CAPÍTULO DEZASSETE.
Selene Moreau
Tensão inexplicável, um tsunami de sentimentos explodindo simultaneamente, e o meu corpo ebulindo mediante a visão surreal que os meus olhos estão tendo.
Não é como se eles pudessem se habituar a olhar para uma... obra-prima.
Não é?
— Eu fico feliz que tenha se dado conta do quão canalha e i****a você foi, Laurent — eu falo. — Nunca é tarde demais para reconhecer quem se é de verdade — falo, e ele me encara.
— Tirando o fato de ter me chamado de canalha, é apenas isso que tem para me dizer? — ele pergunta, e eu assinto indo contra a vontade de fazer o oposto.
— Eu penso que deixei claro o que eu disse ontem — falo, e ele olha para o teto, e suspira como se pedisse por paciência.
— Selene, já chega não? — ele pergunta retoricamente, e eu o encaro, colocando a minha mão na cintura.
— Chega de quê, Laurent? O que você queria que eu fizesse? — pergunto, frustrada. — Que eu pulasse de alegria por ter descoberto que caiu numa armadilha e que eu não sou nada do que você julgou que eu fosse? — pergunto sobre o olhar dele
— Queria que eu pulasse nos seus braços, que eu dissesse que fiquei com você preso na maldita da minha cabeça por sete malditos meses, enquanto você estava sendo o canalha que sempre foi, mas a diferença é que agora é noivo? — pergunto frustrada, e eu vejo o seu maxilar cerrar enquanto ele suspira.
Coisa mais atraente?
Nunca vi.
— Esse noivado é uma farsa, faz parte do interesse da minha família e eu não prosseguirei com ele — ele diz. — Eu não devia ter sequer iniciado — fala, e o meu coração falha por milésimos.
— E eu não pretendo deixar que você se case com aquele canalha — completa, e eu sorrio, amargurada.
— Eu não ia casar de qualquer jeito, porque eu vou me virar, sozinha. Eu não preciso de você — falo, e talvez... só talvez, eu tenha mexido um pouco com o ego dele.
— Eu não pretendo perder você — eu estou molhada e não é de água do mar.
— Tente o seu melhor — respondo, segurando o sorriso que ameaçou tomar o meu rosto, e a fraqueza ridícula nas minhas pernas.
Botei os meus pés para me tirar desse banheiro na velocidade da luz, antes que eu perdesse a batalha que eu estou lutando para não perder.
Mal dou um passo para fora, e o suspiro que eu dei parecia estar preso dentro de mim há séculos.
Caraca...
Saio do corredor, antes que nos esbarremos por aqui também, com o meu coração à mil.
— Selene, está tudo bem? — o moço que está cuidando da minha prancha pergunta, me encarando genuinamente preocupado.
— Eh... eu estou — acho. — Por quê? — pergunto.
— Você está vermelha — claro que eu estou.
— Eu acho que devo voltar a passar protetor solar, só isso — respondo, engolindo em seco. — E aí, tudo bem com ela? — pergunto, querendo mudar de assunto.
— Tudo! — ele afirma. — E já passei wax nela novamente, não tem com o que se preocupar — ele afirma, e eu assinto.
— Muito obrigada! — agradeço. — Então, eu vou voltar — falo, pegando na prancha, e ele pega nela também.
— Quando estiver comigo não tem de se preocupar em carregá-la... — ele diz, mas no instante seguinte, a prancha já havia sido levantada, por um braço forte, levemente e atraentemente tatuado.
— Ela não vai precisar — ele diz, sarcástico, e ainda pisca o olho para ele, e sai andando na minha frente, com a minha prancha, exibindo as costas másculas e fortes dele.
Misericórdia.
— O que você acha que está fazendo? — pergunto.
— Tentando — responde. — É o que você quer, não? — ele pergunta, sarcástico, e sinceramente eu não consegui conter o sorriso.
— Você é doido — falo.
— Esse é um feito só seu, me deixar doido — fala, olhando para mim. — Devia ficar feliz, sirena — sirena...
Eu estava com saudades do apelido que ele me deu.
— Eu li que sirenas não são criaturas nada bondosas e bonitas, parece mais uma ofensa — falo, caminhando com ele até lá.
— Então, você é a única bonita entre elas — ele diz, e ah!
— Você acabou de me chamar de maléfica? — pergunto, inconformada, e ele inclina a cabeça subtilmente de maneira condescendente.
— Você está me torturando, acha que eu chamaria você de bondosa, Selene? — ele pergunta, atiçador.
Ele está me provocando... A maneira que ele fala, como fala, ele sabe muito bem o que faz.
— Nem que eu lançasse você de um prédio de trinta e três andares para baixo e jogasse você num rio cheio de piranhas, estaríamos quites — falo.
— Me odeia tanto assim? — pergunta.
— Odeio — respondo, sorrindo para ele e ele faz o mesmo, me fazendo sorrir mesmo.
Um i****a.
— Meu amor... O que está fazendo? — a Leila pergunta, assim que chegamos onde todos estão, e ele equilibra a minha prancha na areia.
— Eu vou me preparar — ele diz, ignorando completamente a Leila, e sai logo em seguida com o Apollo que o seguiu.
— O que estava fazendo com ele? — ela pergunta, se virando para mim.
— Pareceu que eu estava fazendo alguma coisa com ele? — pergunto, irritada com ela na minha frente.
— Eu sei o que está tentando fazer e não vai dar certo — ela diz em tom de ameaça, e eu pouso o meu olhar no rosto dela. — Ele é o meu noivo, e eu quero você distante dele — ah!
— Você é muito cara de p*u, não é? — Kaiane pergunta ultrajada.
— Como você disse, ele é seu noivo e não eu — pontuo. — Não me irrite, e vá educar você, o seu noivo — respondo, me sentando com a Kaiane.
Ela sai daqui exalando a ódio, e isso me deixa feliz.
Julguem!
— O que foi isso? Eu já posso ficar feliz? — a Kaiane não demorou.
— Não, você deve continuar triste — respondo.
— Você está sorrindo... — ela comenta, sugestiva, me fazendo rir.
— Ele disse que ele foi um i****a e canalha, e eu concordei — falo, e ela sorri. — E eu disse o odiava, foi um alívio para o meu peito — falo, extremamente mais relaxada, me encostando a espreguiçadeira, e ela ri.
— O seu romantismo é tão... delicado — ela diz, me gozando, e eu dou de ombros orgulhosa de mim.
— Ele disse também que o noivado é basicamente como o meu e o do Zade — conto, e ela revira os olhos.
— Não é como se nós não soubéssemos, ele é um Duvall, e está numa briga com o seu pai — ela diz. — Esses casamentos são benéficos para os negócios de ambas famílias, uma contra a outra — ela diz.
— Enfim, ele disse que não quer me perder — eu conto, sentindo o meu rosto ruborizar, e ela literalmente pula na espreguiçadeira.
— Então acabou? Você o perdoou, não perdoou? — ela pergunta, e eu suspiro.
— Claro que não — respondo. — Não foi porque ele se deu conta do que fez, que eu irei me esquecer de tudo o que eu passei por conta dele, Kaiane — eu falo. — Eu disse para ele tentar o melhor dele — respondo, observando o mar, feliz.
— Eu não posso dizer que não seja justo — ao menos nisso ela concorda comigo.
Eu não pretendo derramar mais uma lágrima sequer daqui em diante.
— Bem, falando nisso, que horas essa competição acaba? — ela pergunta. — A assistente do senhor Castellano mandou mensagem, marcando uma reunião para as dez — ela fala, e eu suspiro.
— Já vamos para às nove — ela avisa.
— Já vai começar, relaxe — falo, e no mesmo instante a voz do narrador começa a soar. — Até já! — falo me levantando, pegando na minha prancha e me aproxima mais da área da competição.
— Vamos, Selene! — ela grita e eu sorrio, equilibrando a minha prancha na areia, e me sentando para colocar a leash na minha perna.
E adivinhei, o Laurent foi logo na primeira bateria, e como era de se saber, não só foi excelente, como também passou para a final de amanhã.
Mas, dos quatro que irão participar eu faço parte, também!
Mal anunciaram os finalistas, e o horário de chegada de amanhã, a Kaiane me puxou lá para o quarto.
Nem deu tempo para falar, nós só chegamos na sala de reuniões uns quinze minutos atrasadas.
Mas, aparentemente o Castellano não está chateado, e sim nervoso.
Ah, ele chamou também o Laurent, e o Apollo está aqui também.
Eu acho que ele está aborrecido, porque ele é amigo do Laurent e não assistente.
Na verdade, eu não sei bem o que o Apollo faz, ele parece segurança, mas não é segurança... eu só sei que ele é muito divertido.
— Me desculpe pelo atraso, senhor Castellano — falo, me sentando e ele assente com um sorriso nervoso.
— Sem problemas — ele diz. — Eu não sabia que surfava também, teria preparado algo de acordo para a vossa estadia — ele comenta.
— Isso está ótimo — digo, olhando para frente. — Vejo que chamou-nos os dois outra vez — comento, virando o olhar para o senhor Castellano novamente, não conseguindo sustentando o olhar com o canalha na minha frente.
— É... — ele balbucia. — Essa foi uma decisão difícil, e nada mais justo falar com ambos simultaneamente — ele diz. — Nós optamos... — eu o interrompo.
O interrompo, porque o meu ego ferido ordena. Eu não estava falando as coisas só por falar.
Todos eles vão lidar com os seus próprios atos.
— Eu aceito a sua proposta de sociedade — falo, e aparentemente foi um choque.
Levanto o meu olhar para o Laurent, que já me encarava, e com um pequeno sorriso de lado.
Oh, eu acho que ele me entendeu.
— Isso claro, se o senhor Laurent Duvall estiver interessado — falo, e ele olha para o Castellano.
— Terminamos com isso, Castellano? — ele pergunta e eu sorrio.
— Isso foi uma surpresa! Boa, muito boa! — ele exclama, contente, fazendo-nos rir. — Finalizaremos então essa sociedade com sucesso! — ele diz, se levantando.
— Aqui está o contrato apresentando na direção anterior — o advogado diz, e a assistente do Castellano nos passa, e assinamos.
A cabeça do senhor Moreau irá explodir, mas eu estou aí?
Não, eu não estou aí para nada.
— Celebremos essa sociedade essa noite? — ele pergunta.
— Claro! — afirmamos.
Uma última noite para festejar o início do tormento que eu devolverei a cada um deles.