A Mulher do Mafioso

1206 Words
O silêncio daquela casa nunca significava paz. Andréia aprendeu isso da pior forma possível depois de se casar com Dante Valenti. Na mansão onde viviam, tudo era grande demais. Os corredores extensos, os lustres luxuosos, as paredes escuras, os seguranças espalhados em cada entrada… tudo parecia lembrar constantemente quem era o dono daquele lugar. E o dono daquela casa era um homem perigoso. Muito. Andréia abriu os olhos lentamente naquela manhã ao sentir o espaço vazio ao lado da cama. Dante Valenti já tinha acordado. Como sempre. Ela suspirou baixo, ainda deitada entre os lençóis pretos de seda. O quarto carregava o perfume dele por todos os lados — madeira escura, álcool caro e algo intensamente masculino que parecia permanecer impregnado até no ar. Ela passou a mão pelo rosto antes de se levantar devagar. O corpo ainda doía da noite anterior. E aquilo fez seu estômago revirar levemente. Não por arrependimento. Mas pela intensidade. Dante Valenti nunca fazia nada pela metade. Nem amar. Nem machucar. Nem possuir. Andréia caminhou até o enorme espelho próximo da varanda e observou a própria imagem. O cabelo cacheado caía bagunçado pelos ombros, os lábios estavam levemente inchados e marcas avermelhadas cobriam partes do seu pescoço. Ela desviou os olhos. Às vezes era difícil distinguir carinho de obsessão quando se tratava dele. O celular sobre a penteadeira vibrou. Levi. Seu empresário. Ela atendeu ainda distraída. Andréia: Oi. Levi: Finalmente acordou. Ela revirou os olhos. Andréia: Bom dia pra você também. Levi riu do outro lado. Levi: Sessão de fotos às duas. Marca internacional. Não me inventa desculpa hoje. Ela caminhou lentamente até a varanda. O jardim enorme da mansão parecia impecável sob o céu nublado da manhã. Andréia: Eu vou. Levi: E avisa seu marido psicopata que dessa vez eu realmente preciso de você lá. Ela soltou um pequeno riso. Mas curto. Porque o comentário não parecia exatamente mentira. Andréia: Levi… Levi: Tô brincando. Mais ou menos. A ligação encerrou poucos segundos depois. E Andréia ficou parada observando o horizonte. Pensativa. Ela amava Dante Valenti. Mais do que deveria. Mais do que era saudável. Mas existiam momentos… momentos em que o peso daquele amor parecia sufocar. E isso assustava. Muito. — Quando desceu para o café da manhã, encontrou a mesa já posta. Luxuosa. Exagerada. Como tudo naquela casa. Empregadas caminhavam silenciosamente pelo ambiente enquanto seguranças permaneciam próximos das entradas. Dante Valenti estava sentado na ponta da mesa lendo alguns documentos. Impecável. Terno preto. Relógio caro. Expressão fria. Como se o homem da madrugada passada nem tivesse existido. Andréia se aproximou devagar. Ele ergueu os olhos imediatamente. E aquilo sempre acontecia. Não importava o que estivesse fazendo. Quando ela entrava num ambiente… a atenção dele mudava. Dante Valenti: Dormiu pouco. Ela puxou a cadeira lentamente. Andréia: Culpa sua. O canto da boca dele quase se moveu. Quase. Dante Valenti fechou os documentos. Dante Valenti: Vai sair hoje. Não foi pergunta. Ela pegou a xícara de café. Andréia: Sessão de fotos. Silêncio. Pequeno. Perigoso. Dante Valenti: Onde. Andréia soltou o ar devagar. Andréia: Estúdio central. Ele assentiu lentamente. Mas o olhar continuava nela. Pesando. Lendo. Controlando. Dante Valenti: Quantos homens vão estar lá? Andréia fechou os olhos por um segundo. Ali estava. O ciúme. Constante. Doentio. Andréia: Dante… Dante Valenti: Quantos. Ela apoiou a xícara na mesa. Andréia: Não sei. O maxilar dele travou discretamente. Dante Valenti: Então descubra. O silêncio caiu pesado entre os dois. Andréia conhecia aquele tom. Frio. Controlado. Mas perigosamente perto de perder a paciência. Ela tentou manter a calma. Andréia: É meu trabalho. Dante Valenti: E você é minha esposa. A resposta veio imediata. Sem hesitação. Como se aquilo explicasse tudo. Talvez explicasse mesmo… na cabeça dele. Ela desviou os olhos. Porque parte dela já estava cansada daquela prisão invisível. Mas outra parte… ainda sentia o coração acelerar com a intensidade daquele homem. Dante Valenti levantou da cadeira lentamente. Imponente. Aproximou-se dela devagar até parar atrás da cadeira. Andréia sentiu as mãos dele deslizarem pelos ombros. Firmes. Possessivas. Dante Valenti: Você acha que eu gosto de imaginar outros homens olhando pra você? Ela fechou os olhos ao sentir os lábios dele próximos ao seu ouvido. Andréia: Eles olham porque eu trabalho com isso. Dante Valenti: Eles respiram porque eu permito. O arrepio percorreu sua coluna inteira. Porque ele não estava exagerando. Dante realmente acreditava naquilo. E o pior… era que ele tinha poder suficiente pra transformar qualquer ameaça em cadáver. — Duas horas depois, Andréia saiu da mansão acompanhada por quatro carros de segurança. Quatro. Aquilo era absurdo. Mas discutir já não adiantava mais. O motorista mantinha os olhos fixos na estrada enquanto os carros pretos seguiam em comboio pelas ruas da cidade. Andréia observava tudo pela janela. Pensativa. A vida dela havia mudado completamente depois do casamento. Antes de Dante, existia liberdade. Agora… existia proteção. Luxo. Poder. Mas também vigilância constante. Ela nem lembrava mais como era sair sozinha. — O estúdio estava movimentado quando ela chegou. Luzes. Fotógrafos. Assistentes correndo. Maquiadores. Tudo parecia normal. Até os seguranças de Dante entrarem logo atrás dela. O ambiente inteiro mudou discretamente. As pessoas ficavam tensas quando homens armados surgiam. E Andréia odiava aquilo. Levi apareceu rapidamente. Levi: Finalmente. Ele a abraçou rapidamente antes de olhar para os seguranças atrás dela. Levi: Isso tudo é realmente necessário? Andréia deu um sorriso cansado. Andréia: Pergunta pra ele. Levi suspirou. Levi: Um dia teu marido ainda me mata. Uma voz surgiu atrás deles: Luca: Honestamente? Eu também acho. O fotógrafo se aproximou segurando a câmera. Alto. Bonito. E sorridente demais. Andréia percebeu imediatamente os olhares discretos dos seguranças. Merda. Luca estendeu a mão pra ela. Luca: Faz tempo que queria trabalhar com você. Ela apertou a mão dele rapidamente. Andréia: Prazer. Mas antes que pudesse soltar… um dos seguranças deu um passo à frente. O clima mudou na hora. Luca franziu a testa. Segurança: Solta. Andréia sentiu o estômago gelar. Luca soltou imediatamente. Levi ficou tenso. Levi: Ei, calma… Mas o segurança já levava a mão até o comunicador preso no ouvido. E Andréia soube. Dante ficaria sabendo. Naquele instante. Ela fechou os olhos devagar. Porque conhecia o marido que tinha. E conhecia, principalmente… o homem obsessivo que existia dentro dele. — Na mansão, Dante Valenti observava calmamente as imagens das câmeras enviadas pelos seguranças. O escritório estava mergulhado em silêncio absoluto. Rafael permanecia parado próximo da porta. Sem ousar interromper. Na tela… Luca segurava a mão de Andréia. Pequeno gesto. Inofensivo. Normal. Dante não enxergava daquela forma. O olhar dele escureceu lentamente. Dante Valenti: Nome. Rafael respondeu imediatamente. Rafael: Luca Bittencourt. Fotógrafo. Silêncio. Dante apoiou o copo de whisky na mesa. Devagar. Controlado. E isso era pior. Muito pior. Dante Valenti: Ele tocou nela. Rafael permaneceu quieto. Porque sabia. Sabia exatamente o que acontecia quando alguém cruzava limites relacionados a Andréia. Dante inclinou a cabeça levemente. Os olhos presos na tela. Frios. Mortais. Dante Valenti: Manda investigarem tudo sobre ele. Rafael assentiu. Rafael: Sim. Dante Valenti voltou a observar a imagem congelada. A mão dele segurando a dela. E naquele instante… algo escuro começou a crescer dentro dele outra vez. Ciúme. Obsessão. Controle. Porque Dante Valenti não dividia o que era seu. Nunca. E Andréia… pertencia completamente a ele.
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