Do alto da Serra de Monte Santo atentando-se para a região, estendida em torno num raio de quinze léguas,
nota-se, como num mapa em relevo, a sua conformação orográfica. E vê-se que as cordas de serras ao invés de se
alongarem para o nascente, medianas aos traçados do Vaza-Barris e Itapicuru, formando-lhes o divortium aquarum,
progridem para o norte.
Mostram-se as serras Grande e do Atanásio, correndo, e a princípio distintas, uma para NO e outra para N e
fundindo-se na do Acaru, onde abrolham os mananciais intermitentes do Bendegó e seus tributários efêmeros.
Unificadas, aliam-se às de Caraíbas e do Lopes e nestas de novo se embebem, formando-se as massas do Cambaio,
de onde irradiam as pequenas cadeias do Coxomongó e Calumbi, e para o noroeste os píncaros torreantes do Caipã.
Obediente à mesma tendência, a do Aracati, lançando-se a NO, à borda dos tabuleiros de Jeremoabo, progride,
descontínua, naquele rumo e, depois de entalhadas pelo Vaza-Barris em Cocorobó, inflete para o poente, repartindose nas da Canabrava e Poço de Cima, que a prolongam. Todas traçam, afinal, elíptica curva fechada ao sul por um
morro, o da Favela, em torno de larga planura ondeante onde se erigia o arraial de Canudos — e daí para o norte de
novo se dispersam e descaem até acabarem em chapadas altas à borda do S. Francisco.
Deste modo, no ascender para o norte, procurando o chapadão que o Parnaíba escava, aquele talude dos
planaltos parece dobrar-se num ressalto, perturbando toda a área de drenagem do S. Francisco abaixo da confluência
do Patamoté, num traçado de torrentes sem nome, inapreciáveis na mais favorável escala, e impondo ao Vaza-Barris
um curso tortuoso do qual ele se liberta em Jeremoabo, ao infletir para a costa.
Este é um rio sem afluentes. Falta-lhe conformidade com o declive da terra. Os seus pequenos tributários, o
Bendegó e o Caraíbas, volvendo águas transitórias, dentro dos leitos rudemente escavados, não traduzem as
depressões do solo. Têm a existência fugitiva das estações chuvosas. São, antes, canais de esgotamento, abertos a
esmo pelos enxurros — ou correntes velozes que, adstritas aos relevos topográficos mais próximos, estão, não raro,
em desarmonia com as disposições orográficas gerais. São rios que sobem. Enchem-se de súbito; transbordam,
reprofundam os leitos, anulando o obstáculo do declive geral do solo; rolam por alguns dias para o rio principal; e
desaparecem, volvendo ao primitivo aspecto de valores em torcicolos, cheios de pedras, e secos.
O próprio Vaza-Barris, rio sem nascentes em cujo leito viçam gramíneas e pastam os rebanhos, não teria o
traçado atual se corrente perene lhe assegurasse um perfil de equilíbrio, através de esforço contínuo e longo. A sua
função como agente geológico é revolucionária. As mais das vezes cortado, fracionando-se em gânglios estagnados,
ou seco, à maneira de larga estrada poenta e tortuosa, quando cresce, empanzinado, nas cheias, captando as águas
selvagens que estrepitam nos pendores, volve por algumas semanas águas barrentas e revoltas, extinguindo-se logo
em esgotamento completo, vazando, como o indica o dizer português, substituindo-lhe com vantagem a antiga
denominação indígena. É uma onda tombando das vertentes da Itiúba, multiplicando a energia da corrente no
apertado dos desfiladeiros, e correndo veloz entre barrancos, ou entalada em serras, até Jeremoabo.
Vimos como a natureza, em roda, lhe imita o regime brutal — calcando-o em terreno agro, sem os cenários
opulentos das serras e dos tabuleiros ou dos sem-fins das chapadas — mas feito um misto em que tais disposições
naturais se baralham, em confusão pasmosa: planícies que de perto revelam séries de cômoros, retalhados de algares;
morros que o contraste das várzeas faz de grande altura e estão poucas dezenas de metros sobre o solo, e tabuleiros
que em sendo percorridos mostram a acidentação caótica de boqueirões escancelados e brutos. Nada mais dos belos
efeitos das denudações lentas, no remodelar os pendores, no desapertar os horizontes e no desatar — amplíssimos —
os gerais pelo teso das cordilheiras, dando aos quadros naturais a encantadora grandeza de perspectivas em que o céu
e a terra se fundem em difusão longínqua e surpreendedora de cores...
Entretanto, inesperado quadro esperava o viandante que subia, depois desta travessia em que supõe pisar
escombros de terremotos, as ondulações mais próximas de Canudos.
Do alto da Favela
Galgava o topo da Favela. Volvia em volta o olhar, para abranger de um lance o conjunto da terra. — E nada
mais divisava recordando-lhe os cenários contemplados. Tinha na frente a antítese do que vira. Ali estavam os 12
mesmos acidentes e o mesmo chão, embaixo, fundamente revolto, sob o indumento áspero dos pedregais e caatingas
estonadas... Mas a reunião de tantos traços incorretos e duros — arregoados divagantes de algares, sulcos de
despenhadeiros, socavas de bocainas, criava-lhe perspectivas inteiramente novas. E quase compreendia que os
matutos crendeiros, de imaginativa ingênua, acreditassem que “ali era o céu...”
O arraial, adiante e embaixo, erigia-se no mesmo solo perturbado. Mas vistos daquele ponto, de permeio a
distância suavizando-lhes as encostas e aplainando-os — todos os serrotes breves e inúmeros, projetando-se em
plano inferior e estendendo-se, uniformes, pelos quadrantes, davam-lhe a ilusão de uma planície ondulante e grande.
Em roda uma elipse majestosa de montanhas...
A Canabrava, a nordeste, de perfil abaulado e simples; a do Poço de Cima, próxima, mais íngreme e alta; a de
Cocorobó, no levante, ondulando em seladas, dispersa em esporões; as vertentes retilíneas do Calumbi ao sul; as
grimpas do Cambaio, no correr para o poente; e, para o norte, os contornos agitados do Caipã — ligam-se e
articulam-se no infletir gradual traçando, fechada, a curva desmedida.
Vendo ao longe, quase de nível, trancando-lhe o horizonte, aquelas grimpas altaneiras, o observador tinha a
impressão alentadora de se achar sobre platô elevadíssimo, páramo incomparável repousando sobre as serras.
Na planície rugada, embaixo, m*l se lobrigavam os pequenos cursos d’água, divagando, serpeantes...
Um único se distinguia, o Vaza-Barris. Atravessava-a, torcendo-se em meandros. Presa numa dessas voltas viase uma depressão maior, circundada de colinas... E atulhando-a, enchendo-a toda de confusos tetos incontáveis, um
acervo enorme de casebres.
III
O clima
Dos breves apontamentos indicados, resulta que os caracteres geológicos e topográficos, a par dos demais
agentes físicos, mutuam naqueles lugares as influências características de modo a não se poder afirmar qual o
preponderante.
Se, por um lado, as condições genéticas reagem fortemente sobre os últimos, estes, por sua vez, contribuíram
para o agravamento daquelas; — e todas persistem nas influências recíprocas. Deste perene conflito feito num
círculo vicioso indefinido, ressalta a significação mesológica do local. Não há abrangê-la em todas as modalidades.
Escasseiam-nos as observações mais comuns, mercê da proverbial indiferença com que nos volvemos às cousas
desta terra, com uma inércia cômoda de mendigos fartos.
Nenhum pioneiro da ciência suportou ainda as agruras daquele rincão sertanejo, em prazo suficiente para o
definir.
Martius por lá passou, com a mira essencial de observar o aerólito, que tombara à margem do Bendegó e era já,
desde 1810, conhecido nas academias européias, graças a F. Mornay e Wollaston. Rompendo, porém, a região
selvagem, desertus australis, como a batizou, m*l atentou para a terra recamada de uma flora extravagante, silva
horrida no seu latim alarmado. Os que o antecederam e sucederam, palmilharam, ferretoados da canícula, as mesmas
trilhas rápidas, de quem foge. De sorte que sempre evitado, aquele sertão, até hoje desconhecido, ainda o será por
muito tempo.
O que se segue são vagas conjecturas. Atravessamo-lo no prelúdio de um estio ardente e, vendo-o apenas nessa
quadra, vimo-lo sob o pior aspecto. O que escrevemos tem o traço defeituoso dessa impressão isolada, desfavorecida,
ademais, por um meio contraposto à serenidade do pensamento, tolhido pelas emoções da guerra. Além disto os
dados de um termômetro único e de um aneróide suspeito, misérrimo arsenal científico com que ali lidamos, nem
mesmo vagos lineamentos darão de climas que divergem segundo as menores disposições topográficas, criando
aspectos díspares entre lugares limítrofes. O de Monte Santo, por exemplo, que é, ao primeiro comparar, muito
superior ao de Queimadas, diverge do dos lugares que lhe demoram ao norte, sem a continuidade que era lícito 13
prever de sua situação intermédia. A proximidade das massas montanhosas torna-o estável, lembrando um regime
marítimo em pleno continente: escala térmica oscilando em amplitudes insignificantes; firmamento onde a
transparência dos ares é completa e a limpidez inalterável; e ventos reinantes, o SE no inverno e o NE no estio —
alternando-se com rigorismo raro. Mas está insulado. Para qualquer das bandas, deixa-o o viajante num dia de
viagem. Se vai para o norte, salteiam-se transições fortíssimas: a temperatura aumenta; carrega-se o azul dos céus;
embaciam-se os ares: e as ventanias rolam desorientadamente de todos os quadrantes — ante a tiragem intensa dos
terrenos desabrigados, que dali por diante se estiram. Ao mesmo tempo espelha-se o regime excessivo: o termômetro
oscila em graus disparatados passando, já em outubro, dos dias em 35º à sombra para as madrugadas frias.
No ascender do verão acentua-se o desequilíbrio. — Crescem a um tempo as máximas e as mínimas, até que no
fastígio das secas transcorram as horas num intermitir inaturável dos dias queimosos e noites enregeladas.
A terra desnuda tendo contrapostas, em permanente conflito, as capacidades emissiva e absorvente dos materiais
que a formam, do mesmo passo armazena os ardores das soalheiras e deles se esgota, de improviso. Insola-se e
enregela-se, em 24 horas. Fere-a o sol e ela absorve-lhe os raios, e multiplica-os, e reflete-os, e refrata-os, num
reverberar ofuscante: pelo topo dos cerros, pelo esbarrancado das encostas, incendeiam-se as acendalhas da sílica
fraturada; rebrilhantes, numa trama vibrátil de centelhas; a atmosfera junto ao chão vibra num ondular vivíssimo de
bocas de fornalha em que se pressente visível, no expandir das colunas aquecidas, a efervescência dos ares; e o dia,
incomparável no fulgor, fulmina a natureza silenciosa, em cujo seio se abate, imóvel, na quietude de um longo
espasmo, a galhada sem folhas da flora sucumbida.
Desce a noite, sem crespúsculo, de chofre — um salto da treva por cima de uma franja vermelha do poente — e
todo este calor se perde no espaço numa irradiação intensíssima, caindo a temperatura de súbito, numa queda única,
assombrosa...
Ocorrem, todavia, variantes cruéis. Propelidas pelo nordeste, espessas nuvens, tufando em cumulus, pairam ao
entardecer sobre as areias incendidas. Desaparece o Sol e a coluna mercurial permanece imóvel, ou, de preferência,
sobe. A noite sobrevém em fogo; a terra irradia como um Sol escuro, porque se sente uma dolorosa impressão de
faúlhas invisíveis; mas toda a ardência reflui sobre ela, recambiada pelas nuvens. O barômetro cai, como nas
proximidades das tormentas; e m*l se respira no bochorno inaturável em que toda a adustão golfada pela soalheira se
concentra numa hora única da noite.
Por um contraste explicável, este fato jamais sucede nos paroxismos estivais das secas, em que prevalece a
intercadência de dias esbraseados e noites frigidíssimas, agravando todas as angústias dos martirizados sertanejos.
Copiando o mesmo singular desequilíbrio das forças que trabalham a terra, os ventos ali chegam, em geral,
turbilhonando revoltos, em rebojos largos. E, nos meses em que se acentua, o nordeste grava em tudo sinais que lhe
recordam o rumo.
Estas agitações dos ares desaparecem, entretanto, por longos meses, reinando calmarias pesadas — ares imóveis
sob a placidez luminosa dos dias causticantes. Imperceptíveis exercem-se, então, as correntes ascensionais dos
vapores aquecidos sugando à terra a umidade exígua; e quando se prolongam esboçando o prelúdio entristecedor da
seca, a secura da atmosfera atinge a graus anormalíssimos.
Higrômetros singulares
Não a observamos através do rigorismo de processos clássicos, mas graças a higrômetros inesperados e bizarros.
Percorrendo certa vez, nos fins de setembro, as cercanias de Canudos, fugindo à monotonia de um canhoneiro
frouxo de tiros espaçados e soturnos, encontramos, no descer de uma encosta, anfiteatro irregular, onde as colinas se
dispunham circulando um vale único. Pequenos arbustos, icozeiros virentes viçando em tufos intermeados
de palmatórias de flores rutilantes, davam ao lugar a aparência exata de algum velho jardim em abandono. Ao lado
uma árvore única, uma quixabeira alta, sobranceando a vegetação franzina.
O sol poente desatava, longa, a sua sombra pelo chão e protegido por ela — braços largamente abertos, face
volvida para os céus — um soldado descansava. 14
Descansava... havia três meses.
Morrera no assalto de 18 de julho. A coronha da Mannlicher estrondada, o cinturão e o boné jogados a uma
banda, e a farda em tiras, diziam que sucumbira em luta corpo a corpo com adversário possante. Caíra, certo,
derreando-se à violenta pancada que lhe sulcara a fronte, manchada de uma escara preta. E ao enterrar-se, dias
depois, os mortos, não fora percebido. Não compartira, por isto, a vala comum de menos de um côvado de fundo em
que eram jogados, formando pela última vez juntos, os companheiros abatidos na batalha. O destino que o removera
do lar desprotegido fizera-lhe afinal uma concessão: livrara-o da promiscuidade lúgubre de um fosso repugnante; e
deixara-o ali há três meses — braços largamente abertos, rosto voltado para os céus, para os sóis ardentes, para os
luares claros, para as estrelas fulgurantes...
E estava intacto. Murchara apenas. Mumificara conservando os traços fisionômicos, de modo a incutir a ilusão
exata de um lutador cansado, retemperando-se em tranqüilo sono, à sombra daquela árvore benfazeja. Nem um
verme — o mais vulgar dos trágicos analistas da matéria — lhe maculara os tecidos. Volvia ao turbilhão da vida sem
decomposição repugnante, numa exaustão imperceptível. Era um aparelho revelando de modo absoluto, mas
sugestivo, a secura extrema dos ares.
Os cavalos mortos naquele mesmo dia semelhavam espécimens empalhados, de museus. O pescoço apenas mais
alongado e fino, as pernas ressequidas e o arcabouço engelhado e duro.
À entrada do acampamento, em Canudos, um deles, sobre todos, se destacava impressionadoramente. Fora a
montada de um valente, o alferes Wanderley; e abatera-se, morto juntamente com o cavaleiro. Ao resvalar, porém,
estrebuchando malferido, pela rampa íngreme, quedou, adiante, a meia encosta, entalado entre fraguedos. Ficou
quase em pé, com as patas dianteiras firmes num ressalto da pedra... E ali estacou feito um animal fantástico,
aprumado sobre a ladeira, num quase curvetear, no último arremesso da carga paralisada, com todas as aparências de
vida, sobretudo quando, ao passarem as rajadas ríspidas do nordeste, se lhe agitavam as longas crinas ondulantes...
Quando aquelas lufadas, caindo a súbitas, se compunham com as colunas ascendentes, em remoinhos
turbilhonantes, à maneira de minúsculos ciclones, sentia-se, maior, a exsicação do ambiente adusto; cada partícula de
areia suspensa do solo gretado e duro irradiava em todos os sentidos, feito um foco calorífico, a s***a combustão da
terra.
Fora disto — nas longas calmarias, fenômenos óticos bizarros.
Do topo da Favela, se a prumo dardejava o Sol e a atmosfera estagnada imobilizava a natureza em torno,
atentando-se para os descampados, ao longe, não se distinguia o solo.
O olhar fascinado perturbava-se no desequilíbrio das camadas desigualmente aquecidas, parecendo varar através
de um prisma desmedido e intáctil, e não distinguia a base das montanhas, como que suspensas. Então, ao norte da
Canabrava, numa enorme expansão dos plainos perturbados, via-se um ondular estonteador; estranho palpitar de
vagas longínquas; a ilusão maravilhosa de um seio de mar, largo, irisado, sobre que caísse, e refrangesse, e
ressaltasse a luz esparsa em cintilações ofuscantes...
IV
As secas
O sertão de Canudos é um índice sumariando a fisiografia dos sertões do Norte. Resume-os, enfeixa os seus
aspectos predominantes numa escala reduzida. É-lhes de algum modo uma zona central comum.
De fato, a inflexão peninsular, extremada pelo cabo de S. Roque, faz que para ele convirjam as lindes interiores
de seis estados — Sergipe, Alagoas, Pernambuco, Paraíba, Ceará e Piauí — que o tocam ou demoram distantes
poucas léguas. 15
Desse modo é natural que as vicissitudes climáticas daqueles nele se exercitem com a mesma intensidade,
nomeadamente em sua manifestação mais incisiva, definida numa palavra que é o terror máximo dos rudes patrícios
que por ali se agitam — a seca.
Escusamo-nos de longamente a estudar, averbando o desbarate dos mais robustos espíritos no aprofundar-lhe a
gênese, tateantes ao través de sem-número de agentes complexos e fugitivos. Indiquemos, porém, inscrita num
traçado de números inflexíveis, esta fatalidade inexorável.
De fato, os seus ciclos — porque o são no rigorismo técnico do termo — abrem-se e encerram-se com um ritmo
tão notável, que recordam o desdobramento de uma lei natural, ainda ignorada.
Revelou-o, pela primeira vez, o senador Tomás Pompeu, traçando um quadro por si mesmo bastante eloqüente,
em que os aparecimentos das secas, no século passado e atual, se defrontam em paralelismo singular, sendo de
presumir que ligeiras discrepâncias indiquem apenas defeitos de observação ou desvios na tradição o**l que as
registrou.
De qualquer modo ressalta à simples contemplação uma coincidência repetida bastante para que se remova a
intrusão do acaso.
Assim, para citarmos apenas as maiores, as secas de 1710-1711, 1723-1727, 1736-1737, 1744-1745, 1777-1778,
do século XVIII, se justapõem às de 1808-1809, 1824-1825, 1835-1837, 1844-1845, 1877-1879, do atual.
Esta coincidência, espelhando-se quase invariável, como se surgisse do decalque de uma quadra sobre outra,
acentua-se ainda na identidade das quadras remansadas e longas, que, em ambas, atreguaram a progressão dos
estragos.
De fato, sendo, no século passado, o maior interregno de 32 anos (1745-1777), houve no nosso outro
absolutamente igual e, o que é sobremaneira notável, com a correspondência exatíssima das datas (1845-1877).
Continuando num exame mais íntimo do quadro, destacam-se novos dados fixos e positivos, aparecendo com um
rigorismo de incógnitas que se desvendam. Observa-se, então, uma cadência rara perturbada na marcha do flagelo,
intercortado de intervalos pouco díspares entre 9 e 12 anos, e sucedendo-se de maneira a permitirem previsões
seguras sobre a sua irrupção.
Entretanto, apesar desta simplicidade extrema nos resultados imediatos, o problema, que se pode traduzir na
fórmula aritmética mais simples, permanece insolúvel.
Hipótese sobre a gênese das secas
Impressionado pela razão desta progressão raro alterada, e fixando-a um tanto forçadamente em onze anos, um
naturalista, o barão de Capanema, teve o pensamento de rastrear nos fatos extraterrestres, tão característicos pelos
períodos invioláveis em que se sucedem, a sua origem remota. E encontrou na regularidade com que repontam e se
extinguem, intermitentemente, as manchas da fotosfera solar, um símile completo.
De fato, aqueles núcleos obscuros, alguns mais vastos que a Terra, negrejando dentro da cercadura fulgurante
das fáculas, lentamente derivando à feição da rotação do Sol, têm, entre o máximo e o mínimo da intensidade, um
período que pode variar de nove a doze anos. E como desde muito a intuição genial de Herschel lhes descobrira o
influxo apreciável na dosagem de calor emitido para a Terra, a correlação surgia inabalável, neste estear-se em dados
geométricos e físicos acolchetando-se num efeito único.
Restava equiparar o mínimo das manchas, anteparo à irradiação do grande astro, ao fastígio das secas no planeta
torturado — de modo a patentear, cômpares, os períodos de uma e outras.
Falhou neste ponto, em que pese à sua forma atraentíssima, a teoria planeada: raramente coincidem as datas do
paroxismo estival, no Norte, com as daquele.
O malogro desta tentativa, entretanto, denuncia menos a desvalia de uma aproximação imposta rigorosamente
por circunstâncias tão notáveis, do que o exclusivismo de atentar-se para uma causa única. Porque a questão, com a
complexidade imanente aos fatos concretos, se atém, de preferência, a razões secundárias, mais próximas e
enérgicas, e estas, em modalidades progredindo, contínuas, da natureza do solo à disposição geográfica, só serão definitivamente sistematizadas quando extensa série de observações permitir a definição dos agentes preponderantes
do clima sertanejo.
Como quer que seja, o penoso regime dos estados do Norte está em função de agentes desordenados e fugitivos,
sem leis ainda definidas, sujeitas às perturbações locais, derivadas da natureza da terra, e a reações mais amplas,
promanadas das disposições geográficas. Daí as correntes aéreas que o desequilibram e variam.
Determina-o em grande parte, e talvez de modo preponderante, a monção de nordeste, oriunda da forte aspiração
dos planaltos interiores que, em vasta superfície alargada até ao Mato Grosso, são, como se sabe, sede de grandes
depressões barométricas, no estio. Atraído por estas, o nordeste vivo, ao entrar, de dezembro a março, pelas costas
setentrionais, é singularmente favorecido pela própria conformação da terra, na passagem célere por sobre os
chapadões desnudos que irradiando intensamente lhe alteiam o ponto de saturação diminuindo as probabilidades das
chuvas, e repelindo-o, de modo a lhe permitir acarretar para os recessos do continente, intacta, sobre os mananciais
dos grandes rios, toda a umidade absorvida na travessia dos mares.
De fato, a disposição orográfica dos sertões, à parte ligeiras variantes — cordas de serras que se alinham para
nordeste paralelamente à monção reinante — facilita a travessia desta. Canaliza-a. Não a contrabate num
antagonismo de encostas, abarreirando-a, alteando-a, provocando-lhe o resfriamento, e a condensação em chuvas.
Um dos motivos das secas repousa, assim, na disposição topográfica.
Falta às terras flageladas do Norte uma alta serrania que, correndo em direção perpendicular àquele vento,
determine a dynamic colding, consoante um dizer expressivo.
Um fato natural de ordem mais elevada esclarece esta hipótese.
Assim é que as secas aparecem sempre entre duas datas fixadas há muito pela prática dos sertanejos, de 12 de
dezembro a 19 de março. Fora de tais limites não há um exemplo único de extinção de secas. Se os atravessam,
prolongam-se fatalmente por todo o decorrer do ano, até que se reabra outra vez aquela quadra. Sendo assim e
lembrando-nos que é precisamente dentro deste intervalo que a longa faixa das calmas equatoriais, no seu lento
oscilar em torno do equador, paira no zênite daqueles estados, levando a borda até aos extremos da Bahia, não
poderemos considerá-la, para o caso, com a função de uma montanha ideal que, correndo de leste a oeste e
corrigindo momentaneamente lastimável disposição orográfica, se anteponha à monção e lhe provoque a parada, a
ascensão das correntes, o resfriamento subseqüente e a condensação imediata nos aguaceiros diluvianos que tombam
então, de súbito, sobre os sertões?
Este desfiar de conjecturas tem o valor único de indicar quantos fatores remotos podem incidir numa questão
que duplamente nos interessa, pelo seu traço superior na ciência, e pelo seu significado mais íntimo no envolver o
destino de extenso trato do nosso país. Remove, por isto, a segundo plano o influxo até hoje inutilmente agitado dos
alísios, e é de alguma sorte fortalecido pela intuição do próprio sertanejo para quem a persistência do nordeste, — o
vento da seca, como o batiza expressivamente — equivale à permanência de uma situação irremediável e
crudelíssima.
As quadras benéficas chegam de improviso.
Depois de dous ou três anos, como de 1877-1879, em que a insolação rescalda intensamente as chapadas
desnudas, a sua própria intensidade origina um reagente inevitável. Decai afinal, por toda a parte, de modo
considerável, a pressão atmosférica. Apruma-se, maior e mais bem definida, a barreira das correntes ascensionais dos
ares aquecidos, antepostas às que entram pelo litoral. E entrechocadas umas e outras, num desencadear de tufões
violentos, alteiam-se, retalhadas de raios, nublando em minutos o firmamento todo, desfazendo-se logo depois em
aguaceiros fortes sobre os desertos recrestados.
Então parece tornar-se visível o anteparo das colunas ascendentes, que determinam o fenômeno, na colisão
formidável com o nordeste.
Segundo numerosas testemunhas — as primeiras bátegas despenhadas da altura não atingem a terra. A meio
caminho se evaporam entre as camadas referventes que sobem, e volvem, repelidas, às nuvens, para, outra vez
condensando-se, precipitarem-se de novo e novamente refluírem; até tocarem o solo que a princípio não umedecem,
tornando ainda aos espaços com rapidez maior, numa vaporização quase como se houvessem caído sobre chapas 17
incandescentes; para mais uma vez descerem, numa permuta rápida e contínua, até que se formem, afinal, os
primeiros fios de água derivando pelas pedras, as primeiras torrentes em despenhos pelas encostas, afluindo em
regatos já avolumados entre as quebradas, concentrando-se tumultuariamente em ribeirões correntosos; adensandose, estes, em rios barrentos traçados ao acaso, à feição dos declives, em cujas correntezas passam velozmente os
esgalhos das árvores arrancadas, rolando todos e arrebentando na mesma onda, no mesmo caos de águas revoltas e
escuras...
Se ao assalto subitâneo se sucedem as chuvas regulares, transmudam-se os sertões, revivescendo. Passam,
porém, não raro, num giro célebre, de ciclone. A drenagem rápida do terreno e a evaporação, que se estabelece logo
mais viva, tornam-nos, outra vez, desolados e áridos. E penetrando-lhes a atmosfera ardente, os ventos duplicam a
capacidade higrométrica, e vão, dia a dia, absorvendo a umidade exígua da terra — reabrindo o ciclo inflexível das
secas...
As caatingas
Então, a travessia das veredas sertanejas é mais exaustiva que a de uma estepe nua.
Nesta, ao menos, o viajante tem o desafogo de um horizonte largo e a perspectiva das planuras francas.
Ao passo que a caatinga o afoga; abrevia-lhe o olhar; agride-o e estonteia-o; enlaça-o na trama espinescente e
não o atrai; repulsa-o com as folhas urticantes, com o espinho, com os gravetos estalados em lanças; e desdobra-selhe na frente léguas e léguas, imutável no aspecto desolado: árvores sem folhas, de galhos estorcidos e secos,
revoltos, entrecruzados, apontando rijamente no espaço ou estirando-se flexuosos pelo solo, lembrando um bracejar
imenso, de tortura, da flora agonizante...
Embora esta não tenha as espécies reduzidas dos desertos — mimosas tolhiças ou eufórbias ásperas sobre o
tapete das gramíneas murchas — e se afigure farta de vegetais distintos, as suas árvores, vistas em conjunto,
semelham uma só família de poucos gêneros, quase reduzida a uma espécie invariável, divergindo apenas no
tamanho, tendo todas a mesma conformação, a mesma aparência de vegetais morrendo, quase sem troncos, em
esgalhos logo ao irromper do chão. É que por um efeito explicável de adaptação às condições estreitas do meio
ingrato, evolvendo penosamente em círculos estreitos, aquelas mesmo que tanto se diversificam nas matas ali se
talham por um molde único. Transmudam-se, e em lenta metamorfose vão tendendo para limitadíssimo número de
tipos caracterizados pelos atributos dos que possuem maior capacidade de resistência.
Esta impõe-se, tenaz e inflexível.
A luta pela vida, que nas florestas se traduz como uma tendência irreprimível para a luz, desatando-se os
arbustos em cipós, elásticos, distensos, fugindo ao afogado das sombras e alteando-se presos mais aos raios do Sol do
que aos troncos seculares — ali, de todo oposta, é mais obscura, é mais original, é mais comovedora. O Sol é o
inimigo que é forçoso evitar, iludir ou combater. E evitando-o pressente-se de algum modo, como o indicaremos
adiante, a inumação da flora moribunda, enterrando-se os caules pelo solo. Mas como este, por seu turno, é áspero e
duro, exsicado pelas drenagens dos pendores ou esterilizado pela sucção dos estratos completando as insolações,
entre dous meios desfavoráveis — espaços candentes e terrenos agros — as plantas mais robustas trazem no aspecto
anormalíssimo, impressos, todos os estigmas desta batalha s***a.
As leguminosas, altaneiras noutros lugares, ali se tornam anãs. Ao mesmo tempo ampliam o âmbito das frondes,
alargando a superfície de contacto com o ar, para a absorção dos escassos elementos nele difundidos. Atrofiam as
raízes mestras batendo contra o subsolo impenetrável e substituem-nas pela expansão irradiante das radículas
secundárias, ganglionando-as em tubérculos túmidos de seiva. Amiúdam as folhas. Fitam-nas rijamente, duras como
cisalhas, à ponta dos galhos para diminuírem o campo de insolação. Revestem de um indumento protetor os frutos,
rígidos, às vezes, como estróbilos. Dão-lhes na deiscência perfeita com que as vagens se abrem, estalando como se
houvessem molas de aço, admiráveis aparelhos para propagação das sementes, espalhando-as profusamente pelo
chão. E têm, todas, sem excetuar uma única, no perfume suavíssimo das flores,1
anteparos intácteis que nas noites