O silêncio dentro do escritório tornou-se quase insuportável.
Andréia permanecia sentada.
Os braços cruzados.
Os olhos fixos em Dante.
Esperando.
Qualquer coisa.
Uma explicação.
Uma teoria.
Uma resposta.
Mas Dante continuava imóvel.
Observando a fotografia.
Como se estivesse tentando encontrar algo escondido nela.
Algum detalhe.
Alguma pista.
Alguma explicação lógica.
Porque aquilo simplesmente não fazia sentido.
Não deveria fazer sentido.
A fotografia havia sido tirada anos antes.
Muito antes do casamento.
Muito antes de Andréia entrar oficialmente em sua vida.
Muito antes da guerra.
Muito antes de Felipe.
Dante virou a foto novamente.
Analisando.
O local parecia um evento de moda.
Andréia estava mais jovem.
Sorrindo para alguém fora da imagem.
Sem perceber que estava sendo fotografada.
Sem perceber que alguém a observava.
Andréia respirou fundo.
Tentando controlar a ansiedade.
Andréia: Vai me dizer o que está acontecendo?
A voz saiu firme.
Mais firme do que se sentia.
Dante ergueu os olhos.
E pela primeira vez ela percebeu algo que não esperava ver.
Confusão.
Confusão genuína.
Dante Valenti raramente parecia confuso.
Mas naquele momento parecia.
E isso era assustador.
Muito assustador.
Dante Valenti: Eu não sei.
A resposta a atingiu como um soco.
Porque ela esperava qualquer coisa.
Menos aquilo.
Andréia soltou uma risada nervosa.
Andréia: Como assim você não sabe?
Dante passou a mão pelo rosto.
Claramente frustrado.
Dante Valenti: Porque essa foto foi tirada antes de você me conhecer.
O silêncio voltou.
Andréia sentiu um arrepio percorrer sua coluna.
Porque ouvir aquilo em voz alta tornava tudo pior.
Muito pior.
Ela observou novamente a fotografia.
Tentando lembrar daquele dia.
Mas era impossível.
Havia participado de dezenas de eventos.
Centenas de sessões fotográficas.
Milhares de pessoas passaram por sua vida.
Como poderia lembrar de alguém específico?
Andréia: Então isso não tem relação com você?
Dante não respondeu imediatamente.
E isso bastou para preocupá-la.
Porque quando Dante demorava para responder...
era porque estava pensando em possibilidades ruins.
Muito ruins.
—
Na manhã seguinte, a mansão parecia ainda mais silenciosa.
A notícia da fotografia havia sido mantida em segredo.
Pouquíssimas pessoas sabiam.
Mesmo assim, Andréia sentia que algo havia mudado.
Talvez fosse apenas sua imaginação.
Talvez não.
Enquanto tomava café, percebeu Dante distraído.
Mais do que o normal.
Ele m*l tocou na comida.
Mal falou.
Mal pareceu presente.
Andréia observou-o por alguns segundos.
Até decidir quebrar o silêncio.
Andréia: Você ficou acordado a noite inteira de novo.
Dante ergueu os olhos.
Sem negar.
Sem confirmar.
Mas ela já sabia.
Andréia suspirou.
Andréia: Você não vai conseguir resolver tudo sozinho.
A frase ficou suspensa no ar.
Dante desviou o olhar.
Porque parte dele sabia que ela tinha razão.
Mas outra parte...
a parte que havia construído impérios.
Travado guerras.
Sobrevivido a traições.
Não sabia funcionar de outro jeito.
Ele sempre carregava tudo sozinho.
Sempre.
E talvez esse fosse seu maior defeito.
—
Mais tarde, Gabriel chegou trazendo novidades.
Não boas.
Nunca eram boas ultimamente.
A reunião começou imediatamente.
Dante.
Gabriel.
Rafael.
Mateus.
Todos sentados ao redor da mesa.
O ambiente estava carregado de expectativa.
Gabriel colocou uma pasta sobre a mesa.
Gabriel: Encontramos algo relacionado à fotografia.
Dante ergueu os olhos.
Atento.
Gabriel abriu o arquivo.
Diversos documentos apareceram.
Relatórios antigos.
Registros.
Fotografias.
Anotações.
Rafael aproximou-se.
Tentando entender.
Gabriel respirou fundo.
Gabriel: A fotografia foi tirada durante um evento beneficente.
Andréia participou como modelo convidada.
Nada fora do comum.
Dante assentiu.
Até aí tudo fazia sentido.
Gabriel continuou.
Gabriel: Mas havia outra pessoa presente naquele evento.
O silêncio tomou conta da sala.
Gabriel colocou uma nova fotografia sobre a mesa.
Um homem.
Terno escuro.
Expressão séria.
Observando o palco.
Observando Andréia.
Os olhos de Dante estreitaram-se imediatamente.
Porque reconheceu aquele rosto.
Não perfeitamente.
Mas reconheceu.
Mateus percebeu.
Mateus: Você conhece ele?
Dante permaneceu observando.
Pensativo.
Depois respondeu.
Dante Valenti: Já vi esse homem antes.
Gabriel franziu a testa.
Gabriel: Onde?
Dante demorou alguns segundos.
Tentando lembrar.
Então finalmente respondeu.
Dante Valenti: Em uma fotografia antiga de Vittorio.
O silêncio tornou-se absoluto.
Porque aquilo conectava duas coisas que não deveriam estar conectadas.
Andréia.
E Vittorio.
Muito antes de Dante sequer entrar na história.
—
Enquanto isso, Felipe observava um relógio antigo.
Os ponteiros avançavam lentamente.
O som constante preenchia a sala.
Um de seus homens entrou.
Visivelmente preocupado.
Homem: Eles estão encontrando algumas ligações.
Felipe sorriu.
Sem surpresa.
Sem preocupação.
Homem: Isso não atrapalha?
Felipe aproximou-se da janela.
Observando o movimento da cidade.
Depois respondeu:
Felipe: Não.
O homem permaneceu em silêncio.
Esperando.
Felipe continuou:
Felipe: Porque eles continuam olhando para o passado errado.
A frase deixou o homem ainda mais confuso.
Mas Felipe não explicou.
Porque não pretendia explicar.
Ainda não.
—
Na mansão, Andréia passou o restante do dia tentando organizar os próprios pensamentos.
Mas era impossível.
Quanto mais descobria.
Mais perguntas surgiam.
Porque agora existia uma possibilidade perturbadora.
E se tudo aquilo não tivesse começado por causa de Dante?
E se ela também fizesse parte da história?
A ideia parecia absurda.
Mas também parecia cada vez menos impossível.
Ela caminhou até o próprio escritório.
Precisava ficar sozinha.
Precisava pensar.
Ao entrar no ambiente, percebeu algo imediatamente.
A gaveta da mesa estava aberta.
Ela congelou.
Porque tinha certeza absoluta de que a havia fechado.
Seu coração acelerou.
Andréia aproximou-se devagar.
Observando.
Nada parecia fora do lugar.
Nada parecia roubado.
Nada parecia diferente.
Mas alguém havia mexido ali.
Ela sabia.
Sentia.
E essa sensação era impossível de ignorar.
Com cuidado, abriu completamente a gaveta.
Encontrando os mesmos documentos.
Os mesmos contratos.
As mesmas anotações.
Até perceber uma coisa.
Um pequeno papel dobrado.
Escondido sob uma pasta.
Andréia sentiu o estômago afundar.
Porque não lembrava daquele papel.
Definitivamente não.
Ela pegou o objeto.
As mãos tremendo levemente.
Abriu devagar.
E encontrou apenas uma frase.
Uma única frase.
Mas suficiente para fazer o sangue desaparecer de seu rosto.
"Pergunte ao seu marido sobre Vittorio Moretti."
O papel escorregou de seus dedos.
Caindo sobre a mesa.
Porque aquela mensagem não era uma ameaça.
Não era um aviso.
Era algo muito pior.
Era alguém tentando colocá-la contra Dante.
E, pela primeira vez desde o início daquela guerra...
Andréia começou a se perguntar se realmente conhecia todos os segredos do homem com quem se casou.