Sétimo ato: Suicídio

1044 Words
Meu pai acabou falecendo dois anos depois que me separei e voltei a morar com ele, os últimos seis meses foram bastante difíceis. Tive que largar o meu emprego para cuidar dele, que ficou na cama, vivíamos da aposentadoria dele que não era muita coisa, pelo menos o básico nunca faltou. Eu jamais vou me arrepender disso! Três meses depois as economias acabaram e eu não tinha ânimo para procurar um emprego. Aquela minha amiga minha, que nos beijávamos de vez em quando a muito tempo atrás veio me ajudar, ficou uns tempos morando comigo, para me ajudar a melhorar já que nem comer eu comia e banho eu não queria tomar. Com bastante insistência dela eu voltei a me recuperar. Eu arrumei um emprego em uma lanchonete e me arrastei pela vida. Ela passou meses vivendo por mim, seu noivo no começo não reclamava só que, achou r**m pois ela pediu para remarcar o casamento, ela dizia que preferia esperar eu estar um pouco mais estabilizada, que ainda não sentia confiança em me deixar sozinha, só que acabou levando um ultimato. Minha amiga se casou e foi morar em outra cidade. Eu me mantive firme no meu emprego medíocre e esperando a minha vida passar. Eu não tinha vontade de viver desde quando o meu casamento começou a querer se arruinar. Eu revivia diariamente a dor do aborto, sonhava com o momento em que aquela velha maldita foi até o meu portão me ofender, ela gritava e eu comecei a me sentir m*l. Eu comecei a sangrar e ela ria de mim dizendo que Deus era justo pois estava tirando aquele bastardo de mim. Então eu acordava suando e desorientada. Depois de muito tempo vivendo por viver, a cada dia que passava eu tinha mais certeza de que nada me prendia aqui. E comecei a pensar na ideia da morte, eu não via mais sentido na minha vida, não tinha mais motivos pra continuar aqui. Voltei a beber, na realidade nunca bebi tanto na vida. Era vodca no café da manhã, almoço e janta. Voltava do trabalho desorientada, meu chefe conversava sempre comigo na tentativa de me fazer melhorar, ele era um cara legal, um senhor careca e viúvo, desde que comecei a trabalhar para ele fui sempre bem tratada, ele dizia que eu era muito parecida com sua filha que vivia no exterior. Ele dizia ser um desperdício uma moça tão bem orientada como eu vivendo naquelas condições sabendo que eu poderia me reerguer. A bem da verdade é que eu não queria ajuda. A ideia começou a amadurecer a cada dia que passava. Ficava imaginado quando a morte me acolheria de bom grado em seus braços e me levaria pela eternidade. Lembra aquele namorado da época da faculdade que me levou às drogas? Pois bem, ele reapareceu e voltamos a conversar. A gente sempre falava de sair um dia mas nunca marcava, até que um dia o encontro aconteceu, marcamos de nos encontrar em um motel barato não muito longe de onde eu morava. Ele, eu e um cara que eu não conhecia, mais que ele jurou ser de confiança, começamos a beber, conversar, dar risada até que ele jogou o pó em cima da mesa. Cheirei e bebi como se não houvesse amanhã, o que eu tinha a perder? A bem da verdade é que me lembro somente de alguns flashes. Me lembro de ter transado com o meu ex e que a gente entrou na banheira ficando um tempo por lá. O que me lembrei só na hora de ir embora, quando vi minha mão machucada e sangrando é que eu transei com os dois ao mesmo tempo, o tal amigo forçou a entrada de trás e eu acabei socando ele até o nariz dele começar a sangrar, mas, mesmo assim, ele não parava. Quando acordei já na minha casa no outro dia a ressaca estava me matando, contudo o pior era a ressaca moral. Nunca mais atendi nem as ligações dele, nunca fui santa, só que t*****r com dois caras ao mesmo tempo, além de voltar a me drogar para mim foi o fundo do poço. Eu decidi que iria me matar, quero ficar com meus pais e meu filho, seja lá onde eles estejam eu sei que vou me encontrar com eles. Comecei a pesquisar na internet modos rápidos e eficientes para o suicídio. Pedi as contas no meu emprego, mesmo com o meu patrão praticamente implorando para eu ficar, ele sabia que havia algo de errado comigo, só que infelizmente ele também sabia que não tinha nada que poderia fazer por mim, visto que eu não queria a sua ajuda, e nem a ajuda de ninguém. Com o dinheiro da rescisão comprei álcool e petiscos para comer até o grande dia. O alcoolismo me consumiu pelo último mês, eu dormia e acordava bebendo já não comia mais até que chegou o grande dia. Exatamente o dia do meu aniversário de aborto, eu aguardei ansiosamente e tive que me segurar por todo santo dia para conseguir me manter viva até o dia de hoje. Tomei minha última garrafa, acendi um cigarro (ganhei mais esse vício nos últimos dias) e optei por cortar os pulsos. Nas minhas últimas pesquisas aprendi que se deve cortar na vertical e não na horizontal como vemos nos filmes e novelas, fazendo um corte na profundidade correta nem precisaria ser tão longo. Sem mais delongas ou cartas de despedidas (Que seria um desperdício já que nem tenho para quem deixar) peguei a navalha e fiz um corte longo e profundo do meio da palma da mão até o meio do antebraço esquerdo. Eu sei que disse que não precisava ser longo, mas a verdade é que a dor me deu um certo tipo de prazer. Eu até tentei cortar o outro também, só por garantia, mas não conseguia nem mesmo segurar a navalha, já que a minha mão não funcionava. Tem que se ter coragem para tirar a própria vida. É algo sem volta. Eu nem tinha alguém para chegar e tentar me salvar como se via na dramaturgia. Dei um último trago no cigarro e tudo ficou escuro de vez. A luz do cinema também apagou e eu me perdi na escuridão.
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