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2405 Words
Noivos? — Cassie não conseguiu disfarçar o espanto. — Sim! — Brand confirmou, com um sorriso. — Temporariamente, é claro. — Oh, é claro — ela repetiu. Sentia-se atordoada, nada fazia sentido. Brand só podia estar enlouquecendo. — O que foi? — ele perguntou com cinismo, como se não entendesse o motivo da reação violenta de Cassie. — Você deve estar brincando — murmurou. Uma expressão estranha, misto de malícia e apreensão, surgiu nos belos olhos azuis de Brand Lowe. — Não — ele respondeu. — Não estou brincando. — Fala sério? — Sim — confirmou. Cassie sentiu-se zonza, como se o mundo tivesse ruído naquele instante. Se aceitasse aquela farsa estaria perdida. Conhecia muito bem o fim de várias pessoas que se sujeitaram a ser usadas por Brand. Aquele homem tinha uma capacidade incrível de conseguir o que desejava, quando desejava, e da forma que desejava. Mesmo que para isso precisasse destruir alguém. — Veja bem, Cassie — ele começou, com a voz macia, — nós concordamos que Graham e Sheila são os melhores atores para Indomável, certo? — Certo — ela concordou. — Bem, Graham Wyatt, o ator, gostou muito do papel; mas, Graham Wyatt, o marido, está com medo de prejudicar seu casamento, concorda? — Sim, mas e Sheila? — perguntou. — Ela vai agir de acordo com a opinião do marido! E como sabe disso? Ela me disse — ele confidenciou. E houve uma breve pausa. Cassie mordia o lábio, preocupada. — Então... — ela falou com cuidado — você acha que o nosso noivado... — Graham Wyatt ficará convencido de que estava errado ao temer pelo casamento — Brand explicou. — Ficará convencido também de que não é lógico ter ciúme de mim. — Mas, e tudo que dizem as revistas? — Cassie quis saber. — Bem, ele acreditará que, apesar do que aconteceu entre nós no passado, meu interesse por Sheila, hoje, é puramente profissional. A única maneira de conseguir isso é mostrar-lhe que meu interesse amoroso está centrado em outra pessoa. — E está me propondo que eu seja essa pessoa? — Sim — respondeu triunfante. — Mas por que eu? — perguntou, nervosa. — Não sou seu tipo de mulher. — Como pode saber isso? — Ora. Se quer uma noiva, por que não procura nas páginas da Close-Up? — sugeriu. — Há várias mulheres muito parecidas com os tipos glamourosos com quem costuma sair. — Cassie, Cassie... — Brand balançou a cabeça. A proposta a tinha pegado totalmente despreparada. Não podia e não queria servir de apoio para nenhum jogo. Mesmo que este jogo representasse o futuro de um filme em que se empenhava de corpo e alma. — Não! — respondeu, decidida. — Sei o que estou lhe pedindo — falou. — Se houvesse mais alguém, digo, um namorado, nunca tentaria, acredite. Mas julgo que não há esse empecilho. — Mas, por que eu? — Primeiro, porque você se preocupa com Indomável. Segundo, porque é a única mulher em quem posso confiar para executar este plano. Cassie baixou os olhos, subitamente incapaz de enfrentá-lo. — O que espera que eu diga? — perguntou nervosa. — Que aceite? É claro que sim. Não acho que será necessário ir tão longe — comentou. — Acredita mesmo que seu plano irá funcionar? — Honestamente, acredito que deveríamos pelo menos tentar. — Mas é uma idéia absurda. — Idéias absurdas me fizeram chegar aonde estou. Especialmente no mundo do cinema. — O que iremos falar aos outros? — Nada. — O que quer dizer? — Que não iremos contar aos outros que estamos tendo um caso — ele confessou. — Iremos mostrar isso! Essas palavras ecoaram em sua mente provocando imagens absurdas. Era terrível ter de ficar aparecendo ao lado de Brand Lowe. Seria como renunciar a um mínimo de privacidade. — Acho que você só pode estar brincando — ela murmurou, tentando acreditar que aquela conversa realmente não passava de uma brincadeira de mau gosto. — Mas é claro que não! Acha que ninguém acreditará que me apaixonei por você? — Acho! — respondeu com frieza. — Veja bem, estivemos juntos nos últimos seis meses... — Mas passamos o tempo todo trabalhando. — Sei disso. Assim mesmo, passamos mais tempo juntos que qualquer marido e mulher. Só nós dois sabemos exatamente o que se passa entre nós. Ninguém mais. — Em outras palavras, quer convencer as pessoas de que sou sua... Quero dizer, que nós somos... Ela calou-se por não saber como definir o tipo de relacionamento em que Brand queria fazer todos acreditarem que mantinham. — Não sou eu que quero fazer isso. As circunstâncias exigem — falou. — Em todo caso, já há certas pessoas que desconfiam que nós temos um caso. — O quê? — perguntou, não acreditando no que ouvia. — Nunca ouvi nada a esse respeito. — Isso não me surpreende. Você vive alheia ao que se passa a sua volta. O comentário magoou-a profundamente, mas Cassie fez o possível para ignorá-lo. O momento já era difícil o suficiente sem uma discussão. — As pessoas têm comentado sobre nós? — perguntou, incrédula. — Sim — Brand confirmou. — Quem? Ele permaneceu em silêncio por um longo tempo até contar-lhe: — Seu tio, por exemplo. — Tio Jordan pensa que eu e você somos amantes? — Não... No momento. O que quer dizer? Ante o silencio de Brand, Cassie pensou que ele se recusaria a  lhe contar mais detalhes. Brand batia os dedos na mesa impacientemente, até que por fim falou: Um mês antes de ser promovida, seu tio ouviu um rumor de que nós estaríamos dormindo juntos — ele contou. Então veio me procurar e me passou um tremendo sermão. Cassie estava chocada. Não duvidava nem por um instante que Brand estivesse contando a verdade. O tio era seu tutor legal, e muito conservador quando se tratava de Cassie. Apesar de o tempo tê-la transformado em uma mulher, o tio continuava a tratá-la como uma garotinha melindrosa. — O que disse a ele? — quis saber. — Falei que tudo não passava de fofoca, é claro — Brand contou, com calma. — E contei-lhe que minhas intenções para com você eram estritamente profissionais. — Meu tio acreditou em você? — Sobre não sermos amantes? — Evidente que sim, Brand. Não se faça de desentendido falou, começando a ficar com raiva. — Acho que ele faria tudo para tirá-la de perto de mim, se pudesse. - Você falou mais alguma coisa com ele? Quero dizer, sobre nós. Falei que costumava discernir muito bem minha vida profissional de minha vida particular. Nesse ponto ela tinha de concordar. Apesar de Brand ser considerado leviano com as mulheres, nunca ouvira falar que ele tivesse tido um caso com alguém em seu trabalho. Foi pensando nisso que teve certeza de que o plano nunca iria funcionar. — Então, como irá explicar que ficaremos noivos? — desafiou. — Já que nunca mistura trabalho e prazer, como justificará um caso com sua assistente? — Um homem quebra as regras quando se apaixona Cassie. Era estranho ouvi-lo falar de amor. A palavra soava falsa nos lábios dele. — Realmente pretende executar esse plano absurdo, Brand? — perguntou, temendo a resposta. — Sim. Quero que Indomável seja o melhor filme que já produzi. E não pouparei esforços para transformá-lo em um grande sucesso. — E não acha que a idéia de me ter como noiva soa ridícula? — Não, eu não acho! — Ora, não sei se vai funcionar, porque... — Não estou dizendo para chamarmos os repórteres e divulgar nosso noivado — ele interrompeu. — Temos ainda sete semanas antes do início das filmagens. Isto nos dará tempo mais que suficiente para convencer Graham Wyatt e todo mundo de que temos um caso. — E se não conseguirmos? — perguntou aflita, prevendo o desastre que isso acarretaria. — Se depois de três semanas não conseguirmos o nome de Graham no filme, procuraremos uma alternativa. Cassie permaneceu calada por um longo tempo. Aquele plano era muito arriscado. Por outro lado, queria muito ter a dupla de atores no filme. Sonhara com isso por muito tempo. Seria difícil ver todos os seus sonhos desabarem, mas também não sabia se estava disposta a pagar preço tão alto pelos seus sonhos. — Realmente acha que temos alguma chance? — ela inquiriu, confusa. — Nosso noivado tem de parecer absolutamente real, Cassie. Caso contrário não irá funcionar. Isto significa que ninguém mais, além de nós, deverá saber a verdade. Teremos de mentir a todos? — Por que está tão preocupada? Há alguém com quem terá problemas devido ao nosso plano? — Há pelo menos uma dúzia de pessoas — Cassie respondeu, angustiada. Era terrível enganar Graham Wyatt, mas para tê-lo como ator principal em Indomável poderia até fazer isso. Mas teria de mentir ao tio, a todos seus amigos. Como iria justificar tamanha mentira? O tio certamente ficaria furioso. Se ele já tinha feito um escândalo por suspeitar de um caso entre eles, não queria nem imaginar sua reação quando tivesse suas suspeitas confirmadas. — Não estou me referindo a todos que conhece — ele disse. — Refiro-me a alguém mais específico, alguém especial em sua vida, que poderia não entender nossa pequena encenação. Cassie corou e fez um gesto negando a existência de um namorado ou de qualquer pessoa em sua vida amorosa. — Muito bom. — Ele sorriu. — Isto facilitará tudo. — Facilitará para quem? — quis saber. — Ora, quero dizer que não teremos problemas para convencer  a todos de que realmente temos um caso. Cassie sentia o coração bater acelerado. O plano era absurdo, e temia se expor ao ridículo quando todos descobrissem a farsa. — Não vai funcionar — ela resmungou. — O quê? — Está sendo muito pretensioso — ela afirmou. — Acha mesmo que alguém irá acreditar que pretende se casar comigo? — Não seja pessimista, veja tudo por esse ângulo... — Não adianta! — ela protestou. — Por mais que fale, não creio que ninguém em seu juízo perfeito poderá aceitar essa hjstória. — E quem, em Hollywood, tem o juízo perfeito? — ele brincou. — O que acha de Noreen? — Ora, Noreen é uma romântica. Romântica? — É claro que sim — afirmou. — Por detrás daquela aparência decidida há uma sonhadora. Talvez ela fique um pouco chateada ao saber que iremos nos casar e não contamos nada, mas não teremos problemas com ela. — Não vai dar certo — Cassie murmurou. — Tem de dar certo — Brand afirmou. — Mas... — Cassie, esta é nossa única chance, por favor. — Está realmente convencido? — Estou! — Mesmo sem contar a ninguém que somos... — Cassie fez uma pausa, sentindo-se constrangida. — Que somos namorados? — Exatamente! — Tudo para ter Granam como ator principal em Indomável, não é? — Por Indomável — ele repetiu. Cassie fechou os olhos por alguns instantes. Precisava saber até onde Brand iria para conseguir seu objetivo. Tinha consciência de que ele faria de tudo para ter o ator escolhido no filme, mas e Cassie, até que ponto chegaria para conseguir o que desejava? — Cassie? — Brand a chamou, fazendo-a despertar de suas reflexões. — E depois? — Depois? — Sim. O que fará quando o filme estiver pronto? — quis saber. — Irá anunciar que tudo não passou de um truque? — É claro que não! — murmurou. — Sei que encontraremos uma boa desculpa para o rompimento de nosso namoro. — Estou confusa. Acho que preciso de algum tempo para decidir. — Não temos muito tempo — alertou-a. — Terá de se decidir agora. — Talvez pudesse esperar até amanhã... — Já! Cassie. Pense no futuro de Indomável, esta é a nossa única chance. — Sabe muito bem que quero ver este filme pronto tanto quanto você, mas... — Sim ou não? — ele insistiu. Ela refletiu por alguns instantes. Talvez o plano pudesse realmente funcionar e não lhe custaria nada tentar. — Sim! — aceitou, olhando para o chão. — Está certa do que decidiu? Cassie quase riu da pergunta. Como poderia ter certeza de algo, naquela situação absurda. Na verdade, não estava certa a respeito de mais nada em sua vida. — Acho que sim — respondeu, resignada. — Ótimo! — O que faremos agora? — Fui convidado para uma festa de aniversário esta noite. Acho que deveria me acompanhar. Cassie sentiu um frio percorrer-lhe a espinha. A festa que ele mencionara não era um evento qualquer, mas um acontecimento social de vulto. — Que tal se fôssemos jantar — sugeriu, angustiada. — Poderíamos representar diante de uma pequena platéia. — Não temos tempo, Cassie — Brand murmurou. — Sinto muito. — Terei de fingir que estou apaixonada, nessa festa? — Mais ou menos isso — Brand falou, levantando-se. — Irei pegá-la às oito horas, está bem? Cassie concordou com um breve aceno e também se levantou. Mas, antes de sair, virou-se novamente para Brand. Brand, você sabe que não sou uma boa atriz — alertou. - Estou com medo. — Pois então fique calma. O nervosismo só irá atrapalhar. — Há outra coisa — falou, hesitando por um momento. — O que é? Cassie sentia-se constrangida. Precisava encontrar um modo delicado de fazer a pergunta. — Há alguma razão para Graham Wyatt ter ciúme de você, além do que ocorreu no passado? Porque, se ainda estiver envolvido com Sheila, não tomarei parte neste plano, nem mesmo por Indomável. — Sheila e eu somos amigos. Todos sabem que fomos amantes, mas não há nada mais entre nós. Tudo bem — murmurou. Algo mais? — Brand perguntou ao abrir a porta. Era óbvio que Brand estava muito ocupado e não queria estender mais a conversa. — Não, nada mais. — Te vejo hoje às oito horas, está bem? — As oito — ela aceitou. Cassie virou-se e andou até a porta. Já ia saindo quando o ouviu chamar: — Cassie? — O que é? — Poderia me fazer um favor? Ela fez um gesto concordando e esperou até que Brand falasse. — Quero que solte os cabelos esta noite e que use um vestido bem bonito. Cassie ficou furiosa. Então ele achava que ela não sabia como vestir-se? Imaginava que fosse tão bronca a ponto de envergonhá-lo? Olhou-o com raiva e, sem dizer palavra, saiu do escritório de Brand Lowe, batendo a porta com força.
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