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AURORA
Quando voltei para a mesa, só vi a Clara. Provavelmente os rapazes tinham ficado envergonhados com o que tinha acontecido. Clara também não estava bem, parecia chateada com algo.
_ O que se passa? - Perguntei preocupada.
_ Nada de mais. Que roupa é essa? - Reparou na mudança.
_ Um dos rapazes, sem intenção, sujou-me. - Disse, encolhendo os ombros.
_ Precisas de comprar mais alguma coisa ou podemos ir para casa?
_ Podemos ir. Já tenho bem mais do que preciso.
As duas seguimos em direção à casa de Clara.
Quando chegamos, arrumei as roupas de tinha comprado num cantinho que Clara disponibilizou no seu armário. O telemóvel de Clara toca, mas ela desliga a chamada sem dizer nada. Fico curiosa, mas não lhe pergunto nada. Sinto que já me estou a intrometer demais no seu espaço pessoal. Assim que receber o primeiro ordenado, tenho que procurar um sítio para morar.
O seu telemóvel toca novamente. Ela desliga-o.
Porém, toca uma terceira vez.
_ Atende! - Digo, enquanto a deixo ali no quarto sozinha.
Dirijo-me para a cozinha. Quando entro, encontro a mãe de Clara, a arrumar umas compras. Ela não me vê, mas eu cumprimento-a.
_ Boa tarde!
_ Ah! Boa tarde, Aurora. Estás crescida!
_ Passaram uns anos...
_ Sim, de facto. A Clara?
_ Está no quarto. Vinha beber um copo de água. - Pego um copo do armário e encho-o com água. - Eu agradeço terem-me recebido na vossa casa e, no próximo mês, irei encontrar um sítio onde ficar, para não incomodar.
_ Olha Aurora, eu não vou fingir. Eu não estou inteiramente feliz por estares aqui, mas quero acreditar que com os anos, e bem... com o teu processo militar, tenhas amadurecido e tornado-te uma pessoa mais capaz de lidar com os seus sentimentos.
_ Eu sei que o meu temperamento não era o melhor, e sei que sou um incómodo para vocês, neste momento, mas eu agradeço muito esta ajuda. E sim, esteja descansada, tenho controlo total dos meus sentimentos.
Ela assente. Clara entra de repente na cozinha.
_ Aurora! Importaste de jantares sozinha hoje? Surgiu algo.
_ Não, claro que não.
_ Olá filha!
_ Olá, mãe. Desculpa, não vi que estavas aí. - Clara dá um beijo na mãe.
_ Posso saber onde vais jantar?
_ Poder até podes, mas não digo. - E assim como entrou, Clara sai.
_ Aurora, sabes cozinhar? - Pergunta-me a mãe de Clara.
_ Sei. Quer que prepare o jantar?
_ Sim, mas para ti. O Vitor vai trabalhar até mais tarde e eu já tinha combinado jantar com umas amigas. Usa o que precisares da cozinha. Só a deixa arrumada quando terminares tudo. Está bem?
_ Sim, claro que sim. Pode ficar descansada.
Também a mãe de Clara sai da cozinha. Eu dou uma olhada no que há no frigorífico e começo a pensar no que irei preparar para o jantar. Encontro tudo, mas faltam-me dois ingredientes na lista e decido pedir o carro à Clara para ir comprar.
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CLARA
Depois de Aurora sair do quarto para que eu pudesse atender a chamada, eu tive mesmo de a atender. Eu já não conseguia aguentar mais e queria ouvir qual a desculpa de Zane.
*Chamada Telefónica*
_ Sim?
_ Clara, deixa-me explicar...
_ Desculpe? Quem fala?
_ Apagaste o meu número assim tão rápido? É o Zane!
_ Eu sei que és tu! Diz lá... - Reviro os olhos.
_ A Valentina não é, não foi, nem nunca será nada mais que como uma irmã para mim. Crescemos juntos e é só!
_ Ai é? Mas e quem é que perguntou alguma coisa? - Estava radiante, mas escondi.
_ Pára com isso. Percebi logo a tua cara de ciumenta.
_ Mas qual cara?
_ Sim, está bem... O cinema está combinado, certo?
_ Não.
_ Oh, Clara. Não me faças isso... eu já expliquei...
_ Jantar e cinema! - Interrompi.
_ Estás a negociar? - Zane ri-se.
_ Pegar ou largar.
_ Pego. Claro que pego!
_ Ótimo. Vem-me buscar às 19h00. - E desligo toda sorridente e mais calma.
*Fim de Chamada Telefónica*
Afinal Zane não tem namorada ou algo do género, mesmo assim tenho de ter cuidado com ele.
Aviso Aurora e a minha mãe de que não janto em casa com elas, e subo para o quarto para me preparar para vestir. Aurora, aparece, pouco tempo depois.
_ Clara, podes-me emprestar o teu carro?
_ Sim, claro que sim. - Entrego-lhe as chaves.
_ Vou rapidinho, para poderes sair à vontade.
_ Aurora, não há pressa. Não vou precisar do carro hoje. Vou à boleia. - Informo-a.
_ Ok! Obrigada. Eu vou ficar por casa. Se precisares de alguma coisa, liga-me.
_ Sim. Aurora, toma também isto! - Entrego-lhe uma cópia das chaves da minha casa. - É provável que quando chegues das compras, eu já tenha saído.
_ Obrigada. - Dá-me um beijo na bochecha e sai.
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AURORA
Estava a caminho do supermercado quando o meu telemóvel toca. Encosto o carro e atendo.
*Chamada Telefónica*
_ Sim?
_ Boa tarde! Daqui fala a Sílvia, funcionária da PrimeShares. Estou a falar com a Aurora?
_ Boa tarde, Sílvia. Sim, está. Como está?
_ Bem, obrigada por perguntar. Aurora, eu estou a entrar em contacto consigo, porque, lamentavelmente, houve um lapso da nossa parte, e o cargo, para o qual se candidatou, já não se encontra disponível.
_ Como assim? Disseram-me que eu preencho todos os requisitos e que estavam muito admirados com o meu currículo.
_ E de facto, estamos. Mas, aparentemente, houve uma contratação do nosso superior hierárquico, sobre a qual, não estávamos informados, pelo que o cargo já foi atribuído a outra pessoa.
_ Hum... Entendo! - Claro que entendi. O "superior hierárquico" é o pai de Clara, que deve ter tido conhecimento da minha candidatura e, como é óbvio, não gostou. - Obrigado por me informar. - E desligo.
*Fim da Chamada Telefónica*
"Merda!". Continuo em direção ao supermercado, triste. Compro o que faltava e um gelado para comer depois e afogar a tristeza.
Quando regresso a casa, Clara já tinha saído.
Começo a cozinhar. Faço bifanas à moda do Porto, receita que aprendi com uma camarada. Abro o pão e coloco dentro. Hoje, e só hoje, opto por beber uma sidra de maçã, fresca. E que bem que me soube! Como uma sandes e preparo uma segunda. Porém, sinto-me m*l por estar a comer assim. Eu não sou assim. Eu sou disciplinada. E, neste momento, estou-me a deixar dominar pela tristeza. Algo que não pode acontecer. Deixo a sandes em cima de um prato com um guardanapo em cima. Arrumo toda a cozinha e mudo de roupa. Visto uns calções e um top simples, para estar em casa. Tiro o gelado do congelador, sento-me no sofá, com as pernas esticadas e uma manta por cima e coloco uma série a dar na televisão.
_ Já te decidiste?