A mansão estava silenciosa quando entrei.
O jantar ainda permanecia na mesa, pratos cuidadosamente recolhidos por Marta, e a iluminação suave refletia no piso de madeira, espalhando um brilho tranquilo, quase enganoso.
Eu tentei respirar fundo.
Tentei manter o controle.
Porque não importava o quanto meu coração estivesse fervendo por dentro, havia uma regra que eu mesma tinha estabelecido: manter distância de Alexander.
Mas os acontecimentos do almoço me deixaram completamente fora de mim.
Ele, rindo com aquela mulher, abraçando-a de forma íntima… e eu ali, observando cada detalhe.
Cada gesto, cada sorriso, cada toque.
Quando entrei, Alexander estava encostado na parede do corredor, aparentemente despreocupado, mas era óbvio que me tinha percebido entrando.
— Emily — disse ele, com a voz baixa e firme.
Eu respirei fundo, tentando me acalmar.
— Alexander.
Ele se aproximou, passos largos e decididos, como sempre. O jeito dele, tão imponente, parecia preencher todo o corredor.
— Precisamos conversar — disse ele, com aquele tom que não aceitava desculpas.
— Conversar sobre o quê? — perguntei, tentando soar calma, mas minha voz falhou no último instante. — Sobre você abraçando uma mulher no restaurante, ou sobre você me deixando fervendo de ciúmes?
Ele arqueou uma sobrancelha, mas permaneceu em silêncio por um momento.
— Aquela mulher — começou ele, hesitando — era apenas uma ex-namorada de Londres. Nós nos reencontramos, nada além disso.
Eu senti meus dedos apertarem a bolsa com força. As palavras dele pareciam não resolver nada.
— Alexander! — levantei a voz antes de perceber. — Isso não me interessa! — gritei, finalmente explodindo. — Isso não tem NADA a ver comigo! Isso aqui é apenas um contrato, um maldito acordo!
Ele me olhou, surpreso pela intensidade da minha explosão.
— Então por que diabos você está chorando por isso? — perguntou, a voz mais baixa agora, mas ainda firme.
Eu respirei fundo, deixando que a raiva me consumisse totalmente.
— Porque eu não quero ser humilhada em público! — soltei, aproximando-me dele e quase gritando. — Se você quer f***r com a sua ex, ou com qualquer outra mulher, problema seu! Mas em público… em público nós somos um casal! E eu não aceito ser exposta, Alexander! Não aceito!
Ele ficou me encarando, a expressão dura, como se estivesse calculando cada palavra que iria dizer em resposta.
— Emily… — começou, tentando me tocar, mas eu afastei a mão dele com brusquidão. — Você está exagerando…
— Exagerando? — gritei novamente, sentindo o peito arder. — Exagerando? VOCÊ ABRAÇOU OUTRA MULHER NA MINHA FRENTE, MERDA! — meus olhos estavam cheios de lágrimas, a raiva e o desespero se misturando de uma forma que me deixava quase sem fôlego. — VOCÊ TEM MIL MULHERES AO SEU REDOR, E EU NÃO VEJO A HORA DESSA p***a DE CONTRATO ACABAR! — explodi, o corpo tremendo de emoção.
Ele respirou fundo, mas desta vez o orgulho dele falou mais alto. A raiva tomou conta. Alexander deu um passo à frente, aproximando-se ainda mais de mim.
— Sabe de uma coisa, Emily? — disse ele, a voz baixa, controlada, mas carregada de tensão. — Eu também não vejo a hora de terminar esse casamento. E sim, eu me envolveria com a ex… e com outras mil mulheres que me desejam, se quisesse.
Aquelas palavras caíram como pedras dentro do meu peito.
Eu recuei, cambaleando para trás, sentindo a raiva se transformar em uma dor imensa.
— O quê? — consegui balbuciar, a voz falhando.
— É a verdade — disse ele, os olhos fixos nos meus. — É o que eu faria se não houvesse contrato. É o que eu faria se não tivesse nenhuma obrigação com você.
Senti a força do meu próprio coração falhar por um instante.
— Tu… tu realmente és insuportável — consegui ouvir suas palavras, sussurradas com frieza e orgulho. — É por isso que estás sozinha, ninguém te aguenta.
Meu corpo inteiro estremeceu.
As palavras dele penetraram em cada pedaço de mim. Não eram apenas palavras de raiva; eram uma lâmina afiada, fria, e que cortava direto no meu orgulho e na minha vulnerabilidade.
Não consegui controlar as lágrimas que escorriam agora livremente pelo meu rosto.
— Saia! — gritei, as palavras saindo tremidas, mas carregadas de dor. — Saia da minha frente!
Ele hesitou, como se quisesse me dizer algo mais, mas não ousou.
— Emily… — começou, mas eu bati a porta do corredor atrás de mim e corri para o quarto. Tranquei a porta rapidamente, sentando-me na cama, apoiando a cabeça nos joelhos e chorando como fazia anos que não chorava.
As lembranças inundaram minha mente.
Meus pais. Isadora. Tudo que perdi. Tudo que ainda podia perder.
E agora Alexander… Ele não precisava me odiar. Mas me odiava naquele momento. Ou pelo menos queria me humilhar, deixando-me ver o quão vulnerável eu estava.
Minha respiração era desordenada. O coração doía.
Sentia como se o chão tivesse sido arrancado debaixo de mim.
Eu senti raiva, vergonha, dor e desespero em uma mistura que me deixou sem forças.
Porque, no fundo, eu sabia que ele estava certo sobre algumas coisas.
Ele tinha razão quando disse que eu era insuportável. Quando disse que ninguém me aguentava.
Eu realmente era teimosa demais.
Eu realmente era intensa demais.
Eu realmente não deixava ninguém se aproximar do meu coração… exceto Alexander.
E isso era um problema.
Porque aquele homem não era apenas um marido de fachada. Ele me afetava de uma forma que eu não conseguia controlar.
As horas se passaram e eu continuei sentada ali, chorando sozinha, abraçando o travesseiro contra o peito.
Alexander bateu na porta.
— Emily… posso entrar? — perguntou. A voz dele era firme, mas havia um traço de hesitação que eu não estava acostumada a ouvir.
— Não! — gritei, a voz fraca de tanto chorar. — Não!
— Emily, eu… — começou, mas não continuei ouvindo. Sabia que ele iria insistir. E eu não estava pronta para lidar com ele agora.
Fiquei ali até finalmente me deitar na cama, o corpo pesado de lágrimas, exausta de tanta tensão emocional.
O coração ainda ardia.
O quarto estava escuro, mas a dor dentro de mim parecia iluminar cada canto.
No fundo, sabia que aquela discussão não havia terminado.
E também sabia que Alexander não iria simplesmente desistir.
Porque por mais que fosse raivoso, por mais que tentasse se mostrar indiferente, havia algo entre nós que não podia ser ignorado.
O problema é que naquele momento, eu não sabia se queria ignorar ou enfrentar.
E a noite avançou silenciosa, mas carregada de emoções que ainda queimavam dentro de mim.
As palavras dele ecoavam na minha mente:
"Tu realmente és insuportável, é por isso que estás sozinha, ninguém te aguenta."
E eu sabia, sem sombra de dúvidas, que isso nunca mais sairia de mim.