Com o passar dos dias, a Katy foi se recuperando, tive que mentir para Sr.ª Odette, dizendo que a Katy estava doente.
Quanto mais ela falta, mais a dívida aumenta.
"Ah… pelo menos a minha amiga está bem."
Vejo o Sr. Richard entrar e me ajeito.
Ele também me vê e caminha em minha direção.
— Oi — ele me cumprimenta.
Respondo com um “oi” quase automático.
— Vamos.
Caminho escada acima e, como sempre, ele vem atrás de mim, apenas seguindo.
Entramos no quarto e fecho a porta.
Ele se senta na cama. Não parece bem. Sento-me ao lado dele.
— Você está bem?
Ele demora a responder e, no fim, apenas abana a cabeça de leve, em concordância.
— Então podemos começar… — levo a mão até o peito dele, mas sou interrompida.
— Hoje não.
Endireito-me.
— Posso perguntar por que você está assim?
— Eu sou casado.
Eu apenas escuto. Apesar de isso me ferir, sei que não posso fazer nada.
— Sou casado há dezassete anos. Com uma mulher que eu não queria… e nem quero.
Ele se cala por longos minutos. Ficamos presos nesse silêncio pesado.
Bem, pelo menos ele não gosta da esposa. Isso significa que eu ainda tenho uma chance.
— Ela sempre tentou fazer de tudo para que eu a amasse, mas eu nunca dei importância. Estou tão cansado dessa vida…
Esse é o momento perfeito.
Coloco minha mão sobre a dele, tentando confortá-lo.
— Eu estou aqui para o que você precisar.
Mas ele apenas me olha e retira a mão debaixo da minha.
— E você tem filhos? — pergunta, depois que o clima pesa ainda mais.
— Não. Eu nunca sequer me deitei com ela.
Como assim? Eu ouvi direito?
Ele continua olhando para a porta, mas responde:
— Quando nos casamos, ela era pura. E acredito que ainda seja. Nunca me interessei por ela. Nunca desejei o corpo dela.
— Você tem certeza de que ela ainda é pura? — pergunto, esperando a resposta.
— Pelo jeito que ela é… acredito que sim.
Não consigo me conter e acabo rindo.
— É sério isso? Ela já é bem adulta para continuar pura.
— É… você tem razão — ele parece pensativo agora.
Será que ele realmente acreditava nisso?
— Você realmente achava que ela ainda era pura?
Ele me olha, confuso.
Sim. Ele achava.
— Na verdade, nunca pensei nisso. Mas, se ela não for, não tem problema. Isso é só um casamento de aparências. Se eu me envolvo com outras mulheres, por que ela não poderia fazer o mesmo?
Essa pergunta parece mais para ele mesmo do que para mim.
— Você já tentou conversar com ela?
— Não. Muitas vezes ela tentou falar comigo, mas eu nunca quis.
— Talvez ela só quisesse fazer o casamento dar certo… não como uma prisão para vocês dois.
Ele baixa o olhar para as próprias mãos.
— Antes de nossas famílias decidirem tudo, nós éramos amigos. Bons amigos.
Até que um dia ela disse que gostava de mim como algo mais. Acho que esse casamento foi a oportunidade que ela viu para tentar ter alguma coisa comigo.
Ele respira fundo.
— Quero o divórcio. Penso nisso há muito tempo. Não faz sentido continuarmos presos a algo que nenhum de nós quis. Nossos pais já morreram.
Apesar dos meus sentimentos pelo Sr. Richard, eu não posso deixá-lo se divorciar.
E se ela ainda gostar dele?
E se ainda estiver esperando que, um dia, ele a ame?
Eu não posso fazer isso.
— Ela ainda parece interessada em você?
— Sim. Mas não como antes. Acho que finalmente percebeu que nada nunca iria acontecer.
— Então… — engulo em seco — amanhã eu quero que você fale com ela. Como quando eram amigos.
Ele vira o rosto para mim, sem entender.
— Eu não quero ser amigo dela. Muito menos continuar esse casamento.
Mesmo assim, continuo:
— Faça isso uma última vez.
— Por favor. Mesmo que vocês não voltem a ser amigos… eu não vou te pedir para não se divorciar. Apenas tente.
Nem eu mesma sei explicar.
Eu só não quero que ele termine com ela.
— E se você não conseguir dizer nada… — acrescento — apenas a observe...
O corredor continua escuro. As lâmpadas estão sempre fundidas.
Giro a chave e entro em casa.
Katy está na cozinha, mexendo em alguma coisa. Aproximo-me.
— Katy, o que você está fazendo?
— Uma sopa — responde com um pequeno sorriso.
Mas o sorriso dela parece vazio.
— Prova — diz, estendendo a colher. — Está quente, devagar.
Levo à boca.
Sinceramente, é o pior gosto que já senti na vida.
— Então? O que achou? — ela espera, ansiosa.
— Katy… está ótima. Mas da próxima vez, deixa que eu cozinho.
Ela apenas volta a mexer a sopa com a colher de p*u.
Apesar do gosto h******l, não consigo dizer a verdade.
Desde o aborto, a Katy já não é a mesma.
Muitas noites, ela abafa o choro no travesseiro.
Às vezes eu tento confortá-la. Em outras… simplesmente não sei o que fazer.
Sinto-me m*l. Muito m*l.
Por não conseguir ajudar a minha amiga a superar isso.
Mas tudo passa com o tempo.
… pelo menos é o que eu espero.