O silêncio entre as duas já não era pesado, era íntimo e seguro Miriam continuava passando os dedos pelos cabelos de Safira, com calma, como se cada gesto ajudasse a organizar os pensamentos que ela mesma não conseguia colocar em ordem.
— Você não precisa lutar todas as batalhas ao mesmo tempo — disse Miriam, com suavidade.
Safira manteve os olhos fechados.
— Eu não sei fazer diferente, ele me criou assim.
— Eu sei — respondeu ela — mas talvez… com seu pai, você precise escolher melhor quando enfrentar.
Safira soltou um pequeno suspiro.
— Ele não me deixa escolher nada.
— Talvez não agora — disse Miriam — mas enfrentá-lo assim, de frente, só faz ele se fechar mais — Uma pausa — E o casamento…
Safira abriu os olhos na mesma hora.
— Não — A resposta veio imediata, instintiva — Nem termina.
Miriam suspirou, mas não recuou.
— Você nem conhece o príncipe de verdade, ele não parece… r**m.
Safira virou o rosto, olhando para o lado.
— Esse é exatamente o problema.
Miriam franziu levemente o cenho.
— Como assim?
— Se ele fosse arrogante, c***l, insuportável… seria mais fácil odiar tudo isso — murmurou Safira — mas ele não é — Ela fechou os olhos de novo — E isso não muda nada.
Miriam ficou em silêncio por um instante, observando-a.
— Pode não mudar tudo… mas muda alguma coisa.
Safira negou levemente com a cabeça.
— Não pra mim — A firmeza voltou, mas havia algo por trás dela agora, algo mais profundo — Eu não quero me casar, Miriam — A voz saiu mais baixa, mais sincera — Não desse jeito, não por obrigação, não… assim.
Miriam deslizou a mão até a dela, apertando de leve.
— E filhos?
A pergunta foi cuidadosa, mas necessária Safira ficou em silêncio, longo demais quando respondeu, a voz já não tinha a mesma força.
— Eu não quero — Simples, direto mas dessa vez… frágil, Miriam não falou nada esperou — Eu não posso — completou Safira, quase em um sussurro, ela engoliu seco, os olhos fixos em algum ponto distante — Minha mãe morreu me trazendo ao mundo — o ar pareceu pesar — Eu nunca conheci ela… nunca ouvi a voz dela… nunca tive nada dela além de história — A voz começou a falhar, mesmo que ela tentasse manter o controle — E todas terminam do mesmo jeito — Silêncio — Ela morreu.
Miriam apertou levemente a mão dela.
— Safira…
— Eu não vou passar por isso — continuou ela, agora mais firme, mas com dor evidente — não vou arriscar minha vida assim… e nem deixar alguém passar pelo que eu passei, nenhuma criança merece crescer sem mãe — Os olhos dela agora brilhavam, mas não caíram lágrimas ainda não — Eu cresci sem mãe, Miriam — disse ela — eu sei exatamente o que isso faz.
O silêncio que veio depois não precisava de palavras, Miriam apenas a puxou um pouco mais, deixando que ela se acomodasse melhor em seu colo.
— Você não é sua mãe, o que aconteceu com a rainha foi uma fatalidade mas não significa que ira acontecer com você — disse, com cuidado.
Safira fechou os olhos.
— Não — Uma pausa — Mas o destino dela… pode ser o meu.
Miriam respirou fundo, olhando para o céu antes de voltar a atenção para ela.
— Ou pode não ser — Safira não respondeu, porque, no fundo…o medo não era racional, era real, era antigo e estava enraizado — Você não precisa decidir tudo hoje — continuou Miriam, mais suave — nem aceitar tudo de uma vez — Os dedos dela voltaram a deslizar pelos cabelos de Safira — Só… não feche todas as portas antes de saber o que existe do outro lado.
Safira permaneceu em silêncio, pensando, sentindo, lutando consigo mesma.
— Eu só… — murmurou, quase sem voz — queria poder escolher.
Miriam sorriu de leve.
— Então encontre uma forma de fazer isso.
Safira respirou fundo, o peso ainda estava lá, o medo também mas pela primeira vez…não estava sozinha com ele, e isso…já fazia diferença, Safira permaneceu mais alguns segundos ali, em silêncio, absorvendo tudo, o peso não tinha ido embora, mas já não esmagava da mesma forma, lentamente, ela se levantou, Miriam fez o mesmo, sem pressa, observando-a com aquele olhar atento de sempre, por um instante, nenhuma das duas falou e então Safira deu um passo à frente e a abraçou sem aviso, sem armadura, Miriam correspondeu na mesma hora, envolvendo-a com firmeza, quase protetora.
— Obrigada — murmurou Safira, a voz baixa, mas sincera.
— Sempre — respondeu Miriam, suave.
Elas se afastaram devagar, Safira respirou fundo, passando a mão pelos próprios cabelos, como se tentasse organizar não só os fios… mas também os pensamentos.
— Eu vou… ficar um pouco sozinha.
Miriam assentiu.
— Se precisar, sabe onde me encontrar.
Safira deu um leve aceno e então se virou, os passos agora eram mais calmos, não leves… mas menos carregados o caminho de volta ao quarto pareceu mais longo dessa vez e talvez porque, agora, ela não estava fugindo, estava pensando demais quando entrou, fechou a porta com cuidado sem força, sem pressa o silêncio tomou conta do ambiente imediatamente, familiar mas diferente, Safira encostou as costas na porta por um instante, fechando os olhos, respirando, sentindo, sozinha, finalmente caminhou até o centro do quarto, o vestido ainda pesado em seu corpo, agora amassado, marcado pelo dia inteiro, seus olhos caíram no espelho e ela parou.
A imagem refletida ainda era a da princesa impecável, mas ela sabia aquilo não era tudo, nunca foi, lentamente, levou a mão até o anel o toque frio contra a pele fez algo apertar dentro dela, compromisso, obrigação, destino imposto ela retirou a mão como se evitasse pensar demais, mas não adiantava os pensamentos vieram o pai, o casamento, o dragão, a mãe, o medo tudo misturado, confuso, pesado Safira caminhou até a janela, abrindo-a para deixar o ar entrar, a brisa tocou seu rosto, aliviando um pouco o calor que ainda parecia viver sob sua pele e então…aquilo voltou, sutil mas presente um calor diferente, não febre, algo mais profundo. mais… vivo, ela levou a mão ao peito outra vez, o coração batendo mais forte, mais consciente.
— De novo…
Sussurrou, seus olhos se fecharam por um instante e dessa vez… não havia distrações, não havia vozes apenas ela e aquilo dentro dela, como uma chama crescendo, esperando, Safira abriu os olhos lentamente e pela primeira vez…não tentou ignorar.