-Mara, o Cole chegou. – Ela me olha, sorridente, toda iluminada por aquela felicidade que parece tão fácil para os outros.
-Então está na hora de você contar para ele. – Ela sorri uma última vez antes de se virar, indo em direção ao seu amado, como se eu estivesse ficando para trás.
Essa vida é tão… desgastante.
-Ahh- desde que comecei minhas noites com o Sr. Richard, não consigo conter meus gemidos de prazer.
-Mmmm- amo as nossas noites, mesmo sabendo que tudo tem um limite.
Eu tenho desejado tanto o corpo do Sr. Richard nos últimos dias, e nem sei por quê.
Com ele, me sinto livre, desejada, amada… Talvez seja o jeito como ele me toca, a delicadeza escondida em cada gesto. Cada toque é um lembrete de que ainda posso ser desejada, que ainda posso sentir prazer sem culpa. Talvez estejamos criando algo mais que desejo. Algo que eu ainda não sei nomear.
Mas a pior parte sempre vem quando ele vai embora.
Ele está sentado na cama, calçando os sapatos, enquanto eu fico deitada entre os lençóis. Tento não demonstrar a frustração, mas meu peito aperta.
-Mas você já vai? – arrisco, tentando parecer indiferente.
-Sou casado, infelizmente… mas sim. – Ele se levanta, deixa o dinheiro sobre a cama e vai embora.
Meu coração dá um salto de frustração. Claro, ele é casado. Claro. Mas justamente agora que eu já estava criando sentimentos por ele…
Me levanto da cama, mas a tontura me força a sentar de novo.
Acho que estou doente.
Tenho que encontrar a Katy. Ela já deve ter contado ao Cole sobre a gravidez.
Mas primeiro preciso ir ao banheiro… mas ao entrar, me deparo com algo que me paralisa.
A Katy está encolhida num canto, os olhos ainda úmidos, como se tivesse chorado até secar. Ela não fala, não chora, apenas me olha com um cansaço que corta a alma.
Aproximo-me devagar, sem dizer nada, e a abraço.
-Mara, ele não me quer mais. – Sua voz é calma, quase sem vida. – E também não quer o nosso bebê.
Solto-a, incapaz de encontrar palavras.
-Vamos para casa, minha amiga. – digo, tentando soar firme.
...
O hospital parece mais uma sala de espera infinita do que um lugar de cuidado.
Seguro a mão da Katy desde que entramos, mas é como segurar algo que já está se afastando de mim. Ela não fala, não chora. Respira devagar, como se cada inspiração precisasse de permissão.
O chão e as paredes, brancos e cansados, parecem ter sido um dia limpos, mas hoje só refletem a fadiga de tudo.
Foi hoje de manhã — digo para o homem atrás do balcão. — Ela acordou com dores e depois veio o sangramento.
Ele não pergunta nada. Apenas escreve devagar, como se o tempo fosse dele.
Colocam a Katy numa cadeira de rodas que range a cada movimento. Sigo atrás, em silêncio. Ninguém me impede, ninguém me chama. Apenas seguimos.
O quarto é pequeno. Um ventilador no teto tenta girar, mas desiste no meio do caminho. Colocam-na na maca. O lençol fino parece um insulto ao que ela precisa.
O médico aparece, frio, impessoal. Examina a Katy rápido demais, como se já soubesse o que encontrou.
-Parece que houve uma perda. – "Perda" Como se fosse algo esquecido, descartável.
- Mas ela vai ficar bem? – Pergunto, a voz firme tentando enganar meu medo.
Ele hesita meio segundo. Meio segundo é uma eternidade.
-Vamos observar. – Observar. Como se cuidar fosse apenas olhar.
...
O dia passa sem nome. O sol entra, depois vai embora. Ninguém volta, ninguém explica. Katy dorme m*l. Acorda pior. Sua pele perde cor aos poucos, como fotografia exposta ao sol.
À noite, sento ao lado dela. Seguro sua mão, agora gelada.
-Mara… – ela sussurra, a voz frágil.
-Estou aqui. – Respondo, tentando ser forte por nós duas.
No dia seguinte, percebo antes de qualquer um: a pele dela não combina com o corpo, os lábios claros demais. Treme, mas insiste que não sente frio.
Chamo uma enfermeira. Ela mede a pressão, franze a testa por um segundo e depois suaviza o rosto, como se apagar a preocupação fosse rotina.
-O médico já vem. – Ela diz. Mas o médico não vem.
E quando finalmente aparece, é tarde demais para palavras gentis.
-Aqui não temos recursos para continuar o tratamento. – Ele diz.
-Ela precisa de um hospital maior.
-Então transfiram-na. – Digo, calma, embora meu coração grite.
-Não temos ambulância disponível. – Ele suspira, indiferente.
Aprendi cedo: o silêncio é onde as coisas mais graves acontecem.
Arrumo as poucas coisas da Katy numa sacola. Ninguém ajuda. Ninguém impede. Empurro a cadeira devagar pelo mesmo corredor de ontem. Tudo é igual, só nós duas estamos diferentes.
Do lado de fora, o sol machuca. Ela fecha os olhos.
-Desculpa — diz, sem saber
por quê.
-Não — respondo. — Não diz isso. Mas por dentro, sussurro a mim mesma: por acreditar que aquele lugar era suficiente, por acreditar que observar era cuidar.
Levo a Katy embora.
...
Apesar de ser mais caro, eu tinha que trazer a Katy para um lugar onde ela seria bem cuidada, afinal ela é mais importante.
— Ela vai ficar bem Doutor?— pergunto, segurando sua mão.
O médico assente, sério, cada palavra escolhida com cuidado.
-Sim. Fizemos a limpeza adequada, administramos antibióticos e controlamos sinais vitais. Com os cuidados certos, ela se recuperará completamente.
Respiro aliviada, finalmente sentindo que fizemos o que estava ao nosso alcance. Pela primeira vez desde o início do dia, há esperança.
- Obrigada.- digo, firme.
-Ela está em boas mãos — ele responde com um leve sorriso.
E, pela primeira vez, posso acreditar que podemos respirar de verdade.