CAPÍTULO 1
Sophia Oliveira.
Hoje faz exatamente treze anos desde que meu pai se foi e mesmo depois de todos esses anos eu ainda sinto tanto a dor que a sua falta faz, pra ser sincera eu acho que essa dor nunca vai passar ou se quer amenizar.
Eu era apenas uma menina quando o meu pai faleceu, ele foi baleado bem na minha frente em uma operação na comunidade que eu vivia quando era criança. A polícia "confundiu" o meu pai com um traficante e atirou em seu peito duas vezes mesmo ele estando com uma criança ao seu lado apenas porque o meu pai mexeu em seu bolso pra pegar as chaves do carro, segundo os desgraçados que assassinaram meu pai eles só atiraram porque o viram mexendo no bolso pra pegar as chaves e eles acharam que ele sacaria a arma pra entrar em confronto contra eles.
Eu me lembro perfeitamente de cada momento daquela noite, ele agonizou por mais de quinze minutos e aquele bando de maldito não se deu nem ao trabalho de coloca-lo dentro da m***a da viatura pra tentar salva-lo, eles o trataram pior do que um animal e o meu pai acabou morrendo por ter perdido muito sangue e não ter sido socorrido a tempo, aquele foi o dia mais triste de toda a minha vida!
Eu sei que eu posso estar enganada ou criando histórias malucas em minha cabeça, mas eu tenho certeza que eles só confundiram meu pai com bandido porque ele era n***o, até porque nos meus vinte e três anos eu nunca vi nenhum policial confundir qualquer cidadão branco com bandido.
Eu cresci com um ódio tremendo por policiais aflorado em meu peito, mas com o passar dos anos eu amadureci e cheguei a conclusão que em qualquer área existe o racismo e o preconceito e a única coisa que me resta fazer é lutar contra essa m***a de sistema racista.
Hoje em dia eu ainda tenho um certo receio de policiais e prefiro mante-los longe de mim porque cada um deles atraí um sentimento muito r**m em mim e eu não quero ter que lembrar daquela cena todos os dias em todos os momentos.
Me viro na cama puxando os lençóis, passo meus braços em volta do tronco do meu namorado e bocejo sentindo tanto sono que me faz ter vontade de ficar na cama o resto do dia.
Eu passei praticamente a noite inteira em claro porque quando o Luís está trabalhando durante a madrugada eu sempre fico preocupada e pra piorar a data de hoje me deixa tão abalada que eu não consigo dormir, nem comer e nem sinto vontade de fazer nada.
Luís se mexe ao meu lado se virando em minha direção e abre os olhos por alguns segundos, mas ele logo volta a fecha-los bocejando.
Luís e eu estamos há seis anos juntos, nos nós conhecemos no antigo bairro que eu morava e ele se aproximou de mim e nos acabamos se relacionando e entre a incontáveis idas e vindas nos nós demos mais uma chance de tentar fazer diferente, mas pra ser sincera eu não tenho certeza se estamos fazendo isso direito.
A gente já se separou por inúmeras vezes durante esses anos e a maioria das vezes por falta de maturidade da parte dele, mas depois dele ficar mais de um mês no meu pé dizendo que ia mudar e blá blá blá eu aceitei voltar e dar mais uma chance pra ele e até pra gente também. Até porque ele já está há tanto tempo na minha vida, pra ser sincera eu já acostumei em te-lo ao meu lado e ele é um cara honesto, trabalhador e pra ser bem honesta eu acho que nunca vou encontrar algo melhor que ele.
Quando eu me virei na cama a minha primeira visão foi a pequena janela de vidro e os fracos raios de sol que estão entrando pelas falhas da cortina.
Fecho os olhos por alguns segundos e solto um suspiro profundo e longo, eu tenho certeza que o dia de hoje será o mais difícil dos últimos anos, porque além de ser o aniversário de morte do meu querido pai, também será o meu primeiro dia como estagiária em uma delegacia da polícia federal.
Até alguns meses atrás eu trabalhava em um estágio no centro que era bem perto da minha faculdade e com um horário maravilhoso, mas o Luís foi demitido do seu trabalho há uns três meses e as coisas começaram a ficar apertadas pra gente e ele me obrigou a fazer a prova pra ser selecionada para esse estágio porque tem uma ótima remuneração e como eu fui aceita eu serei praticamente obrigada a ir pra não passar fome, já que ele disse ou eu aceitava o emprego eu ele me largava sozinha sem ter aonde cair morta e voltar pra casa da minha mãe pra ser humilhada todos os dias não é uma opção, eu me vi totalmente sem opção e acabei cedendo a sua vontade porque eu não quero nem pensar em viver de baixo do mesmo teto que a mulher que jogava a culpa da morte do meu pai sobre mim todos os dias.
O encaro pela última vez e tiro meus lençóis de cima de mim já levantando da cama. Calço os meus chinelos e vou até ao banheiro em silêncio pra não acorda-lo, fecho a porta atrás de mim com calma e aquele dor de saudade se fez presente em meu peito mais uma vez.
Tiro a minha roupa com muita calma e as coloco no cesto que há no canto do nosso banheiro. Entro no box do banheiro e ligo o chuveiro deixando a água quente levar meu corpo e minha alma também.
Desde que meu pai faleceu as coisas ficaram tão difíceis pra mim, a minha mãe me virou as costas e jogou toda a culpa do assassino em mim por ele ter sido morto ao me buscar na casa de uma coleguinha de bairro, eu passei a minha adolescência inteira ouvindo-a dizer diariamente que o meu pai só morreu por minha culpa, mas eu não tive culpa, eu não tive!
Quando o Luís me chamou pra dividir uma casa é a vida a dois eu aceitei de primeira mesmo tendo sendo muito tão nova, porque eu não já estava com uma depressão profunda de tanto que ela me julgava e me tratava m*l, hoje em dia eu sou colocada pra baixo pelo namorado por uma ironia do destino, mas pelo menos eu não ouço mais ela dizendo as coisas horríveis que ela me dizia dia após dia.
Saio do box com uma toalha envolta ao meu corpo e com um coque bem preso em meus cabelos, aproveito que já estão aqui, escovo os meus dentes e faço toda a minha rotina de todas as manhãs. Saio do banheiro fechando a porta atrás de mim e entro no quarto indo direto para o pequeno guarda-roupa que eu divido com o Luís, abro-o escolhendo a roupa que eu irei usar no dia de hoje, acabo pegando uma calça jeans clara, uma camisa preta social e uma sapatilha nude que já essa mais velha e gasta até a minha avó.
Eu terminei de me trocar, arrumei o meu cabelo e me maquiei pra tentar disfarçar a cara de quem passou toda a noite em claro chorando.
- Tu vai sair com essa roupa?- a voz do Luís surgiu em um tom nervoso atrás de mim me fazendo virar no mesmo segundo.
Ele já está de pé atrás de mim com os braços cruzados e com uma feição de poucos amigos em seu rosto, como de costume.
Pelo jeito ele hoje ele está em um daqueles dias que nem o capeta aguenta, algo deve ter acontecido ontem a noite e como de costume ele irá tentar jogar tudo sobre mim.
- Um bom dia pra você também!- digo passando por ele e caminho até o meu criado abrindo a gaveta do mesmo pra pegar o antidepressivo que eu tomo tudo dia pela manhã e noite também.
Eu pude ouvir seus passos em minha direção e quando eu levantei a cabeça eu me deparei com ele atrás de mim com uma feição de raiva em seu rosto.
- Eu já te avisei que não quero que tu saía com essas roupas de p*****a pra rua Sophia. Eu vou acabar colocando fogo nesses c*****o pra vê se você me obedece!- ele exclamou praticamente gritando na minha cara.
Há algum tempo atrás eu até ficaria surpresa ao ouvir algo do tido vindo dele, mas hoje em dia ele já fez e falou coisas tão piores que absolutamente nada me surpreende e eu nem sei o que eu estou fazendo com ele nessa altura do campeonato, mas a gente já está tanto tempo juntos que eu me sinto dependente dele e não consigo sair dessa situação por nada, mesmo que eu termine por um tempo, algo sempre me faz voltar e isso me faz tão m*l!
- Luís...- digo quase sem voz de tanta raiva misturado com um pouquinho de decepção.
- Eu passei a noite toda trabalhando igual um e*****o pra trazer dinheiro pra bancar essa casa. Se tu continuar agindo igual uma mulher solteira eu te deixo sozinha e tu sabe muito bem que ninguém vai te aguentar!- ele gritou com seus olhos sobre os meus.
Eu fiquei totalmente paralisada sem entender o porque daquilo tudo sem ao menos um motivo, até parece que ele levantou da cama e decidiu acabar com o meu dia que já está h******l.
- Não fala assim comigo Luiz, eu já estou péssima porque hoje faz treze anos da morte do meu pai...- digo com uma vontade enorme de chorar.
Uma expressão de tédio tomou conta do seu rosto, ele se afastou de mim passando a mão por seus cabelos e soltou um suspiro impaciente como se os meus motivos fossem inválidos.
- Todo ano é a mesma coisa, para de mimimi Sophia. Já passou da hora de tu acostumar que teu pai morreu, tu até parece uma criança que não sabe entender as coisas!- ele exclamou com raiva.
O meu coração se apertou ao ouvir as suas palavras, o meu olho começou a arder de tanta vontade de chorar e as lágrimas que eu estava segurando pra não parecer uma tonta em sua frente saíram sem me pedir permissão.
Meu pai sempre foi meu porto seguro, o meu melhor amigo e ouvir alguém tão importante pra mim falando do meu pai causa uma dor tão grande no meu coração.
- O que eu te fiz? Me diz por que você está me tratando assim?- o questiono aos prantos indo pra cima dele e puxo os seus braços o fazendo me encarar.
Ele se virou pra trás em um impulso, me empurrou com toda a sua força me fazendo bater contra a parede me machucando.
O meu corpo ficou completamente paralisado no mesmo momento e eu fiquei completamente sem reação ao "vê-lo" fazendo aquilo comigo.
Eu acho que ele teve noção da m***a que fez no mesmo momento porque o seu rosto mudou de expressão e ele correu de um jeito desesperado em minha direção parando na minha frente.
- Sophia...- ele diz com os olhos cheios de lágrima enquanto passa as mãos em meu rosto o acariciando.
Eu fiquei sem reação alguma diante de toda aquela situação, eu apenas me senti totalmente impotente, como um nada!
- Sophia, me perdoa?- ele pede com os seus olhos marejados e com o corpo trêmulo.
Naquele momento eu fiquei cega de raiva misturado com tristeza e muita decepção e acabei o empurrando com toda a minha força pra afasta-lo de mim.
- Eu não quero mais vê a sua cara na minha frente!- exclamo aos prantos.
Ele veio atrás de mim já chorando aos prantos e entrou na minha frente me segurando pra me impedir de andar.
- Eu só fiz aquilo porque eu estou um pouco estressado por causa das contas que estão acumuladas. Sophia, você sabe mais que ninguém que eu jamais machucaria você!- ele diz afobado.
- Eu estou cansada de ser maltratada Luís, eu já não aguento mais.- digo quase sem forças.
Ele limpou as lágrimas que haviam em seu rosto, pegou a minha mão e deu um passo a frente ficando mais próximo de mim.
- Sophia, eu juro que eu nunca mais encosto um dedo em você. Por favor não me deixa?- ele pede ficando de joelhos na minha frente enquanto olha em meus olhos.
Tiro a minha mão da sua, dou alguns passos pra trás me afastando dele e balanço a cabeça sentindo meu rosto ainda molhado pelas lágrimas.
- Eu não quero conversar agora. Eu tenho um trabalho importante pra entregar no primeiro tempo, Luís.
Ele se levantou com rapidez parando logo a minha frente, olhou em meus olhos com e pegou a minha mão.
- Promete pra mim que vai pensar, Sophia? Eu juro que dessa vez eu vou me esforçar pra mudar.- ele desanda a falar de um jeito desesperado.
Desvio meu olhar do dele por alguns segundos, solto um suspiro e solto as suas mãos me afastando dele já sem forças pra lutar por aquilo.
- Eu não quero conversar agora, se eu voltar pra casa a gente conversa.- digo por fim e saio dalí pegando a minha bolsa e as chaves do nosso carro que estavam sobre o criado.
O Luís me acompanhou até a garagem aos prantos e praticamente de joelhos pedindo perdão, mas dessa vez eu saí sem olhar pra trás e porque eu já não tenho forças nem pra discutir mais e nem mente pra aguentar todas as suas promessas.
Eu saí dirigindo pelas ruas com meus olhos totalmente embaçado por ainda estar chorando por todas essas coisas que estão acontecendo comigo.
Eu realmente não sei se dessa vez da pra perdoar o Luís, ele sabe mais que ninguém que hoje é um dia tão difícil pra mim e faz essas coisas horríveis só pra deixar tudo pior? Eu já me cansei de perdoa-lo pra depois ele fazer tudo exatamente igual sem remorso!
O pior de tudo é que dessa vez eu não fiz absolutamente nada para deixa-lo irritado, parece que algo aconteceu e ele acordou já descontando em mim já que ele não pode descontar nas outras pessoas.
Naquele mesmo segundo meu celular começou a apitar dentro da bolsa que está logo ao meu lado chamando toda a minha atenção.
Desviei o meu olhar da rua na dúvida se pego o telefone ou não, mas o meu pensamento foi interrompido quando eu senti o impacto do meu carro se chocando com outro e ouvi o barulho de algumas peças se quebrando.
O meu corpo permaneceu imóvel por conta do cinto, mas por outro lado o meu coração foi a mil quase saindo da minha garganta e as minhas pernas fixaram totalmente moles e sem jogo.
- Meu Deus...- sussurro quase sem voz sentindo o meu coração ainda muito acelerado e a minha boca seca.
Abro a porta do carro quase sem força e saio do mesmo sem sentir as minhas pernas e respiro fundo tentando me acalmar a todo custo, mas uma voz muito forte e imponente chamou toda a minha atenção.
- Você por acaso é louca?- uma voz masculina surgiu logo atrás de mim e quando eu virei pra trás eu senti o ar fugindo de mim novamente.
Um homem muito alto, bem trajado e com uma cara amarrado está bem na minha frente e ele me encara como se eu fosse uma adolescente i*****l.
Eu bem que queria ter uma resposta coerente pra responde-lo nesse exato momento, mas eu estou travada e o fato desse homem todo pintoso está parado bem na minha frente me deixa ainda mais travada.
O homem na minha frente aparenta ter mais ou menos trinta anos, ele é bastante alto, suponho que ele tenha por volta de um metro e noventa de altura, a sua pele é muito alva e seus olhos são azuis de jeito penetrante, os seus cabelos são castanhos puxando para o loiro e o seu rosto se parece com uma pintura de tão bem feito, já o seu corpo é forte e moderadamente torneado, seus braços são grandes, seu peitoral malhado e os seus ombros são largos.
- Eu te fiz uma pergunta garota, você por acaso é louca?- ele perguntou em um tom soberbo enquanto me olhava de cima a baixo de um jeito estranho, como se eu fosse uma i****a.
Eu abri a boca pra pedir desculpas pra ele, mas quando meu olhar se dirigiu diretamente para o carro parado logo atrás dele, foi nesse momento que eu notei que a errada da história não sou eu.
Estamos em uma via de mão única e o querido está direção contrária e ainda tem coragem de brigar comigo como se eu fosse a errada da história.
Naqueles momento todo o estresse e tristeza que estavam guardado dentro de mim afloraram na minha pele me deixando cega de raiva.
Parece que hoje é um daqueles dias que todo mundo tira pra me tirar do sério.
- Como o senhor tem coragem de me chamar de louca quando você dirige na mão errada? Parece que o culpado aqui é você!- exclamo com meu olhar sobre ele e cruzo os braços.
Ele parou de me encarar revirando os olhos, cruzou os seus braços passando por mim e eu pude sentir o seu olhar queimando as minhas costas. O que me fez virar no mesmo instante!
- Você por acaso sabe com quem está falando?- ele me questionou com suas sobrancelhas arqueadas.
- Um b****a que não respeita as leis de trânsito?- eu perguntei com ironia.
O seu rosto que era alvo como a neve ficou vermelho em segundos, ele deu um passo a frente ficando mais perto de mim e me olhou de cima a baixo como se eu fosse uma mendiga.
- Você olha bem como fala comigo, eu posso te dar voz de prisão a qualquer momento por desacato a autoridade caso eu ouça algo que não gosto.- ele diz em um tom nervoso.
Dou uma risada nervosa revirando os olhos e solto um suspiro impaciente e passo por ele indo até a porta do meu carro.
- Aproveita toda a sua autoridade e comece a policiar a si mesmo pra não cometer nenhuma infracção de trânsito que é melhor.- respondo no mesmo tom que ele e abro a porta do carro pegando os documentos do mesmo no porta luvas quando vejo uma viatura da polícia está parando do outro lado da rua.
Nesse momento ele se calou me dando as costas caminhando em direção a viatura policial. Os policiais saíram da viatura e eles ficaram um bom tempo conversando e pelo jeito a conversa foi bem pacífica, já que ele falou mais que os policiais.
No fim das contas os policias fizeram um boletim de ocorrência e deixou as burocracias por nossa conta, pelo que parece o homem tem uma boa lábia porque no fim os policias se pareciam como amigos de longa data dele.
- Então, está resolvido?- pergunto sem paciência nenhuma já que eu perdi o meu primeiro tempo na faculdade e consequentemente perdi dez pontos porque eu não apresentei o trabalho.
Ele desviou o olhar dos papéis que estão em sua mão e me encarou com uma feição não muito satisfeita em seu rosto.
- Sim, da próxima vez vê se presta um pouco mais de atenção na avenida pra não causas outro acidente.- ele diz em um tom de deboche fazendo a minha paciência ficar ainda menor.
Eu já acordei sendo testada hoje e pra eu descontar toda a minha raiva nesse homem eu não mudo de roupa.
- Claro, mas eu só farei se o senhor me prometer que irá respeitar todas as leis de trânsito e parar de dirigir como a avenida fosse sua.- digo abrindo a porta do meu carro e entrando no mesmo sem olhar pra trás.
Ele parou de frente pra janela do meu carro, cruzou os braços com seu olhar sobre mim e um sorrisinho irônico se formou em seus lábios.
- Tenha um ótimo dia!- ele desejou de forma sarcástica me olhando como se eu fosse uma maluca drogada.
Ligo o meu carro, me viro no banco o encarando pela última vez e levanto a mão mostrando o dedo do meio pra ele.
- Enfia o seu "bom dia" irônico aonde não bate o sol!- respondo com raiva e arranco o carro saíndo cantando pneu dalí.
Sempre quando Luís e eu brigamos eu fico com tanta coisa r**m guardada dentro de mim e coincidentemente esse pegou em um desses dias, eu não queria ser ríspida com ele, mas tanta reprimida dentro de mim eu acabei soltando tudo sobre ele.
Eu estou há tantos anos guardando os desaforos do Luís que se caso um dia eu estore perto dele não vai sobrar nem fumaça pra contar história.
Estaciono o carro em uma das vagas do estacionamento da faculdade, pego as minhas coisas e saio do meu carro acionando o alarme do mesmo. Luís e eu compramos esse carro juntos há uns dois anos atrás e pra ser sincera eu m*l toco nele, porque o Luís me acha incapaz de dirigir, eu tenho certeza que ele só não fez um show hoje por eu ter pegado o carro por ter agido como um b****a antes.
Quando eu pisei dentro da faculdade o meu celular vibrou e só naquele momento eu fui vê uma mensagem da minha prima e melhor que estuda na mesma turma que eu avisando que os professores haviam cancelado as duas últimas aulas, hoje realmente não é o meu dia!
- Sophia?- uma voz feminina soou em um tom calmo logo atrás de mim me fazendo olhar pra trás.
Quando eu virei pra trás dei de cara com Isadora e com a Luiza, as minhas amigas da faculdade e da vida.
- Eu te mandei mensagem quase agora avisando que nós não teremos os dois últimos tempos. Até porque eu achei que você não viria mais!- Luiza fala tudo de uma vez do jeito desesperado de sempre.
Respiro fundo balançando a cabeça e forço um sorriso voltando encara-las.
- Eu acabei batendo o carro quando estava vindo pra faculdade...- explico pra deixar tudo claro.
- O CARRO DO LUÍS?- Luiza exclama com os seus arregalados me deixando um pouquinho assustada com toda a sua reação desnecessária.
Pra ser honesta o carro é mais meu do que do Luís, já que eu paguei sozinha praticamente todas as parcelas por ele estar desempregado na época e ainda assim se acha no total direito de agir como se eu tivesse direito no carro.
- Se aquele embuste pagou umas três parcelas desse carro foi muito. Pra mim esse carro é da Sophia, mas ela é trouxa demais pra reconhecer isso.- Isadora diz com seu jeito grosseiro de sempre.
A Isadora é a pessoa mais grossa que eu conheço, ela é daquelas que diz tudo na cara sem cerimônia, mas é a melhor companheira caso eu precise de um ombro amigo. Por outro lado, ela não suporta o Luís e sempre que possível me diz que eu mereço algo muito melhor que ele.
Já a Luíza é mais calma, doce e muito parceira. Ela é minha prima, nos crescemos praticamente como irmãs e diferente da Isadora o Luís e ela são grandes amigos desde antes de nós dois começarmos a namorar e ela não faz questão de se meter em nada na minha relação.
- Você nem conhece o cara Isadora, tu tem essa mania chata de julgar todos mesmo sem ao menos conhecer.- ela saiu em defesa dele antes mesmo que eu abrisse a boca.
- Nas poucas vezes que eu vi deu pra notar que ele é um embuste. E para de defender o cara que que é a mulher dele aqui é a Sophia e não você!- ela respondeu no mesmo tom de raiva da Luiza.
Solto um suspiro e entro no meio das duas pra evitar a discussão. Sempre quando surge o assunto Luís as duas entram em conflito e como ambas tem um gênio forte sempre da briga.
- Vamos parar de confusão porque nem eu que tô na relação com o tal embuste não tô brigando. Eu já passo por brigas demais em casa e não estou com cabeça pra brigar com nenhuma de vocês também.- digo encarando as duas.
Isadora deu pra trás e acenou com sua cabeça concordando comigo e soltou um suspiro pra se acalmar e Luiza fez o mesmo.
- Eu vou aproveitar que estamos livres agora e vou para o meu estágio. Vocês querem carona?- as questiono.
Luiza apertou seu celular em suas mãos e negou com a cabeça dando um sorriso contido.
- Não, eu vou aproveitar que tô livre e vou resolver algumas pendências alí no centro...- ela responde sem me dar muita atenção.
- Eu não vou poder ir porque minha turma ainda tem um tempo.- ela diz revirando os olhos tirando uma risada fraca de mim.
Eu fiquei mais um quinze minutos alí parada com as meninas conversando e acabei contando da briga, mas dessa vez nenhuma das duas opinaram e a única coisa que a Isadora me disse foi pra eu me preparar porque se dessa vez ele me empurrou da próxima será pior e eu fiquei pensando em suas palavras enquanto dirigida até o meu novo local de trabalho.
Eu realmente tenho medo do Luís se exaltar qualquer dia e fazer alguma loucura comigo, até porque sempre até nos brigamos ele quebra tudo em casa, grita igual um louco e só falta me agredir quando ele dar um surto.
Quando acontece um desses episódios eu só penso em pegar tudo e sair dalí sem olhar pra trás, mas ele sempre diz que vai se m***r quando eu tento sair de casa e eu me vejo sem saída e com muito medo, porque uma das vezes que eu terminei ele tornou um tanto de remédio e foi parar no hospital e todos jogaram a culpa em mim, até mesmo a minha mãe.
Eu me sinto totalmente presa ao Luís e a esse relacionamento e parece que sempre quando eu tento me libertar, algo me prende mais ainda e eu deixo ele me aprisionar por medo dele fazer algo contra mim ou pior, contra ele mesmo.
Saio do carro acionando o alarme depois de estaciona-lo bem próximo a delegacia, ajeito minha bolsa em meu ombro e saio caminhando um pouco nervosa em direção a enorme porta de entrada da delegacia, mas no meio do meu trajeto um carro em especial chamou a minha atenção.
- Você pode me explicar o que está fazendo parada aí?- aquela voz forte surgiu do nada chamando a minha atenção.
Quando eu levantei a cabeça eu me deparei com aquele homem de pé na minha frente encostando na parede enquanto fuma e faz algo no celular.
- Eu sou estagiária na delegacia, você está me perseguindo?- o questiono começando a ficar com medo daquilo.
Não é possível que eu seja tão r**m a ponto de Deus me mandar essa cruz pra acabar com o meu dia que já está uma verdadeira m***a!
Ele se afastou da parede assim que eu conclui a frase, ele cruzou os braços e um sorrisinho irônico se formou em seu rosto no mesmo instante.
- Eu sou o delegado responsável por essa delegacia!- ele afirmou mantendo aquele sorriso em seu rosto e naquele momento eu me arrependi de tudo que eu fiz há mais ou menos quarenta minutos atrás...