Aurora
— Você é minha.
As palavras de Ruslan continuam ecoando na minha cabeça, martelando meu peito como se quisessem forçá-lo a aceitar o impossível. Eu sei que ele me quer, mas não entendo por quê. Por que alguém como ele, um homem perigoso, frio e calculista, iria querer... eu? Sou só uma garota comum tentando sobreviver. Não sou uma princesa, nem uma herdeira. Nem bonita o bastante pra chamar atenção num mundo como o dele.
Mas acontece que meu pai me vendeu como se eu fosse um pedaço de carne no mercado.
Será que ele recebeu o dinheiro? Será que achou que valia a pena? Me vender... matar minha mãe... tudo por dívidas?
Mesmo com as palavras de Ruslan me ordenando a comer, meu estômago continua se revoltando. Dou algumas garfadas, só para disfarçar, mas o gosto não desce.
Desço para a cozinha com a bandeja ainda meio cheia. Me certifico de que o caminho está livre antes de ir. Não quero ver Ruslan de novo. Não agora. Talvez nunca mais.
Sergey está lá, cortando berinjelas, concentrado. Melhor ele do que o d***o em pessoa. Coloco a bandeja no balcão, tentando não fazer barulho.
Ele lança um olhar para os pratos e debocha.
— Não era pra você gostar da minha comida, não? — pergunta, sem levantar muito o tom.
— Estava boa... só não estou com fome — minto, tentando sorrir.
— Claro. Princesas nunca têm fome, né? — Ele ri com desprezo. — Quer que eu te alimente também? Ou prefere um garçom de terno?
— Eu não quis ofender — respondo, baixando a cabeça.
— Mas ofendeu — ele retruca, voltando a mexer nas berinjelas com a faca afiada. — Pelo menos sabe lavar a louça?
Tento reparar o estrago. Levo os pratos à pia, lavo um... dois... mas minhas mãos tremem. O rosto da minha mãe surge na minha mente como uma pancada. O prato escorrega. Cai. Estilhaça.
Sergey se vira, alarmado. — Que merda você fez? Quebrou um prato? O Sr. Petrov não vai gostar disso.
— Eu... eu não posso contar a ele — sussurro, a voz falhando.
— Então prepare-se. Porque a merda é sua.
Saio da cozinha com os olhos queimando. O ar nesta casa me sufoca. Me escoro na parede, tentando puxar o ar que não entra.
Tudo se fecha.
Corro até a porta da frente. Preciso sair.
— Onde você pensa que vai? — pergunta Theodoroo, firme, sem se mover.
— Eu não aguento. Não posso.
— O Sr. Petrov...
— Eu não ligo pro que o Sr. Petrov quer! Ele quer se casar comigo! Como se eu fosse dele. Eu não sou!
Corro. Ele não me impede.
A noite me engole. O céu está escuro e vazio, como eu. Corro pela calçada imaculada dos ricos, sem ninguém por perto. Grito por ajuda mesmo sabendo que ninguém ouvirá.
— Alguém! Por favor!
Meu coração bate em pânico. Eu só sei que preciso fugir. Preciso de dinheiro. Preciso chegar até Anthony. Ele é meu amigo. Ele vai me ajudar... certo?
Mas então paro. parada como uma estátua no meio da rua.
Minha mãe está morta.
Meu pai nunca me amou.
E tudo que me restava era a esperança de uma vida decente... que também foi arrancada.
Meus joelhos cedem. Choro como se meu coração estivesse desmoronando. Porque está.
Um carro para ao meu lado. Eu já sei quem é. Ruslan .
— Você não iria muito longe — ele diz, calmo demais.
Quero odiá-lo. E odeio. Mas minhas lágrimas continuam vindo, como se fossem por mim, por minha mãe, por tudo o que perdi.
Ele se agacha. — A calçada está imunda. Levante-se. Entra no carro. Vou te levar de volta pra casa.
— Pra você me machucar? — cuspo.
— Não. Pra me casar com você. Você é minha, Aurora. E uma vez que estivermos casados, você vai entender isso.
— Eu te odeio — sussurro.
— Não importa — responde, como se fosse a verdade mais simples do mundo.
Ele abre a porta. Me olha. Aquele olhar que diz tudo e nada ao mesmo tempo. Eu não tenho mais para onde ir. Então entro. Porque é mais fácil. Porque estou quebrada.
Ruslan fecha a porta atrás de mim.
Eu sou prisioneira dele.
E ele vai me obrigar a ser sua esposa.