Um Lar Só Meu

900 Words
Fui eu e a Paulinha lá pro barracão, como o senhor chefão tinha mandado. Disse que podia pegar o que eu quisesse — sem cobrar nada. Mas mesmo com tudo isso, ainda sinto aquele peso no peito... Não gosto de ficar devendo nada pra ninguém, ainda mais pra ele. Graças a Deus, o aluguel da casa ficou bem baratinho. Consegui pagar logo alguns meses adiantados, pra não correr risco até conseguir um trampo fixo. Só de saber que vou ter meu cantinho, com minha paz, já me dá um alívio. No barracão, fiquei surpresa. As coisas estavam bem conservadas. Nada de velho quebrado, não. Móveis bons, tudo limpo, como se alguém cuidasse com carinho daquilo ali. Escolhi com calma: fogão, geladeira, mesa, sofá, armário, rack... Peguei os eletros indispensáveis — micro-ondas, ventilador, cafeteira, ferro. Achei até um tapete fofo, bege, com detalhes florais discretos. Lindo. Também escolhi a cama e um guarda-roupa espaçoso. Paulinha, como sempre, agitada, achou logo duas TVs e fez os meninos separarem pra levar também. Ela tava animada por mim, dava pra ver no sorriso dela. E isso aquecia meu coração. Enquanto os meninos se organizavam pra levar tudo, eu e Paulinha demos uma passada no mercadinho do morro. Compramos produtos de limpeza — balde, vassoura, panos, desinfetante, sabão... porque sabíamos que, com sorte, até o dia seguinte de manhã eu já estaria de mudança. Chegamos na minha nova casa no fim da tarde. Arregaçamos as mangas e fomos limpar tudo. Tiramos poeira, lavamos chão, deixamos os quartos com cheiro de limpeza. Terminar a faxina era como tirar a sujeira do passado da minha vida. Começar de novo. Terminamos quase 10 da noite. Paulinha comentou que o BX viria com os meninos pra trazer as coisas, então deixei a chave com ele mesmo. Confio nela, e se ela confia nele, tudo certo. Voltamos pra casa da Paulinha exaustas. Pedi uma pizza, largamos no sofá, colocamos um filme qualquer, mas o sono venceu logo nos primeiros 10 minutos. Dormimos ali mesmo, jogadas. Na manhã seguinte Acordei tarde. O relógio marcava mais de 10 da manhã. O sol já entrava pelas frestas da cortina, esquentando o rosto. Me levantei ainda com o corpo meio mole do dia anterior. Tomei banho, preparei um café simples e notei que a Paulinha não estava em casa. Achei estranho, mas imaginei que tivesse ido resolver algo. Me arrumei, prendi o cabelo, coloquei uma roupa leve e fui direto pra minha nova casa. Quando cheguei, levei um susto bom: tudo já estava lá. Os móveis arrumados no canto certo, a geladeira ligada, o fogão limpo... Meu coração encheu. Me sentei por alguns minutos no sofá e respirei fundo. Era só eu ali. Eu e a casa. Um lar só meu. Passei o resto do dia organizando. Guardei os utensílios, ajeitei as roupas no guarda-roupa, dobrei as toalhas, testei a TV. Estava empolgada, feliz... mas uma pontinha de preocupação começou a cutucar. Já passava das 16h... e Paulinha não tinha dado sinal. Voltei na casa dela, peguei minhas coisas, mas ela ainda não tinha aparecido. Liguei. Caixa postal. Mandei mensagem. Nada. Aquilo não era normal. Ela nunca saía sem avisar. Ainda mais comigo em plena mudança. Fiquei inquieta. Voltei pra casa, organizei o que faltava, mas o coração seguia apertado. Já era mais de 21h quando ouvi a chave na porta. Corri até a sala. Paulinha entrou devagar. Os olhos baixos, a energia... triste. Como se estivesse carregando um peso invisível. — Amiga, o que houve? Por que você não me atendeu? — perguntei, indo até ela. Ela soltou um suspiro pesado. — May... meu pai me chamou pra conversar. Fui ver o que ele queria. Desculpa não ter te avisado nem ajudado na mudança. Meu celular descarregou. Sentei ao lado dela, preocupada. Ela parecia desabar aos poucos. — Mas... por que esse rosto triste, Paulinha? Ela abaixou ainda mais os olhos. — Ele quer que eu vá morar fora do país... Disse que preciso estudar, assumir os negócios dele. Seria por cinco anos. Vai ser bom, eu sei. Mas não quero ir. Não agora. Não quero deixar tudo aqui. Não quero deixar o BX... Fiquei em silêncio por uns segundos, absorvendo aquilo. — Amiga... sei que é uma decisão difícil, mas você vai saber o que fazer na hora certa. Só não faz nada por impulso. O que for pra ser, vai acontecer. E se tiver que ir, você vai voltar com tudo. Prometo que estarei aqui. Ela sorriu fraco. Nos abraçamos. No dia seguinte, fomos juntas ao mercadinho. Fizemos uma compra grande, daquelas de início de casa. Produtos de limpeza, comida, umas besteiras. Paulinha ajudava em tudo, escolhia os temperos, opinava nas panelas. Voltamos pra minha casa e passamos o dia todo juntas. Rindo, montando as coisas, testando a televisão nova, jogando conversa fora. Paulinha ficou encantada com tudo que peguei no barracão. — May, tua casinha tá um encanto! Tá do jeitinho que tu merece. Ah, e eu nem te falei direito da casa, né? Ela tem quatro cômodos, com a sala e a cozinha integradas por uma ilha linda no centro. O ambiente é todo arejado, tem um mini quintal com espaço pra eu plantar umas ervas ou colocar uma rede. Os dois quartos são suítes, espaçosos e confortáveis. É simples, mas tem a minha alma ali. E agora... tem começo. Tem vida. Tem recomeço.
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