Sem Volta

991 Words
Dante permaneceu imóvel por alguns segundos após ler o bilhete. A mansão inteira parecia ter parado junto com ele. Ninguém falava. Ninguém se movia. Porque todos conheciam aquele silêncio. E sabiam que ele era perigoso. Muito perigoso. Gabriel observou o amigo atentamente. Havia anos que trabalhavam juntos. Anos suficientes para reconhecer quando Dante estava prestes a ultrapassar um limite. E aquele momento estava perigosamente próximo. Gabriel: Precisamos pensar. Dante ergueu os olhos. O olhar escuro. Frio. Vazio. Gabriel sentiu um arrepio. Dante Valenti: Eu já pensei. Rafael franziu a testa. Rafael: E? Dante amassou o papel completamente. Dante Valenti: Acabou. O silêncio voltou. Porque todos entenderam o significado daquelas palavras. Não era o fim da guerra. Era o fim da paciência. — Andréia saiu da sala protegida assim que soube que Dante havia retornado. Ela praticamente correu pelos corredores. Ignorando os seguranças. Ignorando os avisos. Ignorando tudo. Seu coração só queria uma coisa. Encontrá-lo. Quando finalmente entrou no escritório, encontrou Dante sozinho. Parado diante da janela. Imóvel. Ela sentiu um aperto estranho no peito. Porque ele parecia diferente. Mais do que nunca. Aproximou-se devagar. Dante percebeu sua presença imediatamente. Mas não virou. Não falou. Nada. Andréia encostou suavemente em seu braço. Andréia: Eu estou bem. A voz saiu baixa. Gentil. Mas aquilo pareceu quebrar alguma coisa dentro dele. Dante fechou os olhos. Respirando fundo. Como alguém tentando recuperar o controle. Um controle que estava desaparecendo. Quando finalmente virou para ela, Andréia percebeu algo assustador. Medo. Ainda havia medo ali. Mas agora estava misturado com outra coisa. Raiva. Uma raiva enorme. Dante Valenti: Ele estava aqui. Andréia engoliu seco. Dante Valenti: Tão perto que conseguiu observar você. Tão perto que conseguiu deixar aquilo nos meus jardins. Ela sentiu os olhos arderem. Porque também estava assustada. Mas naquele momento não era nela que pensava. Era nele. Porque Dante parecia estar carregando o peso do mundo. Andréia segurou seu rosto. Obrigando-o a olhar para ela. Andréia: Ei. Os olhos escuros encontraram os dela. Andréia: Eu estou aqui. O silêncio tomou conta do ambiente. Então, pela primeira vez em dias, Dante a abraçou. Com força. Muita força. Como se precisasse sentir que ela estava viva. Como se precisasse ter certeza de que não era tarde demais. — Naquela mesma noite, Felipe recebeu uma ligação. Um de seus homens. Homem: O bilhete foi entregue. Felipe sorriu. Sentado sozinho no galpão. Felipe: E o Valenti? Homem: Furioso. O sorriso aumentou. Mas não era felicidade. Era satisfação. Porque tudo estava acontecendo exatamente como planejado. Felipe levantou-se. Caminhando lentamente pelo local. Observando as fotografias espalhadas. A maioria delas mostrava Andréia. Mas algumas mostravam Dante. E essas eram as que realmente importavam. Felipe parou diante de uma delas. Dante saindo de uma reunião. Expressão séria. Postura imponente. Poderoso. Temido. Felipe observou a imagem por alguns segundos. Depois falou sozinho. Felipe: Você sempre teve tudo. A voz saiu carregada de ressentimento. Ódio antigo. Ódio acumulado. Felipe: Dinheiro. Poder. Lealdade. Respeito. Os dedos dele fecharam-se sobre a fotografia. Felipe: Agora vamos ver como você reage quando começar a perder. — Enquanto isso, a mansão permanecia em alerta máximo. Seguranças patrulhavam os jardins. Veículos monitoravam os arredores. Drones eram utilizados para vigiar a área. Nada passava despercebido. Nada. Mesmo assim, Andréia não conseguia dormir. Já passava das duas da manhã. E ela continuava acordada. Sentada na cama. Observando a chuva cair do lado de fora. Dante estava novamente na varanda. Pensativo. Silencioso. Distante. Ela já sabia o que aquilo significava. Ele estava planejando. Preparando-se. E isso a preocupava. Porque Dante ficava mais perigoso quando deixava de agir por estratégia. E começava a agir por emoção. Andréia levantou-se. Caminhando até ele. O vento frio entrou pela varanda. Movendo seus cabelos. Dante nem precisou olhar. Sabia que era ela. Sempre sabia. Andréia: Você não vai fazer nenhuma loucura. Desta vez ele virou. E aquilo não ajudou em nada. Porque seu olhar dizia exatamente o contrário. Dante Valenti: Ele cruzou uma linha. Andréia suspirou. Andréia: E você está prestes a cruzar outra. Os dois permaneceram em silêncio. Observando um ao outro. Como se travassem uma batalha invisível. Uma batalha feita de medo. Amor. Proteção. E obsessão. Dante passou a mão pelos cabelos. Claramente cansado. Dante Valenti: Você não entende. Andréia: Então me explica. A resposta veio imediata. Intensa. Crua. Dante Valenti: Eu quase perdi você. Ela sentiu o coração apertar. Porque aquela frase não era racional. Não era lógica. Mas era real para ele. Muito real. Andréia segurou sua mão. Andréia: Você não me perdeu. Dante desviou o olhar. Como se não conseguisse acreditar completamente nisso. E talvez não conseguisse mesmo. Porque desde que a guerra começou, ele vivia esperando o pior. Todos os dias. Todas as horas. Todos os minutos. — Na manhã seguinte, uma nova informação chegou. Mateus entrou apressado no escritório. Pela primeira vez em semanas parecia animado. Mateus: Encontramos alguém. Gabriel levantou imediatamente. Rafael também. Dante ergueu os olhos. Mateus colocou uma fotografia sobre a mesa. Um homem. Barba curta. Boné escuro. Expressão fechada. Mateus: Ele estava próximo da mansão ontem. O ambiente inteiro mudou. Mateus continuou: — Encontramos imagens dele em três pontos diferentes. Gabriel pegou a fotografia. Analisando. Rafael aproximou-se. Mateus respirou fundo. Mateus: E temos mais uma coisa. Dante observou o amigo. Esperando. Mateus apontou para outra imagem. Uma captura de câmera. Pouco nítida. Mas suficiente. O mesmo homem. Entrando em um prédio abandonado. Dante ficou de pé. Imediatamente. Sem hesitação. Sem dúvidas. Porque pela primeira vez desde o início daquela guerra... eles não tinham apenas uma ameaça. Tinham um rosto. E um rosto podia ser encontrado. Podia ser interrogado. Podia levar até Felipe. Os olhos de Dante escureceram. Uma determinação fria tomando conta dele. Talvez aquela fosse a oportunidade que esperava. Talvez fosse a primeira rachadura na defesa do inimigo. Ou talvez fosse mais uma armadilha. Mas uma coisa era certa. A partir daquele momento... ninguém conseguiria impedir Dante Valenti de caçar quem ousou transformar Andréia em alvo.
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