Cap. 16. - Eticamente falando

1308 Words
----- AURORA Quando acordei, Clara já estava vestida e preparava-se para sair. _ Espera! - Salto da cama e sento-me com as pernas cruzadas. _ Bom dia! _ Bom dia, Clara! Achas que podemos conversar um pouco antes de ires? _ Claro Aurora, deixa-me só avisar a minha colega que hoje não vou com ela. - Ela escreve uma mensagem rápida. - Pronto. - Senta-se na beirada da cama. - Estás bem? Estás com uma cara... _ Clara, eu sei que ele não é uma pessoa confiável... _ Vá lá, Clara! Eu não quero falar do Zane. - Interrompe-me. _ Não é sobre o Zane. - Falo mais baixo, com uma voz culposa. _ Não? - Arregala os olhos. _ Eu não consegui o emprego na empresa do teu pai? _ Como assim? Isso resolve-se. Eu falo com o meu pai. _ Não quero, Clara. Mas, deixa-me acabar... Eu tenho outra oferta de emprego. - Alegro-me. _ Conta! _ É para chefe de uma equipa de segurança também, mas precisam da minha disponibilidade total e, para isso, oferecem-me alojamento no local de trabalho. _ Isso é bom. Resolves dois problemas de uma só vez. Não que esteja a reclamares de estares aqui. Eu adoro-te e à tua companhia. _ E o ordenado não é mau também. - Acrescento. _ Então, porque é que não sinto empolgação na tua voz. _ É que eu estaria a proteger um criminoso. - Olho para Clara e acrescento. - Lembraste daquele homem do bar, amigo do Zane?! _ O Leonardo. _ Exato! Vou trabalhar para ele. _ Já está decidido? _ Sim. Quer dizer... Estou em conflito. A verdade é que estaria a fazer aquilo que gosto e para o qual fui treinada, mas por outro...é do lado oposto... eticamente falando, não me parece certo. _ Percebo... Porque é que não tentas negociar? _ Como assim? _ Procura alguma segurança para ti. Do género, faz o teu trabalho, sem saberes das ilegalidades. Ou algo do género. _ Não sei se isso é sequer parcialmente possível... _ Tenta negociar. O "não" é garantido. _ Negociar com um bandido?! Vamos ver como corre hoje e se tenho uma oportunidade para isso. _ Hoje? _ Sim, fiquei de me encontrar com ele às 10h00. _ Hum... Sabes se Zane trabalha com ele ou se são só amigos? _ Não faço ideia, Clara. Por essa razão, ando um pouco preocupada contigo. _ Podes tentar perceber? _ Sim, claro. Mas o que é que tens em mente? _ Estou a começar a gostar do Zane, Aurora. E digamos que as questões morais também me assombram um pouco. _ Percebo. _ Bem... Tenho de ir embora. Tem cuidado e não te atrevas a fazer as malas sem falares comigo primeiro. _ Tem um bom dia! Clara sai e eu levanto-me da cama. Visto umas calças de ganga pretas, uma t-shirt branca simples, com um top branco por baixo e calço uns ténis pretos. Coloco uma pequena carteira, com os cartões mais importantes e algum dinheiro, no bolso das calças e o telemóvel, no outro. Desço para a cozinha. _ Chegaste tarde ontem, Vitor! _ Já sabes... Estive a trabalhar. Tinha que finalizar uns contratos. _ Outra vez? Já não é a primeira vez esta semana. Não tens nada para me contar? _ Pára com isso! Sempre desconfiada! Eu só tenho olhos para ti, meu doce. _ Sei... Por mais que eu não quisesse, não tinha como não ouvir a conversa dos pais de Clara, enquanto descia as escadas. E assim que me apercebi que estavam na cozinha, optei por sai diretamente para a rua, sem tomar o pequeno-almoço. Fui até um café, a andar. Comi uma fatia de pão integral com queijo fresco e bebi um chá. Liguei para um táxi e pedi um café para a viagem. Assim que o táxi chega, dou a morada de Leonardo ao taxista e preparo-me mentalmente para todos os cenários imagináveis, enquanto tomo o meu café. ----- LEONARDO Após me arranjar, desci para tomar o pequeno-almoço. Na mesa, já lá estavam a minha mãe e irmã. Pego no jarro de sumo e dirijo-me para o meu lugar. _ Bom dia! - Digo. _ Bom dia, mano. - Só Valentina me cumprimenta. _ Mãe? _ Bom dia, filho! Bom dia! - mostra algum desagrado. _ Não parece. _ O que se passa mãe? - Desta vez é Valentina que a questiona. _ Não é nada, filha. Come. _ Bom dia! - Exclama alegremente Georgia, enquanto puxa uma cadeira para se sentar. Eu quase engasgo com o sumo. "Esta miúda está a tirar-me do sério". _ Bom dia Georgia! - Exclama a minha mãe toda sorridente. "Que mudança súbita!" - Pensei que passavas cá a noite. Olho de esguelha para a minha mãe. Georgia cora. _ Porquê Dona Catarina? _ Não estiveste cá ontem à noite? Ou melhor: de madrugada? _ Sim. Eu e o Leonardo tínhamos assuntos para falar. _ Eu não diria que falaram, segundo a conversa que ouvi entre os empregados, pelos corredores. _ Eu peço desculpa, Dona Catarina. - Diz Georgia, envergonhada. _ E tu? Leonardo? _ Eu acho que tenho que tomar medidas quanto às características físicas dos meus empregados. Será que devo diminuir no comprimento das línguas? - Questiono para o ar, fitando as empregadas que nos serviam o pequeno-almoço. Elas aproveitaram a deixa, e saíram de mansinho da divisão. _ É mais fácil punir os outros, em vez de assumirmos as nossas escolhas, não é Leonardo? _ Que escolhas mãe? - Pergunta Valentina. _ A de que Leonardo quer Georgia para sua mulher. Óbvio! - Responde a minha mãe. Georgia olha para mim com esperança no olhar. _ Isso nem é uma escolha. É um suicídio! - Diz Valentina, entre os dentes. Eu sorrio-lhe. _ Primeiramente mãe, eu e Georgia somos só amigos. Com benefícios ou não, só a nós nos diz respeito. Segundo, não estou à procura de uma mulher, e não é porque já encontrei (claramente uma indireta para Georgia). Em último lugar, mas não menos importante... Georgia não voltas a aparecer na minha casa, sem convite. Estamos entendidos? _ Não acho justo, Leonardo! - contesta Georgia. _ Leonardo, não faças isso à Georgia. Ela não merece. - Diz a minha mãe. Valentina permanece calada, mas sei que por dentro está a festejar. Ela odeia a Georgia e não perde uma oportunidade de o demonstrar. Zane entra na sala. _ Bom dia a todos! _ Bom dia, Zane! Como estás? Queres comer alguma coisa querido? - Pergunta a minha mãe. _ Não, mãezinha. Já comi. - Responde Zane, dando um beijo na testa à minha mãe. Zane trata a minha mãe por mãezinha, porque frequenta a minha casa desde muito novo e foi através dela que adquiriu o seu lado romântico, embora a minha mãe seja mais calculista. _ Bom dia! - Cumprimento eu e Valentina em unissom. Só Georgia é que permaneceu calada, olhando para o prato enquanto comia, provavelmente amuada. _ Senhor, peço desculpa por interromper, mas está à porta uma menina chamada Aurora para falar consigo. Posso permitir a entrada? - Questiona um empregado. _ Sim, obrigada. Encaminha-a para o meu escritório. Já lá vou ter. - Bebo o resto do sumo, enquanto me levanto. O empregado sai. _ Aurora, está aqui? - Perguntou-me o Zane. Preferia que se tivesse mantido em silêncio. _ Sim. É a nova chefe da equipa de segurança. _ Uma mulher para chefe de segurança? - Goza Georgia. "Estava tão bem calada!" _ E o que é que tem? Uma mulher não pode ser segurança? - Valentina parece chocada e com pouca paciência para Georgia. Mais uma vez, Georgia cala-se e eu agradeço-me internamente por isso. _ Vamos, Zane? - Caminho em direção ao escritório, seguido por Zane. -----
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