O Começo de Um Novo Recomeço

745 Words
D4 Acordei cedo, como sempre. O sol nem tinha dado as caras direito, e eu já tava de pé. Fiz minha rotina: banho, café preto forte e arma na cintura. A favela não espera ninguém. Desci pra boca, cumprimentei os meus meninos. Cada um no seu posto, tudo fluindo como deveria. Entrei na minha sala, sentei na cadeira e comecei a resolver os corres do dia. Dinheiro entrando, cobrança sendo feita, gente querendo espaço que não tem. A vida de quem comanda nunca é calma. No meio disso, meu celular vibra. Chamada da Paulinha. Atendi logo. — Fala, maninha. — E aí, chefão. Tem alguma casa disponível aí no morro? É pra minha amiga, a Maylla. Ela quer morar sozinha. — Vou ver isso. Depois eu dou o papo — respondi, direto. Desliguei e voltei pro meu trampo, mas com a cabeça já meio ocupada com esse assunto. Maylla Acordei com aquela sensação estranha no peito. Sabe quando você sente que tá crescendo, mudando? Era isso. Fiz minhas coisas, lavei o rosto, prendi o cabelo e fui atrás da Paulinha. Precisava conversar. Quando ela chegou, percebi o olhar dela preocupado. Como se soubesse que vinha coisa. — Paulinha... preciso te falar um negócio. Mas promete que não vai ficar chateada comigo? — Pode falar, vaca. Prometo — disse ela, cruzando os braços, desconfiada, mas sorrindo de leve. — Então... eu quero alugar uma casa aqui no morro mesmo. Não é que eu não queira mais morar contigo, amiga, mas... eu sinto que preciso ter meu espaço, sabe? Recomeçar de verdade. E não quero te atrapalhar, nem te privar de nada. Ela ficou me olhando por um segundo... e caiu na risada. Fiquei sem entender. — Sério isso, Maylla? Tu acha mesmo que eu ia ficar chateada por tu querer ter tua liberdade? Jamais! Tô até feliz por ti, minha vaquinha. Já tava na hora mesmo. Ela me abraçou e continuou: — E outra, já sei até quem pode ajudar a gente. Pegou o celular e discou. Quando vi quem era... congelei. Ela tava falando com o chefão do morro. Com o D4. Aquele mesmo que me tirou o ar só com um olhar no dia em que a gente se conheceu. Depois que desligou, virou pra mim e soltou como se fosse nada: — Ele vai passar aqui às 18h pra levar a gente pra ver umas casas. — Paulinha! Você ligou pra ele? Tá doida?! Eu não quero ficar devendo favor pra esse homem, não! — falei num tom entre choque e desespero. Ela riu e balançou a cabeça. — Para de graça, mulher. Tu não vai dever nada pra ninguém. A casa é alugada, não é favor. É negócio. Conversamos mais um pouco, rindo, trocando ideia sobre como seria minha casa. A ansiedade batia, mas era uma ansiedade boa. Um passo novo. Nos arrumamos. Shorts jeans, blusinha leve e aquele perfume discreto, mas que marcava. Quando deu a hora, ouvimos a buzina do carro. E que carro. Descemos rápido, e ali estava ele. D4. Camisa justa, óculos escuros no topo da cabeça, corrente pesada no pescoço. Lindo. Um perigo ambulante. Entramos no carro. — E aí, meninas. Tudo certo? — ele falou, sem tirar os olhos da rua. — Tudo sim — respondemos quase em coro. — Tenho umas casas pra mostrar. Vamos ver qual agrada. Paramos na primeira. Bonita, mas não me senti em casa. A segunda era menor. A terceira... era ela. Uma casinha com varanda, pintada de branco e azul, no topo do morro, com vista pras luzes da cidade lá embaixo. — É essa — falei antes mesmo de entrar. Ele sorriu de canto. O sorriso que bagunça os pensamentos de qualquer uma. — Também gosto dessa — disse ele. Fechamos o negócio. E aí, antes que eu pudesse falar qualquer coisa, ele já soltou: — Lá no barracão tem uns móveis e uns eletros. Vai com a Paulinha lá e pega o que precisar. E relaxa, gata. Tu não me deve nada, tá? Tô fazendo isso porque quero, não porque espero algo. Só consegui responder com um aceno tímido. A garganta travada. — Obrigada, D4. De verdade — Paulinha falou, emocionada. Ele nos deixou no barracão e mandou os meninos ajudarem a levar os móveis que eu escolheria. Depois, sumiu na moto, dizendo que precisava resolver uns B.O no outro morro. Fiquei ali, olhando tudo, meio boba. Porque, no fundo, eu sabia... aquilo era só o começo.
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