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LEONARDO
Não estava à espera de todo, de ver o que vi. Em parte, sabia do que era capaz, pois ela já havia mostrado, naquela noite, no bar, mas ainda assim, surpreendi-me. Sem grande dificuldade e, aproveitando o movimento de Figueiredo, ela agarrou o braço dele e rodou sobre si mesma. Quando ele se apercebeu que tinha passado por ela, sem nem mesmo lhe tocar, já era tarde demais. Ela aplicou um pontapé na parte traseira da perna, mesmo na junta do joelho, fazendo-o cair. E como se dançasse, não ficou por aí. Apoiou as suas costas nele, enquanto este tombava e pontapeou o Junior, mesmo no rosto. Ambos os homens tinham sido imprudentes, não reconhecendo que poderia haver a possibilidade de Aurora ser mais forte ou ágil.
Junior, não se deu por vencido e esmurrou Aurora, que defendia cada murro com os seus braços, posicionados em frente do rosto. Tive que me segurar um pouco, quando vi que ele não abrandava, desferindo golpe atrás de golpe, tentando quebrar a defesa dela. Ela chegou mesmo a recuar, mas apenas para lhe dar a falsa sensação de que ele conseguia algo. Assim que firmou o pé direito no chão, ela inclinou o seu corpo para a frente, empurrando Junior para trás, ao mesmo tempo que desferiu um golpe na lateral do abdómen dele.
Figueiredo, esgueirou-se por trás de Aurora e agarrou-a, levantado-a. Como estavam muito perto de Junior, ela aplicou força com as suas pernas, nas dele, como se subisse umas escadas. E com elegância, soltou-se de Figueiredo, passando por cima dele e aterrando em pé, de costas para os dois homens. Fez com que todos que assistiam se rissem, quando deu um pontapé no r**o de Figueiredo, jogando-o para cima de Junior.
Aurora, contente com a sua demonstração, virou as costas.
_ Chega! Penso que já estamos apresentados como deve ser. - Disse Aurora. Eu ri internamente.
Os dois homens levantaram-se do chão e ergueram os punhos, em posição de combate. Queriam mais! Um deles avançou e acertou com um murro, na barriga de Aurora. Ela recebeu-o e vingou-se com outro, direto ao centro da cara, pondo-o a sangrar. O outro homem estancou o seu movimento.
_ Eu disse chega! - Ela repetiu. - Por favor, alguém que trate do Junior. - Pediu Aurora.
Um dos homens chegou-se à frente e ajudou-o a retirar-se da sala.
Apetecia-me aplaudir. Foi uma boa demonstração das capacidades de Aurora, mas isso só iria aquecer ainda mais os ânimos.
_ Agora que estão todos apresentados, espero que não haja mais rebeldia. - Digo, semicerrando os olhos para o Figueiredo, que imediatamente se endireita. - Percebido?
_ Sim, patrão. - Concordam em unissom.
_ Esteves... uma palavra... - Digo, afastando-me para falar com Aurora, com alguma privacidade. Ela segue-me. - Amanhã precisamos de nos reunirmos para te pôr a par de tudo: horários, entradas e saídas, calendarização... para que possas a começar a desempenhar as tuas funções. Aproveita o resto do tempo, como melhor te convém, mas não te esqueças de tratar da tua mudança ainda hoje.
_ Com certeza, chefe. - Diz, ao estilo militar.
_ Ah! E boa luta! - Elogio-a, sorrindo, antes de me afastar.
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AURORA
Aquela luta deixou-me um pouco cansada, mostrando-me o quanto tenho sido desleixada com o meu treino. Estava desejosa de tomar um banho, mas ainda não tinha as minhas coisas comigo. Tinha de esperar por Zane.
_ Malta, agora que estamos sozinhos, eu não quero que pensem em mim como apenas uma mulher. Sim, eu sou mulher, sim eu sou vossa chefe, mas também sou militar. Cresci com formação militar, sob regras apertadas e participei em missões no estrangeiro. Sou disciplinada, rigorosa e tenho forte apreço pelo profissionalismo. Todavia, sou humana e não pretendo ser mais, ou melhor que ninguém. O meu objectivo aqui, é ser líder de uma equipa destemida, tática, em que ninguém é dispensável. - Fiz uma pausa para observar os homens que tinha à minha frente. - O que me dizem? Equipa?
_ Sim, chefe!
_ Permissão para falar livremente, chefe? - Uma voz ao fundo.
_ Um passo em frente! - Digo. E assim que o dono da voz, se chega à frente, acrescento. - Permissão concedida!
_ Penso que falo por todos quando afirmo que todos ficamos espantados com as suas capacidades de combate e, que não temos dúvidas de que é provavelmente ótima relativamente a outras competências... o que quero dizer, é que a seguiremos como nossa chefe!
_ Obrigada pelas palavras. - Agradeço com sinceridade. - Que tal nos sentarmos e nos conhecermos um pouco melhor? Só partilham o que querem. O objetivo é eu perceber melhor o vosso modo de pensar e agir, de modo a explorar todo o vosso potencial. Amanhã, começaremos os treinos e estabeleceremos ordens de trabalho.
Todos concordaram.
Ao fim de duas horas, Zane aparece na porta e chama-me. Dispenso toda a equipa, não interferindo nas tarefas que já têm designadas para hoje.
_ Leonardo pediu-me que te levasse a casa para recolheres as tuas coisas.
_ Sim, se não estiveres muito ocupado. Preciso de fazer as malas e de conversar com a Clara.
_ Cuidado, com o que lhe contas, Aurora.
_ Eu sei, eu sei. Mas não lhe quero mentir.
_ Não o faças! Apenas conta-lhe o essencial e omite outras coisas. É a melhor maneira de a protegeres deste mundo, que agora, também é teu.
_ Fica descansado. Eu também a quero proteger.
_ Sim, eu sei. Vamos?
_ Sim.
A viagem para casa, foi feita em silêncio. Apesar do nosso pacto, ainda era estranho a situação em que estávamos. Fui eu quem cortou com o silêncio.
_ Importaste de me vires buscar mais tarde, após a hora do jantar?
_ Não, claro que não.
_ Muito obrigada. Emprestas-me o teu telemóvel? - Estendo a mão para que mo entregue.
_ Toma. - Deposita o seu telemóvel na minha mão.
Assim que acabo de gravar o meu número no seu telemóvel, faço uma chamada para mim mesma, para que também eu, fique com o número dele.
_ Gravei o meu número. Assim que tiver pronta, mando-te uma mensagem, pode ser? - Entrego-lhe o telemóvel, que ele guarda no bolso.
_ Chegamos. -Anuncia.
_ Até daqui a bocado. - Digo.
_ Espera, Aurora. Dá um beijo por mim à Clara, por favor.
_ Oooookay! - Respondo, revirando os olhos e entrando na casa.
_Claaaaara! - Chamo.
Clara abraça-me com força, assim que me alcança.
_ Estás bem? Isso são tudo saudades? - Pergunto-lhe.
_ Conta tuuuudo! - Ordena-me. Claramente aquele abraço era mais curiosidade, do que saudade.
Eu rio-me alto, enquanto subimos as escadas, a cada dois degraus, em direção ao quarto de Clara. "Contarei tudo o que te puder.".
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