Cap.13 - Gelado para a Tristeza

1172 Words
----- AURORA Quando voltei para a mesa, só vi a Clara. Provavelmente os rapazes tinham ficado envergonhados com o que tinha acontecido. Clara também não estava bem, parecia chateada com algo. _ O que se passa? - Perguntei preocupada. _ Nada de mais. Que roupa é essa? - Reparou na mudança. _ Um dos rapazes, sem intenção, sujou-me. - Disse, encolhendo os ombros. _ Precisas de comprar mais alguma coisa ou podemos ir para casa? _ Podemos ir. Já tenho bem mais do que preciso. As duas seguimos em direção à casa de Clara. Quando chegamos, arrumei as roupas de tinha comprado num cantinho que Clara disponibilizou no seu armário. O telemóvel de Clara toca, mas ela desliga a chamada sem dizer nada. Fico curiosa, mas não lhe pergunto nada. Sinto que já me estou a intrometer demais no seu espaço pessoal. Assim que receber o primeiro ordenado, tenho que procurar um sítio para morar. O seu telemóvel toca novamente. Ela desliga-o. Porém, toca uma terceira vez. _ Atende! - Digo, enquanto a deixo ali no quarto sozinha. Dirijo-me para a cozinha. Quando entro, encontro a mãe de Clara, a arrumar umas compras. Ela não me vê, mas eu cumprimento-a. _ Boa tarde! _ Ah! Boa tarde, Aurora. Estás crescida! _ Passaram uns anos... _ Sim, de facto. A Clara? _ Está no quarto. Vinha beber um copo de água. - Pego um copo do armário e encho-o com água. - Eu agradeço terem-me recebido na vossa casa e, no próximo mês, irei encontrar um sítio onde ficar, para não incomodar. _ Olha Aurora, eu não vou fingir. Eu não estou inteiramente feliz por estares aqui, mas quero acreditar que com os anos, e bem... com o teu processo militar, tenhas amadurecido e tornado-te uma pessoa mais capaz de lidar com os seus sentimentos. _ Eu sei que o meu temperamento não era o melhor, e sei que sou um incómodo para vocês, neste momento, mas eu agradeço muito esta ajuda. E sim, esteja descansada, tenho controlo total dos meus sentimentos. Ela assente. Clara entra de repente na cozinha. _ Aurora! Importaste de jantares sozinha hoje? Surgiu algo. _ Não, claro que não. _ Olá filha! _ Olá, mãe. Desculpa, não vi que estavas aí. - Clara dá um beijo na mãe. _ Posso saber onde vais jantar? _ Poder até podes, mas não digo. - E assim como entrou, Clara sai. _ Aurora, sabes cozinhar? - Pergunta-me a mãe de Clara. _ Sei. Quer que prepare o jantar? _ Sim, mas para ti. O Vitor vai trabalhar até mais tarde e eu já tinha combinado jantar com umas amigas. Usa o que precisares da cozinha. Só a deixa arrumada quando terminares tudo. Está bem? _ Sim, claro que sim. Pode ficar descansada. Também a mãe de Clara sai da cozinha. Eu dou uma olhada no que há no frigorífico e começo a pensar no que irei preparar para o jantar. Encontro tudo, mas faltam-me dois ingredientes na lista e decido pedir o carro à Clara para ir comprar. ----- CLARA Depois de Aurora sair do quarto para que eu pudesse atender a chamada, eu tive mesmo de a atender. Eu já não conseguia aguentar mais e queria ouvir qual a desculpa de Zane. *Chamada Telefónica* _ Sim? _ Clara, deixa-me explicar... _ Desculpe? Quem fala? _ Apagaste o meu número assim tão rápido? É o Zane! _ Eu sei que és tu! Diz lá... - Reviro os olhos. _ A Valentina não é, não foi, nem nunca será nada mais que como uma irmã para mim. Crescemos juntos e é só! _ Ai é? Mas e quem é que perguntou alguma coisa? - Estava radiante, mas escondi. _ Pára com isso. Percebi logo a tua cara de ciumenta. _ Mas qual cara? _ Sim, está bem... O cinema está combinado, certo? _ Não. _ Oh, Clara. Não me faças isso... eu já expliquei... _ Jantar e cinema! - Interrompi. _ Estás a negociar? - Zane ri-se. _ Pegar ou largar. _ Pego. Claro que pego! _ Ótimo. Vem-me buscar às 19h00. - E desligo toda sorridente e mais calma. *Fim de Chamada Telefónica* Afinal Zane não tem namorada ou algo do género, mesmo assim tenho de ter cuidado com ele. Aviso Aurora e a minha mãe de que não janto em casa com elas, e subo para o quarto para me preparar para vestir. Aurora, aparece, pouco tempo depois. _ Clara, podes-me emprestar o teu carro? _ Sim, claro que sim. - Entrego-lhe as chaves. _ Vou rapidinho, para poderes sair à vontade. _ Aurora, não há pressa. Não vou precisar do carro hoje. Vou à boleia. - Informo-a. _ Ok! Obrigada. Eu vou ficar por casa. Se precisares de alguma coisa, liga-me. _ Sim. Aurora, toma também isto! - Entrego-lhe uma cópia das chaves da minha casa. - É provável que quando chegues das compras, eu já tenha saído. _ Obrigada. - Dá-me um beijo na bochecha e sai. ----- AURORA Estava a caminho do supermercado quando o meu telemóvel toca. Encosto o carro e atendo. *Chamada Telefónica* _ Sim? _ Boa tarde! Daqui fala a Sílvia, funcionária da PrimeShares. Estou a falar com a Aurora? _ Boa tarde, Sílvia. Sim, está. Como está? _ Bem, obrigada por perguntar. Aurora, eu estou a entrar em contacto consigo, porque, lamentavelmente, houve um lapso da nossa parte, e o cargo, para o qual se candidatou, já não se encontra disponível. _ Como assim? Disseram-me que eu preencho todos os requisitos e que estavam muito admirados com o meu currículo. _ E de facto, estamos. Mas, aparentemente, houve uma contratação do nosso superior hierárquico, sobre a qual, não estávamos informados, pelo que o cargo já foi atribuído a outra pessoa. _ Hum... Entendo! - Claro que entendi. O "superior hierárquico" é o pai de Clara, que deve ter tido conhecimento da minha candidatura e, como é óbvio, não gostou. - Obrigado por me informar. - E desligo. *Fim da Chamada Telefónica* "Merda!". Continuo em direção ao supermercado, triste. Compro o que faltava e um gelado para comer depois e afogar a tristeza. Quando regresso a casa, Clara já tinha saído. Começo a cozinhar. Faço bifanas à moda do Porto, receita que aprendi com uma camarada. Abro o pão e coloco dentro. Hoje, e só hoje, opto por beber uma sidra de maçã, fresca. E que bem que me soube! Como uma sandes e preparo uma segunda. Porém, sinto-me m*l por estar a comer assim. Eu não sou assim. Eu sou disciplinada. E, neste momento, estou-me a deixar dominar pela tristeza. Algo que não pode acontecer. Deixo a sandes em cima de um prato com um guardanapo em cima. Arrumo toda a cozinha e mudo de roupa. Visto uns calções e um top simples, para estar em casa. Tiro o gelado do congelador, sento-me no sofá, com as pernas esticadas e uma manta por cima e coloco uma série a dar na televisão. _ Já te decidiste? 
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