Capítulo 13

959 Words
-Mara, o Cole chegou. – Ela me olha, sorridente, toda iluminada por aquela felicidade que parece tão fácil para os outros. -Então está na hora de você contar para ele. – Ela sorri uma última vez antes de se virar, indo em direção ao seu amado, como se eu estivesse ficando para trás. Essa vida é tão… desgastante. -Ahh- desde que comecei minhas noites com o Sr. Richard, não consigo conter meus gemidos de prazer. -Mmmm- amo as nossas noites, mesmo sabendo que tudo tem um limite. Eu tenho desejado tanto o corpo do Sr. Richard nos últimos dias, e nem sei por quê. Com ele, me sinto livre, desejada, amada… Talvez seja o jeito como ele me toca, a delicadeza escondida em cada gesto. Cada toque é um lembrete de que ainda posso ser desejada, que ainda posso sentir prazer sem culpa. Talvez estejamos criando algo mais que desejo. Algo que eu ainda não sei nomear. Mas a pior parte sempre vem quando ele vai embora. Ele está sentado na cama, calçando os sapatos, enquanto eu fico deitada entre os lençóis. Tento não demonstrar a frustração, mas meu peito aperta. -Mas você já vai? – arrisco, tentando parecer indiferente. -Sou casado, infelizmente… mas sim. – Ele se levanta, deixa o dinheiro sobre a cama e vai embora. Meu coração dá um salto de frustração. Claro, ele é casado. Claro. Mas justamente agora que eu já estava criando sentimentos por ele… Me levanto da cama, mas a tontura me força a sentar de novo. Acho que estou doente. Tenho que encontrar a Katy. Ela já deve ter contado ao Cole sobre a gravidez. Mas primeiro preciso ir ao banheiro… mas ao entrar, me deparo com algo que me paralisa. A Katy está encolhida num canto, os olhos ainda úmidos, como se tivesse chorado até secar. Ela não fala, não chora, apenas me olha com um cansaço que corta a alma. Aproximo-me devagar, sem dizer nada, e a abraço. -Mara, ele não me quer mais. – Sua voz é calma, quase sem vida. – E também não quer o nosso bebê. Solto-a, incapaz de encontrar palavras. -Vamos para casa, minha amiga. – digo, tentando soar firme. ... O hospital parece mais uma sala de espera infinita do que um lugar de cuidado. Seguro a mão da Katy desde que entramos, mas é como segurar algo que já está se afastando de mim. Ela não fala, não chora. Respira devagar, como se cada inspiração precisasse de permissão. O chão e as paredes, brancos e cansados, parecem ter sido um dia limpos, mas hoje só refletem a fadiga de tudo. Foi hoje de manhã — digo para o homem atrás do balcão. — Ela acordou com dores e depois veio o sangramento. Ele não pergunta nada. Apenas escreve devagar, como se o tempo fosse dele. Colocam a Katy numa cadeira de rodas que range a cada movimento. Sigo atrás, em silêncio. Ninguém me impede, ninguém me chama. Apenas seguimos. O quarto é pequeno. Um ventilador no teto tenta girar, mas desiste no meio do caminho. Colocam-na na maca. O lençol fino parece um insulto ao que ela precisa. O médico aparece, frio, impessoal. Examina a Katy rápido demais, como se já soubesse o que encontrou. -Parece que houve uma perda. – "Perda" Como se fosse algo esquecido, descartável. - Mas ela vai ficar bem? – Pergunto, a voz firme tentando enganar meu medo. Ele hesita meio segundo. Meio segundo é uma eternidade. -Vamos observar. – Observar. Como se cuidar fosse apenas olhar. ... O dia passa sem nome. O sol entra, depois vai embora. Ninguém volta, ninguém explica. Katy dorme m*l. Acorda pior. Sua pele perde cor aos poucos, como fotografia exposta ao sol. À noite, sento ao lado dela. Seguro sua mão, agora gelada. -Mara… – ela sussurra, a voz frágil. -Estou aqui. – Respondo, tentando ser forte por nós duas. No dia seguinte, percebo antes de qualquer um: a pele dela não combina com o corpo, os lábios claros demais. Treme, mas insiste que não sente frio. Chamo uma enfermeira. Ela mede a pressão, franze a testa por um segundo e depois suaviza o rosto, como se apagar a preocupação fosse rotina. -O médico já vem. – Ela diz. Mas o médico não vem. E quando finalmente aparece, é tarde demais para palavras gentis. -Aqui não temos recursos para continuar o tratamento. – Ele diz. -Ela precisa de um hospital maior. -Então transfiram-na. – Digo, calma, embora meu coração grite. -Não temos ambulância disponível. – Ele suspira, indiferente. Aprendi cedo: o silêncio é onde as coisas mais graves acontecem. Arrumo as poucas coisas da Katy numa sacola. Ninguém ajuda. Ninguém impede. Empurro a cadeira devagar pelo mesmo corredor de ontem. Tudo é igual, só nós duas estamos diferentes. Do lado de fora, o sol machuca. Ela fecha os olhos. -Desculpa — diz, sem saber por quê. -Não — respondo. — Não diz isso. Mas por dentro, sussurro a mim mesma: por acreditar que aquele lugar era suficiente, por acreditar que observar era cuidar. Levo a Katy embora. ... Apesar de ser mais caro, eu tinha que trazer a Katy para um lugar onde ela seria bem cuidada, afinal ela é mais importante. — Ela vai ficar bem Doutor?— pergunto, segurando sua mão. O médico assente, sério, cada palavra escolhida com cuidado. -Sim. Fizemos a limpeza adequada, administramos antibióticos e controlamos sinais vitais. Com os cuidados certos, ela se recuperará completamente. Respiro aliviada, finalmente sentindo que fizemos o que estava ao nosso alcance. Pela primeira vez desde o início do dia, há esperança. - Obrigada.- digo, firme. -Ela está em boas mãos — ele responde com um leve sorriso. E, pela primeira vez, posso acreditar que podemos respirar de verdade.
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