Capítulo 5

2003 Words
Ruslan O interior do clube dos Motociclistas cheira a fumaça. Nunca foi o meu método preferido para lidar com maus hábitos. Na verdade, não tenho nenhum. Não acredito em usar substâncias para sobreviver. Superei meus próprios demônios na base da força de vontade. Homens ocupam cada canto deste lugar — dos sofás encostados na parede dos fundos aos bancos do balcão, onde uma mulher bonita serve doses generosas de bebida. Todos me lançam olhares feios quando entro, e eu entendo bem o motivo. Sou da Bratva. Eles são apenas motociclistas. Nunca nos demos bem. Ajusto minhas abotoaduras. Estar impecável é a melhor forma de representar quem eu sou. Não preciso de couro ou correntes para intimidar. Meu rosto já faz isso por mim. O líder dos Caçadores de Armas se aproxima. Lev. Outro russo que conquistou um pedaço de poder nesta cidade — embora, ao contrário de mim, tenha se deixado amolecer com o tempo. A barriga de cerveja e as papadas são prova disso. — Que p***a você tá fazendo aqui, Ruli? — ele rosna. — Ninguém me chama de Ruli — respondo, firme. — A maioria me chama de Ruslan . Ou de Sr. Petrov. — Ruli— é íntimo demais. É para poucos. E você não é um deles. Ele revira os olhos. — Tá bom, tá bom… Senhor Petrov, que merda você quer aqui? — Negócios. — Que negócios? A gente já fechou o acordo das armas. Você recebeu sua metade, nós pegamos a nossa. — Pois é. Mas veja bem... esse acordo de cinquenta por cento não serve mais pra mim. Vocês são motociclistas. Eu sou Bratva. Eu comando esta cidade. Então agora, vocês vão me pagar uma parte por cada arma vendida. Senão, eu transformo esse lugar num cemitério. Dois homens se posicionam atrás de Lev. — Eu não gosto desse tipo de conversa — diz ele. — Você trabalha pra mim. Sempre trabalhou. Sem mim, você jamais teria visto tanto dinheiro. E agora, estou aqui para cobrar. Lev se aproxima, ficando cara a cara comigo. Admito que isso exige coragem — a maioria das pessoas não ousa. Ele tem fibra. Mas também é simplesmente e******o. — Meus homens podem te matar — ele ameaça. — Podem tentar. Mas aí estariam matando o homem mais poderoso dessa cidade. E eu tenho aliados. Gente muito pior do que eu. Se eu cair, vocês caem juntos. Paguem ou morram. — Vamos morrer, então — diz um dos homens atrás de Lev. É mais jovem, talvez trinta e poucos anos, diferente dos sessenta de Lev. — Maxim — Lev o repreende. — Temos honra entre os Caçadores de Armas — diz Maxim. — Firmamos um acordo. Agora vocês querem mudar as regras? Isso não é honra. Ignoro Lev e me aproximo de Maxim, observando-o de cima. Não somos tão diferentes em idade, mas ele ainda me parece um garoto. Já vi e vivi demais pra me iludir com juventude. — Eu não cheguei onde estou por ter honra — digo. — Cheguei onde estou por ser implacável. Então, ou vocês me pagam o que devem, ou coisas ruins vão acontecer. A escolha é de vocês. — A escolha é minha — diz Lev, colocando-se entre mim e Maxim. Não recuo, mas Maxim dá um passo à frente. — Você vai ter seu maldito dinheiro — resmunga Lev. Ele acena para outro homem. — Colin, pega no cofre. Colin, que m*l deve ter vinte anos, sai correndo pelo corredor como um cachorrinho querendo agradar. — Eu não gosto quando as coisas ficam bagunçadas — comenta Lev. — Nem eu. Ficamos em silêncio enquanto Colin busca o dinheiro. Ele demora. Talvez esteja contando com os dedos. Não me surpreenderia se um motoqueiro não soubesse fazer contas. Maxim estreita os olhos nos meus, e eu retribuo o gesto. O relógio na parede parece gritar com cada segundo que passa. Ninguém se move. Até que alguém se move. — Trabalhamos duro por esse dinheiro — rosna um dos motociclistas, puxando uma arma e apontando direto pra mim. Fico tenso. — Ei! — Lev ergue as mãos. — Calma, Jake! Ninguém quer sangue aqui. — Você não quer — respondo. — Mas eu não me importo. Saco minha arma e aponto de volta para Jake. — Ninguém aponta uma arma pra mim, moleque. — Você acha que é fodão — Jake sibila. — Mas é só um esquisito com uma cicatriz na cara. Ah, a cicatriz... Nunca esqueço dela. É um lembrete. De tudo que vivi. De nunca confiar em ninguém. Nem mesmo na garota nova que está morando na minha casa. Mas não penso nela agora. — Se quiser atirar, Jake — digo, com a voz baixa e firme — teve sua chance. Agora, ou abaixa essa arma… ou esteja pronto pra morrer. — Jake! — grita Lev, em alerta. Colin volta para a sala com um maço de dinheiro nas mãos, os olhos arregalados de medo. — Eu... eu tenho o dinheiro — diz ele, com a voz trêmula. — Não — retruca Jake, a mandíbula trAurorada. — Trabalhamos duro por isso. Você não pode simplesmente entrar aqui e roubar. Ele atira. A bala passa zunindo pelo meu ombro, atingindo a viga lateral atrás de mim. Ele errou. Eu, no entanto, não erro. Puxo o gatilho com calma. A bala crAurora-se bem no meio da testa de Jake. O caos se instala. Lev, Maxim e os outros motociclistas puxam suas armas. Atinjo outro homem no peito antes de me jogar atrás do balcão. O som dos disparos preenche o ambiente. A adrenalina pulsa nas minhas veias — é disso que eu vivo. É isso que me mantém vivo. A loira do bar está encolhida atrás do balcão, os olhos arregalados como os de um cervo encurralado. Ela não diz uma palavra. Só treme. Eu não mato mulheres. É parte do meu código. — Você está em menor número — grita Lev. Olho para minha camisa branca agora manchada de sangue. Uma pena. Eu realmente gostAurora dessa camisa. — Tem certeza de que quer me matar, Lev? — pergunto, ainda agachado. — Tem certeza de que quer lidar com as consequências disso? Eu não puxei o gatilho primeiro. Seu homem puxou. Ainda estou disposto a pegar o dinheiro e ir embora. Ninguém mais precisa morrer hoje. — Dá a p***a do dinheiro pra ele — sibila Maxim. — Três dos nossos já estão mortos. Chega. Lev hesita. Depois de um momento de silêncio, diz apenas: — Tudo bem. Levanto-me lentamente, a pistola ainda em mãos. — Ninguém tente nada — aviso. — Vocês viram como sou bom de mira. — Apenas dá pra ele, Colin — diz Lev. Colin se aproxima com passos cautelosos, o rosto pálido, e me entrega o maço de dinheiro. Eu o pego, me afastando devagar do balcão. — Obrigado pelo pagamento — digo. — Mas aqui está o problema, Lev. Você acabou de provar que não consegue controlar seus homens. Se vou continuar a trabalhar com os Caçadores de Armas, preciso saber que há um líder no comando. Você não é mais esse líder. Lev arregala os olhos no exato momento em que puxo o gatilho. Com um grunhido, ele cai para trás. Morto. O rosto de Maxim se contorce de raiva. — Filho da p**a! — ele cospe. — Você. — Aponto para ele com a arma. — Por que não você como novo líder? E se não quiser acabar como Lev... sugiro que aceite. Viro-me de costas. Sei que ele não vai atirar. Ele viu do que sou capaz. Ele sabe que não venceria. E ele não atira. Saio do clube com o dinheiro no bolso e sangue fresco manchando minha camisa. Quando volto para casa, o silêncio é quase reconfortante. Quase. Há uma diferença agora. Ela está aqui. A garota lá em cima. A mulher que eu comprei do próprio pai. Eu sigo um código: nunca machucar mulheres. Mas isso não me torna um bom homem. O pai dela teve a audácia de oferecê-la como pagamento das dívidas que devia a mim. E eu aceitei. Porque é isso que eu faço. Faço o que é melhor para mim. A Sra. Michigan se aproxima hesitante enquanto tiro o paletó, sujo de sangue seco. Ela não comenta nada sobre o estado da minha camisa. — Senhor Petrov... eu queria falar com o senhor sobre Aurora. — Aurora. É a primeira vez que permito a mim mesmo pronunciar o nome dela. Soa suave demais para a realidade em que vivemos. — O que tem ela? — rosno. — Ela ainda não comeu. Já se passou quase um dia inteiro. Estou... preocupada. — Ela precisa comer. Não quero que morra de fome. — Eu sei, mas… não posso forçá-la. Ela não pode. Mas eu posso. Subo as escadas como uma tempestade e invado o quarto de Aurora sem bater. Ela está deitada na cama, os olhos perdidos no teto, com o vestido branco amassado ao redor das pernas. Quando me vê, se senta de repente. O choque e o medo nos olhos dela me lembram que, apesar de toda a beleza, ela é só uma garota. Humana. Assustada. — Por que você não comeu? — rosno, fazendo-a recuar instintivamente. Ela olha para o prato ainda intocado sobre a mesa. Depois, para mim. — Desculpe... — murmura. — Coma. Ela salta da cama e vai até a mesa, mas hesita. A mão paira sobre o garfo. Pego o talher e coloco-o diretamente na mão dela. — Coma. Lentamente, ela pega um pouco das batatas e leva à boca. Uma mordida pequena. Frágil. — Ótimo. Agora coma o resto. Não te comprei para você morrer de fome. Ela se encolhe, mantendo o olhar abaixado. Tão bonita. Tão triste. Por um segundo, algo em mim se move. Culpa? Talvez. Mas eu a enterro fundo. Aurora é minha agora. — Vai comer o resto? — pergunto. Ela assente levemente. — Bom. Viro-me para sair, mas sua voz me impede. — Por que... por que você me comprou? A pergunta é sussurrada, mas me atinge como um tiro. Não olho para ela quando respondo: — Porque seu pai era um merda. E eu achei que você estaria melhor longe dele. — Você tem sangue na sua camisa... Dessa vez, me viro e deixo que veja. As manchas vermelhas escurecidas como medalhas de guerra. — Tenho. — Por quê? Caminho até ela, paro bem em frente. Ela levanta o rosto para me encarar, mas logo desvia o olhar. — Não faça perguntas para as quais não quer a resposta. — O que vai fazer comigo? — ela sussurra. Essa é fácil. — Vou me casar com você. Ela ofega, o choque claro em sua expressão. — O quê? — Seu pai precisava pagar uma dívida. Ele me mostrou sua foto. Você era linda. Eu soube naquele momento que seria minha. E a melhor forma de garantir isso... era me casar com você. — Mas você não me conhece... eu... — E você nunca vai me conhecer. Não sou um homem que se conhece. Sou um homem que toma. Que faz. E eu te quis. Então agora você é minha. Aponto com a cabeça para o prato. — Agora coma. Eu não te comprei para te ver morrer. Ela fica em silêncio, os lábios entreabertos. Parece prestes a falar, mas se cala. Observo mais de perto. — Você achou que ninguém notaria? A Sra. Michigan me contou que você não comeu o dia inteiro. Foi fácil descobrir. Você quer morrer. Você não quer ser minha prisioneira. Me abaixo até ficar ao nível dela. Minha voz sai baixa, quase gentil. — Mas eu não vou deixar você morrer, Aurora. Você é minha agora. Passo os dedos por uma mecha do cabelo dela e a coloco atrás da orelha. Ela estremece. Minha mão permanece ali por um instante… depois recuo. — Apenas coma. Sinto o olhar dela me seguir enquanto deixo o quarto. Mas ela não diz mais nada.
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