Rachaduras

1068 Words
O silêncio dentro do quarto parecia mais pesado do que qualquer discussão. Andréia continuava parada diante dele. Observando. Esperando. E Dante permanecia imóvel. Os olhos escuros sustentando os dela. Sem fugir. Sem mudar de assunto. Sem construir uma das inúmeras barreiras que normalmente utilizava. Aquilo era raro. Muito raro. Porque Dante Valenti sempre encontrava uma forma de esconder o que sentia. Sempre. Mas naquela noite parecia cansado demais para isso. Andréia aproximou-se lentamente. Até ficar diante dele. Tão perto que podia sentir o cheiro do perfume misturado ao frio da madrugada. Andréia: O que está acontecendo? A pergunta saiu baixa. Gentil. Sem acusação. Sem cobrança. Apenas preocupação. Dante fechou os olhos por um instante. Como alguém tentando organizar pensamentos demais. Problemas demais. Segredos demais. Quando voltou a abrir os olhos, a observou por alguns segundos. Longos segundos. Dante Valenti: Eu não sei quem está puxando as cordas. A resposta a surpreendeu. Porque não era algo que esperava ouvir. Não dele. Jamais dele. Dante sempre tinha respostas. Sempre tinha planos. Sempre sabia o próximo passo. Mas agora... agora parecia perdido. E isso era assustador. Muito assustador. Andréia segurou sua mão. Andréia: Você vai descobrir. Um sorriso pequeno apareceu. Breve. Quase imperceptível. Mas desapareceu rapidamente. Dante Valenti: É isso que me preocupa. Andréia franziu a testa. Dante desviou o olhar. Observando a janela. A cidade iluminada ao longe. Dante Valenti: Quanto mais descubro... menos eu entendo. A frase permaneceu suspensa entre eles. Pesada. Cheia de significado. Porque aquela guerra estava deixando de ser uma simples vingança. E começava a parecer algo muito maior. Muito mais antigo. Muito mais perigoso. — Na manhã seguinte, Andréia acordou decidida. Pela primeira vez em semanas. Decidida a parar de apenas observar. A sensação de impotência já estava se tornando insuportável. Ela compreendia os riscos. Compreendia as ameaças. Compreendia o motivo da proteção. Mas isso não significava que precisava aceitar ficar completamente no escuro. Terminou de se arrumar. Tomou café. E passou a observar. Algo que aprendera na carreira de modelo. As pessoas revelavam muito mais quando acreditavam não estar sendo observadas. E a mansão inteira parecia carregada de tensão. Seguranças caminhavam mais rápido. Funcionários cochichavam. Portas permaneciam fechadas. Tudo parecia diferente. Enquanto caminhava pelo corredor principal, encontrou Mateus. O homem carregava algumas pastas. Parecia distraído. Andréia aproveitou. Andréia: Encontraram alguma coisa? Mateus congelou. Literalmente. Por apenas um segundo. Mas ela percebeu. E aquilo foi suficiente. Mateus forçou um sorriso. Mateus: Nada importante. Mentira. Andréia reconheceu imediatamente. Porque pessoas que falavam a verdade não precisavam escolher palavras com tanto cuidado. Mateus continuou andando. Mas agora Andréia tinha certeza. Todos estavam escondendo algo. E isso apenas aumentava sua determinação. — Ao mesmo tempo, Dante permanecia reunido com Gabriel e Rafael. A fotografia encontrada no pendrive estava projetada na parede. Vittorio Moretti. O homem que deveria estar morto. O fantasma que havia retornado. Gabriel observava atentamente. Rafael parecia cada vez mais irritado. Nenhum dos dois gostava daquela situação. Porque ela trazia perguntas demais. E respostas de menos. Gabriel apoiou os braços sobre a mesa. Gabriel: Vamos considerar a hipótese impossível. Dante ergueu os olhos. Gabriel continuou: Gabriel: E se Vittorio estiver vivo? O silêncio tomou conta da sala. Rafael soltou uma risada sem humor. Rafael: Isso seria um desastre. Ninguém discordou. Porque seria. Vittorio não era apenas um nome. Era uma ameaça. Uma ameaça que havia moldado parte do passado de Dante. Dante observou novamente a fotografia. Pensativo. Muito pensativo. Até que falou. Dante Valenti: Quero tudo. Movimentações financeiras. Familiares. Contatos antigos. Empresas. Quero qualquer coisa ligada a ele. Gabriel assentiu. Rafael também. A busca começaria imediatamente. — Do outro lado da cidade, Felipe observava o movimento das ruas através da janela de um prédio comercial. Diferente do galpão. Diferente dos esconderijos. Aquele local era elegante. Limpo. Respeitável. E justamente por isso perfeito. Ninguém procurava criminosos em lugares que pareciam legítimos. Um homem entrou na sala. Homem: Os Valenti começaram a investigar Vittorio. Felipe não demonstrou surpresa. Na verdade, parecia esperar exatamente aquilo. Felipe levou a xícara de café aos lábios. Tranquilo. Homem: Isso faz parte do plano? Felipe sorriu. Felipe: Claro. O homem permaneceu em silêncio. Esperando. Felipe aproximou-se da janela. Observando a cidade. Felipe: Algumas portas só podem ser abertas pela pessoa certa. O homem continuava sem entender. Mas já havia aprendido algo importante. Quando Felipe falava daquela forma, fazer perguntas era inútil. Porque ele nunca revelava o plano inteiro. Nem mesmo para os próprios aliados. — Na mansão, Andréia decidiu fazer algo que não fazia havia semanas. Entrou em seu escritório particular. Um espaço que praticamente abandonara desde o início da guerra. As estantes continuavam organizadas. Os projetos permaneciam arquivados. Os contratos ainda estavam ali. Esperando. Ela caminhou lentamente pelo ambiente. Passando os dedos sobre a mesa. Sobre os livros. Sobre os objetos. Tudo parecia pertencer a outra vida. Uma vida mais simples. Mais leve. Mais sua. Sentou-se na cadeira. Respirando fundo. E então percebeu algo. Um envelope. Escondido entre alguns documentos. Franziu a testa. Não lembrava de tê-lo deixado ali. Pegou o objeto. Observando. Nenhum nome. Nenhuma identificação. Nada. O coração acelerou. Uma sensação r**m surgiu imediatamente. Mas a curiosidade venceu. Ela abriu. Dentro havia apenas uma fotografia. Andréia retirou a imagem lentamente. E sentiu o sangue gelar. Era ela. Uma fotografia antiga. Muito antiga. Tirada anos antes de conhecer Dante. Muito antes. Ela virou a foto. E encontrou uma frase escrita à mão. "Você está procurando respostas no lugar errado." Andréia ficou imóvel. O ar pareceu desaparecer. Porque aquela não era uma coincidência. Era uma mensagem. Direcionada a ela. Pessoalmente. E isso mudava tudo. Porque significava que quem estava por trás daquela guerra não observava apenas Dante. Observava ela também. Há muito mais tempo do que imaginava. — Quando Dante retornou à mansão naquela noite, encontrou Andréia esperando no escritório. A fotografia estava sobre a mesa. Ao vê-la, ele imediatamente percebeu. Algo havia acontecido. Algo grave. Andréia não falou. Apenas empurrou a imagem em sua direção. Dante observou. Primeiro a fotografia. Depois a frase. Então sua expressão mudou. Completamente. Porque aquela foto havia sido tirada anos antes. Antes do casamento. Antes do relacionamento. Antes de tudo. E isso significava apenas uma coisa. Alguém observava Andréia muito antes dela entrar em sua vida. Muito antes daquela guerra começar. Muito antes de Felipe aparecer. O silêncio tornou-se sufocante. Andréia observou o marido. Esperando uma explicação. Mas pela primeira vez... Dante parecia não ter nenhuma.
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