frias sobre elas se alevantam e se arqueiam obstando a que sofram de chofre as quedas de temperatura, tendas
invisíveis e encantadoras, resguardando-as...
Assim disposta, a árvore aparelha-se para reagir contra o regime bruto.
Ajusta-se sobre os sertões o cautério das secas; esterilizam-se os ares urentes; empedra-se o chão, gretando,
recrestado; ruge o nordeste nos ermos; e, como um cilício dilacerador, a caatinga estende sobre a terra as ramagens
de espinhos... Mas, reduzidas todas as funções, a planta, estivando em vida latente, alimenta-se das reservas que
armazena nas quadras remansadas e rompe os estios, pronta a transfigurar-se entre os deslumbramentos da
primavera.
Algumas, em terrenos mais favoráveis, iludem ainda melhor as intempéries, em disposição singularíssima.
Vêem-se, numerosos, aglomerados em caapões ou salpintando, isolados, as macegas, arbúsculos de pouco mais
de um metro de alto, de largas folhas espessas e luzidas, exuberando floração ridente em meio da desolação geral.
São os cajueiros anões, os típicos anacardium humile das chapadas áridas, os cajuís dos indígenas. Estes vegetais
estranhos, quando ablaqueados em roda, mostram raízes que se entranham a surpreendente profundura. Não há
desenraizá-los. O eixo descendente aumenta-lhes maior à medida que se escava. Por fim se nota que ele vai
repartindo-se em divisões dicotômicas. Progride pela terra dentro até a um caule único e vigoroso, embaixo.
Não são raízes, são galhos. E os pequeninos arbúsculos, esparsos, ou repontando em tufos, abrangendo às vezes
largas áreas, uma árvore única e enorme, inteiramente soterrada.
Espancado pelas canículas, fustigado dos sóis, roído dos enxurros, torturado pelos ventos, o vegetal parece
derrear-se aos embates desses elementos antagônicos e abroquelar-se daquele modo, invisível, no solo sobre que
alevanta apenas os mais altos renovos da fronde majestosa.
Outros, sem esta conformação, se aparelham de outra sorte.
As águas que fogem ao volver selvagem das torrentes, ou entre as camadas inclinadas dos xistos, ficam retidas,
longo tempo, nas espatas das bromélias, aviventando-as. No pino dos verões, um pé de macambira é para o matuto
sequioso um copo d’água cristalina e pura. Os caroás verdoengos, de flores triunfais e altas; os gravatás e ananases
bravos, traçados em touceiras impenetráveis, copiam-lhe a mesma forma, adrede feita àquelas paragens estéreis. As
suas folhas ensiformes, lisas e lustrosas, como as da maioria dos vegetais sertanejos, facilitam a condensação dos
vapores escassos trazidos pelos ventos, por maneira a debelar-se o perigo máximo à vida vegetativa, resultante da
larga evaporação pelas folhas, esgotando e vencendo a absorção pelas radículas.
Sucedem-se outros, diversamente apercebidos, sob novos aprestos, mas igualmente resistentes.
As nopáleas e cactos, nativas em toda a parte, entram na categoria das fontes vegetais, de Saint-Hilaire. Tipos
clássicos da flora desértica, mais resistentes que os demais, quando decaem a seu lado, fulminadas, as árvores todas,
persistem inalteráveis ou mais vívidos talvez. Afeiçoaram-se aos regimes bárbaros; repelem os climas benignos em
que estiolam e definham. Ao passo que o ambiente em fogo dos desertos parece estimular melhor a circulação da
seiva entre os seus cladódios túmidos.
As favelas, anônimas ainda na ciência — ignoradas dos sábios, conhecidas demais pelos tabaréus — talvez um
futuro gênero cauterium das leguminosas, têm, nas folhas de células alongadas em vilosidades, notáveis aprestos de
condensação, absorção e defesa. Por um lado, a sua epiderme ao resfriar-se, à noite, muito abaixo da temperatura do
ar, provoca, a despeito da secura deste, breves precipitações de orvalho; por outro, a mão que a toca, toca uma chapa
incandescente de ardência inaturável.
Ora quando, ao revés das anteriores, as espécies não se mostram tão bem armadas para a reação vitoriosa,
observam-se dispositivos porventura mais interessantes; unem-se, intimamente abraçadas, transmudando-se em
plantas sociais. Não podendo revidar isoladas, disciplinam-se, congregam-se, arregimentam-se. São deste número
todas as cesalpinas e as catingueiras, constituindo, nos trechos em que aparecem, sessenta por cento das caatingas;
os alecrins-dos-tabuleiros, e os canudos-de-pito, heliotrópicos arbustivos de caule oco, pintalgado de branco e flores
em espigas, destinados a emprestar o nome ao mais lendário dos vilarejos...
Não estão no quadro das plantas sociais brasileiras, de Humboldt, e é possível que as primeiras vicejem, noutros
climas, isoladas. Ali se associam. E, estreitamente solidárias as suas raízes, no subsolo, em apertada trama, retêm as 19
águas, retêm as terras que se desagregam, e formam, ao cabo, num longo esforço o solo arável em que nascem,
vencendo, pela capilaridade do inextricável tecido de radículas enredadas em malhas numerosas, a sucção insaciável
dos estratos e das areias. E vivem. Vivem é o termo — porque há, no fato, um traço superior à passividade da
evolução vegetativa...
O juazeiro
Têm o mesmo caráter os juazeiros, que raro perdem as folhas de um verde intenso, adrede modeladas às reações
vigorosas da luz. Sucedem-se meses e anos ardentes. Empobrece-se inteiramente o solo aspérrimo. Mas, nessas
quadras cruéis, em que as soalheiras se agravam, às vezes, com os incêndios espontaneamente acesos pelas ventanias
atritando rijamente os galhos secos e estonados — sobre o depauperamento geral da vida, em roda, eles agitam as
ramagens virentes, alheios às estações, floridos sempre, salpintando o deserto com as flores cor de ouro, álacres,
esbatidas no pardo dos restolhos — à maneira de oásis verdejantes e festivos.
A dureza dos elementos cresce, entretanto, em certas quadras, ao ponto de os desnudar: é que se enterroaram há
muito os fundos das cacimbas, e os leitos endurecidos das ipueiras mostram, feito enormes carimbos, em moldes, os
rastros velhos das boiadas; e o sertão de todo se impropriou à vida.
Então, sobre a natureza morta, apenas se alteiam os cereus esguios e silentes, aprumando os caules circulares
repartidos em colunas poliédricas e uniformes, na simetria impecável de enormes candelabros. E avultando ao descer
das tardes breves sobre aqueles ermos, quando os abotoam grandes frutos vermelhos destacando-se, nítidos, à meia
luz dos crepúsculos, eles dão a ilusão emocionante de círios enormes, fincados a esmo no solo, espalhados pelas
chapadas, e acesos...
Caracterizam a flora caprichosa na plenitude do estio.
Os mandacarus (cereus jaramacaru) atingindo notável altura, raro aparecendo em grupos, assomando isolados
acima da vegetação caótica, são novidade atraente, a princípio. Atuam pelo contraste. Aprumam-se tesos,
triunfalmente, enquanto por toda a banda a flora se deprime. O olhar perturbado pelo acomodar-se à contemplação
penosa dos acervos de ramalhos estorcidos, descansa e retifica-se percorrendo os seus caules direitos e corretos. No
fim de algum tempo, porém, são uma obsessão acabrunhadora. Gravam em tudo monotonia inaturável, sucedendo-se
constantes, uniformes, idênticos todos, todos do mesmo porte, igualmente afastados, distribuídos com uma ordem
singular pelo deserto.
Os xiquexiques (cactus peruvianus) são uma variante de proporções inferiores, fracionando-se em ramos
fervilhantes de espinhos, recurvos e rasteiros, recamados de flores alvíssimas. Procuram os lugares ásperos e
ardentes. São os vegetais clássicos dos areais queimosos. Aprazem-se no leito abrasante das lajes graníticas feridas
pelos sóis.
Têm como sócios inseparáveis neste habitat, que as próprias orquídeas evitam, os cabeças-de-frade,
deselegantes e monstruosos melocactos de forma elipsoidal, acanalada, de gomos espinescentes, convergindo-lhes no
vértice superior formado por uma flor única, intensamente rubra. Aparecem, de modo inexplicável, sobre a pedra
nua, dando, realmente, no tamanho, na conformação, no modo por que se espalham, a imagem singular de cabeças
decepadas e sanguinolentas jogadas por ali, a esmo, numa desordem trágica. É que estreitíssima frincha lhes permitiu
insinuar, através da rocha, a raiz longa e capilar até à parte inferior onde acaso existam, livres de evaporação, uns
restos de umidade.
E a vasta família, revestindo todos os aspectos, decai, a pouco e pouco, até aos quipás reptantes, espinhosos,
humílimos, trançados sobre a terra à maneira de espartos de um capacho dilacerador; às ripsálides serpeantes,
flexuosas, como víboras verdes pelos ramos, de parceria com os frágeis cactos epífitas, de um glauco empalecido,
presos por adligantes aos estípites dos ouricurizeiros, fugindo do solo bárbaro para o remanso da copa da palmeira.
Aqui, ali, outras modalidades: as palmatórias-do-inferno, opúntias de palmas diminutas, diabolicamente
eriçadas de espinhos, — com o vivo carmim das cochonilhas que alimentam; orladas de flores rutilantes, quebrando
alacremente a tristeza solene das paisagens... 20
E pouco mais especializa quem anda, pelos dias claros, por aqueles ermos, entre árvores sem folhas e sem flores.
Toda a flora, como em uma derrubada, se mistura em baralhamento indescritível. É a caatanduva, mato doente, da
etimologia indígena, dolorosamente caída sobre o seu terrível leito de espinhos!
Vingando um cômoro qualquer, postas em torno as vistas, perturba-as o mesmo cenário desolador: a vegetação
agonizante, doente e informe, exausta, num espasmo doloroso...
É a silva aestu aphylla, a silva horrida, de Martius, abrindo no seio iluminado da natureza tropical um vácuo de
deserto.
Compreende-se, então, a verdade da frase paradoxal de Aug. de Saint-Hilaire: “Há, ali, toda a melancolia dos
invernos, com um sol ardente e os ardores do verão!”
A luz crua dos dias longos flameja sobre a terra imóvel e não a anima. Reverberam as infiltrações de quartzo
pelos cerros calcários, desordenadamente esparsos pelos ermos, num alvejar de banquisas; e oscilando à ponta dos
ramos secos das árvores inteiriçadas, dependuram-se as tilândsias alvacentas, lembrando flocos esgarçados, de neve,
dando ao conjunto o aspecto de uma paisagem glacial, de vegetação hibernante, nos gelos...
A tormenta
Mas no empardecer de uma tarde qualquer, de março, rápidas tardes sem crepúsculos, prestes afogadas na noite,
as estrelas pela primeira vez cintilam vivamente.
Nuvens volumosas abarreiram ao longe os horizontes, recortando-os em relevos imponentes de montanhas
negras.
Sobem vagarosamente; incham, bolhando em lentos e desmesurados rebojos, na altura; enquanto os ventos
tumultuam nos plainos, sacudindo e retorcendo as galhadas.
Embruscado em minutos, o firmamento golpeia-se de relâmpagos precípites, sucessivos, sarjando fundamente a
imprimadura n***a da tormenta. Reboam ruidosamente as trovoadas fortes. As bátegas de chuva tombam, grossas,
espaçadamente, sobre o chão, aduando-se logo em aguaceiro diluviano...
Ressurreição da flora
E ao tornar da travessia o viajante, pasmo, não vê mais o deserto.
Sobre o solo, que as amarílis atapetam, ressurge triunfalmente a flora tropical.
É uma mutação de apoteose.
Os mulungus rotundos, à borda das cacimbas cheias, estadeiam a púrpura das largas flores vermelhas, sem
esperar pelas folhas, as caraíbas e baraúnas altas refrondescem à margem dos ribeirões refertos; ramalham,
ressoantes, os marizeiros esgalhados, à passagem das virações suaves; assomam, vivazes, amortecendo as
truncaduras das quebradas, as quixabeiras de folhas pequeninas e frutos que lembram contas de ônix; mais virentes,
adensam-se os icozeiros pelas várzeas, sob o ondular festivo das copas dos ouricuris: ondeiam, móveis, avivando a
paisagem, acamando-se nos plainos, arredondando as encostas, as moitas floridas do alecrim-os-tabuleiros, de caules
finos e flexíveis; as umburanas perfumam os ares, filtrando-os nas frondes enfolhadas, e — dominando a
revivescência geral — não já pela altura senão pelo gracioso do porte, os umbuzeiros alevantam dous metros sobre o
chão, irradiantes em círculo, os galhos numerosos.
O umbuzeiro
É a árvore sagrada do sertão. Sócia fiel das rápidas horas felizes e longos dias amargos dos vaqueiros.
Representa o mais frisante exemplo de adaptação da flora sertaneja. Foi, talvez, de talhe mais vigoroso e alto — e
veio descaindo, pouco a pouco, numa intercadência de estios flamívomos e invernos torrenciais, modificando-se a
feição do meio, desinvoluindo, até se preparar para a resistência e reagindo, por fim, desafiando as secas duradouras, 21
sustentando-se nas quadras miseráveis, mercê da energia vital que economiza nas estações benéficas, das reservas
guardadas em grande cópia nas raízes.
E reparte-as com o homem. Se não existisse o umbuzeiro aquele trato de sertão, tão estéril que nele escasseiam
os carnaubais tão providencialmente dispersos nos que os convizinham até ao Ceará, estaria despovoado. O umbu é
para o infeliz matuto que ali vive o mesmo que a mauritia, para os garaúnos dos llanos.
Alimenta-o e mitiga-lhe a sede. Abre-lhe o seio acariciador e amigo, onde os ramos recurvos e entrelaçados
parecem de propósito feitos para a armação das redes bamboantes. E ao chegarem os tempos felizes dá-lhe os frutos
de sabor esquisito para o preparo da umbuzada tradicional.
O gado, mesmo nos dias de abastança, cobiça o sumo acidulado das suas folhas. Realça-se-lhe, então, o porte,
levantada, em recorte firme, a copa arredondada, num plano perfeito sobre o chão, à altura atingida pelos bois mais
altos, ao modo de plantas ornamentais entregues à solicitude de práticos jardineiros. Assim decotadas semelham
grandes calotas esféricas. Dominam a flora sertaneja nos tempos felizes, como os cereus melancólicos nos
paroxismos estivais.
A jurema
As juremas, prediletas dos caboclos — o seu haxixe capitoso, fornecendo-lhes, grátis, inestimável beberagem,
que os revigora depois das caminhadas longas, extinguindo-lhes as fadigas em momentos, feito um filtro mágico —
derramam-se em sebes, impenetráveis tranqueiras disfarçadas em folhas diminutas; refrondam os marizeiros raros —
misteriosas árvores que pressagiam a volta das chuvas e das épocas aneladas do verde e o termo da magrém1
—
quando, em pleno flagelar da seca, lhes porejam na casca ressequida dos troncos algumas gotas d’água; reverdecem
os angicos; lourejam os juás em moitas; e as baraúnas de flores em cachos, e os araticuns à ourela dos banhados...
mas, destacando-se, esparsos pelas chapadas, ou no bolear dos cerros, os umbuzeiros, estrelando flores alvíssimas,
abrolhando em folhas, que passam em fugitivos cambiantes de um verde pálido ao róseo vivo dos rebentos novos,
atraem melhor o olhar, são a nota mais feliz do cenário deslumbrante.
O Sertão é um paraíso
E o sertão é um paraíso...
Ressurge ao mesmo tempo a fauna resistente das caatingas: disparam pelas baixadas úmidas os caititus esquivos;
passam, em varas, pelas tigüeras, num estrídulo estrepitar de maxilas percutindo, os queixadas de canela ruiva;
correm pelo tabuleiros altos, em bandos, esporeando-se com os ferrões de sob as asas, as emas velocíssimas; e as
seriemas de vozes lamentosas, e as sericóias vibrantes, cantam nos balsedos, à fímbria dos banhados onde vem beber
o tapir estacando um momento no seu trote brutal, inflexivelmente retilíneo, pela caatinga, derribando árvores; e as
próprias suçuaranas, aterrando os mocós espertos que se aninham aos pares nas luras dos fraguedos, pulam, alegres,
nas macegas altas, antes de quedarem nas tocaias traiçoeiras aos veados ariscos ou novilhos desgarrados...
Manhãs sertanejas
Sucedem-se manhãs sem par, em que o irradiar do levante incendido retinge a púrpura das eritrinas e destaca
melhor, engrinaldando as umburanas de casca arroxeada, os festões multicores das bignônias. Animam-se os ares
numa palpitação de asas, céleres, ruflando. — Sulcam-nos notas de clarins estranhos. Num tumultuar de
desencontrados vôos passam, em bandos, as pombas bravas que remigram, e rolam as turbas turbulentas das
maritacas estridentes... enquanto feliz, deslembrado de mágoas, segue o campeiro pelos arrastadores, tangendo a
boiada farta, e entoando a cantiga predileta...
Assim se vão os dias. 22
Passam-se um, dous, seis meses venturosos, derivados da exuberância da terra, até que surdamente,
imperceptivelmente, num ritmo maldito, se despeguem, a pouco e pouco, e caiam, as folhas e as flores, e a seca se
desenhe outra vez nas ramagens mortas das árvores decíduas...
V
Uma categoria geográfica que Hegel não citou
Resumamos; enfeixemos estas linhas esparsas.
Hegel delineou três categorias geográficas como elementos fundamentais colaborando com outros no reagir
sobre o homem, criando diferenciações étnicas:
As estepes de vegetação tolhiça, ou vastas planícies áridas; os vales férteis, profusamente irrigados; os litorais e
as ilhas.
Os llanos da Venezuela: as savanas que alargam o vale do Mississippi, as pampas desmedidas e o próprio
Atacama desatado sobre os Andes — vasto terraço onde vagueiam dunas — inscrevem-se rigorosamente nos
primeiros.
Em que pese aos estios longos, às trombas formidáveis de areia, e ao saltear de súbitas inundações não se
incompatibilizam com a vida.
Mas não ficam o homem à terra.
A sua flora rudimentar, de gramíneas e ciperáceas, reviçando vigorosa nas quadras pluviosas, é um incentivo à
vida pastoril, às sociedades errantes dos pegureiros, passando móveis, num constante armar e desarmar de tendas,
por aqueles plainos — rápidas, dispersas aos primeiros fulgores do verão.
Não atraem. Patenteiam sempre o mesmo cenário de uma monotonia acabrunhadora, com a variante única da
cor: um oceano imóvel, sem vagas e sem praias.
Têm a força centrífuga do deserto: repelem; desunem; dispersam. Não se podem ligar à humanidade pelo
vínculo nupcial do sulco dos arados. São um isolador étnico como as cordilheiras e o mar, ou as estepes da
Mongólia, varejadas, em corridas doudas, pelas catervas turbulentas dos tártaros errabundos.
Aos sertões do Norte, porém, que à primeira vista se lhes equiparam, falta um lugar no quadro do pensador
germânico.
Ao atravessá-los no estio, crê-se que entram, de molde, naquela primeira subdivisão; ao atravessá-los no
inverno, acredita-se que são parte essencial da segunda.
Barbaramente estéreis; maravilhosamente exuberantes...
Na plenitude das secas são positivamente o deserto. Mas quando estas não se prolongam ao ponto de originarem
penosíssimos êxodos, o homem luta como as árvores, com as reservas armazenadas nos dias de abastança e, neste
combate feroz, anônimo, terrivelmente obscuro, afogado na solidão das chapadas, a natureza não o abandona de
todo. Ampara-o muito além das horas de desesperança, que acompanham o esgotamento das últimas cacimbas.
Ao sobrevir das chuvas, a terra, como vimos, transfigura-se em mutações fantásticas, contrastando com a
desolação anterior. Os vales secos fazem-se rios. Insulam-se os cômoros escalvados, repentinamente verdejantes. A
vegetação recama de flores, cobrindo-os, os grotões escancelados, e disfarça a dureza das barrancas, e arredonda em
colinas os acervos de blocos disjungidos — de sorte que as chapadas grandes, intermeadas de convales, se ligam em
curvas mais suaves aos tabuleiros altos. Cai a temperatura. Com o desaparecer das soalheiras anula-se a secura
anormal dos ares. Novos tons na paisagem: a transparência do espaço salienta as linhas mais ligeiras, em todas as
variantes da forma e da cor.
Dilatam-se os horizontes. O firmamento, sem o azul carregado dos desertos, alteia-se, mais profundo, ante o
expandir revivescente da terra.
E o sertão é um vale fértil. É um pomar vastíssimo, sem dono. 23
Depois tudo isto se acaba. Voltam os dias torturantes; a atmosfera asfixiadora; o empedramento do solo; a nudez
da flora; e nas ocasiões em que os estios se ligam sem a intermitência das chuvas — o espasmo assombrador da seca.
A natureza compraz-se em um jogo de antíteses.
Eles impõem por isto uma divisão especial naquele quadro. A mais interessante e expressiva de todas — posta,
como mediadora, entre os vales nimiamente férteis e os estepes mais áridos.
Relegando a outras páginas a sua significação como fator de diferenciação étnica, vejamos o seu papel na
economia da terra.
A natureza não cria normalmente os desertos. Combate-os, repulsa-os. Desdobram-se, lacunas inexplicáveis, às
vezes sob as linhas astronômicas definidoras da exuberância máxima da vida. Expressos no tipo clássico do Saara —
que é um termo genérico da região maninha dilatada do Atlântico ao Índico, entrando pelo Egito e pela Síria,
assumindo todos os aspectos da enorme depressão africana ao platô arábico ardentíssimo e Nedjed e avançando daí
para as areias do bejabãs, na Pérsia — são tão ilógicos que o maior dos naturalistas lobrigou a gênese daquele na
ação tumultuária de um cataclismo, uma irrupção do Atlântico, precipitando-se, águas revoltas, num irresistível
remoinhar de correntes, sobre o norte da África e desnudando-a furiosamente.
Esta explicação de Humboldt, embora se erija apenas como hipótese brilhante, tem um significado superior.
Extinta a preponderância do calor central e normalizados os climas, do extremo norte e do extremo sul, a partir
dos pólos inabitáveis, a existência vegetativa progride para a linha equinocial. Sob esta ficam as zonas exuberantes
por excelência, onde os arbustos de outras se fazem árvores e o regime, oscilando em duas estações únicas,
determina uniformidade favorável à evolução dos organismos simples, presos diretamente às variações do meio. A
fatalidade astronômica da inclinação da eclíptica, que coloca a Terra em condições biológicas inferiores às de outros
planetas, m*l se percebe nas paragens onde uma montanha única sintetiza, do sopé às cumeadas, todos os climas do
mundo.
Entretanto, por elas passa, interferindo a fronteira ideal dos hemisférios, o equador termal, de traçado
perturbadíssimo de inflexões vivas, partindo-se nos pontos singulares em que a vida é impossível; passando dos
desertos às florestas, do Saara, que o repuxa para o norte, à Índia opulentíssima, depois de tangenciar a ponta
meridional da Arábia paupérrima; varando o Pacífico num longo traço — rarefeito colar de ilhas desertas e
escalvadas — e abeirando, depois, em lento descambar para o sul, a Hylaea portentosa do Amazonas.
Da extrema aridez à exuberância extrema...
É que a morfologia da Terra viola as leis gerais dos climas. Mas todas as vezes que o facies geográfico não as
combate de todo, a natureza reage. Em luta s***a, cujos efeitos fogem ao próprio raio dos ciclos históricos, mas
emocionante, para quem consegue lobrigá-la ao través dos séculos sem conto, entorpecida sempre pelos agentes
adversos, mas tenaz, incoercível, num evolver seguro, a Terra, como um organismo, se transmuda por intuscepção,
indiferente aos elementos que lhe tumultuam à face.
De sorte que se as largas depressões eternamente condenadas, a exemplo da Austrália, permanecem estéreis, se
anulam, noutros pontos, os desertos.
A própria temperatura abrasada acaba por lhe dar um mínimo de pressão atraindo o afluxo das chuvas; e as
areias móveis, riscadas pelos ventos, negando largo tempo a pega à planta mais humilde, imobilizam-se, a pouco e
pouco, presas nas radículas das gramíneas; o chão ingrato e a rocha estéril decaem sob a ação imperceptível dos
líquens, que preparam a vinda das lecídeas frágeis; e, por fim, os platôs desnudos, llanos e pampas de vegetação
escassa, as savanas e as estepes mais vivazes da Ásia central surgem, num crescendo, refletindo sucessivas fases de
transfigurações maravilhosas.
Como se faz um deserto
Ora, os sertões do Norte, a despeito de uma esterilidade menor, contrapostos a este critério natural, figuram
talvez o ponto singular de uma evolução regressiva. 24
Imaginamo-los há pouco, numa retrospecção em que, certo, a fantasia se insurgiu contra a gravidade da ciência,
a emergirem, geologicamente modernos, de um vasto mar terciário.
À parte essa hipótese absolutamente instável, porém, o certo é que um complexo de circunstâncias lhes tem
dificultado regime contínuo, favorecendo flora mais vivaz.
Esboçamos anteriormente algumas.
Esquecemo-nos, todavia, de um agente geológico notável — o homem.
Este, de fato, não raro reage brutalmente sobre a terra e entre nós, nomeadamente, assumiu, em todo o decorrer
da História, o papel de um terrível fazedor de desertos.
Começou isto por um desastroso legado indígena.
Na agricultura primitiva dos silvícolas era instrumento fundamental — o fogo.
Entalhadas as árvores pelos cortantes djis de diorito; encoivarados, depois de secos, os ramos, alastravam-lhes
por cima, crepitando, as caiçaras, em bulcão de fumo, tangidas pelos ventos. Inscreviam, depois, nas cercas de
troncos combustos das caiçaras, a área em cinzas onde fora a mata exuberante. Cultivavam-na. Renovavam o mesmo
processo na estação seguinte, até que, de todo exaurida aquela mancha de terra, fosse, imprestável, abandonada em
caapuera — mato extinto — como a denuncia a etimologia tupi, jazendo dali por diante irremediavelmente estéril
porque, por uma circunstância digna de nota, as famílias vegetais que surgiam subsecutivamente no terreno calcinado
eram sempre de tipos arbustivos enfezados, de todo distintos dos da selva primitiva. O aborígine prosseguia abrindo
novas roças, novas derrubadas, novas queimas, alargando o círculo dos estragos em novas caapueras, que ainda uma
vez deixava para formar outras noutros pontos, aparecendo maninhas, num evolver enfezado, inaptas para reagir com
os elementos exteriores, agravando, à medida que se ampliavam, os rigores do próprio clima que as flagelava, e
entretecidas de carrascais, afogados em macegas, espelhando aqui o aspecto adoentado da caatanduva sinistra, além
a braveza convulsiva da caatinga brancacenta.
Veio depois o colonizador e copiou o mesmo proceder. Engravesceu-o ainda com o adotar, exclusivo, no centro
do país, fora da estreita faixa dos canaviais da costa, o regime francamente pastoril.
Abriram-se desde o alvorecer do século XVII, nos sertões abusivamente sesmados, enormíssimos campos,
compáscuos sem divisas, estendendo-se pelas chapadas em fora.
Abria-os, de idêntico modo, o fogo livremente aceso, sem aceiros, avassalando largos espaços, solto nas lufadas
violentas do nordeste. Aliou-se-lhe ao mesmo tempo o sertanista ganancioso e bravo, em busca do silvícola e do
ouro. Afogado nos recessos de uma flora estupenda que lhe escurentava as vistas e sombreava perigosamente as
tocaias do tapuia e as tocas do canguçu temido, dilacerou-a golpeando-a de chamas, para desafogar os horizontes e
destacar bem perceptíveis, tufando nos descampados limpos, as montanhas que o norteavam, balizando a marcha das
bandeiras.
Atacou a fundo a terra, escarificando-a nas explorações a céu aberto; esterilizou-a com os lastros das grupiaras;
feriu-a a pontaços de alvião; degradou-a corroendo-a com as águas selvagens das torrentes; e deixou, aqui, ali, em
toda a parte, para sempre estéreis, avermelhando nos ermos com o intenso colorido das argilas revolvidas, onde não
medra a planta mais exígua, as grandes catas, vazias e tristonhas, com a sua feição sugestiva de imensas cidades
mortas, derruídas...
Ora estas selvatiquezas atravessaram toda a nossa História. Ainda em meados deste século, no atestar de velhos
habitantes das povoações ribeirinhas do S. Francisco, os exploradores que em 1830 avançaram, a partir da margem
esquerda daquele rio, carregando em vasilhas de couro indispensáveis provisões de água, tinham, na frente,
alumiando-lhes a rota, abrindo-lhes a estrada e devastando a terra, o mesmo batedor sinistro, o incêndio. Durante
meses seguidos viram, eles, no poente, entrando pelas noites dentro, o reflexo rubro das queimadas.
Imaginem-se os resultados de semelhante processo aplicado, sem variantes, no decorrer de séculos...
Previu-os o próprio governo colonial. Desde 1713 sucessivos decretos visaram opor-lhes paradeiros. E ao
terminar a seca lendária de 1791-1792, a grande seca, como dizem ainda os velhos sertanejos, que sacrificou todo o
Norte, da Bahia ao Ceará, o governo da metrópole figura-se tê-la atribuído aos inconvenientes apontados
estabelecendo desde logo, como corretivo único, severa proibição ao corte das florestas.