Abstinência

1268 Words
A enfermeira chega e me analisa rapidamente. – Tente se acalmar, está em meio a uma crise. Segure minha mão e tente manter seu foco em mim, controle a respiração, puxa o ar, segure um pouco e depois esvazie o pulmão devagar, quero que tente contar até dez, você consegue. Ela segura a minha mão e eu aperto como posso. Meu corpo todo treme, não tenho controle algum sobre mim. – Me ajude, eu vou vomitar. - Ela tenta me ajudar a levantar mas estou bastante fraca e acabo caindo e vomitando em mim mesma. Deplorável era o meu estado quando o doutor Gustavo abre a porta. – Meu Deus o que aconteceu aqui? - Ele corre em minha direção ficando de cócoras. E eu continuava a vomitar sem parar. Minha visão estava bastante turva, eu vomitava somente líquidos e o conhecido amargor já dava o ar da graça. – Ela está tendo uma crise, doutor. Não consegui levar ela para o banheiro, ela está muito fraca e não conseguiu me ajudar. – Tudo bem Virna, deixa que eu ajudo. Ele esperou que eu parasse de vomitar ficando em pé enquanto eu me lembrava de quantas e quantas vezes já passei por isso de tanto beber, eu vomitava e dormia, quando acordava que ia me preocupar em limpar a bagunça. – Venha, me deixe ajudar. - Disse ele estendendo sua mão. – O que? Não! Estou imunda vou te sujar todo, me dê alguns minutos e logo consigo me recuperar e levantar, acredite já passei mais por isso do que eu gosto de admitir. – Tudo bem Carolina, estou acostumado, acredite. Até tenho uma troca de roupa reserva para situações como essa. E desta vez é diferente, você está consciente, precisa se preocupar com o seu bem-estar, consigo mesma. Eu deixei ele me ajudar. Ele me pegou no colo como se eu não pesasse nada, honestamente devo estar realmente muito leve, sou só um saco de ossos então ele me levou rumo ao banheiro. – Virna chame alguém para limpar isso, depois volte pra dar um banho nela. - ele disse antes de entrar no banheiro. - Virna saiu às pressas para encontrar algum funcionário responsável pela limpeza. Ele me colocou sentada sobre a cadeira de banho e ligou o chuveiro. Verificou a temperatura e quando achou que estava bom me empurrou delicadamente para embaixo da água. A temperatura da água estava boa e comecei a sentir meus músculos relaxar, aos poucos os espasmos cessaram e minha visão foi voltando ao normal, nem sei dizer quando foi que parei de hiperventilar, acho que foi quando comecei a vomitar. – Melhor? - Ele perguntou mesmo já estando ciente da resposta. – Sim, doutor obrigada. - Fecho os olhos e posiciono minha cabeça embaixo do jato quente de água, agora sim eu me sinto no fundo do poço. – Vou ficar até Virna voltar ai sim ela te dá um banho. – Como o senhor achar melhor. Ficamos em silêncio, mas não era desagradável. A temperatura da água me trouxe algum tipo de reconforto, me senti bem naquele momento, não sei por quanto tempo fiquei no mundo que criei naquele momento, mas acabei me assustando quando ouvi a voz dele. – Bom Carolina, infelizmente essas crises costumam durar em média duas semanas e como você não tem ninguém e neste momento é essencial que não fique sozinha devido à gravidade de sua saúde e da violência que as crises costumam ter, vou te deixar aqui no hospital Ok? Você fica sob supervisão direta e se seguir direitinho o que falamos logo vai poder voltar para a sua casa. – Sem problemas, doutor. - Aceito de imediato primeiro porque me sentia bastante fraca e segundo porque não queria encontrar com André tão cedo, eu posso ser muita coisa, mas não sou burra, sei que estou fraca demais para me virar sozinha até mesmo para cumprir meu destino de forma rápida e mais indolor possível. – O quarto está limpo, doutor. - disse Virna se juntando a nós no banheiro. – Certo! Carolina, a Virna segue daqui. Mais tarde volto para saber como está. - saiu nos deixando sozinhas. – Vou tirar sua roupa tudo bem? - concordo com a cabeça – Vou precisar tirar também o seu curativo. - disse colocando suas pequenas mãos em mim. Enquanto ela me ajudava a tirar a roupa senti suas mãos trêmulas. – Está tudo bem, é sério, não precisa se preocupar, eu não vou me quebrar em mil partes, não sou uma boneca frágil. – Não precisa olhar se não quiser. - disse enquanto tirava as ataduras. - Senti que ela realmente se importava, eu só não consigo entender o motivo. – E perder minha obra de arte? - disse sorrindo e ela também sorriu. Era um corte longo porém fino. Depois de um breve silêncio, decidi falar, ela estava bastante apreensiva e eu não estava confortável com a preocupação em excesso dela. – É vai ser uma bela cicatriz. – Que nada, vou cuidar direitinho dela e você vai ver, no final vai ser somente um risco fino. Mas tem que fazer o que eu pedir para não dar queloide tá Carol? E eu arregalo os olhos com o que ouço. – Desculpe o excesso de i********e, Carolina. – Deixe disso Virna, é que faz tempo que não sou chamada assim. Fique à vontade para usar o apelido. Você é uma pessoa legal. Terminamos o banho em silêncio. Ela me secou e colocou uma camisola em mim, nada daquele pano feio de hospital. – Tinha certeza que serviria. Trouxe algumas coisas de casa pra você espero que não se importe. Aquela camisola de hospital é deplorável. – Obrigada Virna, agradeço muito mais não precisava se importar, de verdade. – Que isso garota, gostei de você desde quando chegou aqui, desde então eu e o doutor Gustavo cuidamos de você. – Obrigada mesmo. Olha, sinto informar mas não vou conseguir me levantar. – Vamos, juntas conseguiremos. E de fato conseguimos, Virna me cobre com um lençol até a altura da cintura, refaz meu curativo e sai para pegar algo para eu comer. Logo depois ela volta com uma canja e uma gelatina. Como tudo enquanto conversamos, na verdade ela conversa, fala sobre tudo que é tipo de assunto em uma velocidade record. – Estou adorando sua companhia mas não tem outros pacientes para cuidar não? - Não quis ser grossa, porém era um hospital e ela a enfermeira, estava em seu trabalho. – Na realidade não, fui designada a cuidar somente de você. – Assim me sinto importante. - digo com um sorriso sem mostrar os dentes, acho que o que eu preciso agora é de um pouco de silêncio e processar tudo o que me aconteceu. – Carol sinta-se mesmo, pois é. Quanto ao tratamento, bom você está em um hospital psiquiátrico. É para cá que trazem as pessoas que tentam o suicídio. – Eu não sou louca, só não tenho mais vontade de viver. – Eu entendo… – Não, Virna, você não entende. Eu não quero estar aqui, não sou louca e não preciso que sintam pena de mim. – Calma Carol… – Sai daqui por favor já disse que não preciso que sinta pena de mim e finja ser minha amiga. – Eu não tenho pena nenhuma de você e sei exatamente o que está passando. - Ela arrancou com força várias pulseiras que tinha no seu braço esquerdo e ali havia uma cicatriz horizontal bem rente à sua mão. Santa merda! - Assim como você eu falhei um dia Carolina.
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