03 Scarlett

1482 Words
— Abra a porta, Scarlett. — Estou ouvindo a voz abafada do Castiel faz mais de meia hora. Se eu pudesse descrever agora como eu me sinto, eu diria que me sinto extremamente ridícula. Por tudo, do começo ao fim, me arrependo de cada segundo, de cada palavra e olhar que troquei com ele até hoje. Esse tempo todo me sentindo insuficiente, pouca coisa demais para ele. Para agora descobrir o quão psicopata e manipulador ele é. Mas de uma coisa agora eu tenho certeza, jamais voltarei a olhá-lo como antes. Olho para meu reflexo no espelho e sinto pena de mim mesma. Minha aparência é ridícula, o rímel completamente borrado, os meus cabelos todos apontados em direções opostas, meus olhos cheios de olheiras e meu rosto que está tão tenso que me faz duvidar se eu tenho mesmo só 22 anos. Respirei fundo, abri o guarda-roupa e o encarei por um longo período de tempo. Tudo o que está alí dentro, ou Castiel que comprou e me deu de presente, ou foi comprado por mim com o dinheiro dele. Entrei no banheiro, enchi a banheira e mergulhei na esperança de conseguir me afogar. É como se eu não quisesse morrer, só sumir, deixar de existir, e isso não faz o menor sentido. Eu perdi dois anos da minha vida com esse homem e agora me arrependo, me arrependo por ter me iludido com um homem que não merece nem mesmo uma única lágrima minha. Tomei um ótimo banho, me maquiei e vesti uma roupa descente. Porque eu não posso me deixar ficar acabada por causa de um homem como o Castiel. Quando uma mulher é traída a decepção pode até dominar os sentimentos dela, mas o que domina a cabeça sempre será a insegurança. Os milhares de questionamentos que perguntam “o que há de errado?”, “o que fiz de errado?” e “o que ela tem que eu não tenho?”. "Eu dei tudo de mim para ele, fiz tudo o que pude para ser a mulher perfeita. O que há de errado comigo? Eu não sou bonita o bastante? Meu corpo é estranho? O que tem de errado comigo!? Talvez se eu fosse um pouco mais experiente, não sei. Ou talvez se eu fosse um pouco mais curvilínea, ele talvez gostaria mais de mim e não teria feito isso comigo." Sou uma mulher bem resolvida comigo mesma, nunca me senti a mulher mais linda do mundo mas sempre soube que era bonita. Até porque não é atoa que sou protagonista de filme. Mas acho que na minha vida inteira, nunca me senti tão m*l comigo mesma, não é só pela traição mas sim por milhares de coisas ao mesmo tempo. Sempre soube que as mulheres são desvalorizadas, mas é como se dessa vez a fixa realmente tivesse caído. Eu sempre fui verdadeiramente vista apenas como um corpo? Destranquei a porta do quarto, e saí andando levando apenas o restinho de dignidade que ainda me sobrou. Passei por meu ex-marido como se ele não fosse absolutamente nada, porque ele realmente não é mais nada para mim. — Para onde você está indo? — Castiel ainda me perseguia. Por que os homens se acham nesse direito? São infiéis e ainda esperam serem tratados com normalidade — Vai para o inferno, Castiel. Me deixa em paz. — Desci as escadas sem ao menos olhar para ele. — Só me dá uma chance de me explicar. — Ele repetiu a mesma frase de diferentes formas por vários instantes até conseguir me convencer e então viro o corpo de uma vez para ele, o que faz ele assustar com o movimento repentino. — Você quer uma chance de se explicar, certo? — Segurei no corrimão com a mão firme para conter a raiva e agir de forma elegante, como tenho me obrigado desde que começamos a ter um relacionamento. Eu queria ser a mulher perfeita para ele, por me achar inferior demais. — Então você pode me assegurar que tudo o que eu vi foi apenas imaginação da minha cabeça ou coincidência, que todas as viagens que você marcou de última hora e também todas as vezes em que você chegou tarde em casa afirmando estar cheio de trabalho não tinham nada haver com aquela garota? — Apontei o dedo em sua direção enquanto erguia as sobrancelhas. — Seu direito de resposta é sim ou não! Castiel me encarou travado, ele não tinha o que responder. Eu só estava fazendo ele perceber que não tem o que explicar nessa situação. — Mas meu amor, eu só estava... — Parecia procurar as palavras e ao mesmo tempo parecia envergonhado, pois nem mesmo me olhava nos olhos. — Ela não significa nada para mim, Scarlett. É você quem eu amo. — Me esquece, Castiel. — Desci os degraus da escada com tanta raiva que pisava com força. — Scarlett, por favor... Encarei a porta à minha frente parada que nem uma estátua por um bom tempo. Quantas vezes eu entrei por essa porta. Quantas vezes eu entrei por essa porta acreditando que eu tinha a vida, o casamento perfeito, que eu era especial, sortuda, a mulher mais feliz e amada do mundo. Mas era outra mentira dele, não é? Eu realmente acreditava em tudo o que ele me dizia, eu realmente sinto pena de mim mesma agora. Mas era tão óbvio, eu que me recusei a acreditar apenas por não querer desfazer o laço tão bonito que havia criado com o meu marido. Patético. — Há quanto tempo vocês estão juntos? — Questionei um pouco baixo ainda encarando aquela maldita porta dez vezes maior do que eu. — Um ano. — Castiel falou firme. — Mas eu deixei ela. É com você que eu me importo e que eu quero ficar, Scarlett. — Me responde uma coisa? — Perguntei já fraca. — O que? — O fato dela ser mais nova do que eu, e ter a mesma idade de quando você me conheceu é apenas uma coincidência, não é? — Minha voz era tão dolorida mas tão neutra, que a única forma de ser emitida foi sair em um tom bem baixinho. — Mas… o que? De onde você tirou isso, Scar? — O fato dele ficar nervoso e gaguejar apenas me confirma. O olhei nos olhos tão decepcionada, mas no fundo me sinto até aliviada. Pois esse homem é um psicopata, manipulador e doente, eu que nunca me deixei notar. — Foi o Humbert que apresentou ela a você também? É o seu tipo? Modelos anônimas e jovens? — Scarlett… — Pode ir atrás dela. Porque você não tem mais porquê se preocupar com o que eu acho. — Abri a porta e caminhei até estar metade do meu corpo para fora. Me inclinei para dentro da enorme casa e o encarei. — E é óbvio, eu quero o divórcio, Castiel. Bati a porta com força e fui em direção ao meu carro onde Britiney estava me esperando. — Você tem certeza de que está bem? — Britiney questionou enquanto dirigia meu carro. — Eu acabei de descobrir que estou sendo traída há um ano, Britiney. — Falei com um tom de humor. — Eu deveria estar sendo estudada se eu estivesse bem. — Nossa, que grossa. Você entendeu o que eu quis dizer. — Ela resmungou. — Sim, eu entendi. Mas tudo bem, eu estou super bem. — Falei firme enquanto respirava fundo. Óbvio que eu não estava bem, mas eu não queria derramar nenhuma lágrima e muito menos demonstrar qualquer sofrimento. Eu só precisava seguir em frente. — E agora? O que acontece a partir daqui? — Brity questionou enquanto dirigia calmamente, e dou graças a Deus que tenho ela para dirigir para mim, porque do jeito que estou frustrada teria um acidente de trânsito na certa. — Próxima parada, divórcio. — Brinquei balançando os dedos indicadores formando um círculo enquanto observava a janela ao meu lado. — É claro, eu sei disso. Mas quanto a você? O que vai fazer? Vai vim morar comigo por um tempo? Você não trouxe nem suas roupas. — Eu não queria seguir em frente com coisas que ele me deu. — Foi uma atitude bem corajosa. — Ela elogiou balançando os ombros. — Obrigada. Acho que vou ficar um tempo na sua casa sim, agora que o filme foi lançado e está fazendo bastante sucesso, talvez surja novos trabalhos e logo eu possa comprar uma casa. — Sorri fraco comigo mesmo só de me imaginar sendo feliz sozinha logo após um recomeço. — Você vai conseguir, não se preocupe. Estou aqui para apoiar você. — A Brity assegurou e levantou o punho para que eu batesse a lateral do meu no dela, e então sorrimos minimamente uma para a outra como se disséssemos “vai ficar tudo bem”.
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