CAPÍTULO DEZASSEIS.
Selene Moreau
— ... e Selene! — o meu nome e de mais dois surfistas soa.
— Vamos, Selene! — a Kaiane grita, me fazendo rir, enquanto corro com a minha prancha para a água.
Todos no mar, a voz do narrador da competição soando, barulho das pessoas, misturados com o som agradável das ondas.
Adrenalina, é o que eu sinto.
Sou eu e mais dois homens, e tudo bem... eu sou preciso pegar duas ondas perfeitas e arrasar para passar.
Sentada com os pés de cada lado da prancha, observando o movimento do mar, alerta.
— Ainda dá tempo de dar meia volta — o moço a minha esquerda diz, e eu faço questão de ignorar.
Veremos quem deve dar meia volta.
Passaram-se dez minutos e os dois já apanharam de duas a três ondas e eu nada...
Até agora.
O meu olhar avistou o início de uma onda que pode me dar a pontuação perfeita, e de sentada, me deitei sobre a prancha, remando-a imediatamente na sua direção e fico em pé nela assim que a pego com sucesso.
A pressão da água é forte, intensa, e traz uma sensação excitante, de adrenalina, de liberdade que eu tanto gosto.
Coração a mil, e foco ao máximo, que de um momento para o outro os sons externos se tornaram inaudíveis. Sou apenas eu e essa onda que eu quero muito dominar.
Faço o cutback, ganhando velocidade e maior controle sobre a onda, e sem mais, faço um aéreo, que é uma manobra de salto sobre a prancha.
O meu coração parou de bater por milésimos no ar, mas assim que a prancha bateu novamente na onda, o alívio preenche o meu rosto com um sorriso, sabendo que eu ganhei uns bons pontos com isso.
Faço carve, que consiste uma curva larga e profunda de um lado para o outro, ganhando velocidade e mantendo o ritmo da onda, até o seu fim.
Foi exatamente isso que fiz, a onda perdeu a força e eu sorrio contente, voltando a deitar-me sobre a prancha e remando para a posição inicial.
— Lá vem a Selene, ela executou um drop in com muito estilo, cutback e um salto aéreo perfeito, seguido de uma carve hipnotizante — o narrador fala, me deixando feliz, e eu vejo placar, esperando a pontuação dessa onda.
Eu preciso apanhar mais uma.
— É! — o outro narrador comenta. — Ela entrou na onda com confiança, e fez um ótimo aproveitamento dela. Realmente merece essa alta pontuação, quase perfeita! — eles falam, e eu observo o placar, e o meu ego, oh, subiu!
Chego a concentração, dando um sorriso para o ser vivo que me mandou sair minutos atrás e ele fecha a cara, olhando para frente.
— Restam apenas seis minutos, para o fechamento dessa bateria e o final da penúltima eliminatória — ouço eles falarem, e eu suspiro, me concentrando.
Só mais uma onda...
E ela veio exatamente como a outra, mas dessa vez não fui apenas eu quem a vi.
Uma remada forte e intensa para conseguir pegar ela primeira se tornou numa competição mais disputada que a própria competição em si.
E com quem, com o moço que queria que eu saísse.
Ele conseguiu vantagem, afinal ele tem músculo nos braços para dar uma remada recheada, mas eu não desisto fácil, e mesmo entrando na onda um pouco atrás, o desequilibrando, eu me levanto na prancha antes dele, e ele se destabiliza caindo para a minha felicidade.
Sem querer bobear, faço exatamente o mesmo que fiz na anterior, mas ao invés do salto aéreo, faço o giro, me focando em executar todas as manobras na perfeição.
E eu fiz!
— E ela faz outra vez! — ouço o narrador, e sorrio, voltando.
— Uma competição renhida! Excelente desempenho de todos os surfistas, mas quem será o vencedor? Vamos aguardar as notas finais, dessa última bateria — dizem, e nós os três paramos no início do mar olhando para a placa.
Eles vão ditando as notas de cada um, e chega na minha.
— A nota acabou de sair... e é nove e meio! Uma excelente pontuação para Selene Moreau, colocando-a na liderança da bateria — hahaha!
— Essa é a minha amiga! — escuto daqui a voz da Kaiane, me fazendo rir, e simultaneamente sinto o olhar do Laurent, mas não ouso olhar na sua direção.
— Com essa última nota, sua pontuação total agora é de dezoito ponto nove, garantindo sua vaga na última eliminatória antes do final! — boa!
— Os meus parabéns! — o surfista que não me incomodou durante a competição diz, e eu sorrio em agradecimento.
— Muito obrigada! — agradeço, pegando na minha prancha e caminho em direção a Kaiane, mas ela está simplesmente sentada junto de quem eu quero evitar.
O que ela está fazendo?
— Quando foi que você aprendeu a fazer aquilo, que eu nunca soube? — a Kaiane pergunta, enquanto eu equilibro a minha prancha na areia.
— Boa onda! — uma moça grita para mim, e eu sorrio em agradecimento.
— Belos aéreos — a voz dele soa, me estremecendo e atraindo o meu olhar na sua direção, encontrando o mesmo sorriso que ele me deu quando eu consegui fazer essas manobras pela primeira vez, e com ele sendo quem me ensinou.
Céus!
Eu sinto as minhas bochechas corarem.
— Obrigada — falo, já virando o meu olhar, não vendo o Apollo aqui.
— Quem ensinou essas manobras para você? — a Kaiane me pergunta, afastando as coisas que estavam na espreguiçadeira que estava ao lado dela para eu me sentar. A Leila está me desdenhando com o olhar.
— O Ren — eu quase pulo escutando a voz do Apollo atrás de mim.
— O Ren? — ela o chamou de Ren... — Ren? — ela diz, se virando para ele, com a expressão facial nada boa, e ele não dá a mínima.
— Eu trouxe isso para você — o Apollo diz, me dando água de coco, sorrindo e eu suspiro.
Eu estou tentando, mas não estou sabendo como agir.
Eles estão agindo como se tudo tivesse passado, e eu fosse obrigada a aceitar. Mas, ao mesmo tempo, eu quero ficar aqui.
Uma guerra emocional e mental, e tem a Leila aqui, eu não vou suportar isso.
— Eu... — balbucio, tentando arranjar algo para fazer. — Vou ver o técnico — falo, para a Kaiane, pegando na minha prancha.
Terá um intervalo, e eu não pretendo ficar aqui.
— Eu vou com você — para ficar falando dele?
Dispenso.
— Não precisa, eu não irei demorar — falo, já indo.
— ... — suspiro.
Entro na loja, ignorando os olhares para variar e o técnico sorri assim que me vê.
— Eu sabia que iria vencer, os meus parabéns! — ele diz, vindo até mim.
— Muito obrigada! — agradeço. — Foi porque você cuidou bem da minha prancha — digo, e ele sorri.
— Pode à checar? Eu tenho mais um competição hoje, e pretendo ganhar amanhã — peço.
— Claro — ele responde, pegando na mesma.
— Quando começou a surfar? — ele pergunta, criando papo.
— Eu devia ter uns sete anos, mas era algo casual, nada levado muito a sério — digo, e ele assente.
— Bem, surfando desse jeito pode ser que seja patrocinada, pode se tornar uma surfista profissional, está competindo com a maioria deles — ele diz, e me faz rir.
— Não, eu não pretendo ser surfista profissional. Eu gosto apenas de surfar, e estou me divertindo agora — respondo, e ele sorri.
— Se diverte de forma competitiva — ele comenta, e eu dou de ombros.
— Ninguém gosta de perder, não é? — pergunto retoricamente, e ele assente.
Ele ia falar alguma coisa, mas a atenção dele vai para a porta, e do jeito que a sua energia enfastia todo o recinto que ele entra, eu sei muito bem quem está aqui.
O cheiro dele também, é memorável.
Ele me seguiu?
— Tem um banheiro aqui, não? — pergunto, querendo ir para lá, e permanecer lá.
— Sim, daquele lado... — ele ficou atordoado com a presença de quem eu sei que está aqui e não pretendo olhar.
Ele e todos os presentes na loja.
Entro no corredor em passos rápidos e abro a porta do banheiro feminino.
Céus!
— Quando isso vai acabar? — me pergunto, e me arrependo logo em seguida, quando a porta do banheiro simplesmente foi aberta e por ele.
Insano!
— O que está fazendo aqui? — pergunto, incrédula com a audácia dele.
— Eu vim falar com você — responde, e os meus olhos descem por ele sem a minha permissão.
Ele está sem camisa, obviamente, e ele não chama atenção à toa.
— Eu não quero conversar com você, eu quero distância de você — falo, buscando ignorar o calor que me tomou com intensidade.
— Ambos sabemos que não é isso que você quer, Selene — a voz dele, faz elas minhas pernas gradativamente perderem forças.
E ele se aproxima.
— Nós estamos... você está dentro do banheiro feminino — falo, perdendo o fio de pensamento.
— Ninguém entrará, enquanto cá estivermos — ele diz, e o meu corpo se arrepia.
— O que você quer, Laurent? — pergunto, franzindo o cenho, realmente confusa.
— Você — sua resposta toma os meus ouvidos sem hesitação, e eu derreto.
— A sua maneira de querer alguém é extremamente diferente e se torna até engraçada se formos pensar em isso, não é, Laurent? — pergunto, indignada.
— Eu fui um i****a. Eu errei, Selene... — essa foi a única vez desde que cá cheguei que eu vejo os seus olhos azuis esboçarem um sentimento que não fosse raiva.
E a primeira vez que eu alguma vez o vi dizer que errou.
— Pela primeira vez na vida, eu... — ele passa a sua mão pelos seus cabelos, e a mistura do seu olhar arrependido, sua face quase divina de tão perfeita que é, e a intensidade com a que se expressa, me deixam fraca.
A imagem viva de um homem como ele desse jeito, na minha frente e por minha causa, não tem explicação existente.
Surreal.
— Eu nunca senti nada parecido ao que eu sinto por você... eu não soube agir — ele fala. — Eu perdia a cabeça com a possibilidade de outro homem olhar na sua direção, coisa que jamais me aconteceu — ele diz.
— Eu perdi a minha cabeça quando eu vi aquela idiotice, eu não sabia o que fazer, nem o que eu estava fazendo até agora — ele diz, realmente conflituoso com ele mesmo. — Eu fiquei perdido — ele diz, e os meus batimentos cardíacos estão o puro suco do caos.
Meio muda, é o que eu acho que fiquei.