Chocolate Com Menta

5000 Words
Capítulo Sete THOMAS DINESH Tomar café da manhã com os meus pais não era um hábito para mim, principalmente depois da morte de Maya, mas hoje o meu pai alegou ter uma ótima notícia: ele havia sido promovido. Então, ele estava feliz e demonstrou a sua gratidão ao fazer panquecas. — Não, até parece, Jonas não sabe nem o que se deve usar para escovar os dentes. — Disse à minha mãe. — Achei que ele poderia ajudar, só isso. — Riu. Sem compreender exatamente o assunto que eles estavam a ter, finalizei as panquecas no meu prato e lavei a louça. — Vai fazer algo hoje, filho? — Sinto meu pai se aproximar. Ele para com as costas contra o armário. — Ah, não. Só quero ter um dia tranquilo. — Respondo, secando as mãos. — Entendo. Deveria ir a algum lugar, conhecer a cidade, não sei. — Falou e aproximou-se para poder sussurrar. — Planejo sair com a sua mãe hoje a noite e voltar apenas amanhã. Segurei o riso. — Se entende o que estou a dizer. — Voltou a falar e me olhou com uma cara esquisita. — Me poupe. — Revirei os olhos e sorri, indo até o meu quarto. Meu pai é a pessoa mais i****a que conheço. Ele sabe exatamente o que falar para fazer as pessoas rirem. É difícil o ver nervoso, bravo, ou sério. Quando isso acontece, é sempre por um bom motivo. Pego meu sketchbook, passando por todas as páginas e vendo os desenhos que eu havia feito até agora. O de Travis durante o intervalo e o de Jace no hospital são os meus favoritos. Sorrio enquanto passo os dedos pelo desenho de Jace, ele definitivamente tem talento para ser meu modelo de rabiscos. Pego o lápis para começar um rascunho, mas antes que eu pudesse encostar na folha, minha mãe bate na porta. — Ei, pode entrar. Ela passa segurando um cesto cheio de roupas. — Coloque aqui as roupas para serem lavadas — falou e deixou o cesto em cima da minha cama. Enquanto me levanto para separar as roupas, minha mãe observa o desenho de Jace. — Ficou maravilhoso! — Olho para trás apenas para vê-la sorrir enquanto fala. — Muito obrigado. — Digo. — Espero que ele saia de lá logo. — Até hoje não consigo entender o porquê dele ter feito... O que fez... — Ela suspira, fechando o caderno e o colocando em cima da cama. — Não acho que cabe a nós tentarmos entender. O máximo que podemos fazer, por enquanto, é esperar o melhor. — Coloco as roupas no cesto. — Não faria diferença entender. — É, acho que sim. Assim que diz, minha mãe pega o cesto e sai do quarto, deixando eu e meus pensamentos a sós. O dia estava sendo tranquilo, finalmente. Eu e meus pais havíamos ido ao supermercado, e discutimos sobre adotar um cachorro ou um gato. Ainda recebíamos olhares estranhos, mas estávamos nos acostumando com isso. Eu fingia não ver, acho que meu pai realmente não via (ou fingia tão bem quanto eu), e a minha mãe devolvia o olhar, com faíscas de ódio passando pela íris. Passei o restante da tarde tocando bateria, ouvindo música e fazendo minhas atividades escolares. Quando o assunto é estudar, eu sou incrivelmente bom. Claro que tenho algumas dificuldades, mas tudo é tão simples para mim, não é como se eu tivesse que me m***r para entender alguma matéria, apenas flui. Isso me rende notas altas e um ótimo desempenho. Mas é claro que para me destacar, devo ser o melhor. Ninguém daria crédito a um emigrante. Passo os olhos pelo livro de química, lendo aquele bolo de palavras como se fosse um livro qualquer. Respondo as questões, finalizando o exercício. Finalmente, o dia estava sendo calmo. Agradeço mentalmente por isso e, assim que arrumo a bagunça que havia feito, pego meu celular para falar com Jace. ''Ei, como tá ai?'' 17:12 ''Nada demais. Gabriel tá aqui, então não está sendo um completo tédio'' 17:14 Hum. ''Que bom! Espero te ver segunda-feira na escola'' 17:14 ''Também espero'' 17:23 E depois não falamos mais nada. É realmente bom que Gabriel esteja lá com ele, mas ainda não faz muito sentido para mim. Ele nunca demonstrou se importar com Jace, o tratou como um lixo, e claramente só está ali porque sente culpa. Miller está caindo como um patinho na armadilha egoísta dele. Pode até não ser uma armadilha, mas ainda assim é algo sujo, desonesto, apenas para saciar as vontades de Gabriel Willis. E o que eu poderia fazer? Falar para Jace que ele está sendo e******o? Brigar com Gabriel e parecer um i****a? Ele sabe o que faz, e eu não tenho controle sobre isso. Não decido com quem ele fala ou deixa de falar, e me intrometer dessa forma na vida dele provavelmente custaria a nossa amizade. Então o que posso fazer é deixar ele viver, sentir, doer. E se chorar, oferecer o meu ombro e o fazer rir. Amigos servem para isso, não é? Então vejo meu pai pegar o casaco e passar pela porta, a fechando atrás de si. Ele e a minha mãe foram jantar em algum lugar caro, e sei o que acontece depois. Até amanhã. Eu já havia feito tudo o que tinha para fazer, e não é como se eu tivesse 10 amigos para conversar ou passar o tempo. Apesar de eu, Tyna e Travis sermos próximos, percebi que os estadunidenses não são tão calorosos e sentimentais. Respeitam o seu espaço privado, e apenas mandam mensagem quando é realmente necessário. Ou os dois apenas não gostam de papo furado. A última coisa que falamos no grupo foi sobre uma viagem que a escola faz todo ano durante as férias, de acordo com Tyna. Não demoramos muito nesse assunto, já que era incerto. Coloquei os meus fones e Numb começou a tocar, não impedi que um profundo suspiro saísse de mim. Achei de baixo da cama um quadro que havia comprado no mesmo dia em que pedi o sketchbook pela internet - interações sociais não são o meu forte, e evito muita coisa assim. A ponta do lápis estava afiada, e enquanto pensava no que fazer, a pressionei no meu dedo. Fechei os meus olhos, imaginando exatamente o que eu queria. Capturei o momento em minhas pálpebras, o sorriso, os olhos brilhando, o cabelo voando no meio do campo de lírios e jasmins, Maya gargalhando e se jogando na grama. Ela estava tão feliz naquele momento. A manterei assim para sempre. Quando acabo, observo o que fiz. Maya nunca esteve tão feliz como naquele dia em que visitamos a casa da nossa tia, que apesar de ser humilde, possuía um jardim maravilhoso, tão grande e tão belo quanto o da casa de Jace. Meu bolso vibra, e pego o celular rapidamente. ''Peguei o seu número com Travis, espero que não se importe ;)'' 20:33 ''Hm, quem é?'' 20:33 Tento olhar a foto de perfil, mas é apenas algo abstrato que nem consigo distinguir. ''Jane!'' 20:34 ''Desculpa chegar assim do nada, é que hoje vai ter uma festa aqui em casa e eu gostaria que você viesse.'' 20:34 ''Oh, ei'' 20:35 ''Sei que você e seus amigos não vão com a cara da minha irmã, mas ela não está aqui. Então pense sobre isso. 22h. Agora vou arrumar as coisas, realmente espero te ver.'' 20:35 Eu ia começar a digitar uma resposta, provavelmente daria alguma desculpa esfarrapada do tipo ''jantar com os pais'' ou ''estou resfriado'', mas ela já tinha ficado offline. Além disso, será que é uma ideia tão r**m assim? Seria uma ótima oportunidade para eu me divertir um pouco, relaxar e conhecer outras pessoas (até parece que sou bom nisso). A verdade é que eu quero ir, mas minha ansiedade sempre coloca um pé no meio do caminho, fazendo com que eu crie mil motivos para ficar isolado. Não sei se é uma boa ideia deixar a ansiedade comandar tudo em minha vida. Então, mando mensagem para Travis e Tyna. Eles irão passar aqui em casa para me buscar. É o suficiente? Eu não sei. Não vou à festas, não saio de casa e não estou acostumado com isso. Coloquei um suéter avelã com colarinho e uma calça jeans preta. Nos meus pés, o mesmo all star de sempre. Será que Gabriel vai estar lá? Afasto os pensamentos sobre Gabriel assim que escuto uma batida na porta. Desço as escadas correndo, me apoiando no corrimão para evitar um acidente. Assim que a abro, Tyna está encostada na pilastra da varanda. — Eiiiiii! — Nunca a vi tão animada assim. Bem, exceto quando está falando de Harry Potter. — Estou tão animada para essa festa, como estou? Linda, penso. A garota de cabelos encaracolados à minha frente usa um vestido preto, meia arrastão, botas pretas surpreendentemente altas e uma jaqueta de couro. Era para ter se arrumado assim? — Está deslumbrante. Vocês irão entrar? — Abro ainda mais a porta, e percebo que Travis está do outro lado da rua, dentro do carro. — Já estamos indo, na verdade. Eu poderia ter só mandado uma mensagem para você sair, mas não queríamos esperar muito. Então, vamos? — Ela abriu um longo sorriso. Era estranho vê-la assim após tudo o que aconteceu. Sorrindo, como se não estivesse indo para a casa da garota que a odeia, como se Jace não estivesse no hospital, como se... — Thomas? — Ela me despertou. — Vamos? — Claro. — Passei pela porta de casa, trancando-a. Tyna sentou-se no banco do carona, e não pude deixar de perceber os olhares que ela e Travis se davam durante o caminho. Ele usava uma calça de flanela vermelha, camiseta branca e uma touca preta. Fios loiros escapavam por ela, e seus olhos castanhos brilhavam à medida que dirigia. Mascava um chiclete de menta incansavelmente, parando apenas quando respondia alguma pergunta da garota ao seu lado. — Vocês acham que Ian vai estar lá? — Ela perguntou. — Bem, espero que não. — Respondi. — Se Billie não vai, ele provavelmente não vai estar lá. Sei lá... Só fico pensando em Jace. Travis me olhou pelo retrovisor. — Ele está bem. — Falou rispidamente, como se tivesse passado um bom tempo sem pensar em Jace, esquecendo completamente da sua existência e, no momento em que falei o seu nome, um peso o tivesse acertado na cabeça. Mas ele não estava mentindo. Jace passou o dia inteiro com Gabriel. Gabriel, que o tratou feito m***a, nos incomoda diariamente na escola, que anda com Billie e é extremamente preconceituoso. Gabriel, o garoto apaixonado por Jace. Que se f**a. Assim que Travis estaciona o carro, é possível escutar o som alto da música vindo da casa de Jane Rainbow. Arrumo meu cabelo de novo e de novo, minhas mãos começam a suar e eu perco o controle das pernas. — Tá tudo bem? — Travis pergunta, virando-se para trás e percebendo que eu não estava os acompanhando na calçada. — É que... Eu nunca estive em uma festa antes. Bem, não sem a minha família... — Meu peito começa a doer, subindo e descendo sem que eu quisesse. Me encosto na parede de uma casa, e deixo minhas pernas me jogarem no chão. — Cara! Ele corre em minha direção, sentando-se em minha frente. Tyna corre até nós ao perceber que andava sozinha. Porra, Thomas, é apenas uma festa... Pessoas, comida, bebidas… Nada demais! Se controle, se controle, se controle.... — Tá tudo bem, vamos, me ajude — respirei fundo e estiquei a mão para que Tyna me puxasse. — Vamos beber um pouco, e vai ficar tudo bem! — Ela passou a mão pelas minhas costas, e, em seguida, abriu a sua bolsa. Dela, tirou uma garrafa de vodca e a girou. Então hoje irei conhecer aquela Tyna Larson. JACE MILLER O cheiro desse lugar está me deixando enjoado. Algo misturado com produtos de limpeza, naftalina e suor. Sábado. Seria um ótimo dia para passear com os cachorros, apreciar o jardim, testar uma receita tirada de um site aleatório, tocar guitarra e ver meus amigos. Mas estou aqui, encarando a paisagem do outro lado da janela. O sol me aquece o suficiente para não me queimar, o suave vento passa pela cortina e apenas isso me faz perceber o quão bom é estar aqui. Vivo. Respirando. Não tive muito tempo sozinho para refletir sobre o que havia acontecido, sobre o que eu fiz. Encarar a realidade pode ser difícil, mas encarar a escuridão dentro de nós é muito mais. As consultas diárias com o psicólogo estão sendo mais úteis do que imaginei, apesar de o processo ser doloroso. Ser diagnosticado com depressão severa é doloroso. Estou tentando viver cada dia de uma vez, e levar as coisas com tranquilidade. — Jace? — A porta se abre e a cabeça loira da minha mãe surge por trás dela. Está cansada, as olheiras aparentes e a voz arrastada. O que fiz com ela? — Imaginei que ainda estaria dormindo. Aproximou-se com cautela, como se eu fosse enlouquecer a qualquer momento. — Faz pouco tempo — digo — como você está? O sol começa a me aquecer mais e mais, até que finalmente queima minha pele. Levanto da maca pela primeira vez em muitas horas. Meus pés descalços tocam o chão frio, e antes que eu pudesse perceber seus movimentos, ela me envolveu num abraço apertado. — Mãe. — Falei, constrangido. Ela nunca me abraça. — Olhe só para você — seus braços esticados nos meus ombros, ela me olhando como se eu fosse desmanchar — preocupado com o meu estado. Não faço ideia pelo que passa, Jace. E, ainda assim, se preocupa comigo. — E me abraçou novamente. A escutei fungar, e sabia que estava chorando. Contei tudo para ela. Tudo. Sobre a minha sexualidade, sobre Gabriel, e sobre eu não querer seguir o mesmo caminho que eles. Okay, talvez eu não tenha contado tudo, como o ocorrido na casa de Billie Rainbow, porque isso não era necessário. E, claro, ela sabia que Billie havia inventado toda a história. Após eu falar por meia hora, minha mãe segurou minhas mãos enquanto olhávamos para a cidade, o parque e os carros pela rua através da janela. — O que me machuca é você ter pensado, por um momento sequer, que eu não te aceitaria. — Meus olhos ainda estavam fixos nas crianças brincando de pega-pega entre as árvores. — Você é a pessoa mais importante na minha vida, querido. Eu te amo por completo. Isso significa que amo quem você é, e não a ideia que eu projetei sobre você. Se você está feliz, também estou. É a sua vida. Só tome cuidado, tudo bem? — Passou o polegar por minha mão. — O mundo pode ser c***l. Na verdade, quase sempre é. Após dizer isso, a olhei. Percebi que estava chorando quando ela tocou minhas bochechas. E então, se retirou do quarto. Sábado. O dia está radiante do lado de fora dessas paredes, e eu não posso fazer nada. Não posso nem sequer andar pelo corredor do hospital. Eu troquei minha liberdade por isso. O que me restava era enfiar minha cara no celular e esperar dar a hora da consulta. Gatinhos, mensagens da minha família - ótimo, todos estão sabendo -, mais gatinhos, memes, gatinhos, Tyna enviando memes de Harry Potter... — Está pronto? — A voz do Sr. Clark surge do nada. Assustado, quase caio da maca. — Perdão, sinto muito — ele se aproxima, me ajudando — não foi minha intenção. O homem de terno, barba feita e olhos cor de mel expressa calmaria em seu rosto. — Sim, vamos. — Deixo o celular na cabeceira, e o acompanho até sua sala. Ao andar pelo longo corredor do hospital, meus olhos captam pacientes dentro dos quartos, médicas e enfermeiras passando para lá e para cá, famílias preocupadas e o murmúrio de pessoas aleatórias. A sala do Sr. Clark é extremamente confortável, por isso eu opto por ter as consultas aqui, e não no meu quarto. Possui um design antigo e vitoriano, diferente do resto do hospital. Sempre tem balas, chocolate, chá e biscoitos frescos, e um doce aroma de café recém moído paira no ar. Imagino como deve ser a casa dele, se é tão agradável quanto. A maioria dos pacientes não podem ter as consultas no escritório dele, já que estão tão fracas que não conseguem sair do soro - como eu estava antes -, e outros pacientes ainda não podem ao menos ficar com uma fresta da janela aberta, e existem muitos objetos pontiagudos na sala do Sr. Clark. — Entre e acomode-se. — Abriu a porta por completo, e logo fui surpreendido por um cheiro de fazenda. — Que cheiro é esse? — Perguntei, me aproximando do sofá marrom e sentando nele. Parecia até o cheiro de... Casa. Grama molhada, a terra, os animais... — Na nossa consulta de hoje, Jace, vamos voltar um pouco no tempo. Eu gostaria que você fechasse os seus olhos. — Sem questionar, fiz o que ele pediu. — O objetivo disso é que possamos investigar mais a fundo, descobrir qual trauma está enraizado dentro de você, e trabalhar nisso. Peço que não fale enquanto eu não pedir. Concordei com a cabeça. — Ótimo. Agora, quero que imagine a sua casa. Você vive com seus pais em uma fazenda, então a imagine. Veja você prestes a entrar na casa, com o rosto de frente para a porta. Atrás dessa porta, dentro de sua casa, está seu pai e sua mãe. Procure uma memória, por mais turva que seja, de um dia assim. Uma data comemorativa, será? O que você vê? — Estou com a mão na maçaneta, ansioso para entrar. O dia está fechado, uma chuva está a vir... Sinto o cheiro de pudim. — Pudim? Ótimo. Vocês costumam fazer pudim? — Apenas no natal. Agora vejo os enfeites. Minha mãe adora o natal, e sempre decora a casa... — Tem mais alguém na casa? Abra a porta e descubra. Estou diminuindo, ou o mundo parece ficar maior. Bato diversas vezes na porta, porque preciso ficar na ponta dos pés para alcançar a maçaneta. O cheiro de pudim invade minhas narinas, e consigo enxergá-lo saindo do forno, a calda caindo sobre ele... — A maçaneta... Está muito alta. Estou pequeno. — Procure seu reflexo na janela, Jace. Como você era quando criança? Quantos anos você tem? Meus cabelos loiros, quase brancos, refletem no vidro da janela. Estou a segurar um caderno de dinossauro que não havia notado até então. O meu semblante está triste, e sinto uma profunda dor dentro de mim. — Jace, podemos parar quando for necessário. Continuo a olhar para meu reflexo, e sinto algo pesado em meu ombro. Uma mão. Não sei de quem ela é, e o vidro parece embaçar à medida que a figura se revela, o rosto é um completo borrão. — Anel. — Digo. Era a mão de um garoto, e ele usa um anel prateado no anelar. Parece uma rosa, ou algo explodido. Quanto mais tento prestar atenção nos detalhes, mais perdido fico. — Jace, está tudo bem. Você está no hospital, na minha sala. — Sou puxado para a realidade pelo psicólogo. Quando abro os olhos, ainda estou deitado no sofá. Meus punhos cerrados puxam o sofá com força, e estou tenso. O que foi isso? — Você conseguiu abrir a porta na sua cena? — Ele estava sentado na poltrona à minha frente, segurando um bloco de notas. — Não. Estava emperrada, e havia uma mão no meu ombro... Tinha um anel prateado, com algo que eu não identifiquei. Agora que tento me lembrar, parece distante... — Isso é completamente normal — respondeu — faço esse tipo de consulta com pacientes que apresentam risco de morte para si ou para outras pessoas. Geralmente, há um trauma por trás, no inconsciente. É preciso cortar o m*l pela raiz se quisermos resolver isso, meu jovem. Apoio os cotovelos nas pernas e seguro minha cabeça com as mãos. O chão de madeira me encara de volta. Quanto mais tento lembrar, mais longe fico... É como tentar recordar algo que você jura que aconteceu, mas não tem muita certeza. Como se você soubesse haver algo faltando, mas não exatamente o que. — Como você se sentiu durante essa experiência? — Foi interessante. Angustiante, me deixou ansioso e profundamente triste, como se eu tivesse perdido uma parte da minha alegria. Encarei o pequeno Jace de seis anos na janela, mas ele não me encarou de volta. Simplesmente não havia um pingo de inocência ou brilho naqueles olhos sofridos. Mas o que me intriga é: por que eu estava assim? Tão triste, tão cabisbaixo? Eu lembro de correr pelos bosques, fazer castelos de areia e rir até a minha barriga doer, mas não lembro de nada que me fizesse sentir um vazio. — Começo a me preocupar com meu Jace do passado. O que havia acontecido? Se, de fato, aconteceu algo? — Estaremos trabalhando nisso, garoto. O restante da consulta foi como todas as de costume. Falei, falei, falei e falei. Sr. Clark apenas ouviu e anotou. Tomei uma xícara de chá e perguntei sobre ele; mas ele era sempre monossilábico nas respostas. O cheiro de fazenda já havia ido embora, descobri ser apenas um incenso de alecrim, algumas plantas com a terra recém trocada e um som quase imperceptível de grilos tocando no computador do homem. Ele havia manipulado toda a situação para que eu agarrasse a isca, e me deixei levar pela situação. Muito bem jogado. Por fim, Sr. Clark disse que eu estava estável para retornar para a minha vida normal, porém iria me transferir para um psiquiatra de confiança. A nossa última consulta será amanhã e, então, estarei livre desse hospital. Apesar de ser uma notícia boa, não consigo parar de pensar no que aconteceu mais cedo. Tem algo trancado em mim, algo r**m. Um trauma, forte. Tocar nessa ferida que eu nem sabia que tinha foi como enfiar o dedo em um machucado, mas talvez seja preciso fazer isso para saber onde dói. — E eu disse que não, certo? — Gabriel riu. — Mas ela não acreditou. E foi assim que eu quase consegui ir a um show do Arctic Monkeys mesmo estando internado. — É uma história e tanto. Se não está aqui para me levar pro show de Joy Division, por favor, vá embora. — Isso é meio impossível, Jace. — Gabriel jogou o seu cabelo para o lado. — Foi um teste e você passou. Parabéns. Gabriel estava diferente hoje. Usava roupas claras, o cabelo devidamente arrumado, cheiro de lavanda e um leve aroma de perfume masculino. As unhas ainda pintadas de preto, como um resquício de quem ele realmente é. — Então, sei que você não pode comer coisas que não sejam dadas pelo pessoal do hospital, mas... Você já vai embora, de qualquer forma. — Ele retirou um pequeno bombom de dentro do bolso da blusa. Assim que a embalagem reluziu e brilhou, reconheci instantaneamente. — Lembra quando você levou três desses para a escola, e me deu todos os três? Bem, foi difícil encontrar essa belezinha, mas ainda existem pessoas de bom gosto. — E o colocou em minha mão. Chocolate com menta. Era o favorito de Gabriel, e por isso eu havia achado três desses e levado para ele. No dia, ele ficou totalmente desconfortável, não agradeceu e os escondeu na mochila antes que a sua namorada pudesse ver. — Mas é o seu favorito. Por que está me dando? — Porque quero que prove e me diga se é bom. Quero saber se também será o seu favorito. Receoso e olhando para os lados, abri o pacote e tirei o chocolate da embalagem. No primeiro pedaço, senti o chocolate derreter em minha boca e explosões refrescantes de menta percorreram por minha língua. Se o paraíso tivesse um gosto, seria esse. — É incrível, e agora entendo o motivo de não venderem tanto. — Apesar do ótimo gosto, peguei o copo de água ao meu lado e dei longos goles. Gabriel sorriu, acanhado, e sentou-se perto de mim. Usava uma blusa azul-clara, calça branca e tênis preto. Passou alguns minutos apenas analisando as máquinas ao meu lado, tentando entender cada palavra e desvendar os seus significados. — Eu sei o que deve estar pensando. Ele é um i****a, o que está fazendo aqui? E o que aconteceu com as roupas? — Falou. — Bem, talvez eu me sinta culpado, Jace. Por quase ter lhe perdido. — Isso está no passado, Gabe. — d***a. — Não, não está. Você ainda está no hospital, com a cabeça toda fodida e o estômago revirando por causa dos remédios. Ainda é o presente — virou-se para mim, o cabelo loiro caindo sobre os olhos, a parte raspada começando a crescer — e eu preciso te dizer. Eu ainda tenho sentimentos por você, e preciso falar. Sei que me comportei como um b****a, mas eu tinha medo... Medo do que fariam com você ou comigo. Medo do julgamento. Revirei os olhos. — Pensei que já havíamos passado por essa história. Eu te perdoo, mas Gabe, isso não é desculpa. Nunca será. Você só pode me recompensar sendo a melhor pessoa que puder. — Conclui. Ele se aproximou mais, e as suas mãos agora tocavam fracamente a minha perna por baixo do cobertor. A leve pressão que colocava na ponta dos dedos me causavam calafrios, e admito estar gostando. — Sim, você está certo. Não é desculpa. E estou tentando, Jace, estou tentando ser o melhor que posso. Estou aqui, agora, fazendo isso. Eu me importo com você, e apenas pensar que você poderia ter ido, que não conseguiria olhar nunca mais para você, te tocar — levou a mão esquerda até minha mandíbula — isso acabaria comigo. Seus olhos castanhos me olhavam diretamente, e eu sabia o que existia neles; desejo. Desespero. Ele estava falando a verdade, e eu não conseguia conter a sensação de estar sendo hipnotizado por Gabriel. — Você não vai — segurei sua mão — não vai me perder. — Me aproximei mais e mais, até conseguir sentir o perfume com mais intensidade. Ele não respondeu, e ao invés disso, apenas juntou seus lábios nos meus. O gosto de menta que estava em minha boca passou para a dele, e senti minha nuca ser tocada gentilmente com a mão que antes estava em minha perna. Abri os olhos apenas por uma fração de segundos para o ver: os olhos fechados, o rosto calmo como se nunca tivesse sido o motivo da minha dor. Sereno, me beijando com calma. Quando nos separamos, falei: — Não vai me perder, Gabriel. Mas não pode me ter. Não do jeito que quer. E a imagem de Thomas passou por minha mente. — O que? Por que não? — Parecia desapontado. A mão ainda levantada, como se ainda segurasse meu rosto. — Porque não estou pronto para isso. Tem muita coisa acontecendo, e eu não preciso de mais drama no momento. Sinto muito. — Respondi, sem conseguir olhá-lo nos olhos. — Está tudo bem, de verdade. Eu entendo. Am... Vou ao banheiro. — Comprimiu os lábios em uma linha e passou pela porta. Isso tinha sido totalmente estranho, porém esperado. Gabriel teve os motivos dele para agir como um b****a, mas eu simplesmente não consigo perdoá-lo como se não tivesse me machucado. De certa forma, ele era um dos motivos para eu estar aqui. Além disso, eu não possuo sentimentos verdadeiros por ele. Não dessa forma, pelo menos. Pego o celular, e vejo que Thomas havia mandado mensagem. Após termos uma breve conversa, Gabe apareceu novamente. — Eu acho melhor ir nessa. Ainda bem. — Hum, tudo bem. — Respondo. — Obrigado pelo chocolate, não deixe ninguém ficar sabendo disso. — Sorrio. — Seu segredo está a salvo. Vários deles. — Piscou. — Te vejo amanhã. Manteve um sorriso no rosto enquanto colocava a mochila nas costas. Me olhou por uns segundos, como se tivesse pena ou não quisesse ir. Mas seria o melhor. Quando ele se foi, fiquei pensando no que aconteceu. Ele gostava de mim, isso estava nítido, mas meus sentimentos por ele são confusos. Semanas atrás ele me xingava e ofendia meus amigos, e agora acabou de me beijar. Ele com certeza também está confuso. Mas Thomas... Eu não sei. Ele surgiu em minha mente durante o beijo, e devo admitir que uma parte de mim gostaria que tivesse sido ele. Mas é errado, não é? Somos amigos, e ele não é igual a mim. Não que eu saiba. Bufo, virando de lado e encarando o sol ir embora. Havia sido um dia tenso, e eu apenas gostaria de conversar com Thomas, Travis ou Tyna. Gostaria que estivessem aqui. Então, pego o meu celular para mandar uma mensagem. Família, família... Tyna. Aqui está. Era tarde, quase meia noite, quando mandei mensagem para ela. Poderiam vir aqui amanhã, passar um tempo e talvez me deixariam ir embora com eles. Poderíamos ir a algum lugar, e seria incrível. ''Ei, Tyna. Como vai?'' 23:54 ''Jaaaace'' 00:02 ''O que pega, amigão?'' 00:02 Amigão? Não me faça voltar a ter birra com você, Larson. ''Como você está?'' 00:03 Ela claramente não está normal. ''De boa na lagoa, suave na nave. Tranquilo como eskqilo. Amigão!'' 00:05 ''fESta. Estou aqui na Rainbow. Não Bilie. Janie.'' 00:05 Oh. ''Ótimo. Mande abraços a todos.'' 00:06 E ela me enviou uma foto. Tyna estava sorrindo com um copo na mão, e pude reparar que, no fundo da foto, Thomas está sentado no sofá ao lado de Jane Rainbow, a olhando como se fosse um pedaço de carne. A mão dela está no pescoço dele, mas não notaram que haviam saído na foto. Grande m***a.
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