A Pessoa Errada

908 Words
Dante observava a fotografia sobre a mesa havia quase dez minutos. O homem da imagem usava um boné escuro, barba curta e roupas simples. Nada chamava atenção nele. Era exatamente isso que o tornava perigoso. Pessoas perigosas raramente pareciam perigosas. Gabriel estava sentado à sua frente. Rafael permanecia próximo à janela. Mateus revisava informações no computador. O ambiente estava carregado de expectativa. Depois de semanas perseguindo sombras, finalmente tinham um rosto. Uma direção. Uma possibilidade. Mateus quebrou o silêncio. Mateus: O nome dele é Ricardo Menezes. Trinta e oito anos. Sem antecedentes relevantes. Nenhuma ligação direta com organizações criminosas. Gabriel arqueou uma sobrancelha. Gabriel: Isso não faz sentido. Rafael concordou. Rafael: Se Felipe colocou alguém perto da mansão, não seria um amador. Mateus apontou para a tela. Mateus: Também pensei isso. Mas olha isso. Diversas imagens surgiram. Ricardo entrando em prédios abandonados. Ricardo encontrando pessoas desconhecidas. Ricardo circulando perto da propriedade Valenti. Dante permaneceu observando. Silencioso. Pensativo. Algo naquela história não parecia certo. E sua intuição raramente errava. Dante Valenti: Quero ele vivo. Os três homens trocaram olhares. Porque sabiam exatamente o significado daquela ordem. Dante queria respostas. E respostas não vinham dos mortos. — Enquanto isso, Andréia tentava retomar a própria rotina. Ou pelo menos algo parecido com uma rotina. Passava cada vez mais tempo presa dentro da mansão. Longe dos trabalhos. Longe das viagens. Longe da vida que costumava ter. E aquilo estava começando a sufocá-la. Naquela manhã, decidiu passar algumas horas no estúdio improvisado que Levi havia montado dentro da propriedade. Precisava trabalhar. Precisava lembrar quem era além de "a esposa de Dante Valenti". As câmeras estavam posicionadas. A iluminação pronta. Tudo preparado. Mas sua mente permanecia distante. Durante uma pausa, sentou-se próxima a uma janela. Observando os jardins. Levi aproximou-se segurando uma garrafa de água. Levi: Você está em outro planeta. Andréia sorriu de leve. Levi conhecia seus sinais. Levi: Continua pensando na invasão? Ela assentiu. Levi suspirou. Levi: Você sabe que isso não é sua culpa, né? Andréia desviou o olhar. Andréia: Todo mundo fala isso. Levi: Porque é verdade. Ela permaneceu em silêncio. Mas havia algo que ninguém entendia. O problema não era culpa. Era impotência. Ela odiava sentir que não podia fazer nada. Odiava depender dos outros. Odiava esperar enquanto todos tomavam decisões por ela. Levi observou sua expressão. Levi: Você está pensando em fazer alguma loucura. Andréia soltou uma pequena risada. Andréia: Talvez. Levi apontou para ela. Levi: Não gostei dessa resposta. — Horas depois, Dante e sua equipe finalmente encontraram Ricardo. O homem saía de um mercado simples na periferia da cidade. Nada chamava atenção. Nada parecia suspeito. Mas os olhos atentos de Gabriel perceberam algo. Gabriel: Tem alguém observando ele. Dante acompanhou seu olhar. Do outro lado da rua havia um carro preto. Parado. Imóvel. Os vidros escuros impediam a identificação dos ocupantes. Rafael percebeu imediatamente. Rafael: Não somos os únicos interessados. O coração da operação mudou naquele instante. Porque agora existiam duas possibilidades. Ou Felipe estava protegendo Ricardo. Ou Felipe estava tentando eliminá-lo. E nenhuma delas era boa. Dante tomou sua decisão imediatamente. Dante Valenti: Peguem ele agora. — Ricardo m*l teve tempo de reagir. Em poucos segundos foi cercado. Desarmado. Retirado da rua. Colocado dentro de um veículo. Tudo rápido. Limpo. Silencioso. Mas algo inesperado aconteceu. Assim que entrou no carro, Ricardo começou a rir. Gabriel franziu a testa. Gabriel: Qual a graça? O homem continuou rindo. Como alguém que sabia de algo que os outros não sabiam. Dante observou atentamente. Aquilo não era comportamento de alguém assustado. Era comportamento de alguém preparado. E isso o preocupou. Muito. Ricardo finalmente ergueu os olhos. Ricardo: Vocês demoraram. O silêncio tomou conta do veículo. Rafael estreitou os olhos. Ricardo sorriu. Ricardo: Eu estava começando a achar que vocês nunca me encontrariam. — Na mansão, Andréia caminhava pelos corredores quando ouviu uma conversa interrompida. Dois seguranças estavam próximos da escadaria. Assim que perceberam sua presença, ficaram em silêncio. Imediatamente. Aquilo chamou sua atenção. Andréia: O que aconteceu? Os homens trocaram olhares. Desconfortáveis. Andréia cruzou os braços. Andréia: Fala. Um deles finalmente respondeu. Segurança: Encontraram alguém. Seu coração acelerou. Andréia: Alguém ligado ao Felipe? O homem assentiu. E isso foi suficiente. Porque pela primeira vez em semanas... eles tinham algo concreto. Algo real. Uma pessoa. Não apenas ameaças. Não apenas fotografias. Não apenas mensagens. Uma pessoa. E pessoas cometiam erros. — Duas horas depois, Ricardo estava preso em um dos locais seguros da organização Valenti. Sentado sozinho. Mãos algemadas. Mas surpreendentemente tranquilo. Dante entrou na sala. Sem pressa. Sem demonstrar emoção. Apenas observando. Ricardo sustentou seu olhar. Sem medo. Sem hesitação. Aquilo era estranho. Muito estranho. Dante sentou-se diante dele. Dante Valenti: Quem é você? Ricardo sorriu. Ricardo: Já sabe meu nome. Dante permaneceu imóvel. Ricardo continuou: Ricardo: A pergunta correta seria... para quem eu trabalho. Os olhos de Dante escureceram. Finalmente estavam chegando perto. Muito perto. Mas então Ricardo falou algo que mudou tudo. Ricardo: Felipe não é o problema. O silêncio tomou conta da sala. Dante observou o homem. Tentando identificar mentira. Manipulação. Qualquer coisa. Mas não encontrou. Ricardo inclinou-se para frente. A voz mais baixa. Mais séria. Mais perigosa. Ricardo: O problema é que você está procurando a pessoa errada. Pela primeira vez desde o início daquele jogo... Dante sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Porque havia verdade naquelas palavras. E isso significava apenas uma coisa. A guerra que acreditava entender... era muito maior do que imaginava.
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