Garoto de Cabelo Flamejante

4127 Words
Capítulo Seis THOMAS DINESH Ter passado um pouco de tempo com Jace ontem foi incrível. Me sinto em paz ao lado dele, mesmo naquela terrível situação. Hoje, Tyna não poderia ir conosco, porque a sua irmã não foi à aula e, enfim, problema de irmã mais velha. Eu e Travis pensamos em levar algo para Jace se distrair, como jogos de tabuleiro, e o pai de Jace não viu problema nisso. Quer dizer, entramos com as nossas mochilas no dia anterior - que continham lápis e outros objetos que ele poderia usar para se ferir -, então acho que Miller está a progredir e deve sair logo de lá. Mas isso será o melhor para ele? Acabo de escovar os dentes e encaro o meu reflexo. O meu cabelo está maior, e eu me sinto horroroso. Meus olhos, como sempre, parecem diamantes, brilhando. É algo que sou grato por ter, já que faz com que eu não seja totalmente f**o. É estranho esperar por uma mensagem de Jace dizendo ''estou aqui em baixo'', vindo me buscar naquela picape fodida dele. Ele faz falta. Principalmente na escola, porque ninguém me entende como ele e, geralmente, o único assunto na mesa do intervalo é Miller. Acabo de me arrumar e coloco uns jogos na mochila, já que iria passar no hospital logo após a aula. O tempo lá fora está frio, o céu ameaçando lançar raios por aí. Ando pela rua com os meus fones de ouvido, como sempre. Alrighty Aphrodite nos meus tímpanos, tornando tudo ainda mais melancólico. Ando com cuidado, olhando para todos os lados. E quando olho para um canto mais á frente, vejo um grupo de alunos vindo na direção contrária. Eram muitos, uns sete, provavelmente, e usavam uniforme de alguma escola por aqui perto. — ... Nunca! Ela é a mais rodada de todas — um garoto riu. As batidas do meu coração se intensificaram. Olhei firmemente para o rosto de cada um: eu sabia que algo iria acontecer. Eu conheço essa tensão. O meu corpo me manda correr á medida que eles se aproximam, mas espero não ser notado. — Ei — estava passando por eles quando um dos caras me chamou. Com sorte, ele apenas iria pedir informação. Por favor, por favor... Me virei para ele e, antes que eu pudesse dizer algo, outro garoto falou. — Nunca te vi por aqui antes. Se mudou recentemente? — Ele tinha os dentes caninos bem pontudos, e olhos verdes como nunca vi antes. — Am, sim. Faz um tempinho. — Respondi. — Estou indo para a escola, se não se incomodam... — Me virei para frente, mas senti uma força me puxar para trás. Tropecei nos meus próprios pés e quase cai. — Não tenha pressa, calma, garotão! Pra que isso? Meu nome é Max. Prazer em conhecê-lo — esticou a mão. A sua mão esmagaria o meu rosto com facilidade. Olhei para meu pulso fino se aproximando, e ele me agarrou como se eu fosse a coisa mais fraca que já havia tocado. Talvez fosse. Eu não podia sair correndo, são sete. Me alcançariam antes mesmo que eu dobrasse a esquina. Eu poderia apenas fingir estar de boa, e me deixariam ir. — Calma, eu te conheço! Cara, sei que conheço de algum lugar... — Um garoto de cabelo vermelho que estava mais afastado disse, apontando em minha direção, seus dedos cheios de anéis. Ele estalou-os como se fosse se lembrar, mas não falou mais nada. — Estávamos indo para escola, quer dizer, não costumamos ir por esse caminho, mas decidimos mudar um pouco as coisas... — o garoto dos caninos pontudos falou. Max. — Meu ovo! Não vamos pelo mesmo caminho porque o Cristopher aqui arranjou uma namorada naquela vizinhança, e está a evitando. — O de cabelos vermelhos disse, apontando para o garoto que estava mais distante que o resto. — Ele não precisa saber, cara. Para, vai assustar o... — Max falou, me olhando. — Thomas. — Thomas! — Seus gestos eram exagerados. Como os de um típico bully. — O que acha de matarmos aula e irmos a algum lugar melhor? — Max olhou para seus amigos. Foi possível descobrir quem era o líder do grupo quando todos concordaram com ele. Eu não podia faltar. Eu iria com Travis para o hospital, e... Mas cara, eu não posso negar! Eles vão me m***r bem aqui. A questão é, devo ser fraco ou corajoso? Mas o que é certo e o que é errado, nesse momento? — Não posso. Tenho prova hoje, sinto muito. — Respondi. — Mas quem sabe semana que vem? — Odeio quando os professores passam prova na sexta-feira. Cara, não devíamos relaxar na sexta? — Um deles fala baixo, e nem consigo ver quem. — Certeza, Thomas? — Olhei para o garoto de cabelo flamejante. Ele havia cortado de uma forma que parecia ter chifres. Ele analisava os anéis calmamente, sem olhar nos meus olhos. — Minhas notas estão horríveis, não posso perder. De verdade. — Menti. — Deixe o garoto, Theo. Se ele deve ir, deve ir. — Max respondeu. Antes que eu pudesse ir, colocou a mão no meu ombro e olhou nos meus olhos. — Nos vemos logo, Thomas. Dito isso, ele seguiu em frente, acompanhado pelos outros. Theo foi o único que ficou parado no mesmo lugar, me analisando da cabeça aos pés. Em seguida, piscou e seguiu os amigos. Caralho, que coisa estranha. Ao chegar na escola, vejo que mais bomba me aguarda. Os corredores estão lotados, e escuto uma gritaria próxima ao armário de Gabriel. — SEU FODIDO! — Era a voz de Ian. Largo a minha mochila no chão e abro espaço entre as pessoas, só para ver Gabriel e Ian dando socos um no outro. — PAREM COM ESSA m***a, GENTE! — Grito, tentando puxar Gabriel. Olho em volta, e me sinto enojado. Todos apenas observam, tirando fotos com os seus celulares ridículos. — PAREM AGORA! — Tento novamente. Onde está Travis quando preciso dele? Mas claro, não consigo os controlar. São mil vezes mais forte que eu, e apenas sou empurrado para a multidão. Okay, eu não tenho a força para os separar, então preciso pensar em outro plano, já que nenhuma autoridade se dá o trabalho de resolver essa m***a. Com dificuldade, vou até o alarme de incêndio, quebro a p******o e o aperto o botão vermelho. Em poucos segundos, um barulho estridente toma conta de todo o prédio, os sprinklers fazendo todos se molharem. Rapidamente, o corredor estava sem uma alma sequer, porque, bem, a minha não conta. Gabriel e Ian se deram um olhar desafiador antes de irem embora. — Thomas Dinesh, por favor, se encaminhe para a direção. Repetindo, Thomas Dinesh, imediatamente vá para a direção. — Escutei uma mulher dizer nos alto-falantes. — p***a, só me fodo. E, além disso, estava um pouco molhado. Peguei a mochila que havia abandonado pelo corredor - que havia ficado toda suja, por sinal -, e a coloquei nos ombros novamente. O que o diretor quer comigo? Vai me suspender por separar uma briga que ELE deveria ter cuidado? Ou os guardas ficam em volta da escola apenas por enfeite? Enquanto caminho em busca da sala, bufo. Estou cansado de passar por um aperto diferente diariamente e a todos os momentos, é como se eu realmente estivesse a pagar pelos meus pecados, tais pecados que nem sei quais são. Por que tudo precisa ser tão difícil para mim? Por que não posso, sei lá, relaxar no sofá e assistir Super Bowl sem que um meteoro caia? A minha ansiedade está me corroendo enquanto eu enrolo meu cabelo na sala de espera. Só vi Sr. Radwell quando vim visitar a escola, e então, nunca mais. m*l me lembro como ele é. — Thomas. — Sua porta foi aberta e de lá saiu Billie Rainbow sem ao menos olhar para mim, sendo acompanhada por um homem alto, de cabelo e barba branca, olhos extremamente azuis. Oh, agora me lembro. Ele possui um ar de poder que nunca senti antes. Claro, gente rica é assim. Mas nunca senti isso vindo de Jace, nem do seu pai quando o vi. Talvez não fosse o dinheiro, e sim, algo a mais... — Sente-se, por favor. A sua sala não era tão grande. Certificados e troféus dividiam espaço numa prateleira grande, e não pude evitar o imaginar parado de frente a essa prateleira assim como eu, admirando cada objeto e os chamando de bebês, se lembrando dos bons tempos. Ele tem cara disso. Assim que me sentei na cadeira cinza e confortável na minha frente, ele fechou a porta. Passou por mim, indo até a sua mesa e sentando-se na sua cadeira. — Bem, temos câmeras por aqui. Creio que saiba disso. — Colocou as mãos na sua frente. — Sim. — Respondi. — Então sabe que te vi quebrando o vidro do alarme de incêndio e o ativando, certo? — Sua expressão era séria, mas arqueava uma sobrancelha. — Am... Sim... — Eu realmente não sabia qual rumo isso estava a tomar. — Thomas, isso é errado! Sei que de onde você veio, provavelmente não tinham coisas assim e tudo mais, mas não podemos acionar alarmes sem que algo realmente esteja acontecendo! O que? — Do que você está falando? Tinha algo acontecendo. Uma briga! Você mesmo disse que estava observando tudo, por que não os impediu? — Eu estava prestes a fazer isso. — Respondeu. — Prestes a fazer... Me poupe. — Sussurrei. — O que você falou? — Ele se inclinou na cadeira. — Eu falei me poupe. Você provavelmente estava assistindo e se divertindo com tudo, não é? — Como o senhor pode me acusar de tais coisas, seu beócio! — Que p***a é essa de beócio? — Então se explique, me diga o motivo de ser errado eu ter feito algo para os separar, e você ficar parado sem mover um músculo é certo. Eu duvido que os pais de Gabriel vão gostar disso. — Falei e me levantei. Estava prestes a deixar a sala, quando fui chamado. — Thomas — o olhei — não é necessário fazer isso. Eu entendo a sua revolta, e se acalme, não estou te dizendo que os separar foi errado, e sim o meio que encontrou para o fazê-lo. Não agi à tempo porque no momento, estava em uma reunião importante com Billie Rainbow. Geralmente eles param sozinhos, e isso ocorre toda semana. Se vejo sangue, mando os guardas. É coisa de adolescente, por isso não me preocupei. Sinto muito, estarei mais atento à isso, tudo bem? — Ele disse, mas eu não senti sinceridade nas suas palavras. Ele tinha medo da mãe de Gabriel? Isso é estranho, sem contar que ele literalmente deixou Gabriel apanhar no meio do corredor. Algo estava acontecendo, mas certamente não é do meu interesse. Não preciso disso. Abro a porta e, sem responder, passo por ela. Respiro fundo antes de dar um passo e virar a esquerda e, no exato momento em que faço isso, trombo em alguém. Por um momento, espero ser um garoto e receber um xingo, mas nada. — Ei, tá tudo... Bem? — É a voz de uma garota. Percebo que estou de olhos fechados. Com vergonha, os abro e vejo Jane Rainbow em minha frente. — Sim, claro, e você? Algo caiu? Tá machucada? — Pergunto. — Não, tudo bem. Não tem como você me machucar. — Ela ri. — Jane Rainbow, sou da sua sala. — Ela diz, estendendo a mão esquerda. Jane usa calça jeans rasgada, blusa de uma banda que não conheço. Ela era bem diferente de Billie. — É, eu sei. Estamos na mesma sala. E você acabou de falar isso. — Dou uma risada frouxa. — Perdão, sou desastrado. — Relaxa... Estou mais preocupada com isso. — Ela diz e aponta para a sala do diretor. — Am, não foi nada. Não deve se preocupar. — Respondo. — Quem são? — Pergunto, olhando para sua blusa, que aparentava ser de uma banda de rock. — Isso? Apenas uma tralha velha da minha irmã. Nem sei quem são. Estou vestida assim porque participo do clube de teatro, e bem, ganhei o papel da filha rebelde. — Revirou os olhos e riu. — Normalmente me visto como gente normal. — Não acho que ter esse estilo seja algo anormal. — É, talvez. Eu preciso ir agora, te vejo na sala. — Ela sorriu e passou por mim. Dito isso, dei um tempo para dar um longo suspiro e tentar relaxar. O dia m*l havia começado e tanta coisa já estava acontecendo, isso faz com que eu demore para processar as coisas. Okay, estudar, Jace, casa. O restante do dia foi normal, para meu alívio. No intervalo, eu, Tyna e Travis falamos sobre as nossas vidas e nos conhecemos um pouco mais. Nisso, descobri que Tyna é poliglota porque, quando mais nova, tinha uma obsessão com isso. Ela cuida da irmã todos os dias porque os pais raramente param em casa, e quando estão presentes, é por pouco tempo. Travis só disse que vai para a academia todos os dias para se manter forte, e me contou que antes era tão fraco quanto eu, o que me fez pensar em começar a trabalhar o meu corpo. E eles, bem, descobriram sobre Maya. Pensei que falar sobre ela tornaria a conversa mórbida, depressiva. Mas não foi assim, eu contei como ela ficava feliz quando acertava alguma atividade, em como os seus olhos brilhavam quando ela desenhava, e em como era bom ouvir a sua risada doce e suave. Em todo o momento em que falei sobre ela, fiquei sorrindo. Os meus pais não falam muito sobre ela. Quer dizer, é bem raro. Mas não há muitos motivos para isso, já que eles são super religiosos e lidam bem com a morte, pois acreditam haver uma vida após essa, e creem que Maya está nos esperando sei-lá-onde. Eles agradecem todos os dias por terem tido a oportunidade de poder cuidá-la, e sabem que ela está num lugar melhor. — Até semana que vem, eu acho — falei enquanto abraçava Tyna — fica bem. — Tchau, até. — Respondeu e sorriu para Travis antes de sair do estacionamento. — Vamos nessa? — Perguntei. O carro de Travis era totalmente diferente do de Jace. Muito luxuoso para um garoto que está no primeiro ano do ensino médio, como se tivesse alguém para competir. Me sentei no banco ao seu lado, e antes que ele ligasse o carro, não pude me conter. — Vi o seu irmão brigando com Ian. O que aconteceu? Travis havia mudado muito desde que chegamos na escola. Antes ele era um garoto i****a, que não tirava um sorriso forçado do rosto, sempre tentando chamar atenção. Agora, ele fica muito calado, é sério e nem tenta puxar assunto com ninguém. Fico me perguntando o que havia acontecido, ou se ele havia finalmente parado de fingir ser alguém que não era. — É sobre Billie, claro. Não tinha como ser outra coisa. — Virou a chave. — Na verdade... — Virou novamente, e olhou para mim. — Preciso te contar uma coisa. Eu sei que não deveria falar sobre isso, mas você é melhor amigo de Jace, e... Sei que não é da minha conta, mas eu sei que algo muito r**m vai acontecer se você não souber isso antes de... Qualquer coisa, ok? Ele estava muito nervoso, o que me deixou nervoso também. Jace fez alguma m***a? Mas ele tá no hospital, não tem como, o que deve ser então? — Diga logo, Travis, pelo amor de Deus. — Senti a ansiedade se espalhar por meu corpo. — No ano passado, Jace e Gabriel meio que se beijaram. — Arregalei os olhos — Eles já se conhecem, estudaram na mesma escola. Naquela época, Gabriel era totalmente diferente, era o filhinho de ouro. Mas a tensão entre os dois era inegável. Jace sempre foi dessa forma; quieto, observador. E ele notava bastante o meu irmão. — Bufou. — Eles se tornaram amigos rapidamente, era nítido na forma que Jace olhava para Gabriel... Estava apaixonado. Okay, isso não me deixa surpreso. Talvez um pouco. É difícil imaginar um cara como Jace com um cara como Gabriel, e é mais estranho ainda pensar que ele era um garotinho mimado. Mas eu já reparei em como Jace reage quando o irmão de Travis é citado. — E era recíproco, sim, porém escondido. Mas os olhares, eles entregavam tudo. Kiara, a namorada de Gabriel, não suspeitava de nada. Um dia, Jace e o meu irmão estavam em minha casa e eu havia saído para correr. Quando voltei, os vi pela janela. Não foi de propósito, claro, e assim que os vi, saí correndo. Respirei fundo tentando processar tudo aquilo. — Então você já conhecia Jace? — Quer dizer, eu não conversava com ele, só o observava de longe quando estava com o meu irmão. Depois daquele beijo, Gabriel nunca mais foi o mesmo. Terminou com a sua namorada para ''aproveitar a vida'', como ele mesmo disse, e se mudou completamente. Ele só tem medo, Thomas. Medo de quem realmente é. — Eu entendo, mas... É tão difícil assim? Digo, ele não precisa ser um o****o com todos... — E ele não é. Ele não é um o****o. Às vezes, não n**o, ele consegue ser bem irritante, mas ele não é um o****o. Ele só não sabe o que faz. Não estou tirando a culpa dele, mas quero o ajudar, entende? — Disse. Não, não entendo. — Por que está me contando isso? — Minha voz falhou. Pensei em Thomas nos esperando no hospital, e pensei em Gabriel. O meu estômago ardeu. — Porque Gabriel só se comporta assim porque ainda está apaixonado por Jace, mas é muito covarde para confessar. Que p***a é essa? JACE MILLER Me sento na beirada da cama quando o vejo entrar. Os seus cabelos penteados, o rosto pálido como nunca vi antes. Estava calmo, sereno, e não sei qual foi a última vez que o vi assim. Quando se aproximou mais, percebi alguns machucados por seu nariz e boca. — Gabriel. — Falei, assim que os seus olhos bateram nos meus. — Que ótima surpresa. — Disse ironicamente. — Queria ver como estava. Mensagens de texto não foram o suficiente para me convencer. — Ele aproximou-se, sentando-se na poltrona em minha frente. Ele usava roupas pretas e uma blusa de flanela amarrada na cintura. O alargador preto o dava ainda mais estilo, e o lado raspado da sua cabeça já estava começando a crescer. — Como está? — Perguntou. — A questão é... Como você está? Tá todo machucado, o que rolou? — Eu ia encostar no seu olho, que estava um pouco inchado, mas ele segurou o meu braço. — Nada de mais. Hoje, assim que cheguei na escola, Ian veio para cima de mim e começamos a discutir no meio de todo o mundo. Dai, Thomas acionou o alarme de incêndio e todo o mundo saiu correndo. Fui suspenso hoje, então pensei em passar aqui. — O que? Calma, o que? — O olhei completamente confuso. Eu estava com fome pra c*****o. A última coisa que comi foi uma maçã farinhenta. d***a de hospital nojento. — Ele me bateu por causa da Billie. Não entendi muito bem o que aconteceu, ele já chegou me dando um soco e falando que iria me m***r. O cara já formou, e tipo, já viu aqueles músculos? Eu tenho medo do Ian. Ainda bem que Thomas agiu. — Riu envergonhado. — Mas e você? Me diga. — Estou com fome, mas estou bem. Não posso comer e nem beber algo que não seja permitido pelos médicos, então... — Revirei os olhos. — Meu psicólogo diz que se eu mantiver esse ritmo, sairei daqui na segunda. É uma notícia ótima. — Forcei um sorriso. Ficar aqui conversando com Gabe era totalmente estranho. Nem parece que ele era o mesmo garoto que beijei ano passado, ou o garoto que não deixava eu e os meus amigos em paz. — Sim, é ótima. Então, sobre Billie... Sinto muito. Não imagino o tanto de m***a que seus pais devem ter falado pra você — o olhei como se estivesse falando ''pois é''. — Mas eu tentei conversar com eles e explicar a situação. — Por que você fez isso? Você não precisava... E o que eles disseram? Puxei o cobertor quando o vento frio passou pela janela. — Fiz porque ela mereceu. Eu nunca transei com a Billie, Jace. Não tem como... Nada aconteceu. — Suspirou profundamente. — Ou era do Ian, ou ela fingiu tudo isso. Gabriel me contou que os meus pais ficaram chocados com a maldade e falsidade de Billie, e irão tomar as medidas necessárias com a mãe dela. Isso é o bastante para mim? Não. Mas estou cansado disso, e não vou morder de volta no momento. Ficamos um tempo conversando, e ele tirou da mochila um presente que comprou para mim: um urso de pelúcia segurando um coração escrito ''fique bem''. Percebi que ele realmente se importava quando me entregou isso e me olhou com pena. Acho que foi pena, não dá pra saber. Passei o resto da manhã assistindo um filme de terror que passava na televisão e, quando menos esperava, Thomas e Travis entraram no quarto. Thomas estava estranho, notei assim que desviou os seus olhos de mim. Quando nos tornamos amigos de alguém, conhecemos a pessoa e também conhecemos os seus hábitos e manias, é fácil saber quando estão bem ou não estão. Nos acostumamos com um tipo de comportamento, e quando isso muda, é perceptível. Ele falou pouco, não estava animado igual estava ontem, ou como sempre está. Geralmente ele fala até demais, tropeçando nas palavras devido à ansiedade. Mas hoje? Hoje tem algo martelando na sua cabeça. Algo sobre mim. Enquanto eu o olhava tentando decifrá-lo, Travis contava como estava sendo o time de basquete, e que no início do próximo mês o campeonato se iniciaria. Ele falava com emoção, demonstrando a sua felicidade por participar. Eu fingia o ouvir e às vezes sorria, mas meus olhos voltavam para Thomas, encolhido na poltrona com as mãos no cabelo, encarando o chão. — É, talvez eu saia daqui na segunda. É incerto, mas espero que aconteça. — Falo assim que Travis dá um tempo sobre os jogos. — Isso é muito, muito bom. — Thomas diz. — Você faz falta na escola para mim e para outras pessoas. — Sorri. Aquilo foi um sorriso, certo? — Am — Travis se levanta, e nervosamente bate as mãos uma na outra, olhando para mim e para Thomas — tá na hora do almoço. Eu vou buscar os nossos pratos na lanchonete — apontou para o garoto ao meu lado — e peço para a enfermeira para trazer o seu. — Obrigado. — Thomas e eu falamos no mesmo momento. Percebi o que Travis estava fazendo. Falou demais para que Thomas não precisasse, e aparentemente o que Thomas falou fez com ele Travis ficasse nervoso o bastante para sair da sala. O que tá rolando? — Tá tudo bem, Thomas? — Arqueio uma sobrancelha. — Sim, claro, totalmente. — Ele sorri e volta a olhar para seus dedos. Sempre faz isso quando está incomodado. — Na verdade, quero conversar com você sobre algo. Não fique bravo com Travis, mas... Ele me contou sobre você e Gabriel. Eu nem sei o motivo de estar assim como estou agora, talvez seja porque apenas não faz sentido para mim, quer dizer... Ri e me joguei no travesseiro. Ah, Tommy. — Sente-se aqui - bati a mão no espaço ao meu lado — vamos resolver isso. Thomas sentou-se ao meu lado, e contei-lhe tudo o que havia acontecido no ano passado. Mostrei as mensagens que trocamos no dia, e disse que, desde então, nunca mais nos vimos ou conversamos. Até o primeiro dia de aula. Falei também que eu e Gabriel nunca mais tocamos no assunto, já que após o acontecimento ele simplesmente começou a fingir que eu não existia. E Thomas me disse que Gabriel ainda estava apaixonado por mim. Olhei pro urso de pelúcia na cabeceira ao lado, e não vi nada de mais. Ele estava preocupado, tudo bem, já fomos pessoas importantes na vida um do outro, mas isso não existe mais. O que existe dentro de mim - num lugar escuro, minúsculo e cheio de cadeados - é o Jace, antigo amigo de Gabriel Willis. Não tenho sentimento algum por ele além desse, e tenho certeza que é recíproco. Mas por que Thomas se preocupa com isso, afinal?
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