Capítulo Dezenove
THOMAS DINESH
Acordo com uma p**a dor de cabeça.
Olho para o lado, e todos ainda estão dormindo. Tyna está na cama com Travis, e ontem nem percebi isso.
Ontem... Ontem parece uma grande mancha para mim. Não me lembro de ter feito algo depois daquela atividade com obstáculos, lama e paredes de pedra, onde bati a minha cabeça. Tudo está nublado nas minhas lembranças.
Desço da beliche com cuidado para não acordar Jace, vou até o banheiro e escovo os meus dentes.
— Thomas? — Escuto a voz sonolenta de Jace atrás da porta.
Droga, eu achei que não tinha atrapalhado o seu sono.
— Sim? — Pergunto quando abro a porta e me deparo com seu rosto.
— Eu não encontrei a Jane.
— Como assim?
Dou uma risada. Não encontrei a Jane.
— Está sonâmbulo, ou algo do tipo?
Ele me olha como se eu fosse a pessoa mais estúpida de todas.
— Ontem Stacy disse que me mandaria mensagem mas não enviou. Deve ter dormido, igual a mim.
— Cara, não faço ideia do que está falando.
Me olho no espelho. Meu nariz arde, e meu olho esquerdo está um pouco vermelho. O meu tombo de ontem realmente deixou marcas.
Quando me viro para Jace, ele ainda está com a mesma expressão confusa.
— Thomas, você não se lembra?
— Me lembro que você pediu um tempo e não olhou na minha cara desde então. Por isso não entendo nada que você fala. — Bufo. É muita incoveniência me ignorar por tanto tempo, para agora vir conversar como se nada tivesse acontecido.
Tento passar por ele, mas Miller se coloca na frente do meu caminho.
— Calma — ele respira fundo e parece tentar assimilar as coisas — qual é a última coisa que você se lembra de ontem?
Penso um pouco.
— De cair e bater a minha cabeça. Depois, provavelmente fiquei de repouso aqui e dormi até agora. — Ri. — Minha cabeça parece que vai explodir.
— p**a que me pariu. — Ele se joga para trás, e começa a falar todos os palavrões possíveis.
Apenas o encaro.
— Você bateu sua cabeça, não seu rosto. Por que acha que está com o olho machucado? — Pergunta.
— Provavelmente me machuquei quando caí.
— Não, Thomas. Você não tinha nenhum ferimento externo quando caiu. Por favor, diz que está brincando comigo.
— O que? Claro que não, Jace. O que tá acontecendo?
— Ontem... Você e Gabriel estavam bebendo na floresta. Vocês não me contaram o motivo de estarem lá, mas acabaram brigando. Ele bateu em você, e por isso você está todo acabado. — Enquanto Jace diz, volto a me olhar no espelho. Como eu não me lembro disso? — Jane ouviu vocês brigando e... Tentou separar.
— E por que você disse que não a encontrou? Ela está desaparecida? — Arregalo os olhos.
— Quando ela tentou tirar Gabriel de cima de você, ele a empurrou e Jane caiu de cabeça em uma pedra. Ficou desmaiada por um tempo, e quando retomou a consciência, saiu correndo pela floresta. Achamos que ela foi para o dormitório, mas... Eu não sei.
Lavo o meu rosto com a água gelada da pia.
— Como eu não consigo me lembrar, Jace? Por que eu não consigo? — Uma culpa enorme me atinge, e começo a ficar desesperado.
— Além de ter batido a cabeça muito forte ontem... Você bebeu muito. Tudo isso meio que se encaixa, mas eu não pensei que isso poderia acontecer. Quer dizer, eu estava muito ocupado resolvendo os seus problemas para pensar em qualquer outra coisa. — Ele se encosta no batente da porta e me encara.
Só consigo pensar que sou um i****a. Que seja lá o que aconteceu, deve ter sido tudo minha culpa.
— Agora a sua namoradinha está desaparecida.
— Ela não é a minha namorada, Jace.
— Mas todo o mundo pensa que é. E, em algum momento, pessoas importantes irão começar a procurar por ela, e vai ser muito esquisito você falar que não estavam namorando, enquanto o resto dos alunos falam que estavam. Vai parecer que você está escondendo algo.
— MAS EU ESTOU ESCONDENDO ALGO! ALGO QUE EU NEM ME LEMBRO, JACE! — Solto um grunhido de raiva. e******o, e******o, e******o.
Gabriel surge de trás de Jace, e ele me olha com ódio.
— Ele não se lembra de nada? — Pergunta.
Gabriel solta uma risada, e cochicha algo para Jace que não consigo ouvir.
— Aconteceu mesmo? Tudo isso? — Olho para Jace, e depois para Gabriel. Não consigo acreditar.
— Você parecia nadar em uma poça de sangue. — Willis diz.
Saio do banheiro, passando por eles. Não consigo raciocinar bem. Preciso sair daqui e procurar por Jane.
— O que está acontecendo? — Tyna pergunta. Está com o rosto amassado de tanto dormir, e o cabelo todo bagunçado.
Travis me olha, confuso.
— Thomas, aonde você está indo? — Gabriel me segue, e Jace vem logo atrás.
— Procurar Jane. — Digo.
— Como assim? — Tyna parece completamente confusa. Ela sai da cama e segura meu braço. — Thomas, vamos com calma. Respira.
Estou desesperado e culpado, mas não quero jogar tudo isso nela. Portanto, sigo o seu conselho e respiro com calma.
— Isso. Ótimo. Agora, por favor, antes de fazer alguma loucura, vamos conversar. Todos nós, ouviram? Nós não éramos assim, gente... A gente ria junto, fofocava junto, tudo que fazíamos era assim... Por favor, vamos conversar. — Ela dá um olhar suplicante a todos nós.
— Ainda temos alguns minutos antes do horário obrigatório. — Travis observa no celular.
Dessa forma, Gabriel e Jace contam tudo que aconteceu na noite de ontem, inclusive que... Gabriel e eu brigamos por causa de Jace. Não por causa dele, mas... Argh. Que ridículo. Além de sentir tudo que estou sentindo, ainda estou envergonhado. Que comportamento ridículo. Tyna comenta que escutou a discussão, mas que nem sabia quem estava brigando, então apenas saiu e procurou por Travis.
— Inclusive, antes de Jane sair e ir até vocês, estávamos conversando sobre Billie. — Disse de forma séria. — Elas tiveram uma briga ontem de manhã, e Billie quebrou a boneca de porcelana que eu havia comentado dias atrás. Jane ficou uma fera...
— Meu Deus, que bando de crianças. — Travis revirou os olhos.
— Mas é sério, parecia que elas iriam se m***r alí mesmo, de tantas coisas feias que estavam falando uma para a outra.
— Não me deixa surpreso. — Jace comenta.
— Bom, estou gostando muito do papinho, mas é melhor nos apressarmos. Vou até a enfermaria conferir se tem alguém por lá. — Digo.
— Vou com você. — Travis responde.
Tyna e Jace concordaram em ir até o dormitório feminino, e Gabriel ficaria com as professoras, os alunos e os monitores, e nos avisaria caso algo estivesse acontecendo.
— Tem alguém aqui? — Bato na porta pela quinta vez. As cortinas impedem que eu enxergue o que tem dentro da cabana da enfermeira.
— Olha, parece que tem uma porta nos fundos. Vamos entrar! — Travis parece animado com a ideia.
Normalmente eu negaria, mas estamos em uma situação arriscada, então o sigo e giramos a maçaneta. Por sorte, essa porta está aberta.
Está tudo muito escuro, mas não podemos abrir as cortinas e muito menos acender as luzes, porque alguém de fora iria enxergar. Com a lanterna do meu celular consigo iluminar nosso campo de visão.
— Olha só, parece que eles registram quando um aluno é atendido, ou é receitado algum medicamento. Serve para observar se a pessoa está melhorando... Aqui está o seu nome!
Travis segura uma agenda que consta, em colunas, o nome do aluno, queixa e tratamento.
— Eu sou o último. Ninguém veio para cá depois de mim. — Olho preocupado para o garoto loiro em minha frente.
— Então Jane não veio. Ela não está aqui. — Suspira e fecha a agenda, colocando-a de volta no lugar. — Vamos sair daqui.
Por sorte, fomos rápidos o suficiente e ninguém nos pegou saindo da enfermaria.
— O que eu faço, cara? Eu... Eu estou preocupado comigo e com Jane. Com tudo. Ela pode ter desaparecido na floresta, ou tentado ir embora sozinha. Pode... Pode ter sangrado até...
— Thomas. — Travis me interrompe. — Não pense demais. Pelo que escutei, não foi você que a empurrou. Não foi você que fez nada disso.
— Mas se não me lembro de ontem, eu posso ter feito algo pior. Posso ter a encontrado, e... Eu estava muito bêbado, eu...
Ele não fala nada, mas me puxa pelo braço e andamos em direção ao dormitório de Tyna, Stacy, Billie e Jane.
JACE MILLER
— É só abrir a porta! — Tyna diz, sem paciência.
— Ela pode estar tomando banho, ou trocando de roupa. É só esperar! — Respondo no mesmo tom.
Nós dois começamos a bater incansavelmente na porta, até que ela é aberta de forma brusca.
— Inferno — Stacy está enrolada na toalha — não sabem esperar?
— Viu? — Olho para Tyna com um olhar de ''eu te avisei''.
— Entrem.
Ela abre a porta para passarmos.
Tecnicamente, é proibido que meninos entrem na ala feminina, e vice-versa. Mas, nesse momento, essa é a última coisa que me importo.
— Desculpa por não ter mandado mensagem, eu acabei dormindo. Jane não apareceu, e Billie... Como podem ver, também não está aqui.
Nem. Fodendo.
— Como assim? E você não parece estar nem um pouco preocupada. Você não era amiga de Jane? — Tyna anda de um lado pelo outro, mordiscando as cutículas.
— Sim, claro que sou, e estou tão preocupada quanto vocês, mas consigo manter a calma em momentos como esse. — Ela pega as roupas e vai para o banheiro se trocar.
— Jace — é a voz de Thomas. Olho para a porta, e ele está com Travis. — Não. Ela não foi para a enfermaria hora alguma.
— Droga...
Penso em tudo que podemos fazer sem precisar notificar aos adultos, porque talvez aquela b****a apenas esteja fazendo drama.
A cabana está toda arrumada, e nem parece que ela esteve aqui. Mas Billie... Por que ela estaria desaparecida também? Isso não faz sentido.
— Quanto mais penso, menos sentido faz. — Tyna quebra o silêncio. — As duas brigaram como rato e gato ontem, Jane se machuca e as duas desaparecem.
— Jace, eu... — Thomas começa a falar, mas é cortado por Stacy.
— Mandei mensagem para elas, mas não responderam. Mas é sempre assim, elas raramente respondem. Se eu fosse vocês, não ficaria preocupada. Elas somem do nada, ficam dias em festas e aparecem como se nada tivesse acontecido... É simplesmente dessa forma. Logo logo elas irão aparecer. Já estou acostumada. — Suspira.
— Vamos sair daqui. — Digo.
Sei que não é só a minha cabeça que está rodopiando em buscas de uma resposta.
— Já está na hora de irmos para o refeitório. Na verdade, já passou.
Enquanto todos nós andamos para o refeitório para tomar o café da manhã, o silêncio parece percorrer pelos espaços vazios entre a gente. Ela simplesmente sumiu. Billie sumiu. Esse deveria ser o melhor dia da minha vida, mas Thomas está metido em uma encrenca, e não tem como não ficar preocupado e alerta.
— Nada está acontecendo até agora. — Gabriel diz quando nos aproximamos dele.
— Jane não esteve na enfermaria, e também não voltou para o dormitório. — Falo baixo.
— Bom dia, meus queridos alunos! — Derisse sorri. Pelo menos alguém acordou de bom humor.
— Bom dia. — Dizemos em uníssono.
— Ah, como é bom acordar com um dia tão lindo nos esperando! Para aproveitar esse sol, hoje teremos uma atividade no lago! Já já, vocês farão uma competição de Stand Up Paddle! Com coletes, é claro. Portanto, tomem um café da manhã reforçado para terem muita energia! — Ela dá alguns pulinhos e se senta ao lado de Ella. As duas parecem super empolgadas com a atividade, e fico feliz por elas.
— Não tem muito o que fazer — Tyna diz — vamos comer, e depois alertamos as professoras sobre o sumiço das duas.
— É o melhor a se fazer. — Thomas concorda, e os outros garotos também.
Eu ficaria contente em deixá-las desaparecidas. O ambiente não está bem mais leve?
Nos levantamos para pegar as bandejas e colocar nosso café da manhã. Pego uma caixinha de leite, torta de maçã e biscoitos amanteigados. A comida daqui é simplesmente divina.
Quando me sento para comer, algo me chama atenção.
— Só pode ser brincadeira. — Quando falo, chamo a atenção dos meus amigos. Billie está na fila para pegar sua comida.
— O que? — Gabriel faz uma careta.
— Eu falei para vocês. — Stacy se aproxima, nada convencida. — Ela me disse que dormiu com um garoto, por isso não voltou para o dormitório. Fazer o que, uma p*****a nunca deixa de ser p*****a. Ela não sabe nada sobre Jane, e parece estar pouco se fodendo para isso. Que irmãs.
Reviro os olhos. Não acredito nisso.
Ela se despede e se senta em uma mesa próxima. Quando Billie a segue, um garoto (o que ganhou a competição de ontem, que deixou Travis furioso) a acompanha. Talvez eu tenha ficado neurótico demais.
— Ok. Então Billie nunca esteve desaparecida — Gabriel suspira — isso quer dizer que ela nem deve ter visto Jane.
— Isso não torna as coisas melhores. — Thomas diz.
— Claro que torna! Uma pessoa desaparecida é melhor que duas.
Enquanto os dois discutem, tento recriar a cena da floresta em minha mente. Se Jane continuou correndo, ela deveria ter passado pelo dormitório. Por mais p**a que estivesse com Billie, ela estava sangrando e precisava de ajuda. Precisava de um banho, e talvez algum remédio.
Mas ela pode ter ido à cabana, se arrumado, pegado a mala e ido embora.
Não tem como saber. Precisamos contar para alguém.
Eu estava prestes a abrir a boca e contar minha opinião, quando, em meio a conversa de diversos alunos situados no mesmo cômodo, alguém deu um grito estridente do lado de fora.
Um grito tão agudo e assustado, que fez meu coração doer.
Todos nós nos levantamos e saímos correndo, nos atropelando, para ver o que tinha acontecido. As professoras e os monitores que estavam no refeitório tentavam tomar o controle da situação e fazer com que os alunos voltassem ao refeitório, mas nem eles conseguiam controlar o próprio medo.
No cais do lago, uma monitora que já vi em outras atividades está com os olhos arregalados, virada para nós. Os adultos correm até ela, e um a segura antes que ela caia no chão.
— Que m***a é essa? — Digo.
As pessoas não calam a boca e ficam se enfiando na minha frente, o que dificulta um pouco a minha visão.
— VÃO PARA O DORMITÓRIO AGORA! — Os monitores começam a gritar.
Obedecemos as ordens e nos dirigimos aos dormitórios, mas dou uma olhada para trás antes de continuar.
No lago, ente alguns matos que crescem na beira, vejo um braço flutuando. Não consigo ver o restante, e volto a acompanhar os outros.
— Era um braço. Eu vi. — Digo.
Estou sentado no chão, segurando as minhas pernas perto do rosto.
Thomas está desesperado, e não consegue parar de chorar. Tyna parece ainda estar processando o que aconteceu, e não expressa nada em seu rosto.
— Ela está morta. — Travis parece falar sozinho. — VOCÊS MATARAM ELA? — Grita olhando para Gabriel e Thomas. O último, se assusta e chora ainda mais.
— Ei, pare de gritar, seu esquisito. — Me coloco entre os três. — Eles não mataram ela. Você não estava lá, mas eu sim. Ela caiu, se machucou e saiu correndo. Foi isso. Alguém a matou, mas não foi nenhum de nós.
— E você vai confiar nisso? Eles estavam bêbados, Jace!
— E quando foi que você matou uma pessoa apenas por estar bêbado, i****a?
Ele está sendo um completo i*****l.
— Thomas perdeu a memória — ele insiste — vai que ele acordou no meio da noite, e matou aquela menina?
— Você fala como se não fosse nosso amigo, como se não nos conhecesse. Que vergonha. — O olho de cima a baixo.
— Pare de falar bobagem, Travis. Todo o mundo está assustado, e você só está piorando as coisas. — Tyna o puxa pelo braço, o levando ao banheiro. — Vamos conversar à sós e tentar nos acalmar.
Enquanto eles sussurram sobre tudo o que vem acontecendo, muita coisa se passa em minha mente.
Thomas não fez isso. Ele nunca faria.
— Seria mais provável eu ter matado Jane do que qualquer um de vocês. — Digo.
Isso faz Thomas dar uma pequena risada, mas seus olhos ainda estão cheios de lágrimas.
— Alunos, atenção: temos um importante aviso a fazer. Se mantenham dentro dos dormitórios e apenas saiam caso uma segunda ordem seja dada. Foi encontrado, no lago do acampamento, o corpo sem vida de Jane Rainbow. A polícia e a família da vítima já foram contatadas, portanto, mantenham-se tranquilos. Eles irão investigar o que aconteceu. Sentimos muito por tudo isso. Iremos continuar em contato através dos auto-falantes até segunda ordem.
É a voz de Ella pelos auto-falantes que ficam nas árvores.
Será que Billie está sentindo remorso por ter brigado tanto com sua irmã nos últimos dias, e agora recebeu a notícia de que ela foi... Morta?
— Talvez ela conseguiu correr até uma estrada aqui perto, pediu carona para ir embora. O homem deveria ser um psicopata, e a jogou no lago. Quer dizer, pessoas de fora do acampamento também possuem acesso a ele. — Thomas havia se acalmado.
— É uma boa teoria. — Digo.
— Pronto. — Tyna volta com Travis. — Estamos mais calmos. Nós ouvimos o aviso e pensamos bastante, e... Será que tem chance de ter sido alguém de dentro? Talvez ela tenha se envolvido com algum monitor, talvez tenha perturbado alguma monitora, tudo é possível...
— Tudo é possível. — Repito. — Acho que vou tentar dormir. Não descansei direito essa noite, e toda essa dor de cabeça está me cansando.
Vou até a minha cama, e deito. Sei que não vou conseguir dormir, mas não menti quando disse que precisava descansar. Quanto mais tentarmos criar teorias sobre o que aconteceu, mais confusos iremos ficar. Mas... Mas se Gabriel e Thomas estavam brigando por mim, talvez seja possível que Thomas se irritou quando Gabriel falou sobre Jane. Ele pode ter sentido uma raiva tão forte que... Não. Eu não posso pensar nisso. Eu conheço Thomas.
Ficamos deitados sem fazer nada, porque realmente não há nada para ser feito.
E pensar que perdemos uma corrida de Stand Up Paddle por causa daquela vagabunda...
THOMAS DINESH
— Alunos, por favor, se encaminhem até a cabana principal. Todos devemos permanecer juntos, pois a segurança de todos está comprometida. O cais e o lago estão interditados, e é proibida a passagem por lá. Se encaminhem diretamente para a cabana. Obrigado. — Um monitor diz nos auto-falantes.
Me levanto em um pulo, e abro a porta. Todos já estão levantados, e alguns alunos já começaram a andar pelo campo.
Aconteceu muita coisa em minha vida. Passei por muita m***a, por muitas situações difíceis, mas isso...
Jane não merecia morrer. Por mais que Jace tenha tentado colocar na minha cabeça que ela era uma pessoa péssima, nunca tive provas disso. Ela nunca me tratou assim. Portanto, sinto a dor que quero sentir.
Estamos na cabana principal, e Derisse não para de falar sobre a importância de ficarmos juntos e sermos empáticos nessa situação, que uma garota querida e especial havia perdido a vida, e que já tomaram todas as medidas possíveis.
Mas ninguém calou a boca desde então.
— Acho que ela se afogou. — Uma menina ''cochichou'' tão alto que escutei de onde estava sentado.
Todos começaram a falar suas teorias, e quando olhei para uma parte da sala destinada a jogos de tabuleiro, Stacy estava lá. Sentada, sozinha, encarando a mesa. Me levantei e fui até ela.
— Stacy?
— Eu... Eu achei que ela estava bem. Achei que ela só estava sendo ela. — Me olha e começa a chorar. — Fui uma burra.
Ela coloca o rosto entre os braços, para que eu não a olhe chorando.
— Por favor, me deixa sozinha. — Ela pede.
Me afasto com cautela, e volto para onde meus amigos estão.
— Eu queria poder dizer a ela que o culpado sou eu. — Falo para Jace, e sou repreendido pela expressão em seu rosto, mas ele não fala nada.
Procuro Billie na cabana, mas ela não está aqui. Por ser sua irmã, talvez ela esteja recebendo uma atenção especial dos adultos. Acho que ela não merece isso. Ela não vem sido a melhor irmã do mundo, e se Jane tiver se afogado e tirado sua própria vida, com certeza Billie foi um dos motivos.
De repente, a porta da cabana se abre. Um homem de barba bem feita, cabelos grisalhos e olhos azuis segura o choro. Está de roupa social, e atrás dele está sua noiva.
Silêncio.
Ninguém se atreve a abrir a boca quando o homem alto e furioso caminha pela cabana principal.
— ONDE ESTÁ A MINHA FILHA?
O burburinho de adolescentes assombrados com toda a situação deu lugar ao completo nada. Até aqueles que nunca tiveram contato com Jane ou Billie sentiram-se ameaçados.
— Por favor, Sr. Rainbow, vamos conversar em particular enquanto esperamos pela polícia. — Ella se pronuncia, e o leva até o escritório da cabana.
Ele e a mãe das garotas, que possui um rosto rígido e c***l, não falam mais nada antes de seguirem Ella.
— Cara, isso foi assustador. — Travis comenta.
Eu estou travado. Estou morrendo de medo. Eu posso ter feito algo. Eu posso ter feito algo. Eu posso ter feito algo e isso não sai da minha cabeça.
Em menos de dois minutos, a polícia também chegou. Mas não foi somente uma viatura, e sim três. Além disso, um carro fúnebre também está estacionado na grama do campo.
Pela janela, vi um monitor (que mais cedo estava consolando a monitora que havia encontrado o corpo) conversando com uma policial. Eles seguiram até o lago, mas um homem tirou a minha atenção da cena.
— Seria incoerente desejar um bom dia. — É um homem de estatura mediana, com um cigarro na mão e de terno. — Meu nome é Wallace, e infelizmente não poderei conhecer cada um de vocês. Porém, há um grupo em específico que deverei manter por perto. — Seu olhar caiu sobre mim.
Ele está olhando para todo o mundo, deixe isso para lá, penso. Mas sou culpado. É impossível que ele não perceba isso.
— É muito cedo para dizer o que aconteceu, mas a equipe forense já está realizando o seu trabalho. Vocês são crianças, portanto não devem se meter no assunto. Quando tudo for confirmado, a escola será notificada, e vocês, portanto, também. — Ele não fuma, mas o cigarro continua aceso, deixando sujeira no chão.
— Vocês... Vão prender alguém? — Uma garota pergunta. Ela parece super assustada.
— Essas crianças são muito ansiosas, não é? — Ele solta uma risada. — O colégio já enviou um aviso para os pais de todos vocês. A maioria será colocada de volta no ônibus de viagem e serão levadas de volta para a escola, onde serão buscados pela família. Mas antes... Algum de vocês aqui conheciam Jane Rainbow?
Stacy, que continuava na mesma posição de antes, virou-se como se tivesse sido obrigada. Wallace notou em seu rosto que ela não estava bem.
— Ela era minha amiga. — Falou, mas não olhava diretamente para ele. — E eu vi muitas coisa estranhas antes disso tudo acontecer. — E olhou para nós. — Eu quero conversar com você.
De repente, o clima ficou muito mais pesado. Meu coração quer sair pela boca, e só quero correr desse lugar. Ela sabe que Jane estava machucada e que estávamos procurando por ela.
O homem pigarreou, e voltou a olhar para os demais alunos.
— Se mais algum de vocês quiserem contar algo por livre e espontânea vontade, apenas me avisem. Alguns não terão opção.
Ele olhou para Stacy e saiu da cabana, sendo seguido pela garota. Os dois se dirigiram para perto de um policial, e os três começaram a conversar.
— Vai ficar tudo bem, estou com você nisso. — Jace disse quando o homem se retirou.
— Não vai, c*****o, estou fodido. — Bufei.
— Você vai ficar bem, Thomas — ele sentou-se na minha frente e segurou as minhas mãos trêmulas — confie em mim. — Seus olhos verdes me olharam profundamente.
Era impossível não me sentir levemente confortável ao olhar de volta para eles.
Quando olho para Gabriel, vejo que ele está tão amedrontado quanto eu. Afinal, foi ele que empurrou Jane.
— Eu não vou ser preso por sua causa, Dinesh. — Aponta o dedo para o meu rosto.
— Shhhh, cala a boca! — Tyna dá um t**a em sua mão e o olha f**o.
Engulo seco.
Por mais que Jace esteja tentando me confortar, não saber o que eu posso ter feito de madrugada me assusta. Sei que não sou capaz de m***r alguém, muito menos se esse alguém for Jane Rainbow, mas... Se eu perdi o controle a ponto de partir para cima de Gabriel por conta de uma raiva descontrolada, eu não sei o que poderia ter feito na noite de ontem.
O corpo de Jane é retirado do lago, mas não consigo assistir essa cena. Quando volto a olhar, ela já está em um saco preto, como se fosse lixo. Sei que esse é o procedimento deles, mas ela está sendo tratada como...
— Pare de olhar, cara. — Travis coloca a mão em meu ombro.
Quando ele faz isso, sinto uma sensação estranha. Meu estômago parece se revirar, como se eu tivesse voltado no tempo. É isso que eles chamam de deja vu?
— Ela não merecia isso. — Continuo a olhar pela janela. — Travis... E se... E se eu tiver feito algo? Você mesmo disse que é possível. Eu bati a cabeça na atividade, e desde então, nada. Parece que eu realmente só dormi depois daquilo.
— Você não consegue nem m***r um inseto, Dinesh. Eu sei que falei aquilo, mas estava errado. — Diz com calma. — Você não fez nada de r**m, eu tenho certeza, tudo bem?
Olho para as outras pessoas ao meu redor. Alguns grupos de alunos estão chorando, outros conversando e tremendo de medo, e alguns apenas com cara de tédio. No mesmo segundo, o pai de Billie sai do escritório acompanhado da filha e das duas professoras.
Ele está com o rosto vermelho, e passa reto por nós. A senhora Rainbow está aos prantos, e precisou sentar-se e tomar uma água gelada. Nenhum deles quis ver o corpo.
— Eu vou descobrir quem foi que tirou a vida da minha garotinha. Ela nunca teria se matado. Nunca! — Ela diz.
Billie está passando a mão por suas costas, a consolando. Mas ela mesma não derruba uma lágrima sequer.
Isso não me surpreende. É Billie Rainbow, afinal.
Stacy volta com o delegado para a cabana principal, e seu olhar é pesado.
— Os nomes que eu falar, por favor, vão para fora. — Diz de forma seca. — Stacy Berny, Jace Miller, Tyna Larson, Travis e Gabriel Willis, Billie Rainbow e Johnny Campbell.
Sou o primeiro a me levantar, e saio do local.
O lago ainda está com faixas de ''cena de crime'', indicando que a passagem por lá é restrita. O carro fúnebre não está mais aqui.
Os outros também saem da cabana com certo receio, e Jace se coloca ao meu lado. Discretamente, o seu mindinho toca o meu, e isso me dá um certo alívio. Tyna e Travis estão abraçados, chorando. Billie está séria, e m*l olha para Johnny Campbell, o garoto que estava ficando.
Somos instruídos a ficarmos em um canto, e os demais alunos que não foram chamados são levados ao ônibus escolar. Eu queria estar indo embora junto com eles.
— Algum de vocês deseja dar um depoimento?
Olho para cada um. Ninguém se move.
Minha garganta coça para dizer algo, mas estou morrendo de medo.
— Senhor, a minha irmã... Ela sempre foi uma pessoa incrível. — Billie dá um passo para a frente. — Discutimos muito nessa viagem, afinal, irmãs são assim. Família é assim. Ela nunca me deixou na mão, e me prestou ajuda durante toda a minha vida. Ela era tão... Doce. — Ela respira fundo. — Não mereceu nada que lhe ocorreu. Francamente... Quem poderia fazer uma coisa dessas com uma garota tão meiga?
Johnny passa a mão pelas costas de Billie, mas ela parece se contorcer de nojo, e ele tira.
— Sei que está sendo muito difícil para você. Vamos separá-los nos carros, e todos irão para a delegacia para serem interrogados individualmente. Não tenham medo, apenas queremos saber se possuem informações que podem ajudar a resolver esse caso. Os pais de vocês irão estar lá, e todos concordaram em assinar um termo onde vocês são obrigados a falarem com ou sem a presença de um advogado. Portanto, acho melhor irmos nessa.
Com ou sem a presença de um advogado?
Eu não entendo como uma coisa dessas pode ser possível.
Olho para todos os meus amigos enquanto Wallace se afasta para conversar com um policial, e Jace me puxa para um abraço. Não é um abraço forte, muito menos frouxo. É seguro.
— Por aqui, por favor.
Dou uma última olhada no acampamento, e entro no carro.