Prólogo – Alice
A cidade de Macaé não é a cidade onde nasci, mas foi para onde a minha mãe foi, quando o meu pai morreu. Ela pensou em reconstruir sua vida e eu não tinha como dizer não.
Foi nessa cidade que ela conheceu o Cláudio, um homem influente, com algumas posses, ele não era milionário, mas também não era pobre e conseguia nos alimentar.
Claudio era viúvo e tinha 3 filhos homens, ele era uma boa pessoa, mas tudo mudou depois da tragédia que definiu a minha vida.
Foi duro receber a ligação da polícia e saber que Cláudio e a minha mãe acabaram tendo um acidente de carro, que eles estavam mortos e eu precisava ir fazer o reconhecimento do corpo.
Era como se para mim o mundo estivesse ficando cinza, meus olhos piscaram varias vezes, tentei fingir não esta afetada com aquela situação, mas essa não era a verdade, eu estava muito afetada e nem sabia o que seria de mim após a morte deles dois.
O pior de tudo, foi após o enterro, quando Luciano o filho mais velho de Cláudio segurou meu braço com força e gargalhou.
— Meu pai e a sua mãe não deixaram herança, na verdade, eles deixaram uma grande dívida e a única forma de liquidarmos ela é te dando como noiva do Josué — vociferou me fazendo estremecer.
— O que? Eu não vou ser noiva do Josué, ele é um velho asqueroso. Ele estupra e agride as mulheres. Já matou 2 mulheres, eu não quero ser a próxima, não pode fazer isso comigo — gritei me tremendo. — Leonardo — chamei pelo filho mais novo dele.
— Sinto muito, mas eles me impediram de te ajudar — ele abaixou a cabeça.
— Não! Eu não vou — gritei nervosa.
A minha vida seria um inferno se isso acontecesse, se aquele velho encostasse em mim. Eu não sabia como iria resolver aquela situação, mas eu não posso nem imaginar que isso aconteça comigo.
— Luz, coloque-a trancada no quarto, vamos esperar que Josué chegue, eu não vou criar a filha da p**a do meu pai — Luciano vociferou.
Eu tentei me debater, fugir das mãos dele, mas levei um tapa no rosto e cair sentada com os olhos marejados.
— Por favor, não façam isso com ela. Deixa que eu conduzo a Alice — Leo tomou a minha frente.
— Faça como quiser, mas essa mulher vai se casar com o Josué. Ele ta pagando 1 milhão pela virgindade dela — declarou me fazendo tremer.
Leo me ajudou a levantar, meus olhos estavam marejados, eu me tremia, sem conseguir entender o que estava acontecendo e foi nesse momento que ele falou.
— Respira fundo, vou te ajudar. Você precisa fugir. Não olhe para trás. Vá para o Rio, a cidade é a capital, ela é maior e você vai conseguir oportunidades. Não sei se tem família por lá, mas fuja, eu vou segurar eles.
Ele pegou um dinheiro no bolso e me entregou.
— Tem mil reais aqui nesse envelope, por favor, vá embora, vou deixar a porta aberta, a passagem que tem dentro desse envelope é para o ônibus da noite. Aconteça o que for, não volte para essa cidade, não volte para Macaé — afirmou sem desviar os olhos do meu.
— Tudo bem, eu não vou voltar, não vou mais nessa cidade — declarei me tremendo.
Essa era a minha única forma de sobreviver, não tinha como procurar roupa, não tinha o que fazer, precisava apenas seguir a minha vida e a única certeza que eu tinha era que a minha mãe tinha uma irmã, que a gente sempre conversava pelo telefone e que ela seria a minha única solução naquele momento.
— Não volte, vá atrás da irmã da sua mãe, Alice — ele beijou a minha testa.
[…]
Não tinha como me comunicar com a tia Lívia, mas eu sabia que ela morava em uma favela chamada Vidigal. Ela tem a Milene a filha dela que é da minha idade.
Estava confusa, usando uma calça jeans, uma camiseta de alça na cor branca e um casado preto. Meus cabelos eram cumpridos e estavam soltos. No pé eu usava uma sapatilha. No meu bolso tinha o envelope com o valor.
— Moça, você sabe onde fica o Vidigal? — questionei a uma mulher.
— Vidigal fica próximo ao Leblon. Esse ônibus vai para Zona Sul garota — afirmou me surpreendendo.
Eu agradeci, subi no coletivo e pedi ao motorista que me avisasse quando chegássemos no lugar.
Ele me deixou ciente do perigo, falou que o ônibus não entrava lá, mas me deixaria no pé do morro e eu fiquei agradecida por isso, era o máximo que eu conseguira.
Eu entendi a fala dele assim que cheguei no pé do morro, dois homens armados me impediram de entrar e meu coração disparou.
— O que a boneca quer no morro? Nunca vi antes, não é uma das putas dos patrões, não tem que cara de patrícia que vem para comprar droga, então, eu ainda estou querendo entender — falou firme.
— Eu… eu… eu procuro a Lívia, mãe da Milene — falei ainda nervosa.
— Dona Lívia? E quem é você — perguntou colocando o bico do revólver no meu corpo.
Isso me deixou tremendo, meu coração disparou. Eu tinha fugido de Macaé para sobreviver e agora isso?
— Que p***a ta acontecendo aqui? — uma voz misteriosa surgiu.
Eu não me atrevia olhar, mas os caras paralisaram assim que o viram e pareciam respeita-lo.
— Perdão, Biruta, mas essa moça… a gente nunca viu e…
Ele cortou os homens se voltando para mim.
— Solta a fita, mina — falou segurando meu rosto.
Ele alto, tatuado e m*l encarado, com uma cicatriz próximo aos olhos, me assustou.
— Eu… eu sou sobrinha da Lívia, queria falar com a minha tia e…
Ele colocou o revolver na minha cabeça.
— Então você é sobrinha da Lívia e prima da vagabunda da Milene? Excelente aparecer. Vai ficar presa nesse morro, até a sua priminha voltar, ela vai ver o que sou capaz de fazer — vociferou furioso.
— Espera? Como eu vou ficar presa? Por favor, não faz isso comigo, me solta — gritei me tremendo.
Ele me deu uma tapa no rosto, toquei o local me sentindo um lixo.
— Eu posso fazer! Sua prima está me tirando de o****o, ela espera a p***a do meu filho e decidiu brincar de gato e rato. Se ela e a mãe dela não voltar, eu juro que te mato. Liga para ela agora, c*****o — gritou segurando meu pescoço.
— Eu não tenho o numero dela, por favor, não me machuca. — falei me tremendo.
— Ta de palhaçada comigo? Já que você não quer ligar, eu vou fazer isso agora — vociferou pegando o telefone, ele colocou no viva voz para que eu escutasse.
— Para de me ligar, Danilo! EU já falei que não volto, não sou obrigada a ficar com você, enquanto me humilha comendo outras — a voz dela falhou.
— Não vai voltar? Adivinha só quem está aqui? A sua priminha, ela veio te procurar — disse gargalhando.
— Prima? Eu não tenho prima… você nem sabe quem é a minha prima — disse chorando.
— Acha que é mentira — ele vociferou.
Aquele homem estava louco, ele colocou um revolver na minha cabeça — Fala c*****o, com a sua prima — gritou.
— Não me machuca — tremi nervosa.
— O que? Alice é você? — ela perguntou.
— Prima, o que esta acontecendo? O que está fazendo no Vidigal? — Milene perguntou nervosa.
— A mamãe esta morta, Milene. Eu preciso de ajuda, mas estou com medo — sussurrei me tremendo.
— Danilo, não faz nada com ela, eu estou voltando, por favor, seu problema é comigo — ela declarou desligando na cara dele.
O homem me olhou novamente, ele se sentiu vitorioso por aquilo, não sabia qual era a relação dos dois, mas pelo visto, ele era o marido abusivo e o dono do morro. Isso me deixou maluca, tremendo de medo do que poderia acontecer comigo, desde que minha mãe e o meu padrasto morreu, a minha vida ta mais para um inferno e isso me assusta.