e mamãe. – Eu já não me sentia bem. Começava a sentir me fraquejar. Desesperada para acabar logo com tudo isso eu tomei mais um copo de suco de maracujá e fui na adega de meu pai e sem nunca ter colocado uma gota de álcool em minha boca, peguei uma garrafa com cachaça que meu pai havia aberto para provar, a alguns dias atras, e bebi uma grande golada no gargalo mesmo. Eu já sabia que misturar remédio controlado com bebida alcoólica poderia m***r então, eu assim fiz na tentativa de morrer. Meu irmão ficou olhando assustado e me pedindo para parar. Eu corri para meu quanto e peguei a cartela de remédio pronta para tomar o restante dos remédios da cartela e esperar a morte chegar. Eu queria morrer e acabar com toda dor, humilhação e sofrimento. Chega! Eu não aguentava mais sofrer.